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Psicologia, Saúde & Doenças

versão impressa ISSN 1645-0086

Psic., Saúde & Doenças vol.16 no.3 Lisboa dez. 2015

 

Contributos para a adaptação e aferição de duas medidas de suporte social

Contributions for adapatation and standartization of two social support measures

Patrícia Gouveia1,2,3,* , Isabel Leal1,2, Jorge Cardoso3,4, & Ana Cláudia Nunes2

 

1WJCR (William James Center for Research)

2ISPA, Instituto Universitário

3Instituto Superior de Ciências da Saúde - Egas Moniz

4CIIEM (Centro de Investigação Interdisciplinar Egas Moniz)

 

Endereço para Correspondência

 

RESUMO

A perceção de suporte social familiar e dos amigos tem uma grande influência no desenvolvimento psicossocial saudável dos adolescentes. Desta forma, propusemo-nos adaptar e aferir para a população portuguesa as escalas de medida Perceção do Suporte Social da Família (PSS-Fam) e dos Amigos (PSS-Am) de Procidado e Heller (1983). Apresentamos os resultados obtidos a partir de uma amostra de 851 adolescentes com idades compreendidas entre os 11 e os 19 anos.

Os resultados estão de acordo com os obtidos por Procidano e Heller (1983) que obtiveram uma solução com apenas um fator para cada escala. Os estudos psicométricos revelam, de forma global, bons índices de fiabilidade e validade dos instrumentos. Concluímos contribuindo com duas medidas adequadas para avaliar o suporte social percebido na população adolescente.

Palavras-Chave: Adaptação e Aferição de Escalas; Avaliação da Perceção do Suporte Social Familiar; Avaliação da Perceção do Suporte Social dos Amigos; Adolescente

 

ABSTRACT

The perception of social support from family and from friends have a big influence on the healthy psychosocial development of adolescents. Thus, our aim is to adapt and standardize for the Portuguese population the Procidado and Heller (1983) measurement scales Perception of Social Support from Family (PSS-Fam) and from Friends (PSS-Am). We present the results obtained from a sample of 851 adolescents aged between 11 and 19 years old.

The results are in agreement with those found by Procidano and Heller (1983) who obtained a solution with only one factor for each scale. Psychometric studies reveal, globally, good levels of reliability and validity of the instruments. We concluded contributing two appropriate measures to assess the perceived social support in the adolescent population.

Keywords: Adjustment and Standardization of Scales; Evaluation of Perception of Family Social Support; Evaluation of Perception of Social Support from Friends; Adolescents.

 

A investigação sobre o suporte social sugere que as pessoas apresentam um conjunto geral de atributos e expectativas sobre as suas relações sociais. Sugerem ainda, que as perceções gerais de suporte social de que o sujeito dispõe poderão ter a sua origem nas relações estabelecidas na infância, nomeadamente nas que são vinculadas com os pais (Pierce, Sarason & Sarason, 1991). O apoio e o suporte percebido traduz-se assim num sentimento de bem-estar pois enfatiza a perceção de carinho e estima dos outros, sobretudo da família e amigos, fonte importante de suporte social, nomeadamente durante o período da adolescência (Seeds, Harkness & Quilty, 2010).

Tratando-se de um período de desenvolvimento particularmente importante para a estruturação de uma base psicologicamente saudável e crucial para o bem-estar do futuro adulto (Wilkinson-Lee, A. M., Zhang, Q., Nuno, V. L. & Wilhelm, M. S., 2011), durante a adolescência, as relações de vinculação podem ser de algum modo conturbadas (Nelis & Rae, 2009) uma vez que se começam a estabelecer relações de vinculação mais próximas com outras figuras, tais como o grupo de pares (Kerns, Tomich & Kim, 2006).

É então na adolescência que os pares desempenham um papel fundamental como agentes de socialização, havendo uma substituição da família por estes novos agentes. No entanto, esta “substituição” não desvaloriza nem tira a importância que a família tem para os adolescentes (Kendrick, Jutengren & Stattin, 2012). A qualidade da relação que estes estabelecem com os seus pais irá ser essencial e repercurtir-se-á nas relações que os jovens irão desenvolver com outras pessoas, nomeadamente com os pares. Quer isto dizer, que uma relação de qualidade com as figuras parentais prediz uma maior aproximação e satisfação na relação com os pares (Dekovic & Meeus, 1997; Kendrick, Jutengren & Stattin, 2012).

De acordo com Rabaglietti e Ciairano (2008), a perceção do suporte social dos amigos não é linear ao longo do tempo. No início da adolescência os jovens consideram haver um maior número de conflitos, mas ao mesmo tempo, sentem-se mais apoiados por parte dos seus amigos, em comparação com os jovens que se encontram no final da adolescência. O grupo de pares surge como um contexto relacional privilegiado no início da adolescência ao passo que, no final os relacionamentos românticos podem assumir uma posição de destaque. Embora se verifique uma diminuição da perceção do suporte social da família e dos amigos ao longo do tempo, verifica-se mesmo assim que as raparigas têm uma maior perceção de suporte social proveniente de professores, colegas de turma, e amigos próximos, em comparação com os rapazes.

Assim, partindo da premissa que a perceção de suporte social familiar e dos amigos tem uma grande influência no desenvolvimento psicossocial saudável dos adolescentes, propusemo-nos adaptar e aferir para a população portuguesa as escalas de medida Perceção do Suporte Social da Família (PSS-Fam) e dos Amigos (PSS-Am) (tradução da forma em inglês Perceived Social Support From Friends (PSS-Fr) and From Family (PSS-Fa) de Procidano & Heller, 1983).

Na versão original de Procidano e Heller (1983) cada escala é constituída por 20 itens com frases declarativas às quais o indivíduo responde "Sim", "Não" ou "Não Sei". Para cada item, a resposta indicativa do apoio social percebido é pontuada com 1 ponto, variando a pontuação entre 0, indicando que não há suporte social percebido, e 20, indicando máximo apoio social percebido, prestado pela família ou pelos amigos. A categoria "Não sei" não foi pontuada.

 

MÉTODO

Participantes

A amostra de validação compreendeu 851 adolescentes, 52,8% do género masculino, com idades compreendidas entre os 11 e os 19 anos (M = 15; DP = 1,9), adotando os limites cronológicos da adolescência definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que limita esta faixa etária entre os 10 e os19 anos (adolescents) (Eisenstein, E., 2005). A maioria destes adolescentes frequentava o 10º ano de escolaridade numa instituição de ensino público (91,3%). Cerca de um terço (30,5%) já tinham repetido pelo menos um ano curricular e 8,6% repetiam o corrente ano.

Material

As escalas de medida Perceção do Suporte Social-Família (PSS-Fam) e Perceção do Suporte Social-Amigos (PSS-Am) foram adaptadas e aferidas a partir do Perceived Social Support From Friends (PSS-Fr) and From Family (PSS-Fa) (Procidano & Heller, 1983).

As escalas são constituídas por 20 itens cada, numa escala de 3 pontos (sim, não e não sei) que avaliam sentimentos e experiências dos adolescentes face a situações que possam ocorrer no âmbito das suas relações com a sua família de origem e com os seus amigos.

Cotação

As escalas de medida PSS-Fam e PSS-Am podem ser aplicadas em sessões coletivas, assegurando-se o seu preenchimento individual e garantindo o total anonimato podendo também ser aplicadas individualmente, em contexto clínico. Apresentam um tempo médio de aplicação entre 5 a 8 minutos. A pontuação é feita somando um ponto por cada item que reflita apoio social percebido. O suporte social poderá ser classificado em cinco classes normalizadas e classificado em inferior, médio inferior, médio, médio superior e superior (consultar Quadro 1).

Procedimento

Para a validação e aferição destas medidas recorremos a uma metodologia composta por três fases: (i) a fase de tradução e adaptação cultural do questionário, (ii) aplicação do questionário e (iii) a fase da validação e aferição.

No que concerne à tradução pretendeu- se obter uma versão em português, linguisticamente correta e equivalente a` versão original. Seguindo a metodologia tradução/retroversão, esta fase começou com a produção de duas versões em português, geradas independentemente por dois tradutores com domínio nos dois idiomas. As traduções foram analisadas e comparados os seus conteúdos, produzindo-se uma única versão de consenso. Esta versão foi sujeita a uma retroversão, tornando possível a comparac¸ão com a versão original, dando lugar a uma nova versão em português.

Antes da sua aplicação, as escalas foram sujeitas a discussão e aprovação pelo Conselho Pedagógico da escola onde foi aplicado. Foi enviado, através do/a diretor/a de turma um consentimento informado para todos os encarregados de educação, que tiveram uma semana para autorizar ou não a aplicação do mesmo ao seu/a educando/a. Garantiu-se o anonimato dos participantes tendo sido aplicadas coletivamente em contexto de sala de aula. Esteve sempre presente um aplicador para se esclarecerem dúvidas sobre o seu preenchimento.

O estudo da adaptação das escalas ao contexto português desenvolveu-se mediante análise fatorial exploratória em componentes principais, o coeficiente de consistência interna Alfa de Cronbach e o coeficiente de correlação de Pearson. Para testar as diferenças entre grupos usou-se o teste t de Student e a Anova One-Way. O nível de significância foi fixado em =.05. A análise estatística foi efetuada com o SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) versão 22.0 para Windows.

 

RESULTADOS

Do mesmo modo que os autores da versão original, os 20 itens das escalas de suporte social percebido foram sujeitos separadamente a uma análise fatorial exploratória. Os resultados estão de acordo com os obtidos por Procidano e Heller (1983) que obtiveram uma solução com apenas um fator para cada escala. Estes sustentam a unidimensionalidade do conceito de suporte social quer familiar, quer de amigos. As soluções encontradas explicavam 62,0% da variância total no caso do suporte social dos amigos (PSS-Am) e 52,3% no caso do suporte social familiar (PSS-Fam).

Na Tabela 1 podemos apreciar as médias, desvios padrão, consistência interna e o coeficiente de correlação entre as duas escalas, bem como a correlação com o Social Support Questionaire-Short Form (SSQ6; Sarason, Levine, Basham & Sarason, 1983), quer no seu índice numérico (SSQ6N) como para o seu índice de satisfação (SSQ6S).

As escalas apresentam bons índices de fiabilidade, com alfa de Cronbach de 0,87 para a perceção do suporte social dos amigos e de 0,84 da família.

Podemos ainda constatar que os adolescentes obtêm valores médios mais elevados no suporte social dos amigos (14,31) do que no suporte social familiar (13,50).

No que diz respeito ao coeficiente de correlação entre as duas escalas este revelou-se estatisticamente significativo, positivo e baixo (r =.29), sendo que este valor é muito semelhante ao obtido por Procidano e Heller (1983) (r = .24).

Correlacionou-se ainda as duas escalas em análise com os valores obtidos pelos sujeitos no SSQ6. Os valores obtidos para cada escala são relativamente semelhantes: significativos, positivos e fracos.

Por último, analisaram-se os valores obtidos com um ano de diferença entre duas aplicações (teste-reteste). Os valores obtidos indicam, como esperado, uma correlação significativa e positiva, embora moderada, entre as duas aplicações.

Género e Suporte Social

No que concerne aos efeitos de género, as adolescentes obtiveram valores significativamente mais elevados do que os adolescentes na escala de suporte social percebido dos amigos (15,20 vs 13,50), t(849) = 4.889, p = .001. Já na escala de suporte social percebido familiar as diferenças (12,88 vs 13,21) não foram estatisticamente significativas, t(849) = -.978, p = .329.

Idade e Suporte Social

A análise das diferenças entre os escalões etários usados (10-14 anos, 15-16 anos e 17-19 anos), não revelou diferenças estatisticamente significativas quer no que se refere à escala de suporte social percebido dos amigos, F(2.848) = 0.123, p = .884, quer no que se refere à escala de suporte social percebido familiar, F(2.848) = 2.845, p = .059.

Aferição

As aferições, em cinco classes normalizadas, dos valores obtidos pelos adolescentes podem ser apreciadas no Quadro 1.

 

DISCUSSÃO

Os resultados mostram que as escalas estudadas possuem boas propriedades psicométricas e estão em concordância com os obtidos por Procidano e Heller (1983).

Tal como Gaertner, Fite e Colder (2010), enfatizamos que a força das relações familiares não diminui significativamente na adolescência, verificamos apenas um aumento da importância que os amigos têm na vida do adolescente, bem como do tempo que estes dedicam ao grupo de pares.

As associações positivas encontradas entre as escalas poderão predizer que uma relação de qualidade com as figuras parentais prediz uma maior aproximação e satisfação na relação com os pares (Dekovic & Meeus, 1997; Kendrick, Jutengren & Stattin, 2012).

Tal como Rabaglietti e Ciairano (2008), verificamos que as raparigas têm uma maior perceção de suporte social, em comparação com os rapazes.

Em suma, as escalas estudadas são um bom contributo de medidas específicas de avaliação das perceções dos adolescentes face ao suporte familiar e dos amigos, quer na prática clínica quer em áreas da investigação da Psicologia.

Constituem medidas potencialmente importantes na área da Psicologia da Saúde atendendo, por um lado, aos valores estatísticos encontrados reveladores de bons índices de fiabilidade e validade, e por outro lado, dada a escassez de medidas adequadas para a faixa etária estudada.

 

REFERÊNCIAS

Dekovic, M., & Meeus, W. (1997). Peer relations in adolescence: effects of parenting and adolescents’ self-concept. Journal of Adolescence, 20, 163-176. doi: 10.1006/jado.1996.0074        [ Links ]

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Gaertner, A., Fite, P. & Colder, C. (2010). Parenting and Friendship Quality as Predictors of Internalizing and Externalizing Symptoms in Early Adolescence. Journal of Child and Family Studies, 19, 101-108. doi: 10.1007/s10826-009-9289-3        [ Links ]

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Endereço para Correspondência

Rua Jardim do Tabaco, 34, 1149 - 041 Lisboa, Portugal; Telef.:934945142; E-mail: pgouveia@ispa.pt

 

Recebido em 12 de Dezembro de 2014

Aceite em 18 de Setembro de 2015

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