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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

Print version ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.43 Lisboa June 2020

http://dx.doi.org/10.34619/3mhs-y049 

NOTA DE ABERTURA

Isabel Henriques de Jesus*

* Universidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva - Estudos sobre a Mulher, 1069-061 Lisboa, Portugal misabeljesus@fcsh.unl.pt


 

Este número da revista Faces de Eva ficará inevitavelmente ligado a um momento inesquecível da nossa vida colectiva. Quase toda a sua preparação ocorreu em pleno confinamento social, por via de um perigo que insidiosamente se intrometeu na nossa habitual forma de nos relacionarmos, trabalharmos e nos amarmos. O que isso significou de aprendizagem colectiva é já manifesto em alguns aspectos, mas muito há ainda para descobrir, conforme o tempo for passando e nos permitir o distanciamento suficiente para compararmos o antes, o durante e o depois. Será que o isolamento a que nos votámos permitiu o aprofundamento da nossa consciência social? Será que queremos alterar modelos que, de tão interiorizados, foram vividos como “normais”, e por isso a sua ausência nos abalou tanto? E o que ganhámos? E o que conseguimos manter? E do que temos saudades? E o que não queremos voltar a ser ou a ter? Estas e outras questões evidenciam as perplexidades destes tempos. As respostas reflectirão o que quisermos aprender.

Certa, foi a pertinácia que nos manteve unidas em torno da construção do presente número de Faces de Eva e que nos acalentou nos momentos de maiores dificuldades. Das muitas apreensões que íamos transmitindo, primeiro, incrédulas com uma realidade insólita, e depois, gradualmente resignadas com o inevitável, as dificuldades de concentração passaram a ser queixa recorrente e partilhada. Dos receios sentidos e revelados também por autoras/es, emanou uma força e uma compreensão mútuas que permitiram os avanços lentos mas seguros com que fomos prosseguindo a edição. Não raras vezes, as trocas de emails permitiram desabafos e um verdadeiro sentido de união e de preocupação com o bem-estar do/a outro/a, combinando, para um futuro próximo, encontros afectuosos que, por ora, se mantêm adiados.

Há algum tempo que estava definido o âmbito deste n.º 43 de Faces de Eva para o qual nos preparámos com antecedência. Tratava-se de assinalar, neste ano de 2020, os 25 anos da Conferência de Pequim. A importância dessa efeméride, exigindo um olhar focado nas assimetrias de género e na necessidade de corrigir os múltiplos aspectos em que se verificavam e, ainda hoje, decorridos 25 anos e salvaguardados os avanços, se verificam, impôs à revista Faces de Eva dedicar os seus dois números anuais à Declaração de Pequim e à Plataforma de Acção de Pequim (PAP), adoptada nessa IV Conferência Mundial sobre as Mulheres.

Ao identificar um conjunto de áreas de acção, a PAP configura-se como um instrumento de compromisso político e referência de políticas públicas a nível mundial, conforme é assinalado em muitos dos textos que constituem esta edição. O seu conhecimento e a apropriação pelas sociedades podem constituir elementos de sinalização e de consciência colectiva sobre o muito que ainda é necessário fazer para que as mulheres atinjam uma verdadeira igualdade de oportunidades. O leque de áreas definidas pela PAP é múltiplo e foi nossa intenção evidenciar caminhos percorridos, mas também equacionar falhas ou situações de maior lentidão na prossecução dos objectivos. Para isso, convidámos peritas em áreas diversas, oriundas quer da academia quer das organizações nacionais e internacionais, e ouvimos mulheres cujos saberes e histórias de vida as colocam no centro da construção da imagem das mulheres como parceiras de pleno direito no seio de sociedades mais justas, ou, se quisermos, das únicas sociedades justas, aquelas em que mulheres e homens, independentemente da sua cor, estrato social, religião ou orientação sexual, partilham e garantem os valores e os direitos humanos.

Como orientadora deste percurso que gradualmente fomos trilhando, contámos com a presença sempre disponível e sábia de Regina Tavares de Silva, que nos ajudou a colmatar as dificuldades com que partimos para este desafio. Tínhamos vontade e motivação, o trabalho nunca nos assustou, mas precisávamos de um rumo, de um caminho por onde começar a desbravar. Gostaríamos que os/as leitores/as fruíssem a leitura deste volume e o entendessem como uma oferta de Faces de Eva para a construção de um mundo que queremos mais humano, agora que a pandemia visibilizou ainda mais a vulnerabilidade de alguns sectores da sociedade, incluindo muitas mulheres. Pensemos no que deve ter sido o terror do confinamento partilhado com o agressor, a perda de rendimentos, as assimetrias nos cuidados e no trabalho doméstico, que, não sendo problemas exclusivos das mulheres, sabemos como nelas atingem proporções devastadoras. E a variável género terá seguramente mensurações diferentes quando forem avaliadas as consequências psicológicas, económicas e sociais deste período, prevendo-se que as desigualdades assinaladas na PAP, e que ao longo dos últimos 25 anos têm sido motivo de diferentes planos de intervenção, se acentuem. A capacidade de recuperação dependerá do tempo, dos sectores em que incidem e dos suportes políticos em que assentem. E será tanto mais difícil quanto mais afastado se estiver de uma concepção de igualdade como fundamento de direitos humanos.

Portanto, a história desta edição, associando a evocação de uma efeméride, com um significado tão poderoso na vida das mulheres, a uma situação inesperada que abalou ainda mais as frágeis estruturas socioeconómicas e de trabalho de muitas, ficará inexoravelmente na memória de quem, apesar dos constrangimentos, nunca desistiu de concretizar mais este número de Faces de Eva.

Desistência era palavra desconhecida no léxico de Manuela Silva - figura que escolhemos para capa -, diz-nos uma breve aproximação à sua vida e obra. Precursora dos estudos sobre a pobreza e a exclusão social, neles inscreveu desde cedo a componente de intervenção, acreditando no envolvimento e no protagonismo dos actores sociais nas estratégias de desenvolvimento. Consciente de que, entre os vulneráveis, as mulheres constituíam um risco com raízes profundas nos padrões da desigualdade, foi uma das vozes que iniciaram em Portugal os estudos sobre as mulheres, nomeadamente focando as questões das desigualdades no emprego. Denunciou a “mão invisível” que coarcta as oportunidades, mostrando que a economia e o mercado de trabalho não são neutros no que ao género diz respeito. Se a pobreza foi uma das suas áreas de estudo e de intervenção, a dimensão específica da pobreza no feminino e o seu significado social constituíram motivos de preocupação e, como sempre, de pesquisa, mobilizando equipas e espalhando sementes que, reconhecidamente, prosseguem o seu trabalho.

O percurso atento e interventivo de Manuela Silva face às assimetrias económicas e sociais, particularmente das mulheres, não apenas simboliza a temática a que esta edição nos conduz mas constitui também um apelo a uma maior humanização das sociedades, como resposta global às questões formuladas no início desta Nota de Abertura.

Lamentamos a perda, em fins de Dezembro de 2019, de um elemento da equipa Faces de Eva. Maria Emília Stone integrou a nossa equipa de investigação, desde os seus primeiros tempos, tendo-se empenhado em vários projectos, de onde destacamos a coordenação do Dicionário no Feminino (séculos XIX-XX), editado em 2005 por Livros Horizonte, e Feminae - Dicionário Contemporâneo, editado em 2013 pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.

Pela sua dedicação, entusiasmo, responsabilidade e sentido de humor, prestamos-lhe a nossa sincera homenagem. Muito obrigada, Maria Emília!