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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.42 Lisboa dez. 2019

http://dx.doi.org/10.34619/6yce-wv55 

LEITURAS

Sarah Affonso e a Arte Popular do Minho. Paulino, C. & Azevedo, R. (Coord.). (2019) Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (Col. Conversas), 40 pp.

Rita Mira*

* Universidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva-Estudos sobre as Mulheres, 1069-061 Lisboa, Portugal, mira.rita@gmail.com


 

“Sarah Affonso e a Arte Popular do Minho” é uma publicação lançada por altura da exposição, com o mesmo título, patente na Fundação Calouste Gulbenkian, entre 12 de Julho e 7 de Outubro de 2019, de modo a assinalar os 120 anos do nascimento da artista Sarah Affonso (Lisboa, 1899-1983).

Quer a publicação, quer a exposição visam dar visibilidade à obra desta artista, que ainda hoje permanece, aos olhos do grande público, na sombra do trabalho do seu marido, reconhecido como um dos maiores pintores modernistas portugueses do século XX, José de Almada Negreiros. À excepção de algumas obras exibidas, de forma isolada, nas mostras dos acervos dos museus, desde a exposição do centenário do seu nascimento, realizada em 1999, no Museu Municipal de Viana do Castelo, que o trabalho da artista não é visto, impondo-se, desde há muito, nas palavras da curadora da exposição, Ana Vasconcelos, “uma revisitação da obra de Sarah Affonso, cujo nome é conhecido e está inscrito de forma discreta na história da arte portuguesa do século XX” (p. 11).

Com o objectivo de resgatar o legado artístico de uma das mais notáveis pintoras portuguesas, esta publicação enfatiza o percurso próprio da artista que, apesar da influência do movimento modernista do seu tempo, encontra uma forma muito singular de pintar, dando visibilidade a motivos populares e vivências do quotidiano, e valorizando a vertente emotiva: “Perante a natureza procuro a emoção. Não lhe tiro o retrato” (p. 16).

Como o título assim o sugere, esta publicação explora a intensa ligação entre a obra da artista e a arte popular do Minho, ganhando a mesma forte protagonismo nas suas criações artísticas, sobretudo a partir de 1932-1933.

O espanto e admiração por aquela região estão bem patentes nas palavras da artista, numa carta, de 1933, dirigida à sua amiga Fernanda de Castro: “Esta região é um campo inédito em pintura. Tudo são quadros feitos à espera de pintores” (p. 11).

Inspirada pela iconografia popular do Minho, região onde viveu a sua infância e juventude, em Viana do Castelo, a artista desenvolve trabalhos em diferentes áreas - pintura, bordado, tricot, desenho, cerâmica -, onde é fortemente visível a influência do modo de vida, da ruralidade, das romarias, da religiosidade, dos símbolos e das tradições dessa região do país, onde se encontra, segundo ela, “o sentido antigo das coisas” (p. 19).

Esta forte ligação da artista ao Minho está igualmente documentada por outros suportes biográficos, como é forte exemplo o retrato fotográfico de Sarah Affonso vestida de lavradeira (p. 4), uma representação icónica, amplamente disseminada e popularizada até aos dias de hoje, da mulher minhota.

Como nos dá conta Ana Vasconcelos, a arte dita “popular” é um tema que surge, muito precocemente, no percurso artístico de Sarah Affonso, evidenciado pelo quadro Piquenique (p. 10), pintado em 1918, com apenas 19 anos, enquanto aluna da Escola de Belas-Artes, em Lisboa. Nesta escola, é a última discípula de Columbano Bordalo Pinheiro, e é aí que, em 1923, expõe, pela primeira vez, numa mostra colectiva de pintura, cujas críticas positivas a incentivam a partir para Paris, onde frequenta a Académie de la Grande Chaumière.

A publicação é constituída por um conjunto de conversas da autoria de António Medeiros, antropólogo, Ana Vasconcelos, curadora da exposição, e Rosa Maria Mota, investigadora em Estudos do Património, e por uma breve apresentação biográfica sistematizada por Vera Barreto, assistente da curadoria da exposição. A biografia permite uma perspectiva diacrónica da vida e obra da artista e, apesar de se encontrar no final do livro, acompanha transversalmente o seu conteúdo desde o início, ilustrado pelo título do primeiro texto, de António Medeiros: “No meio das memórias de Sarah Affonso: o Minho”. Referindo-se à vertente autobiográfica do seu trabalho, Medeiros escreve: “a artista sempre sublinhou como os seus quadros celebravam memórias da sua infância, passada em Viana do Castelo” (p. 8).

António Medeiros analisa a forma como as referências a esta província portuguesa na obra de Sarah Affonso se articulam com a denominada “moda do Minho” que, desde o início do século XX, esteve presente na cultura e na produção intensiva de uma “iconicidade moderna e nacionalizadora” (p. 5), baseada na forte associação do país ao mundo rural.

Ana Vasconcelos revisita a produção artística de Sarah Affonso, centrando-se num conjunto específico de obras inspiradas na iconografia popular do Minho, em diálogo profundo com as suas memórias da infância. A curadora da exposição evidencia a presença muito premente da representação do feminino, quer seja através de retratos anónimos de mulheres, quer seja através de figuras que surgem em cenas rurais retratadas.

Tendo como ponto de partida a importância do ouro na vida da população minhota, a nível económico, social e religioso, bem ilustrada pelo signo icónico do Coração de Viana, Rosa Maria Mota analisa como essa realidade ecoa na produção artística de Sarah Affonso, muitas vezes de uma forma menos óbvia: “[…] tanto um rendilhado coração, como um arco festeiro, anunciando a romaria e pressupondo amálgama dos muitos adornos áureos que aí se exibiriam, testemunham o apreço que as mulheres do Minho possuíam pelo ‘seu’ ouro” (p. 29).

Sarah Affonso, para além de quebrar barreiras sociais de género - fez parte de lugares tipicamente masculinos, profissionalizando-se como pintora, indo estudar para Paris e entrando em locais frequentados pelos artistas, como o café A Brasileira, em Lisboa -, rompe com dogmas artísticos, ao valorizar outras artes (consideradas menores) para além da pintura, como o bordado, o tricot e a cerâmica. Além de notável pintora, Sarah Affonso é uma exímia bordadeira, bordando como pinta, sem desenho prévio, e pintando - os motivos, as cores, os símbolos - como se de um bordado se tratasse.