SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número42Margarida Sá CostaSarah Affonso e a Arte Popular do Minho. Paulino, C. & Azevedo, R. (Coord.) (2019): Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (Col. Conversas), 40 pp índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.42 Lisboa dez. 2019

http://dx.doi.org/10.34619/3qf6-g041 

(AUTO-)RETRATO

Pedaços da Vida

A poetisa setubalense Maria Campos (1898-1987) e a sua obra

Diogo Ferreira*

* Bolseiro de Doutoramento FCT com o projecto intitulado “Setúbal entre Guerras (1919-1945): Um itinerário de história local” (SFRH/BD/131519/2017). Investigador integrado Universidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Instituto de História Contemporânea, 1069-061 Lisboa, Portugal.


 

 

 

Maria Carlota de Campos Rodrigues nasceu a 10 de Novembro de 1898, em Setúbal, filha de António Maria de Campos Rodrigues e de Maria das Dores de Campos Rodrigues[1]. Na sua cidade-berço cumpriu grande parte dos seus estudos, tendo saído de Portugal ainda bastante nova. Viveu boa parte da sua vida no estrangeiro, particularmente em Angola, onde terá sido correspondente de jornais portugueses, uma das suas profissões. Para além de ter tido a oportunidade de ver alguns dos seus sonetos publicados na Ilustração Portuguesa, os trabalhos elaborados junto do jornal O Século[2] abriram espaço a uma “colaboração dispersa pela imprensa nacional e estrangeira” (Pires et al., 2001, p. 81). Mais tarde, manteve ligações junto do Cenáculo Literário Marquesa de Valverde e foi sócia da Associação Portuguesa de Escritores e da Sociedade Portuguesa de Autores.

Ainda que possa ser considerada como uma das mais relevantes poetisas setubalenses do século XX e que exista uma artéria com o seu nome na freguesia de São Sebastião há mais de 15 anos, permanece grandemente desconhecida na memória colectiva sadina, em parte por ter residido poucos anos em Setúbal. Nesta linha de raciocínio seguiu João Francisco Envia: “Esta grande cidadã setubalense [era] muito pouco conhecida na terra de Manuel Maria Barbosa du Bocage” (Envia, 2009, p. 260). A imprensa local não mencionou o seu falecimento, tendo O Setubalense, dois dias depois da sua morte, destacado um protesto dos estudantes da Escola Secundária da Bela Vista em face das poucas condições de segurança daquele estabelecimento e uma reportagem sobre os bairros de barracas no Vale das Cerejeiras[3]. Não deixa de ser curioso que, por ocasião do seu 6.º aniversário, O Elmano tenha feito questão de desejar felicitações à “menina Maria Carlota Campos Rodrigues, interessante filhinha do nosso amigo e prezado colega do Distrito”[4].

Maria Campos (nome que apresenta enquanto autora) foi criada no seio de uma família de intelectuais e de uma classe média-alta ligada ao pensamento liberal. O seu pai, António de Campos Rodrigues (1832-1915), foi jornalista, professor e director do liceu local, representando um dos pilares da educação na região (Figueira, 2007, pp. 51-55). O tio, César Augusto de Campos Rodrigues (1836-1919), foi almirante na Marinha e director do Observatório Astronómico da Ajuda. Segundo Américo Lopes de Oliveira, Maria Campos era prima do dramaturgo e militar António de Campos Júnior (1850-1917) (Oliveira, 1983, p. 193). Posteriormente, a sua irmã casou-se com o então tesoureiro da Junta Central dos Portos, Amílcar Soromenho Coelho (1893-1978). Este acompanhou de forma muito próxima a obra da cunhada, uma vez que ele próprio compôs poesia (Correia, 1986, pp. 24-25). Não foi possível averiguar o grau de parentesco com Maria Teresa Campos Rodrigues, investigadora com obra publicada na área da História Medieval.

Entre 1972 e 1983, Maria Campos teve a possibilidade de compilar a sua obra e lançar a público 10 livros de poesia, na sua maioria na editora bracarense Pax (9 dos 10). Segundo o Correio da Manhã estes obtiveram distinções em vários certames literários[5]. A colecção das suas obras foi doada à Biblioteca Municipal de Setúbal pelo sobrinho António Soromenho, em 1991, conforme apontamento na obra Fim de Jornada ali existente: “Como herdeiro universal da obra de minha tia, ofereço uma colecção completa para a biblioteca da Câmara Municipal de Setúbal.” Foi neste estabelecimento que, a 19 de Novembro de 1999, decorreu uma sessão de homenagem póstuma à autora no âmbito do programa ‘Noites de Outono e Inverno’.

Em virtude das dificuldades em recolher mais informações sobre Maria Campos, opta-se por abordar as obras da autora e as críticas literárias que recebeu para dar a conhecer um pouco mais do seu trabalho. Publicado a 14 de Setembro de 1972, Segredos foi o seu primeiro livro. Dedicado à mãe, conta com 22 poemas e foi prefaciado por Adília Mendes, especialista em Filosofia. Para esta, a setubalense “é a própria Poesia-Mulher onde o mais ínfimo ser tem, em pleno, um coração de Mãe” e “onde a dor acolhida se transforma em poema” (Prefácio, 1972, pp. 7-8). Nas badanas do livro, Maria Campos reconhece que estes versos tiveram como propósito “espalhar aos ventos do tempo as minhas inquietações”, e é possível ler comentários de Henrique Graça, de João Pinheiro e de Odette de Saint-Maurice. Para esta romancista, estes versos “tocaram a minha alma porque neles existe tudo aquilo que requere a poesia: sensibilidade, cadência, ternura e, acima de tudo, têm alguma coisa que nos faz pensar.”

No ano seguinte, em 8 de Março de 1973, foi editado Amor, Saudade e Dor, composto por três dezenas de poemas e prefaciado novamente por Adília Mendes. Esta considerou os versos deste trabalho como “miríades de frases cantantes […] expressões puras por tantos sentidos na alma” (Prefácio, 1973a, p. 11). Em Novembro foi publicado Pedaços da Vida (título do presente artigo), contando com 20 poemas. Num deles, intitulado “Deus não ouviu”, toma-se consciência da tristeza que carregam as suas estrofes:

“As lágrimas que eu chorei,

Nunca ninguém mais chorou,

As rezas que eu rezei

O bom Deus não escutou.

 

E se Deus tivesse ouvido,

As rezas que eu rezei,

Deus não tinha consentido,

Que chorasse o que chorei. […]”

No preâmbulo, Maria Campos fez questão de apresentar o livro: “Pedaços da Vida é ainda uma hora amarga da vida […]. É ainda um punhal enterrado no corpo que a carne não sente. São arrancos de dor e angústia” (Campos, 1973b, p. 9). O médico e poeta João Pinheiro, a quem a autora dedicou uma septilha, redigiu o prefácio, onde sublinha o “sentimentalismo real e puro em que a poetisa sente de verdade a dor alheia” (Prefácio, 1973b, pp. 11-12).

Pouco depois da Revolução dos Cravos, em Junho de 1974, Maria Campos edita Caminhos do Imprevisto. Este é o maior contributo para a sua história de vida, uma vez que contém uma forte componente autobiográfica relativa a uma viagem que realizou, em 1940, de Luanda até à ex-Léopoldville. O livro possui, ainda, cinco raros exemplos dos seus desenhos a carvão, com temáticas relativas à experiência vivida naquele ano. A pintura e o desenho foram outros talentos desta setubalense. O prefácio é do escritor e poeta Henrique Gago da Graça, que comenta: “É poesia com profunda inspiração, sentimento, beleza e lógica” (Prefácio, 1974, p. 14).

Imagens do Poente, publicado em Novembro de 1976 nas oficinas da União Gráfica - SARL, é composto por 30 poemas. Esta é uma obra interessante pela existência de um complexo texto de Maria Campos que aborda a ligação entre a poesia e a vida, o modo de produzir literatura e uma breve auto-reflexão sobre os seus trabalhos. Considerando a autora que o preceito estilístico e a estética nunca tinham sido primordiais na sua escrita, frisava que os seus versos imprimiam as desventuras pelas quais passara. Nas suas palavras: “O verso é o coração que fala. O verso é o reflexo da vida humana” (Campos, 1976, p. 24).

Nas badanas deste livro surgem também críticas muito positivas da imprensa portuguesa, nomeadamente d’A Capital, do Diário Popular, d’O Setubalense, do Fafe, d’A Época, do Primeiro de Janeiro, do República, d’O Debate e do Arauto. Foi também destacada nas revistas Observador e Magnificat. O jornalista e professor João Barroso da Fonte prefaciou o livro, aplaudindo a prosa presente: “recortes perfeitos, merecedores de antologia, constituindo algo de melhor que conhecemos da reafirmada escritora”. Dirigindo-se à poesia de Imagens do Poente referiu o seguinte: “Chora e canta nestes versos loucos a sua longa e insatisfeita existência. Mas canta e chora com modos de quem compreende a dor e a alegria, a derrota e o triunfo, o mal e o bem” (Prefácio, 1976, pp. 12-13).

Vivendo Vidas foi publicado em Dezembro de 1979. Em face do elevado custo de edição, este trabalho foi separado de Antes da Hora, motivo por que saíram praticamente em simultâneo. Maria Campos revela que estes dois livros possuem uma maior leveza temática em face do período em que foram redigidos: “Alguns são ainda duma época estudantil de batina e mocidade” (Campos, 1979, p. 5). João Barroso da Fonte redigiu novo prefácio e analisou com relativa profundidade a obra: “Aparece em toda a sua obra poética como se não fora um ser mortal, porque a sua transcendência artística palpita em cada verso, em modos de quem vive entre os homens para os reabilitar” (Prefácio, 1979a, p. 10). Salientou ainda a linguagem simples, a ‘repórter’ de crítica social e a necessidade da autora de enviar uma mensagem de amor universal e paz. No mês anterior saíra Antes da Hora com os seus nove longos poemas.

Odette de Saint-Maurice prefaciou o trabalho, elogiando a vitalidade de Maria Campos e a forma como se interrogava sobre a vida após a morte: “Na verdade Maria Campos principiou quando os outros acabam e isto, no esplendor da capacidade de sua inspiração constantemente renovada, afigura-se-me de uma singularidade magnífica” (Prefácio, 1979b, p. 5). No seguimento destas publicações, a revista Gil Vicente, de Junho de 1980, sublinhava que a poetisa “conquistou, com os seus vários livros de poemas, com palestras nas mais diversas e prestigiadas instituições culturais de Lisboa, um grande público alfacinha” (Vilar, 2013, p. 62).

Em Fevereiro de 1982 saiu Citações do Vento, obra dedicada à escritora Dinah Silveira de Queiroz. Este livro é composto por mais de 20 poemas ligados a Camões, por 10 elegias e por uma crítica ao ‘caso Camarate’. Apesar de não ser prefaciado, é nesta publicação que surge o comentário de Fernando Paixão à obra Cantos Belos (1981). Paixão descreve Maria Campos como alguém que “distribuiu primaveras de paz e concórdia, [como] uma alma generosa e fresca, como as manhãs de Outono”.

Finalmente, em Dezembro de 1983, foi lançado Fim da Jornada, com mais de 20 poemas. Numa nota preambular, a autora assumiu que era o seu último trabalho: “Neste final da vida e da minha última obra, tenho obrigação de publicamente me despedir de todos” (Campos, 1983, p. 25). Jorge Ramos, escritor e tradutor, redigiu uma crítica aos livros anteriores da setubalense, caracterizando-a como uma poetisa “com linguagem fluente, plástica, capaz de captar os mistérios de alma”. Enaltecendo a musicalidade dos versos de Fim da Jornada, encara esta obra como servindo o propósito de “glorificar o eterno recomeço da vida […] criando uma atmosfera própria onde o presente identifica o passado e o futuro” (Prefácio, 1983, s.p.).

Termina-se este texto reforçando a necessidade de uma investigação académica na área da literatura que examine os contributos para a poesia portuguesa de Maria Campos, setubalense que faleceu em Lisboa a 28 de Janeiro de 1987, com 88 anos.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS

Campos, M. (1972). Segredos. Braga: Pax.         [ Links ]

-- (1973a). Amor, Saudade e Dor. Braga: Pax.

-- (1973b). Pedaços da Vida. Braga: Pax.

-- (1974). Caminho de Imprevistos. Braga: Pax.

-- (1976). Imagens do Poente. Lisboa: União Gráfica - SARL.

-- (1979a). Vivendo Vidas. Braga: Pax.

-- (1979b). Antes da Hora. Braga: Pax.

-- (1981). Cantos Belos. Braga: Pax.

-- (1982). Citações do Vento. Braga: Pax.

-- (1983). Fim da Jornada. Braga: Pax.

Correia, R. (1986). Vultos Setubalenses. Setúbal: Setulgráfica.         [ Links ]

Envia, J. F. (2009). Setubalenses de Mérito, vol. II. Setúbal: Rápida de Setúbal.         [ Links ]

Figueira, M. H. (2007). Liceu de Bocage - Setúbal: Histórias e Memórias (1857-1974). Setúbal: Escola Secundária de Bocage.         [ Links ]

Oliveira, A. L. (1981). Dicionário de Mulheres Célebres. Porto: Lello & Irmão Editores.         [ Links ]

Pires, D. et al. (2001). Setúbal - Terra de Poetas e Cantadores. Setúbal: CEB.         [ Links ]

Vilar, A. (2013). Panorama de uma História Local no Feminino. Setúbal: CEB.         [ Links ]

 

[1] Arquivo Distrital de Setúbal, Paróquia de Santa Maria da Graça, Registos de Baptismos, lv. 53, registo de baptismo de 09.04.1899 de Maria Carlota de Campos Rodrigues. [Cortesia de Carlos Mouro]

[2] Rosa, António Quaresma, “Maria Campos - Poetisa Setubalense”, in O Distrito de Setúbal, 26.10.1999, p. 4.

[3] O Setubalense, 30.01.1987, p. 1.

[4] “Aniversário”, in O Elmano, 09.11.1904, p. 2.

[5] “Maria Campos homenageada”, in Correio da Manhã, 04.03.1987, p. 8.