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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versión impresa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.42 Lisboa dic. 2019

http://dx.doi.org/10.34619/8hag-7c87 

PIONEIRAS

Maria da Graça Mira Gomes

A incerteza é, por paradoxo, o elemento estável com que podemos contar*

Maria do Rosário Barardo**

** Universidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva-Estudos sobre Mulher, 1069-061 Lisboa, Portugal, rosario.barardo@gmail.com


 

 

 

Maria da Graça Diniz Gomes Saraiva Mira Gomes é a primeira mulher e a primeira diplomata a exercer as funções de Secretária-Geral do Sistema de Informações da República Portuguesa. O seu trajeto e o seu pioneirismo foram assunto de uma agradável conversa, cuja síntese incluímos neste número da revista Faces de Eva. Escolhemos a frase “A incerteza é, por paradoxo, o elemento estável com que podemos contar” para titular o presente texto, por aquilo que condensa de elemento estabilizador, integrando embora a possibilidade de tumulto. No passado e no presente, na vida pessoal e na vida profissional, numa visão mais local ou mais global, esta frase parece acolher o percurso e a visão estratégica da nossa interlocutora.

A Embaixadora Maria da Graça Mira Gomes (MGMG) recebeu-nos no Departamento de Estado, onde exerce funções de Secretária-Geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) desde 2017. Acedeu ao convite para uma entrevista de Faces de Eva com uma grande simpatia e, sem reservas, dispôs-se a receber-nos. O encontro decorreu de forma descontraída, a conversa fluiu sem rigidez de temas, e muito se falou do mundo contemporâneo, da carreira da embaixadora, das mulheres e da família.

MGMG nasceu em Lisboa, sendo a sua família oriunda das Beiras. Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, tendo-se posteriormente especializado em Estudos Europeus, pela mesma Universidade. Na sua vida pessoal adulta assinala-se o casamento com o Embaixador João Mira Gomes e a existência de um filho e de uma filha.

Estes elementos ajudam a compreender uma vida relacional que reclama o estabelecimento de compromissos entre os dois elementos do casal, cujas profissões são idênticas e igualmente exigentes. Essa foi uma assunção clara neste casal de diplomatas que procurou nunca descuidar a estabilidade familiar, apesar das ausências frequentes. A escolha dos locais a concorrer prendeu-se sempre também com as condições escolares proporcionadas aos filhos e, quando chegou a altura de os mesmos entrarem na Universidade, a opção foi por universidades públicas, em Portugal. A Embaixadora reconhece que os filhos beneficiaram do confronto com o desconhecido e das múltiplas experiências a que foram sujeitos e realça a importância dos amigos que, por todo o lado, foram encontrando. Em Portugal, uma sólida rede de amigos serviu sempre de apoio, constituindo-se como núcleo referencial para os filhos.

Apesar do esforço para conciliar família e carreira, Maria da Graça Mira Gomes admite que se trata de uma gestão difícil, principalmente quando se é casada com um colega. Graceja: “Só há uma embaixada em cada sítio...”,

para mostrar a impossibilidade da junção do casal no topo da hierarquia diplomática. Mais uma vez, sublinha o grande apoio e o estímulo de amigos e colegas, referindo, reconhecida, os nomes de Marcello Mathias e de Paulo Louro das Neves, que sempre a incentivaram a continuar.

Este acentuar da importância do relacionamento humano na sua vida e carreira, por várias vezes referido, pareceu-nos constituir um núcleo estruturante da personalidade de MGMG, que reconhecemos como provável facilitador da sua capacidade em gerar compromissos e em reunir consensos. O seu percurso profissional é marcado por um elemento que se cruza com uma apetência há muito manifestada: as questões europeias. Define-se orgulhosamente como uma europeísta convicta. Enquanto diplomata, e desde que em 1984 entrou para a carreira diplomática no Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), teve uma primeira experiência na Representação de Portugal junto das Comunidades Europeias, em Bruxelas, entre 1989 e 1993. Foi Vice-Chefe da Base Principal do Grupo de Ligação Luso-Chinês, em Macau, Ministra Conselheira da Embaixada de Portugal em Berlim e Representante Permanente Adjunta da Missão de Portugal junto da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), em Paris. Foi também Conselheira para a Igualdade de Género, em representação do MNE, quando Luís Amado era Ministro dos Negócios Estrangeiros e Elza Pais Secretária de Estado da Igualdade, função que exerceu com satisfação, tendo muito boas recordações desse tempo. As questões de Segurança e Defesa são-lhe particularmente gratas, tendo no seu percurso profissional experiências fundamentais que terão estado na origem da nomeação para o cargo que atualmente ocupa. De 2008 a 2011 foi Subdiretora-Geral de Política Externa, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e, entre março de 2011 e agosto de 2015, foi Representante Permanente de Portugal junto do Comité Político e de Segurança na União Europeia (COPS), em Bruxelas. Também desempenhou as funções de Representante Permanente de Portugal junto da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa (OSCE), de agosto de 2015 a setembro de 2017. Apesar desta retaguarda experiencial, por todos reconhecida e publicamente referida aquando da sua escolha para desempenhar as atuais funções, a verdade é que o nome de MGMG foi aceite de forma consensual para a chefia do SIRP, o que evidencia, para além da manifesta competência profissional, características pessoais que pudemos confirmar pela forma discreta, equilibrada, inteligente e responsável com que exprimiu as suas opiniões e respondeu às nossas questões.

Abordada sobre as suas atuais funções, sobre como é ser a primeira mulher nomeada, com consenso geral, para exercer o mais elevado cargo na hierarquia do Sistema de Informações (um meio ainda maioritariamente dominado por homens) e como a ouvem os seus subordinados, MGMG diz-nos que não foi escolhida por ser mulher. Acredita que foi o curriculum e a larga experiência profissional e internacional em questões relacionadas com a política externa de Segurança e Defesa, bem como o seu inter-relacionamento com a Intelligence, que determinaram o processo de escolha. Modestamente, acrescenta: “Muitas outras pessoas que conheço e que muito aprecio poderiam ser igualmente escolhidas para estas funções”. A Secretária-Geral do SIRP, cujo cargo é equiparado a Secretária de Estado, com a função de coordenar o trabalho do Serviço de Informações e Segurança (SIS) e do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), salienta a importância do trabalho em equipa e do contributo de todos/as para o sucesso do Sistema e reconhece que o estímulo que produz nos elementos da equipa se traduz na melhoria do trabalho coletivo e no consequente esforço pela obtenção de resultados, afirmando a sua total confiança nos serviços e nos seus quadros, independentemente das funções que exercem.

Embora ainda haja poucas mulheres ligadas à Segurança e Defesa do Estado, MGMG considera que se trata de um assunto onde as questões de género não se colocam, já que hoje a Segurança tem de ser vista numa dimensão global, equacionando fatores internos e externos e incluindo dimensões como os Direitos Humanos, as alterações climáticas ou as crises humanitárias. A prevenção, a avaliação dos fatores de risco, a manutenção de um clima de segurança decorrem dessa avaliação global e articulam-se em estreita sintonia com as decisões políticas, na medida em que o SIRP é um organismo público que depende direta e hierarquicamente do PrimeiroMinistro. Trata-se da defesa dos interesses de Portugal e dos portugueses, dentro e fora do País, sendo por isso um trabalho constante, de dedicação à causa pública. Razão e emoção estão presentes em todas as circunstâncias, são absolutamente necessárias e devem estar estreitamente articuladas no trabalho desenvolvido, sendo que homens e mulheres contribuem decisivamente para a consolidação desses objetivos nacionais.

A questão da segurança, diz, prende-se com o desenvolvimento; sem a primeira, o segundo não se consolida. Sendo esta uma premissa difundida, as diversas incursões que MGMG fez no terreno, em situações pós-conflito, permitiram testar-lhe a veracidade. Observou in loco os efeitos sociais dos conflitos, os esforços e a forma como se organizam as reconstruções dos lugares e das comunidades devassadas. A realidade histórico-cultural é diversa de país para país, o que exige formas distintas de aproximação às pessoas, mas a necessidade de segurança para perspetivar o futuro mantém-se uma constante.

Esta filha de uma engenheira agrónoma, cujas recordações de infância são felizes e divertidas, com irmã, primas e amigas, aprendeu desde cedo que as mulheres podem ser financeiramente autónomas, não subordinadas, e que podem gerir a sua vida de um modo independente e responsável. Reconhece, no entanto, que as mulheres ainda são confrontadas com muitos problemas concretos: desigualdades salariais ou sobrecarga na gestão da família e da profissão são exemplos do dia a dia. Por isso, sublinha a importância da regulação da licença de maternidade e de paternidade no sentido da construção de uma igualdade de direitos e de deveres que deve mobilizar homens e mulheres numa luta pela conquista da igualdade de oportunidades. É necessário e urgente “puxar” as mulheres para a vida política, sempre ao lado dos homens, nessa luta pela igualdade.

A Embaixadora considera que, no exercício da diplomacia, há uma sensibilidade para as questões da igualdade de oportunidades e que, no quadro das organizações internacionais, muitos homens trabalham para essa causa, estando Portugal bem posicionado relativamente a estas preocupações. Acrescenta que nas representações internacionais em que tem participado, e mesmo quando as equipas são apenas constituídas por mulheres, as atitudes e regras de trabalho não diferem das reuniões em que participam homens, não encontrando diferenças de género, no exercício da profissão.

Com a sua experiência e natural apetência para estabelecer consensos, MGMG reforça que o interesse nacional não pode nunca ser esquecido e que esse é um elemento constante das relações diplomáticas. Sublinha que Portugal é um membro respeitado na Comunidade Internacional, enquanto defensor dos Direitos Humanos e primeiro país a abolir a pena de morte, sendo reconhecida a sua capacidade de promover pontes e de gerar diálogos.

A era digital permitiu o acesso generalizado à informação, ao conhecimento e à educação, mas, em reverso, serviu de plataforma à difusão de novas formas de insegurança. Num mundo em mutação global, a informação dirigida aos jovens académicos é um motor cultural muito importante, e as universidades são espaços de encontro e de transmissão de ensinamentos. Por isso, tem havido uma preocupação por parte do SIRP de estar presente em cursos/conferências/seminários em universidades, nos domínios da defesa e da segurança. Apesar de estas iniciativas terem começado antes da chefia de MGMG, a sua continuidade pela atual Diretora-Geral pode considerar-se uma aposta estratégica, aproveitando o entusiasmo e o saber das novas gerações para a sensibilização a uma abordagem global e esclarecida das questões ligadas à Segurança e à Defesa. Este tem sido um público desafiante que coloca questões pertinentes e inteligentes e no qual vale a pena investir. As circunstâncias de vir para Portugal levaram a que Maria da Graça Mira Gomes tivesse de estar mais afastada do marido, atual embaixador de Portugal na Alemanha, o que será mais uma superação para ela, que demonstra ser uma mulher realista e atual, com uma grande sensibilidade aos outros e aos problemas humanos com que o mundo se confronta. A essas características associam-se a disciplina, a capacidade de trabalho e a persistência. MGMG dá prioridade à verdade dos factos, às provas concretas, à educação e ao exercício da cidadania, à justiça e à ética. A sua clareza e tranquila firmeza, demonstradas ao longo da nossa conversa, são reveladoras de uma energia inesgotável e de uma condução dos processos com inteligência e respaldo democrático e constitucional. A Secretária-Geral apresentou-se sem máscaras, mas adepta da discrição, sem problemas em desvendar o seu trajeto profissional, mas realçando continuamente a importância da família e dos amigos.

 

* Maria da Graça Mira Gomes em entrevista ao jornal Público de 29 de janeiro de 2019.