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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.40 Lisboa dez. 2018

 

(AUTO-)RETRATO

Homenagem a Isabel Barreno

São José Almeida*

* Jornalista do Público


 

 

 

Agradeço o convite para vir hoje aqui falar sobre Maria Isabel Barreno. É um gosto e uma honra fazê-lo. A Maria Isabel Barreno faz-me falta. Mas, sobretudo, faz falta a Portugal. Conheci-a durante o último período da sua vida passado em Portugal, depois de ter sido saneada em 2003 pelo Governo de Durão Barroso do lugar de Conselheira Cultural para o Ensino do Português em França, para o qual tinha sido nomeada pela secretária de Estado Ana Benavente, no Governo de António Guterres.

Conheci-a profissionalmente a propósito de um trabalho que tive de fazer para o PÚBLICO sobre o Movimento de Libertação das Mulheres. Nessa altura tive o privilégio de iniciar um conhecimento mais pessoal, de conversarmos de vez em quando, em almoços combinados apenas para isso, conversar. Da minha parte confesso que o que me movia a esses almoços era o privilégio de a ouvir falar sobre a actualidade, sobre o país e o mundo. Ouvir o seu espírito crítico, a sua capacidade de reflexão, de surpreender, de desmontar a realidade, sempre com uma ironia e uma capacidade de fazer humor mesmo quando abordava os assuntos mais dramáticos.

Maria Isabel Barreno era de uma grandeza proporcional à sua discrição, à sua sobriedade, à forma como geria com pinças a sua exposição pública, uma personalidade antimediática num meio e numa época em que os percursos se destacavam já pelo mediatismo.

Uma grandeza que se espelhava na sua cultura, na sua solidez intelectual, no brilhantismo da sua capacidade reflexiva, na sua invulgar inteligência, na sua potencialidade enquanto produtora de pensamento. Mas que era sedimentada numa segurança intelectual e cultural que lhe dava o privilégio de nunca se baralhar nem confundir, mesmo quando se divertia em baralhar e confundir os outros.

Maria Isabel Barreno foi uma pessoa nobre, digna e grande. Aliás, a sua grandeza era visível até na sua altura física. Uma amiga comum, que morreu também cedo demais, pois também faz falta a este país, a Madalena Barbosa, costumava brincar com a justificação de que era por ela ser tão alta que era grande demais para este pequenito Portugal.

Maria Isabel Barreno faz falta a Portugal, o país que sempre a desprezou, mas ao qual ela deu lições únicas, insubstituíveis. Deu-as com a sua acção enquanto cidadã e deu-as com os seus livros.

Não me cabe a mim falar da sua obra na vertente de romance. Não sou crítica literária. Mas há uma dimensão da sua obra que se cruza directamente com o seu percurso de cidadã e de feminista. Um percurso que tem um primeiro momento com a sua participação na elaboração a seis mãos, com Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, das Novas Cartas Portuguesas, obra inédita até pela forma como foi escrita. Ainda hoje, as autoras mantêm o compromisso de não dizerem quem escreveu o quê. E muitos desses textos, se não todos, são individuais, se bem que depois trabalhados em conjunto.

Como me disse numa entrevista Ana Luísa Amaral, responsável pela reedição em 2010 de uma obra que viu a luz do dia em 1972: “O livro está muito além do seu tempo. Como as grandes obras normalmente estão. Entendo que este livro é uma grande obra, é um grande livro dentro da literatura portuguesa do século XX, dentro da história da literatura do século XX e dentro da história dos direitos humanos do século XX.”

Um livro ignorado durante décadas e ainda hoje pouco lido, que foi estigmatizado por ser também - além de outras dimensões - um livro feminista, palavra que ainda hoje queima em Portugal.

As Novas Cartas Portuguesas foram o rastilho do início do feminismo de segunda vaga em Portugal. As autoras foram levadas a tribunal, sob a acusação de pornografia e atentado à moral pública, num processo que ficou conhecido como o das “Três Marias”. Um julgamento que durou dois anos, teve repercussão internacional e que só após o 25 de Abril cessaria, com a absolvição das escritoras.

Mas o rastilho estava lançado, e na noite do último dia de julgamento, numa reunião em casa de Maria Isabel Barreno, é fundado em Portugal o primeiro movimento feminista de segunda geração, o Movimento de Libertação das Mulheres (MLM), que curiosamente agiu e mudou o país, sem nunca ter sido registado em cartório como associação.

Um movimento que foi responsável pelo primeiro comunicado, logo em 1974, que pedia a liberalização do aborto. Um movimento que influenciou a defesa dos direitos das mulheres na elaboração da Constituição em 1976, na revisão da Concordata e do reconhecimento do divórcio civil e na revisão do direito de família, as três situações facilitadas até pelo conhecimento pessoal que as “Três Marias” tinham de Salgado Zenha, um dos advogados da sua defesa e que foi dirigente de topo do PS e ministro da Justiça responsável pelas negociações com a Santa Sé.

Mas o MLM foi também precursor na defesa dos direitos laborais das mulheres e da igualdade salarial, assim como no combate à violência doméstica, tendo organizado a primeira conferência sobre o assunto já em 1987. Fundou uma editora, a Cooperativa Editorial de Mulheres, e o Centro de Informação/Documentação de Mulheres - IDM. E esteve na base do lançamento de outros movimentos feministas.

As fundadoras e activistas do MLM com quem falei até hoje - e foram várias -, todas são unânimes em reconhecer que Maria Isabel Barreno era o “cérebro” do movimento, aquela que tinha já leituras reflectidas e assimiladas.

Pouco depois da fundação do MLM, Maria Isabel Barreno passa o seu primeiro período fora de Portugal. Viveu algum tempo nos Estados Unidos, porque, como a própria explicava, se apaixonou por um escritor norte-americano.

Mas prosseguiu o seu estudo e reflexão sobre o feminismo e sobre a história. Em 1985, escreve o ensaio O Falso Neutro. Mas logo em 1979, desse estudo e da reflexão que sobre ele faz, nasce aquela que, para mim, é a sua obra-prima e inegavelmente uma obra maior: A Morte da Mãe. Na opinião que a Maria Isabel me deu a entender, este era o livro que ela considerava a sua obra fundamental, essencial, primeira.

Na minha opinião, é uma das principais obras ensaísticas escritas em português no século XX. Senão a principal. Um livro injustamente ignorado. Um livro que quase ninguém leu ou lê, que quase ninguém sabe que existe. Um livro esgotado. Um livro que é urgente ser reeditado. E que deveria ser obrigatório no ensino e ter lugar cimeiro no chamado Plano Nacional de Leitura.

Confesso que A Morte da Mãe é um dos livros da minha vida, que me foi dado a ler há décadas pela Madalena Barbosa e que fiz questão de oferecer a algumas mulheres. O que não posso fazer mais, pois já não se consegue comprar, mesmo encomendando. E, insisto, é urgente reeditar.

Publicado em 1979 pela Moraes Editores, e reeditado em 1989 pela Caminho, A Morte da Mãe foi escrito entre 1969 e 1977. Foi um livro demoradamente trabalhado. Foi escrito e reescrito. Em português, em francês, e em português de novo.

É o mais importante livro feito em Portugal ligado à segunda vaga de feminismo. Pela crítica que faz à visão binária de humanidade, mas também pela forma como critica o essencialismo, o marxismo-leninismo, o estruturalismo, a psicanálise, é um livro precursor da terceira vaga de feminismo, daquilo que ficou para a história conhecido como Teoria Queer. É de uma absoluta modernidade.

Livro contemporâneo da História da Sexualidade, de Michel Foucault, na realidade conversa com este, ainda que muito provavelmente Foucault não tenha nunca sabido quem era Maria Isabel Barreno.

O carácter precursor de A Morte da Mãe chega ao ponto de na crítica do estruturalismo estar próximo do que Judith Butler vem a escrever em Antigone’s Claim, publicado já em 2002.

A Morte da Mãe é um importante estudo sociológico e filosófico sobre a evolução histórica da situação da mulher na sociedade. Enquanto as Novas Cartas Portuguesas é uma obra implicitamente feminista, A Morte da Mãe é explicitamente feminista.

É um texto de conceptualização, de sistematização conceptual, do ponto de vista da análise sociológica, histórica, filosófica, mas sem nunca perder a perspectiva de luta, a visão ideológica da sociedade e a análise crítica desta. Feito numa perspectiva de alguém que se enquadrava teoricamente no chamado feminismo radical, segundo uns. Mas o seu pensamento faz parecer infantil qualquer Monique Wittig. Outros integram-na no feminismo burguês. A própria Maria Isabel Barreno brincava com isso, argumentando que todos os movimentos cívicos e sociais do seu tempo eram burgueses.

O pensamento de Maria Isabel Barreno ia muito além de clichés, até pela capacidade de autocrítica. Tinha não só a capacidade de investigação mas também a de produzir pensamento autónomo, livre, ainda hoje raro, senão único em Portugal. É, assim, um livro profundamente subversivo.

Editado legalmente, mas quase clandestino, foi invisibilizado pela intelectualidade dominante na sociedade portuguesa, no jornalismo e na academia, num país pequenino, poucochinho, boçal, cinzento, bafiento, atrofiado, amorfo e paroquial ainda hoje. Um país onde muitas mulheres preferem dizer que lutam por direitos em vez de se afirmarem feministas.

E que, mesmo quando se afirmam feministas, estão, na larga maioria dos casos, imbuídas de idiotas conceitos de superioridade moral, repetem, invertendo-os, modelos binários em que a mulher permanece presa no opressor papel de procriadora, educadora, cuidadora, isto é, de mãe. Presas numa visão da humanidade que limita a mulher à função social de reprodutora. Sem dignidade, sem autonomia, sem biografia própria, sem individualidade. Um feminismo que ainda não matou a mãe.

Como Maria Isabel Barreno diz, com ironia, em A Morte da Mãe:

“Há os esquerdistas bem-intencionados que dizem que a mulher sempre trabalhou ‘ao lado do homem’; nós resolvemos corrigir a frase: as mulheres sempre trabalharam por baixo dos homens.” (p. 251)

A Morte da Mãe é um livro muito à frente do que ainda hoje é Portugal e do que são capazes as cabeças oficialmente pensantes deste pequenito país.

A Morte da Mãe acaba com a seguinte afirmação:

“O núcleo revolucionário é aquele de onde poderemos retirar todas as alternativas deixadas ainda por efectivar: gestos sustidos e proibidos, balbuciante linguagem que não entra no racional oficial.

Uma das armas é a desorganização total do texto, do quotidiano, do dito sério.” (p. 376)

É, repito, um livro estigmatizado e ignorado que é urgente reeditar e ler.

Para que comecemos a desorganizar um país necessitado, sedento de ser desorganizado. E de preferência com ironia e sentido de humor, a mesma ironia e o mesmo sentido de humor com que Maria Isabel Barreno analisava, por exemplo, os anúncios a máquinas de lavar roupa.

Essa é a maior homenagem que podemos fazer a Maria Isabel Barreno. Ler e concretizar o legado que ela deixou. O que passa pela urgente reedição de A Morte da Mãe, para que seja lido. Finalmente.

 

** Texto escrito para ser lido na Homenagem a Maria Isabel Barreno no lançamento da revista Faces de Eva - Estudos sobre a Mulher, a 21 de Junho de 2018, na Biblioteca Nacional, em Lisboa