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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.40 Lisboa dez. 2018

 

(AUTO-)RETRATO

Maria Salomé Soares Pais


 

 

 

Quem sou, o que fui e o que sou?

Quando me pediram para falar sobre mim, a minha primeira reação foi quase de recusa porquanto, em meu entender, falar na primeira pessoa não é tarefa fácil, arriscando-se o autor/autora a pecar por excesso ou por defeito.

Mas, visto que aceitei, tentarei evitar qualquer destes pecados.

Quem sou? A cidadã

Reza a história que, no dia 17 de agosto de 1938, nascia, numa pequena aldeia (Orjais), entre a Covilhã e Belmonte, uma criança do sexo feminino a quem foi dado o nome de Maria Salomé Soares Pais. Nada haveria a assinalar não fosse o caso de ter nascido em 1938, após um tempo de gestação de sete meses, em casa e sem acompanhamento médico. Alguém diria hoje: impossível, sete meses, sem incubadora ou permanência no hospital!?

De facto, pode dizer-se que a minha sobrevivência, nessa altura, se deve, não só mas também, ao saber de minha mãe, certamente não de experiência feito porque sou caso único na família, mas de inteligência feito, visto que, com os meios de que podia dispor então, simulou uma estufa onde sobreviveu uma criancinha que, segundo uma das minhas duas irmãs, era como um coelho esfolado pelo que só dois meses após o nascimento foi possível pegar-me.

Certamente que ser quem sou não é alheio à circunstância de ter nascido em tal região, no sopé da serra da Estrela, moldada pela dureza dos invernos gelados que ainda hoje me deixam saudades, e pela riqueza paisagística que me inundava com a beleza da vida, que contemplava com admiração, espanto e louvor da criação.

Aos 9 anos fiz o meu primeiro exame (da 4.ª classe, hoje chamado 4.º ano) mas, ao contrário do previsto, não pude fazer o exame de admissão ao liceu por ter ficado com sarampo, o que obrigou a atrasar um ano a entrada. Foi essa a razão da minha primeira experiência como aluna interna de um colégio (o colégio Andaluz em Santarém) por um período de três meses, o suficiente para me apresentar a exame de admissão ao liceu. Aos 11 anos saía de casa para frequentar os 1.º e 2.º anos do liceu, agora no Colégio da Guarda. Experiência dura mas extraordinariamente rica, que me fez crescer como pessoa e, em particular, me ajudou a ver, entender e admirar o mundo em cada um, atitude que penso me fora inculcada, indelevelmente, pela minha família, em particular pelo meu tio e padrinho que, com a minha mãe (morte prematura de meu pai), fizeram de mim quem sou. Na sequência do ensino liceal seguiu-se a Universidade (Faculdade de Ciências), onde concluí a licenciatura em Biologia, e nesta Instituição viria a servir durante mais de 40 anos como professora.

Não poderia deixar de assinalar aqui que, sem descurar a profissão, penso não ter esquecido o facto de ter constituído família. Testemunho é devido ao marido que sempre, sem qualquer hesitação, não interferiu com a minha vida profissional e, em particular às duas filhas das quais muito me orgulho e que sempre me permitiram e ajudaram a cumprir a minha missão como profissional e como mãe.

Os anos foram passando e quero acreditar que estava predestinada a tornar-me uma pessoa de quem e para quem a vida e o mundo esperavam a sua dádiva.

O que fui? - A profissional

Após a conclusão da licenciatura em Biologia, fui contratada como assistente na secção de Botânica, hoje Departamento de Biologia Vegetal, cuja criação tenho o prazer de ter ajudado a promover, graças à confiança que o então diretor da secção em mim depositou, o que muito me honra.

Como assistente, foi-me sendo dada a responsabilidade de aulas práticas das disciplinas de Botânica Geral, Morfologia e Fisiologia Vegetais, Botânica Sistemática, Ecologia, o que somava, no total da semana (sábados incluídos), 36 horas de aula. Claro que a este número de horas de aulas havia a considerar o tempo necessário à sua preparação, saídas de campo, excursões, etc. Esta realidade merece, porventura, um terrível espanto e talvez até interrogação. Como? Porquê? Que exagero? Crueldade? De facto, assim era, e o assistente (o assistente mais novo) tinha de dar as aulas das disciplinas que lhe eram distribuídas. Acresce que, para lá das aulas, tinha de apresentar o doutoramento no prazo máximo de nove anos após a contratação. Mas não se julgue que esta prática não teve, pelo menos para mim, aspetos positivos. À parte a dureza de um tão elevado número de horas de trabalho, posso confessar que, ao preparar as aulas das diferentes disciplinas, enriqueci de forma muito significativa os meus conhecimentos nas diferentes áreas, o que certamente não teria acontecido se não tivesse tido esta responsabilidade (sim porque, ao preparar as aulas, tinha como prática imaginar sempre as questões que os alunos me poderiam colocar e para as quais eu tinha de ter a resposta).

Mas o meu questionamento sobre a vida das plantas e dos animais que me rodeavam desde pequena impeliu-me a ter estabelecido como prioridade a preparação do doutoramento. No Departamento de Biologia Vegetal havia, de início, dois professores catedráticos e três assistentes, vindo mais tarde a ser ampliado com novos professores (dois) e assistentes. Porém, nenhum deles tinha como sua área de interesse aquela com a qual eu sempre tinha sonhado - a Biologia Celular.

A Faculdade não tinha meios para poder aceitar este desafio e, apesar de eles existirem noutras instituições, o meu interesse pela investigação em biologia celular de plantas era razão bastante para recusar acesso aos meios necessários para fazer investigação em biologia celular de plantas. Mas ideais e gostos são próprios de cada um e há que lutar por eles!

Foi assim que procurei encontrar um orientador no estrangeiro (Paris), professor de renome internacional a quem se deve a descoberta de muitas das estruturas celulares em plantas. Devo-lhe o que aprendi não só do ponto de vista científico, mas também e, acima de tudo, do ponto de vista do posicionamento como cientista, privilegiando sempre o rigor, a ética e a permanente postura de questionamento e de determinação para o esclarecimento dos problemas em questão. Com ele aprendi também a postura de grande exigência e a paixão pela ciência.

Concluído o doutoramento, passava-se a primeiro-assistente e, por aí adiante, surgia uma carreira universitária à qual não escapavam diferentes concursos de provas públicas hoje já não vigentes. Acompanhavam-nos sucessivas responsabilidades e desafios, desde a regência de mais e diferentes disciplinas teóricas até à criação da disciplina de Biologia Celular Vegetal. Lecionar Biologia Celular nos anos 1970 sem as ferramentas indispensáveis ao tempo era perspetiva impossível de ser aceite. Foi então que, após algumas tentativas, foi possível adquirir o primeiro microscópio eletrónico e criar as condições indispensáveis à lecionação da disciplina de Biologia Celular e de outras como Biologia da Secreção Vegetal e Histoquímica e Citoquímica em moldes atualizados. Com a criação de condições, apareciam os primeiros estudantes a demonstrar entusiasmo por estas disciplinas; na sequência, são propostos e aceites pelo ministério os primeiros mestrados que foram acompanhando a evolução da ciência a nível internacional, neles incluído o último e, à altura primeiro, mestrado em Biologia Molecular de Plantas. Como corolário ou em paralelo com a atividade letiva, sempre esteve a investigação, porquanto nela se encontra o porquê das coisas, em particular dos fenómenos subjacentes à vida, no meu caso, à vida das plantas. Por isso, o prazer da descoberta, o encontro da resposta à questão e à hipótese formuladas obtidas através da investigação foram indissociáveis do prazer de transmitir, de motivar e de partilhar aquilo que me foi dado aprender ao longo dos anos.

Tarefa fácil ser cientista? Claro que não! Mas é apaixonante. Como é apaixonante ver aqueles que me foram seguindo apaixonarem-se também pela descoberta e pelo saber construído dia a dia e com eles partilhar a dúvida e a solução, os riscos e as vantagens, as alegrias e os dissabores.

Não me alongarei mais, com o risco de me tornar exaustiva e fastidiosa, e concluo dizendo que a minha paixão pela investigação e pelos desafios permanentes de uma ciência sempre em evolução acelerada me permitiu beneficiar do convívio e do entusiasmo constante daqueles que, ao longo do tempo, responderam presente ao repto de uma vida de investigação dura mas também cheia de desafios e alegrias pela descoberta, conseguida na sequência da formulação e verificação de hipóteses. E foi assim, rodeada de jovens, umas vezes procurando ajuda, outras transmitindo a alegria da descoberta, que hoje posso dizer que, para mim, ser cientista vale a pena e é extraordinariamente gratificante. Espero ter conseguido passar esta mensagem aos que comigo partilharam esta paixão e, pela sua cumplicidade ao longo dos meus anos de profissão, agradeço a todos, mesmo àqueles que nem sempre me acompanharam. Penso não exagerar se disser que me orgulho de, ao terminar a carreira universitária, ter deixado como herança o grande prazer de ser professor, ou seja, de formar discípulos que continuarão, para lá de mim, o estímulo e o saber necessários à causa das plantas e, como tal, da agricultura e da floresta, ao serviço de uma sociedade cada vez mais exigente e esclarecida.

Seria impensável que ao longo de uma carreira profissional não tivesse sentido alguns dissabores, mas a realização, a sensação de dever cumprido, a alegria de poder partilhar interesses com os jovens alunos e colaboradores eram sobejamente importantes para ofuscar os dissabores em favor do prazer de ter vivido esta etapa da vida. E assim, respondo à questão - o que fui? - dizendo: - Fui uma professora universitária e cientista por paixão e, como já tenho dito, ser cientista não é uma profissão, é uma Paixão.

O que sou?

No ocaso da vida, sou uma pessoa que, como se depreende do ponto anterior, dificilmente aceitaria uma situação de apatia ou desinteresse pela continuação do tipo de vida intelectual e familiar que sempre vivi. E, nem por circunstâncias fortuitas, alguma vez aceitei cruzar os braços. Sem perder o interesse pela investigação, graças àqueles que continuam a contar comigo, passei a ocupar-me numa outra missão que também ela não deixa de estar ligada à minha vida profissional. Tendo tido o privilégio de ser eleita membro da Academia das Ciências de Lisboa, chegou a hora de retribuir essa distinção, o que tenho vindo a fazer como Secretária-geral, cargo para o qual fui eleita.

Nesta instituição centenária, à qual me orgulho de pertencer, tenho vindo a empenhar-me na concretização de um programa de aprendizagem ao longo da vida do Instituto de Altos Estudos da ACL (Instituto de Estudos Académicos Adriano Moreira) e a ajudar a encontrar vias que contribuam para o reconhecimento do prestígio desta Instituição dedicada à ciência e ao saber, de que os portugueses devem orgulhar-se. Do resto, da atividade que tenho vindo a desenvolver, o futuro rezará.

Em jeito de conclusão, e parafraseando José Ortega y Gasset, eu sou eu própria e as minhas circunstâncias.

Mas afinal,

Quem sou? Sou uma mulher que tem sonhado, vivido paixões, sofrido desilusões, respondido a desafios, corrido riscos, sido resiliente, ao longo de uma vida posta ao serviço da família, da ciência e da sociedade. Por isso, os dias continuam a correr, sonhando, inquirindo, aprendendo e agradecendo esta vida que me tem sido dado viver.

Estou convicta de que, ao longo destes anos, só fiz uma parte mínima daquilo que poderia ter feito, mas, certamente, não me foi estranha a máxima de Fedro - se o que fizeres não for útil, a glória será .

Lisboa, 13 de abril de 2018