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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.40 Lisboa dez. 2018

 

PIONEIRAS

Iman Bugaighis

Alexandra Alves Luís*, Christine Auer**

* Universidade NOVA de Lisboa, FCSH - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, CICS. NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva - Estudos sobre a Mulher

** Investigadora independente, christine.auer@posteo.de


 

 

 

Iman S. Bugaighis académica líbia, doutorada em Ortodontia, coordena o departamento de Ortodontia na Faculdade de Medicina Dentária Garyounis em Bengasi, na Líbia, encontrando-se num período sabático. Foi porta-voz da revolução líbia e do Conselho Nacional de Transição (CNT) em 2011, trabalhou como coordenadora entre a Human Rights Watch e as/os revolucionárias/os líbias/os durante a revolução.

Membro do comité líbio que se juntou à comissão internacional de inquérito sobre as violações dos direitos humanos na Líbia, representou as mulheres líbias na ONU como membro da delegação do seu país em setembro de 2011, quando a República da Líbia foi pela primeira vez reconhecida internacionalmente.

Em 2012, foi convidada pela União Europeia para falar sobre a Líbia e as mulheres líbias. Tem participado em várias conferências, por todo o mundo, sobre a revolução líbia e o empoderamento das mulheres líbias. É coautora do relatório “The situation of Women in Libya”[1].

Considera-se uma defensora da justiça social e do estado de direito, acredita que empoderar as mulheres é um aspeto crucial para a paz e prosperidade na Líbia. A Professora Iman Bugaighis reside atualmente em Portugal devido à situação de insegurança que se vive no seu país.

Começamos em Bengasi, a sua cidade natal.

A minha família é de Bengasi, no Leste da Líbia. Não posso dizer que seja uma família tradicional, é uma família muito aberta, multicultural, com pessoas que vivem por todo o mundo. Em casa tínhamos uma grande biblioteca e o meu pai foi um empresário conhecido. Sempre fomos uma família de recursos, reconhecida e respeitada. Não nego que éramos uma família privilegiada, mas sempre com consciência da situação política. Vivi uma infância muito feliz, pois os primeiros anos de Kadhafi foram tranquilos. Frequentei a Escola Britânica até ao 4.º ano, e a partir dessa altura o regime impediu a população local de frequentar as escolas estrangeiras. Passei a frequentar o ensino público até à universidade, que naquela altura ainda era de qualidade; mas, com o passar dos anos e devido à falta de investimento, todas as infraestruturas do país se degradaram. O clima de opressão, perseguição e controlo também se instalou; o meu pai era interrogado frequentemente até que foi expropriado dos seus bens. Acabou por ir para o estrangeiro, e ficámos com a minha mãe. O contacto com o meu pai acontecia apenas nas férias e no verão.

A situação política sempre fez parte das nossas conversas e preocupações, mas eu não tinha uma intervenção política ativa.

Tudo mudou no dia do seu aniversário, em 2011.

Sim, foi no dia do meu aniversário, 17 de fevereiro, em 2011 que se organizaram os primeiros protestos em Bengasi. Pelo meio-dia reunimo-nos em frente ao tribunal. Éramos 9-10 mulheres e durante uma ou duas horas estivemos sozinhas até que cerca de 50 a 60 homens que nos observavam decidiram vir para o nosso lado. Mais e mais pessoas saíram à rua e juntaram-se aos protestos. Tornou-se algo sério. A revolução tinha começado. Sabíamos que não existiria forma de voltar atrás, até nos vermos livres de Kadhafi. Sentíamo-nos orgulhosas da nossa identidade líbia, algo que já não acontecia há décadas. Ao quarto dia de protestos a cidade tinha colapsado. A casa da nossa família era o epicentro dos eventos, eu fui designada porta-voz da revolução líbia e a minha irmã Salwa Bugaighis foi uma das pessoas eleitas para selecionar os membros do CNT. O papel de Salwa foi essencial. Ela era muito corajosa, tinha o dom de mobilizar as pessoas. Após a primeira semana de protestos, a multidão passou a encher as ruas. As forças de Muammar Kadhafi atacaram várias cidades e também Bengasi, com um número de mortes bastante elevado. Durante a revolução só existia um inimigo, todos os nossos esforços estavam centrados nele[2].

Depois da revolução as coisas começaram a melhorar, sentia-se o otimismo nas pessoas; até que se deu uma reviravolta. Os assassinatos começaram em Bengasi no fim do ano de 2013. Todas as pessoas que tinham tido papéis determinantes na revolução tornaram-se alvos prioritários. Começou a ser perigoso andar na rua. Nós sabíamos que a minha irmã Salwa era um alvo potencial. Recebeu ameaças de morte, o filho foi alvo de um atentado, por isso abandonou o país. As eleições aproximavam-se e Salwa planeava voltar. O nosso irmão tentou dissuadi-la, mas ela queria estar em Bengasi no dia das eleições[3] e assim fez. Recordo um dia de intenso tiroteio, Salwa regressou, exerceu o seu direito de voto, partilhou fotografias nas redes sociais, foi entrevistada ao telefone para a televisão, tudo com o objetivo de encorajar as pessoas a votar. Até àquela data sabíamos que em casa estávamos seguras.

Nunca estamos preparadas para algo desta dimensão. Foi um choque enorme para toda a sociedade em Bengasi, em toda a Líbia. Foi como um enorme terramoto. Um grande choque. Tristeza. Dor sem fim. Uma enorme revolta.

Na Líbia os funerais são segregados, apenas os homens vão às cerimónias fúnebres. Eu, a minha filha Nada, as minhas tias e um grupo de mulheres fomos para a estrada onde o cortejo fúnebre passava. Foi algo espontâneo. A estrada encheu-se de mulheres. Parecia uma nova revolução. Gritávamos: “Acordem. Acordem. Salwa Bugaighis foi assassinada.” Ela era a voz das mulheres, esteve sempre na primeira linha. Todas sentimos a sua falta.

Chega a Lisboa no início de 2016.

Obtive o visto e vim para Portugal com a minha filha Nada, por minha conta. Solicitei o estatuto de exilada já em Portugal, mas sem recorrer a qualquer apoio financeiro do Estado português, pois o meu objetivo era trabalhar e que a minha filha pudesse retomar os seus estudos. No início todas as portas se fecharam.

Que entraves encontraram?

A burocracia! A burocracia é infindável. Tem sido um percurso muito árduo, uma luta dura. É muito difícil a integração na sociedade portuguesa. Sou professora universitária, dentista, com estudos superiores na Grã-Bretanha e na Hungria e tem sido muito trabalhoso ver reconhecidas as minhas qualificações. As respostas tardam bastante e os valores envolvidos são muito elevados para as pessoas que estão na nossa condição. Já gastei cerca de 7500€ apenas para ver os meus diplomas reconhecidos e só consegui terminar porque fui aceite na Universidade Egas Moniz, onde fiz algumas cadeiras e colaborei em projetos de investigação. Tenho experiência no ensino universitário, tenho publicações em revistas internacionais, mas não consigo que me paguem pelo meu trabalho aqui em Portugal.

Enquanto estava em todo este processo contactei ONG portuguesas, para fazer voluntariado, mas nunca me responderam, nunca fui aceite, nem para fazer traduções do árabe para o inglês. Nada funcionou.

A minha irmã perdeu a vida e eu também perdi a minha vida de uma outra forma. Tinha família, amigas e amigos, uma carreira, alunas/os, uma vida social. Deixei tudo para trás. Não sei quando poderei voltar. Pensei ir à Líbia este ano. Mas disseram-me que era muito perigoso.

Tenho uma filha e também por ela tenho de ser positiva. Mas não é simples.

Ela está a adaptar-se a esta nova vida?

A vida de uma jovem migrante não é fácil. Vim para cá para assegurar que Nada crescia em segurança. Os jovens exercem bullying, os estereótipos e preconceitos existem. Temos de viver com eles. Ela tem um bom relacionamento com as/os jovens locais. Para além dos estudos também pratica taekwondo. Fala melhor português que eu, mas preocupo-me com os seus estudos universitários. Ela gosta de estar cá, mas tem consciência de que, se deseja fazer a diferença, é no seu país que é mais necessária.

Ela quer estudar Direito, tem uma forte inspiração na tia, Salwa Bugaighis, quer ser advogada na área dos direitos humanos.

Tento mostrar-lhe exemplos práticos para que nunca desista dos seus sonhos.

Penso o mesmo sobre o meu povo, o povo líbio. Não podemos desistir. Devemos continuar a luta.

Lisboa, agosto de 2018

 

[1]. Relatório disponível em http://jusoor.ly/wp-content/uploads/2017/12/Jusoor-The-Situation-of-Women-in-Libyan-Report-2017-.pdf (consultado em 20/09/2018).

[2]. Muammar Kadhafi é morto a 20 de outubro de 2011, após 42 anos no poder.

[3]. 25 de junho de 2014.