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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.40 Lisboa dez. 2018

 

PIONEIRAS

Ana Passos Ramos


 

Mulher, Psicóloga e Militar no Teatro de Operações da Bósnia-Herzegovina Contributos para os Marcos da História na década de 1990

 

 

Para cumprir o desígnio do honroso convite da revista Faces de Eva - Estudos sobre a mulher, proponho-me apresentar um auto-retrato idiossincrático, assente na minha experiência profissional, como a primeira Mulher, Psicóloga e Militar a acompanhar psicologicamente os/as militares do 2.º Batalhão de Infantaria Pára-quedista, cumprindo uma missão de apoio à paz na Bósnia-Herzegovina de Julho de 1999 a Janeiro de 2000.

Este desafio levou-me a reflectir sobre as minhas vivências profissionais numa década em que imperava a necessidade de fazer singrar as competências das mulheres como militares, num meio predominantemente masculino. A integração das mulheres nas fileiras militares em 1992 constituiu um marco histórico, e o acompanhamento psicológico dos militares no terreno em 1999, uma conquista do Exército Português que mereceu reconhecimento ao nível nacional e internacional, junto das forças militares da coligação da NATO.

A necessidade de acompanhamento psicológico aos militares portugueses numa força de estabilização da paz não foi apenas identificada no pós-guerra nos Balcãs, pois já tinha sido sentida na guerra colonial de 1961-74, nas três frentes de combate: Moçambique, Angola e Guiné-Bissau. Contudo, foi a partir das pústulas da guerra presentes nos novecentos mil sobreviventes, exibindo cerca de quarenta mil sintomas de stresse de guerra[1], que o Exército Português reconheceu o impacto negativo do conflito e implementou um modelo de apoio em 1999. Para responder a esta necessidade, um grupo de Oficiais Psicólogos do Centro de Psicologia Aplicada do Exército (CPAE), liderado pelo Coronel Andrade da Silva, deslocou-se ao terreno para identificar os principais factores de stresse inerentes à missão de apoio à paz e propor medidas de equilíbrio para promover a saúde mental dos/as militares. Com base na experiência da guerra do Golfo, os/as Psicólogos/as do Exército Português, ao contrário das forças internacionais, implementaram um modelo inovador. Para além da avaliação psicológica: antes, durante e depois da missão, os/as Psicólogos/as prestaram acompanhamento psicológico aos/às militares no terreno.

Foi neste contexto que em Julho de 1999 integrei o estado-maior técnico do 2.º Batalhão de Infantaria Pára-quedista, constituído por 313 homens e sete mulheres, numa missão de sete semanas, para prestar assessoria ao comando - emitindo pareceres técnicos, com base na metodologia científica de observação participante e de análise e diagnóstico - e efectuar acompanhamento psicológico. Este modelo mereceu destaque na notícia[2] do jornal Correio do Manhã, para o qual fui entrevistada a 26 de Outubro de 1999.

Para responder ao desafio que me foi colocado, centrei a minha reflexão no escrutínio das especificidades da minha experiência profissional e pessoal para o pioneirismo do cumprimento da missão, no género feminino. As motivações que me orientaram estão subjacentes às minhas origens. Como neta, filha e sobrinha de militares do Exército Português, vivenciei directa e indirectamente situações de elevada tensão, fruto da guerra colonial em Angola em finais da década de 1960 e início da de 70. Nos primeiros cinco anos vivi entre o Luso (actual Luena), situado na província de Moxico, onde nasci, e a capital de Angola. Desempenhando a função de Oficial de Operações, o meu pai, sempre que necessário, deslocava-se com a família por via aérea, dado a opção terrestre ser desaconselhada pela vastidão do território e pelo clima de guerra. Foi nessas viagens no avião Noratlas (conhecido popularmente como “barriga de ginguba”, por associação ao formato do amendoim) que assisti de perto ao sofrimento dos soldados feridos transportados nas macas.

Hoje retenho na memória o olhar inocente de uma criança, atenta ao que se passava à volta, procurando respostas para as dúvidas que lhe assolavam a mente: as causas da tensão, o propósito do conflito e a negociação falhada que levara o último sopro de vida do seu tio nos acordos de paz na Guiné-Bissau, em Abril de 1970, e deixara vestígios de tristeza profunda no olhar do seu pai. Constato em mim, desde muito cedo, a necessidade de compreender o que sente um militar na luta para sobreviver e fazer vingar os valores mais nobres da pátria. Foi com esse olhar que embarquei em Julho de 1999 no C130 rumo à Bósnia-Herzegovina para levar a cabo uma missão, envergando na bagagem as marcas da minha história, a motivação para contribuir com o meu conhecimento e experiência para os fundamentos da co-construção de um marco da História do Exército Português, mas sobretudo a disponibilidade para acolher o sofrimento, ajudar a reflectir e promover recursos internos dos homens e mulheres militares que teria a oportunidade de conhecer.

Chegada a Sarajevo, os/as militares olharam-me inicialmente com alguma desconfiança, como se envergasse o papel de spy (espiã), por analogia à sigla homófona CPAE. Poderiam eventualmente pensar, “sendo mulher, sabe-se lá como usaria o seu sexto sentido?”. A minha primeira intervenção foi junto de um jovem soldado recém-casado que exasperadamente queria desistir da missão, pelo facto de a mulher ameaçar pôr termo ao casamento, caso não regressasse de imediato ao território nacional. As saudades, as dificuldades de comunicação com os familiares, dada a escassez de linhas telefónicas, a abstinência sexual e o impacto da destruição de um país marcado pela guerra foram identificados como os principais stressores que influenciam o bem-estar dos homens e mulheres a cumprir missões de apoio à paz.

Olhar e escutar atentamente, sentindo e compreendendo a angústia do outro, faz parte do quotidiano profissional do/a Psicólogo/a. Todavia, para um/uma militar treinado/a para o combate, as emoções têm de ser suprimidas e montadas defesas: “Um homem não chora, um militar muito menos e um pára-quedista, menos ainda!” A expressão “Chuva não molha militares!” não se refere à supressão concreta do guarda-chuva, mostra antes a impermeabilidade a qualquer intempérie externa ou interna, traduzindo simbolicamente a repressão das necessidades psicoafectivas e da expressão emocional, fazendo sobressair a masculinidade dos homens e exigindo às mulheres militares características idênticas. Numa fase inicial, observei mulheres que, procurando esconder as características de feminilidade, adoptavam uma uniformização do género, através do uso da farda e dos comportamentos exibidos: sentar-se de pernas abertas, utilizar uma linguagem mais desabrida e ingerir “bagaço”, para fazer engrossar a voz nas ordens da formatura, como forma de facilitar a sua integração.

Sentir o efeito da escuta empática[3] e da relação terapêutica em meio militar poderá equiparar-se ao efeito da chuva em África, rara mas avassaladora, um efeito-surpresa que fará sobressair a necessidade imperiosa de cuidar os aspectos psicoafectivos que tornam um/a militar, mais inteiro/a, mais humano/a! Por mais preparado/a que se esteja, seguindo o lema “Instrução dura, combate fácil”, há situações de crise que surgem de forma inopinada. Afinal a preparação militar também tem o objectivo de camuflar as emoções do homem ou da mulher que se prepara para o combate, fazendo sobressair as características de masculinidade em ambos os géneros, como a afirmação e a agressividade.

Outra intervenção foi com uma jovem soldado que chorava copiosamente pela perda da mãe, vítima de doença crónica após a partida da filha. As lágrimas que caíam incessantemente expunham uma fragilidade culturalmente conectada à representação da feminilidade que para a jovem soldado estava a ser difícil gerir. Para um/a militar, independentemente do género e mais ainda das tropas especiais, desmontar as defesas e expor as lágrimas não é fácil! Como Primeira-Oficial Alferes Psicóloga, coube-me a tarefa de desbravar o caminho, observar, ouvir e sobretudo conquistar a confiança dos/as militares. Não quer dizer que isso não pudesse ser feito por um Psicólogo do género masculino, mas talvez se revelasse um processo mais moroso. Da análise desta missão, constato que se tornou mais fácil para aqueles homens e mulheres desabafarem com uma mulher, psicóloga e militar. O tom de voz, mais melodioso e suave, e um sorriso aberto e franco para compreender a fragilidade, quer do soldado que ponderava desistir da missão, quer da soldado, são aspectos que poderão contribuir para criar uma relação, embalar a angústia e atenuar a dor, permitindo ao homem ou à mulher “despir a farda” com mais facilidade, sentir e exprimir as suas emoções e recuperar as suas forças.

A missão não se cingiu, porém, ao âmbito singular, mas também ao colectivo, através de uma palestra de assertividade para defesa dos próprios direitos e opiniões, sem colocar os dos/as outros/as em causa, o que foi pioneiro numa instituição tão hierarquizada. No âmbito dos assuntos civis, fui chamada a acompanhar os militares nas visitas à comunidade local. O facto de existir uma mulher militar no grupo surpreendeu os líderes tanto da zona sérvia como da muçulmana. É de realçar que a missão atribuída ao contingente português pressupunha uma atitude neutra com vista a minimizar o conflito e promover a cooperação entre os povos, apesar das diferenças culturais e religiosas. Pertencer ao género feminino, ser psicóloga e militar no contacto com a população civil contribuíram para aliviar a tensão no ambiente pós-guerra, diminuir a agressividade e promover a negociação. Neste sentido, Gianini[4] refere que a presença das mulheres uniformizadas nas missões de apoio à paz transmite segurança e constitui um modelo de igualdade de género para a população local.

A presença da mulher no meio militar não é apenas um contributo para a igualdade de género, mas também para a diversidade da identidade de género. De acordo com as teorias de Bem e Spence[5], a masculinidade e a feminilidade não são polos opostos numa dimensão única. Tanto o homem como a mulher reúnem dentro de si características independentes de masculinidade e feminilidade, sendo estas utilizadas pelo/a próprio/a, consciente ou inconscientemente, com maior ou menor predominância, consoante o contexto e o objectivo. De acordo com O’Neil[6], a identidade de género é um processo que acompanha o desenvolvimento humano, implicando que o/a militar possa questionar-se e redefinir as suas crenças e expectativas relacionadas com a masculinidade e a feminilidade.

Eu, Mulher, Psicóloga e Militar, afirmei as minhas características de masculinidade e de feminilidade, mas também considero ter contribuído para que os/as homens/mulheres, militares e pára-quedistas pudessem afirmar as suas, permitindo-se lidar com a sua própria fragilidade e integrá-la como uma parte de si, desenvolvendo a sua própria diversidade e identidade de género.

 

[1]. Siva, J., et al. (2011). Feridas de Guerra: (In)justiça silenciada. Estudo da Deficiência de guerra no Exército. (In press.         [ Links ])

[2]. Machado, F. (1999, 26 Outubro). Psicólogos no terreno nos Balcãs são experiência inovadora. Correio da Manhã, p. 9.         [ Links ]

[3]. Entende-se por escuta empática uma atitude de escuta activa, de aceitação, sem emitir qualquer juízo de valor, dar conselhos ou instruções concretas de acção, podendo o silêncio ser profícuo para sentir as emoções e contribuir para a reflexão conjunta.

[4]. Citado por Resende, S. (2017). Uma questão de Género: Mulheres, Forças Armadas e Operações de Paz. Cadernos de Relações Internacionais, II, (2), 91.         [ Links ]

[5]. Citados por Souza, M., & Ferreira, M. (1997). Identidade de Género Masculina em civis e militares. Psicologia: Reflexão e Crítica, 10, (2), 305.         [ Links ]

[6]. Citado por Souza, M., & Ferreira, M. (1997). Identidade de Género Masculina em civis e militares. Psicologia: Reflexão e Crítica, 10, (2), 307.         [ Links ]