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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.39 Lisboa jun. 2018

 

LEITURAS

Moda e feminismos em Portugal. O género como espartilho. Histórias de vida. Duarte, C. L. (2017). Lisboa: Círculo de Leitores, Temas e Debates, 406 pp.

Zília Osório de Castro*

*Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva – Estudos sobre a Mulher, zoc@fcsh.unl.pt


 

Este livro de Cristina. L. Duarte resulta da dissertação de doutoramento em Sociologia apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, que esta edição torna agora acessível ao público em geral e a quem, como especialista, se interessa pelas temáticas e problemáticas ali investigadas e equacionadas. Entre estas ocupa lugar privilegiado a abordagem singular, original e adequadamente ilustrada, do fenómeno da moda, assim como a reflexão sobre o seu significado e incidência tal como teve expressão em Portugal no século XX, primordialmente entre as mulheres da classe média urbana.

Vários são os aspectos desta obra em que o seu carácter inovador reflete a faceta criativa da autora, traduzida no forte acento imaginativo com que a prática da moda é abordada, sem esquecer os seus pressupostos teóricos e o sentido de temporalidade que acompanha as mutações e as permanências. Aqui a moda tem rosto de mulher. É a mulher que está em causa, a mulher concreta que vive o seu dia-a-dia e se vai afirmando pela conquista de uma identidade, à medida que a sua vivência pessoal se enquadra no todo social que a rodeia, mediante o intercâmbio entre a realidade social e a realidade pessoal. O feminismo de Cristina Duarte na sua ligação à moda situa-se neste duplo plano como resultado de uma interdependência mutável porque acompanha o evoluir dos tempos no sentido conjugado do uno e do todo que lhe confere a dimensão da unidade do real. Definindo-se o feminismo como conjugação de factores sociais e pessoais realizada no tempo que flui, incorpora a noção dinâmica deste mesmo tempo, o tempo que passa, trazendo outras formas de ser e de estar. Por isso falar em feminismos, tal como Cristina Duarte o faz, será mais consentâneo com a noção de moda enquanto definidora de identidade numa sociabilidade em constante evolução. Neste sentido, empregar o nome de uma peça de vestuário – o espartilho – para designar a luta pela emancipação da mulher – o feminismo – adquire um indiscutível simbolismo. Alia a real libertação do corpo de que a autora fala à real libertação do espírito que as mulheres assumem quando se libertam de conformismos. O simbolismo do espartilho torna-se, assim, duplamente evidente. Simboliza a opressão da mulher e implica igualmente a sua libertação. Poder-se-á, portanto, enquadrá-lo como símbolo do feminismo enquanto conceito universal e dos feminismos enquanto suas facetas particularizadas.

No capítulo V, Cristina Duarte oferece um estudo bem estruturado deste processo de emancipação sediado na moda, em Portugal entre 1926 e 1999. Intitulou-o genericamente Retratos a duas e três vozes ao longo dos tempos, distinguindo vários períodos e designando-os respectivamente por: Herstory I, II, III, IV, V, VI. Em cada um trata uma mesma temática designada: importância social e memória histórica da roupa; as questões da moda-vestuário; as questões do olhar construído. Temática concreta, saliente-se, visto que abordada a partir de testemunhos reais de mulheres entrevistadas, entre as quais se contam duas ou três gerações. A autora oferece-nos, deste modo, um quadro bem elucidativo do que permaneceu e do que foi mudando em cada um destes períodos. Ou seja, em termos de espartilho, chama a atenção para o facto de o seu uso ter ido desaparecendo ao ritmo da emancipação da mulher.

O duplo efeito do que se poderia chamar a “história da decadência do espartilho” e suas incidências nos feminismos e nas feministas teve reflexos na moda, se bem que ela seja incompreensível fora das conjunturas políticas e sociais que acompanham o andar do tempo. “A moda reflete o tempo em que vivemos”, escreve a autora (p. 54). Se bem que a condição de vida da mulher interfira na moda, não constitui o seu único factor. Também as restrições económicas e sociais, a cultura, o desporto, a profissão, a educação ditam alterações no modo de vestir. Estas alterações são muitas vezes ditadas pelos grandes costureiros, que assim conjugam a sua criatividade pessoal com os ditames da sociedade em que vivem. Note-se que os primeiros grandes costureiros terão sido homens. As mulheres só apareceriam depois.

Porquê? É a pergunta que de imediato se coloca e a que a autora dará uma resposta inequívoca ao invocar o simbolismo do espartilho. A decadência deste por razões conjunturais deu lugar a outras formas de conceber a moda, adaptadas às mutações de hábitos na nova sociedade emergente e às conquistas que a indústria ia realizando. Os homens estariam mais aptos para ocupar esse espaço. Demonstraram, mais uma vez, neste caso, uma clara ascendência masculina, respondendo às novas exigências sociais e interpretando-as. As mulheres só posteriormente o fariam, numa clara e evidente sensibilização à conjugação entre o ritmo temporal e o vestuário que marca neste campo uma crescente valorização do feminino. Seja como for, entender a moda como uma corrente efémera imparável não significa ignorar o seu carácter identitário. Cada mulher, embora mais ou menos sensível aos ditames da moda, opta por segui-los ou recusá-los ou ainda alterá-los à sua medida. Isto significa que as mulheres são mais ou menos sensíveis ao apelo imediato da moda e que lhe reagem de forma particular, imprimindo características próprias ao seu modo de vestir e de estar e construindo a sua própria identidade neste âmbito. Mais uma vez, também nesta dupla perspectiva de criação e de interpretação, o ocaso do espartilho sinaliza o caminho da libertação da mulher.

Considera-se esta relação, descrita de forma exemplar por Cristina Duarte no capítulo VI, como um dos pontos mais inovadores da obra. Ali, mães e filhas respondem a um mesmo questionário, que permite compreender e avaliar não só a personalidade de cada uma, como a sua concepção da moda e a eventual adequação ao seu evoluir. De acordo com os dados recolhidos, a autora classifica as entrevistadas como resistentes, visíveis, modernas e consumistas. Sendo assim, a moda exprime uma forma de identificação do eu, de relação com o outro, de integração social. Neste sentido, pode ser entendida como expressão de feminismo e de antifeminismo, de opressão e de libertação, tendo o espartilho como seu símbolo.