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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.39 Lisboa jun. 2018

 

PIONEIRAS

Shahd Wad. Acontecer na fronteira: ser uma mulher da Palestina em Lisboa

Alexandra Alves Luís*, Ana Paula Saraiva**

*Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva – Estudos sobre a Mulher, alexandraalvesluis@gmail.com

**Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas,Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva – Estudos sobre a Mulher, anasaraiva2@gmail.com


 

 

 

Em 2014, Shahd Wadi defendeu a sua tese de doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tornando-se a primeira doutorada em Estudos Feministas, em Portugal. Na primeira semana de fevereiro de 2018 apresentou, em Lisboa, o livro[1]que resultou desse trabalho. Foi a ocasião para agendarmos uma conversa que decorreu algumas semanas depois. O local escolhido para partilhar connosco alguns detalhes da sua história de vida foi o Largo do Intendente, um lugar de fronteira entre a tradição dos bairros lisboetas e as novas rotas turísticas da capital, cenário onde prédios em ruínas resistem entre novíssimos imóveis de luxo, onde a população residente representa a freguesia mais multicultural de Portugal, reunindo mais de setenta nacionalidades... porque nada é por acaso, porque, como afirma a nossa entrevistada, tudo é político. Neste texto apresentamos uma síntese destes encontros com a autora e com o seu livro, desvelando um percurso invulgar.

Shahd Wadi nasceu no Egito há 35 anos, viveu a infância e juventude na Jordânia e em maio de 2018 completou 12 anos de residência em Portugal. É palestiniana, também porque o escolhe ser. Concluída a licenciatura na Jordânia, em Línguas, trabalhou como consultora na United Nations University – International Leadership Institute, parte da Organização das Nações Unidas (ONU). O projeto que integrou relacionava-se com a liderança das mulheres em zonas de conflito. Depois, desenvolveu uma ação de voluntariado num centro de estudos para mulheres nas Honduras. Aí trabalhou com mulheres a quem dava ferramentas que lhes permitissem, por exemplo, formalizar uma queixa de violência doméstica. Estas experiências foram importantes para o seu rumo, mas considera que é o facto de ser uma mulher palestiniana que determinou o seu projeto pessoal de vida, centrado na luta feminista palestiniana, que tem vindo a materializar de várias formas, inclusivamente através do mestrado e doutoramento realizados e do livro em análise, entendido também como uma forma de resistência.

O livro que resulta da sua tese de doutoramento foi apresentado na Livraria Almedina pela Professora Catedrática Isabel Allegro de Magalhães, que referiu o caráter fraturante deste trabalho e sublinhou o facto de se tratar de uma tese apresentada num ambiente tão normativo como é Coimbra. Contudo, as provas de doutoramento foram avaliadas com a nota máxima, acrescentou.

O corte com a convenção académica é, quase sempre, assumido pela autora, como acontece no caso em que justifica porque opta “pela fusão entre o conceito de ‘capítulo' e de anexos” (Wadi, 2017, p. 24). A leitura do livro permite cartografar vários percursos disruptivos. Tal é o caso da temática e perspetiva abordadas: Corpos na Trouxa. Histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio, como se intitula a tese/livro, é também uma autobiografia. Neste trabalho, Shahd Wadi relata a sua história, a história da sua família obrigada ao exílio, em 1948, quando expulsa da sua terra, a Palestina.

Por outro lado, tem por “objetos de estudo” artefactos artísticos, criados por mulheres palestinianas nascidas no exílio, já que defende que a academia não deve limitar-se à escrita convencional. Pelo contrário, rejeita o primado do texto sobre os filmes, narrativas de ficção, música, poesia e arte visual que analisa, reconhece-lhes uma validade interpares e integra-os no corpo do texto. Justifica esta perspetiva: “Não são apenas ‘notas' ou ‘anexos', mas sim parte integrante do trabalho. São discursos legítimos e de tanta importância como a teoria e outros discursos escritos” (Wadi, 2017, p. 19). Sobre o modo como pretendeu analisá-los esclarece: “Não vou falar sobre ‘os objetos de estudo' mas perto deles, seguindo o método usado pela etnógrafa e teórica feminista, Trinh T. Minh-ha (...) (que) cria um diálogo com os assuntos que estuda, sem tentar impor um significado único” (Wadi, 2017, pp. 25-26).

Argumenta ainda que “a criação artística das mulheres palestinianas no exílio é um manifesto político feminista de resistência às diferentes opressões” (Wadi, 2017, p. 20). Refere-se à ocupação e ao sexismo, temática já abordada na dissertação de mestrado que intitulou Feminismos dos Corpos ocupados: As mulheres palestinianas entre duas resistências, defendida, também em Coimbra, em 2010, e classificada com 18 valores.

Um breviário destas duas faces da opressão sobre as mulheres palestinianas é apresentado pela autora quando explicita: “Debrucei-me, por um lado, sobre o discurso da ocupação israelita, que é colonial, nacionalista, chauvinista e ‘masculino'; e, por outro lado, sobre o discurso palestiniano hegemónico que, apesar de ser resistente à ocupação, é igualmente nacionalista chauvinista e ‘masculino'” (Wadi, 2017, p. 21).

Inova ainda no modo como recupera a tradição ancestral de perpetuação da memória através da oralidade, que no contexto da história da Palestina assume contornos particulares, como esclarece: “O povo palestiniano sempre resistiu para manter a memória coletiva que confirma uma identidade e uma existência” (Wadi, 2017, p. 21). Em concreto, atribui às mulheres este papel de “manter a ideia da Palestina viva” (ibidem) porquanto “foram contando a história do povo e da terra através da narração das suas histórias de vida” (ibidem). Esclarece-nos que essas mulheres de gerações anteriores o fazem de uma forma peculiar: narram acontecimentos sem mencionar datas, contam as suas histórias como se fossem fábulas sem tempo. Acrescenta que se deve às gerações nascidas no exílio a construção de um novo legado “utilizando a produção artística como extensão da memória palestiniana” (Wadi, 2017, p. 21). São estas novas narrativas que dão continuidade à tradição oral, embora, como clarifica, “reconfiguradas em novas molduras e traduzidas noutras linguagens artísticas” (ibidem).

O lugar onde a criação artística acontece é o exílio, entendido como a fronteira, “um lugar imaginário que fica entre a pátria de origem (Palestina) e (...) a casa ‘forçada'” (Wadi, 2017, p. 32); e é aqui que acontece também a criação dos próprios corpos. A autora explica este processo apelando ao conceito de narrativa corporizada, “embodied narrative”, proposto por Elizabeth Grosz, segundo a qual “os corpos e o lugar constroem-se mutuamente” (ibidem).

Referidos vários dos traços inovadores em termos temáticos e metodológicos da tese/livro, sublinhando-se o facto de ter sido apresentada em Coimbra, confrontámos Shahd com o epíteto de pioneira. Rejeita a nossa argumentação:

Eu não conheci esse lado conservador de Coimbra, pelo contrário. Há muito ativismo feminista na academia de Coimbra. Tive muita sorte com as minhas duas orientadoras, Adriana Bebiano e Maria Irene Ramalho, o que não quer dizer que não tenha lutado pelas minhas ideias. Discutimos tudo, em detalhe, chegámos a ter reuniões que duraram nove horas, por vezes para definir uma coisa tão simples para mim, como ter um título designado 1948. Defendi também a utilização do Facebook como referência ou a menção a vídeos na epígrafe. Porque não, se fazem parte da vida? A academia deve refletir a vida. Mas não usaria a palavra pioneira... o que é ser pioneira? Não sei. Sei o que é fazer a diferença, é um processo. Eu quero fazer a diferença, especialmente aqui em Portugal. Quero lutar pela Palestina em Portugal, quero lutar por causas feministas em Portugal.

A apresentação do livro surge, com efeito, como uma oportunidade para fazer diferente e para falar sobre a causa palestiniana. Shahd encena, num palco improvisado na livraria, perante uma plateia de muitas dezenas de pessoas, o êxodo palestiniano. Faz e desfaz uma trouxa que transporta em “viagens” sucessivas, uma écharpe colocada sobre a cabeça onde vai colocando conteúdos diversos e que, algumas vezes, permanece esvaziada. A trouxa representa uma metáfora daquilo que se leva quando se vivencia a fuga, quando ser nómada se torna a situação de vida; por vezes, o que se transporta é apenas o corpo. Remete, igualmente, para a tradição palestiniana das noivas que levavam os seus pertences para a casa do marido numa trouxa ou bo'aje, que ganhou nova significação após o exílio, já que “cada família palestiniana nos campos de refugiados recebia uma trouxa, um saco com roupa em segunda mão (...)” (Wadi, 2017, p. 23).

Esta performance, assim como a opção de analisar obras de artistas, sugere-nos uma pergunta sobre a existência de uma formação artística, dedução que clarifica:

Não tenho nenhum background formal nas artes, mas sou filha de artistas e na minha vida sempre tive a arte presente. A razão de usar a arte para falar sobre a Palestina e sobre as mulheres palestinianas é por se tratar de uma linguagem que toda a gente percebe. Ligo-me à Palestina através da arte, através das músicas que estou a ouvir, dos livros que leio, das obras de arte que posso ver na internet, aliás, sem a internet este trabalho seria outro. Esta minha maneira de me ligar com a Palestina foi uma coisa natural. No livro abordo as obras e as vidas de duas poetas, duas romancistas, duas realizadoras, duas artistas visuais e duas bandas.

Sobre este aspeto, esclarece ainda no livro: “São criações que apareceram no meu caminho e onde encontrei a história do exílio das mulheres palestinianas que quero contar, mas também onde vi refletida a minha história palestiniana” (Wadi, 2017, pp. 18-19).

A história palestiniana da autora conhece géneses múltiplas. Identifica um destes momentos na introdução do livro: “Sou palestiniana, foi-me dito. (...) era ainda criança (...) quando me disseram que era palestiniana. Sussurraram aos meus ouvidos a minha história palestiniana” (Wadi, 2017,p. 15). Outro momento primordial ocorre em 1948, quando a família é forçada ao exílio, após a ocupação das forças militares israelitas. Conta-nos a história ouvida: “Durante nove meses, os corpos da minha família foram arrastados numa caminhada para o exílio até chegarem a Ramallah. Foram os mesmos nove meses que o corpo da minha avó (...) levou para dar à luz o seu nono filho, o primeiro e último do exílio: o meu pai” (Wadi, 2017,p. 15). Outro momento de (re)nascimento ocorre já adolescente quando visita, pela primeira vez, a Palestina: “Durante o meu primeiro regresso a uma terra que nunca conheci (...). Percebi, senti e decidi: sou palestiniana” (Wadi, 2017, p. 17).

Shahd Wadi tem, também, nacionalidade portuguesa. Chegou a Portugal, em 2006.

Não tratei logo da minha nacionalidade porque detesto burocracias, mas quis ter a nacionalidade portuguesa para poder votar. Nunca votei sem ser em Portugal porque quando tive idade para votar estava fora. É importante para mim ter uma cidadania ativa. Esta é uma das maneiras de me sentir em casa.

Neste projeto de cidadania assinalámos a sua candidatura à eleição para o Parlamento Europeu, em maio de 2014, como candidata independente pelo Bloco de Esquerda. Quisemos saber o significado desta experiência:

Aceitei o convite por entender tratar-se de uma oportunidade para falar das minhas lutas, discutir as minhas lutas e, sobretudo, falar sobre a questão da solidariedade com a Palestina. Neste âmbito, faço parte do Comité de Solidariedade com a Palestina e também de um movimento que existe em toda a Europa que se chama Boicote Desinvestimento Sanções (BDS) que é semelhante ao movimento que aconteceu na África do Sul contra o apartheid e tem por objetivo pressionar Israel a cumprir a Lei Internacional. Também em Portugal começa a ser conhecido e existem muitas formas de apoio, até em situações do dia a dia, não comprando produtos israelitas, não colaborando com universidades de Israel... É importante notar que não se trata de um movimento contra identidades. É, sim, contra a ocupação. Por exemplo, convidámos o historiador Ilan Pappe, que apoia o movimento e é israelita, para falar, em Lisboa, sobre a limpeza étnica na Palestina.

A finalizar, queremos saber sobre os projetos sonhados, neste lugar de fronteira: Enquanto a academia não abre portas, profissionalmente estou a trabalhar na embaixada da Palestina como assessora de imprensa e dos assuntos culturais, mas omeu sonho é continuar a fazer estudos palestinianos e feministas. Torna-se difícil encontrar o tema adequado para rematar uma conversa marcada pelo signo da transitoriedade, do desenraizamento, do não lugar. A materialidade do livro oferece-nos uma solução: Perguntam-me se estou feliz agora que publiquei. Eu digo que sim, mas senti-me muito estranha. Ter ali um objeto que se toca e que também sou eu...

 [1] Wadi, S. (2017). Corpos na Trouxa. Histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio. Coimbra: Almedina.