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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.39 Lisboa jun. 2018

 

ESTADO DA QUESTÃO

Rede Ma(g)dalena Internacional: Teatro das Oprimidas

Bárbara Santos*

*Bárbara Santos vive na Alemanha desde 2009, onde é diretora artística de KURINGA – espaço para o Teatro do Oprimido em Berlim, de TOgether Project & International Theatre Company e do grupo Madalena-Berlim. Idealizadora e coordenadora do Programa KURINGA de Qualificação em Teatro do Oprimido, que teve avaliação externa da Universidade de Bologna, Bárbara integra a ITI Alemanha (International Theatre Institute of UNESCO).

É diretora artística da Rede Ma(g)dalena Internacional. No Brasil, colabora com o Centro de Teatro do Oprimido e é editora da revista METAXIS. É autora dos livros TEATRO DO OPRIMIDO, Raízes e Asas: uma teoria da práxis e PERCURSOS ESTÉTICOS, abordagens originais sobre o Teatro do Oprimido. barbarasantos@kuringa.org


 

 

 

No Teatro das Oprimidas abrimos nossos ouvidos para enxergar além da doçura ilusória. Abrimos nossos olhos para escutar o eco dessas mensagens dentro de nós. Fechamos nossos olhos para criar outras imagens de nós mesmas, nas quais podemos descobrir quem somos e quem queremos ser.

A inegável conquista das mulheres por direitos e mais participação em instâncias de poder não tem sido suficiente para impedir que milhares de mulheres, no mundo inteiro, continuem sendo vitimadas pela violência machista: doméstica e social, física e emocional. Além de, frequentemente, carregarem a vergonha e a culpa por suas tragédias. Isso dificulta a percepção de que o que se passa com cada uma dessas mulheres não é nem particular nem natural.

No final de 2009, Alessandra Vannucci, diretora teatral italiana, propôs realizar uma oficina exclusiva para mulheres no projeto Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto, do qual eu era diretora artística. A proposta fazia parte do Prêmio de Interações Estéticas e Residências Artísticas em Pontos de Cultura[1] que ela havia recebido do Ministério da Cultura do Brasil. A proposta vinha ao encontro de ações que eu estava realizando nesse projeto.

Além das propostas específicas que Alessandra trazia de sua pesquisa sobre arte e violência contra a mulher, eu sugeri um programa essencialmente baseado na Estética do Oprimido e no Teatro do Oprimido[2], associando técnicas introspectivas do Arco-íris do Desejo, com Teatro Jornal e Teatro Fórum[3], como estratégia de pesquisa. Optamos por desenvolver a iniciativa em formato de laboratório teatral, para garantir o caráter experimental.

Não queríamos nos aprofundar apenas na compreensão dos processos externos da opressão que enfrentávamos. Os processos internalizados nos pareciam também perturbadores pela impressão que davam de sermos nós, as oprimidas, as maiores responsáveis pelas opressões que enfrentávamos. Queríamos confirmar a hipótese se uma mulher poderia servir de espelho para a outra. Se uma, olhando nos olhos de outras, poderia identificar seu próprio olhar. Se, ao entender a história de outras, poderia entender sua própria história e a si mesma como protagonista. Criamos um espaço de encontro para investigar o que nos move a seguir o padrão imposto; a agir segundo um modelo que não concordamos. Para entender onde, como e quando fomos convencidas que fragilidade, doçura, bons modos e até uma certa santidade constituíam a idéia de “feminino”.

O Laboratório Madalena – Teatro das Oprimidas nasce em 2010 como um espaço para des-individualizar o problema e socializar os processos. Um espaço para questionar a imposição de uma forma padronizada de ser. Um espaço coletivo no qual fosse possível abrir as receitas herdadas/ guardadas/lembradas de boa menina, boa moça, boa dona de casa, boa mãe, boa... Receitas que continuam a repercutir em nossa ação cotidiana. O Laboratório Madalena ansiava por se converter em um espaço de invenção de fórmulas improváveis, de celebração da ousadia das bruxas. Espaço onde a confiança mútua e a solidariedade pudessem ser reforçadas e valorizadas. Espaço de busca de superação da culpa, da vergonha e da competição; de enfrentamento do silêncio que oculta temas tabus; e de reconhecimento, visibilidade e empoderamento.

O Laboratório oferecia às participantes a oportunidade de refletir sobre as opressões, intercambiar ideias e propostas e se fortalecer mutuamente para a luta por novas conquistas e pela aplicação dos direitos conquistados. A meta era a criação de um território de empoderamento, em que tanto fraquezas, inseguranças, erros e medos, quanto potencialidades, sonhos e descobertas pudessem ser compartilhados.

Nesse contexto, as participantes se sentem encorajadas a contar suas histórias ao perceberem que estas são quase como ecos de histórias alheias. Um processo que potencializa identificação e sororidade, por meio da escuta de suas próprias palavras na voz da outra; da percepção de si na declaração de identidade da outra; da auto-imagem na pintura da outra; e no reencontro do sonho esquecido no poema da outra. Aproximação que facilita a compreensão coletiva das complexidades emocionais e dos contextos sociais que englobam e reforçam essas opressões e também fortalecem para o enfrentamento dos desafios colocados.

A abertura desses espaços propiciou o contato com algo de ancestral que nos ajudou a abrir portas fechadas de uma identidade obscurecida e sufocada pela imposição de modelos autoritários e inflexíveis. Um espaço de tempo com liberdade para nos vermos (eu-nós) e investigarmos imagens, contradições e concessões. Espaço de compreensão e, ao mesmo tempo, de crítica, onde nos despimos das vítimas e nos assumimos sobreviventes, oprimidas em busca de transformação.

Os primeiros laboratórios aconteceram no Rio de Janeiro e no Ceará e, em março, em São Domingos (Guiné-Bissau). Esses três facilitados por Alessandra e por mim. Ao longo de 2010, Alessandra fez um laboratório no Porto, Portugal, e abriu uma extensão na Universidade Federal de Ouro Preto, onde era professora.

Em maio de 2010, realizamos, no Rio de Janeiro, o Madalena Ocupa a Lapa, com mesas de debates, performances e apresentações de Teatro-Fórum de espetáculos e performances do Rio de Janeiro, Ouro Preto, Florianópolis e Fortaleza.

De maio a dezembro de 2010, eu facilitei mais três experiências: em Maputo (Moçambique), Berlim (Alemanha) e Calcutá (Índia). A incrível diversidade de grupos e de contextos me ofereceu uma vasta possibilidade de análise e de desenvolvimento metodológico. Em 2011, Alessandra realizou um projeto com mulheres catadoras (que trabalham com reciclagem de lixo) em Brasília, que teve o Teatro Legislativo como foco. Eu, ao longo de 2011, ampliei minha experiência em uma outra série de laboratórios em Viena (Áustria), Barcelona (Catalunha/Espanha) e Lisboa (Portugal).

Em fevereiro de 2013, estive na Guatemala, facilitando um laboratório e apoiando o primeiro processo de multiplicação com mulheres indígenas. No caminho de volta ao Brasil, um surpreendente encontro ampliado em Buenos Aires, com 60 mulheres de 10 coletivos (argentinos e uruguaios), que haviam passado por distintas edições de laboratórios graças ao processo de multiplicação que estava em curso. Em junho de 2013, facilitei um laboratório em Klagenfurt (Áustria) e em julho, em Bogotá (Colômbia). Em junho de 2014, estive em Nova Iorque, onde facilitei um laboratório em parceria com o TONYC e, em novembro, em Iruña/Pamplona (Espanha). Em novembro de 2015, realizei uma edição do laboratório Madalena, em Poznan, na Polônia. E em março de 2016, outra edição do Madalena em Barcelona, dessa vez em parceria com a organização uTOpia-Barcelona. Em Berlim, realizamos diferentes edições do laboratório, já como ação de multiplicação do grupo Madalena-Berlim.

As sementes lançadas em janeiro de 2010 deram origem ao Teatro das Oprimidas, inovadora experiência estética sobre as opressões enfrentadas por mulheres na busca de alternativas de superação.

Com a expansão dos processos de multiplicação, a experiência chegou também ao Uruguai, Argentina, Chile, Nicarágua, Equador, Costa Rica, Venezuela, Bolívia, Itália, Suíça, França, Hungria, Nepal e Argélia, com grupos de teatro e/ou organizações de defesa dos direitos das mulheres, por meio das Madalenas. Em conseqüência, vários coletivos Madalenas foram sendo formados mundo afora[4].

Rede Ma(g)dalena Internacional:

Nos primeiros Laboratórios Madalena nos reunimos para investigar se seria mais fácil falar de nossos silêncios estando entre mulheres. Nesse ambiente, nossas vozes soaram melhor. Incrível a experiência de poder se expressar, ao mesmo tempo, com força e com suavidade. Mágico escutar a própria voz nas histórias alheias. Enfrentar o silêncio em coletivo fez todo o sentido.

O forte interesse despertado pela experiência, seus resultados e suas descobertas foram o impulso necessário para avançar. Não havia mais como retroceder. Cruzamos fronteiras e nos aproximamos de outras, que multiplicaram e transformaram nossa imagem. Nos tornamos muitas mais.

Criamos espaços de partilha e nos transformamos em uma Rede Internacional, a fim de ampliarmos o volume de nossas vozes, a visibilidade de nossa luta e a possibilidade de atuação articulada. Para aprofundar as descobertas, organizamos encontros e seminários internacionais no Rio de Janeiro, Berlim, Buenos Aires, La Paz, Matagalpa, Barcelona e Montevidéu. Nos olhamos umas às outras e nos questionamos sobre o porquê e o para quê seguir adiante… juntas! A muitas mãos, escrevemos um manifesto[5]para expressar quem somos, o que fazemos e o que queremos.

Sentimos a necessidade de avançar também na produção artística e realizamos dois festivais internacionais, a primeira edição, em 2015, em Puerto Madryn, Patagônia Argentina, e em 2017, em Berlim, Alemanha.

Estamos em coletivos articulados a organizações e movimentos. Somos múltiplas e diversas. Somos um movimento de artistas-ativistas. Buscamos analisar e entender as especificidades das opressões que enfrentamos em intersecção com as demais opressões. Implementamos ações políticas concretas, através de nossa estética feminista, que visam a superação da violência machista, da exploração capitalista e do sistema patriarcal.

 

[1] Site: http://www.funarte.gov.br/acessoainformacaocepin-premio-interacoes-esteticasE28093-residencias-artisticas-em-pontos-de-cultura/

[2] O Teatro do Oprimido, que poderia ser chamado de Teatro do Diálogo, partindo da encenação de uma situação real, estimula a troca de experiências entre atores e espectadores, através da intervenção direta na ação teatral, visando à análise e a compreensão da estrutura representada e a busca de meios concretos para ações efetivas que levem à transformação daquela realidade. Como diria Boal, aquele que transforma as palavras em versos transforma-se em poeta; aquele que transforma o barro em estátua transforma-se em escultor; ao transformar as relações sociais e humanas apresentadas em uma cena de teatro, transforma-se em cidadão. Um Método que busca, através do Diálogo, restituir aos oprimidos o seu direito à palavra e o seu direito de ser. Boal sempre insistiu que as técnicas que compõem o Método do Teatro do Oprimido não surgiram como invenção individual e sim como consequência de descobertas coletivas, a partir de experiências concretas que revelaram necessidades objetivas. Cada uma das técnicas do Teatro do Oprimido representa uma resposta encontrada por Boal e pelos colaboradores e colaboradoras que acumulou ao longo de sua carreira. Em http://ctorio.org.br/sitio/index.php/metodo , site acedido em março de 2018.

[3] Informação sobre as diferentes técnicas que compõem o método do Teatro do Oprimido disponível em http://ctorio.org.br/sitio/index.php/metod , acedido em março de 2018.

[4] O coletivo de teatro das oprimidas Madalenas Lisboa surge em 2015, tendo apresentado as performances e peças Madalenas Sufragistas, Mãe ... ser ou não ser, Casas Meio Assombradas. www.facebook.com/MadalenasLisboa, consultado em março de 2018.

[5] Manifesto disponível em http://redmagdalena.blogspot.pt/p/primeiro-manifesto-da-rede-magdalena.html, consultado em março de 2018.