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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.39 Lisboa jun. 2018

 

HOMENAGEM

Carta última a Maria Isabel Barreno [1]

Maria Teresa Horta


 

Escrevo, Isabel,

carta última,

tal como fizemos ao terminar Novas Cartas Portuguesas, num revolvimento que repito, num impulso, num sobressalto diante do fim da tua vida; pois escrever junto, à nossa maneira a três,

Isabel,

é pacto de sangue – corte muito fino no pulso da escrita – lembro-me de vos ter dito diante do vosso silêncio cúmplice. E este é o meu modo desarmado de recusar a tua perda, creio, sem conseguir aceitar que passes a ser sobretudo memória, por certo cada vez mais longínqua, recordação dia após dia a tornar-se brumosa, distanciada e difusa.

Saudade a resguardar-se de si própria.

Tão sozinha, tu no abandono de ti mesma, em inexistentes horas, sem outra qualquer forma de existires senão pelo teu lado de total negrume, aquele que absurdamente é hoje o teu nada

mais absoluto.

Escrevo-te, Isabel, carta última

a querer recordar como se deu o exacto começo de Novas Cartas, por entre palavras e ideais, exigência de liberdade e repúdio dos tantos medos, modos e meios que o fascismo tinha de nos censurar a escrita, ideias e princípios, livros, itinerários, projectos literários, romances e poesia, textos e versos no seu próprio reverso de luz;

e igualmente na ensombrada sombra, então, dos nossos dias.

Escrevo, Isabel, carta última

como se ainda fôssemos tacteando devagar a vida, repensando as tantas diferenças de escrita, a tentarmos divisar essa outra diversidade,

feminina

tão ancestral quanto castrada, abafada e discriminada,

Isabel...

E assim foi nessa pressa, nesse entusiamo, que ao longo de meses nos tornámos amigas, quer num sobressalto súbito de tropel e inesperada corrida ao modo do meu alvoroço, quer da tua quietude, tranquilidade à flor do sorriso, como se afinal nada nos estivesse a acontecer,

ilusória maneira de tomarmos voo de asa enquanto companheiras em conivência de vida e escrita, por entre agressões, tentativas de humilhação e de proibições políticas.

Na realidade falávamos de liberdade e de literatura ao longo de tardes fingidoras de tempo que simulava deixar-se agarrar, numa mistura de conversas que sempre se demoravam em cumplicidades múltiplas, por entre páginas, obras literárias sobretudo de autoras de quem amávamos a

poesia, a ficção, a filosofia,

conscientes de ser urgente desobedecer, transgredir, aprendendo a confrontarmos quem nos queria censurar a vida e a escrita.

Escrevo, Isabel, carta última

sem tentar iludir certezas e dúvidas, em horas de descoberta e rompimentos; enquanto íamos imaginando e escrevendo,

contos e poemas, ensaios e versos, cartas...

Tantas cartas, e tantas personagens, Marias, Mainas e Marianas!

Com as quais fizemos uma roda, juntas na escrita de um livro que em quase tudo acabaria por mudar para sempre as nossas vidas.

Escrevo, Isabel, carta última,

como as que nós três escrevemos no final de Novas Cartas Portuguesas, nosso livro de denúncia, resistência, levantamento e grito.

Então, perguntando, sublinhando:

Minhas irmãs: / Mas o que pode a literatura? Ou antes: o que podem as palavras?”

Interrogando também:

–“Sagacidade? Insegurança? Ambiguidade posta?

(...)”

E ainda:

–“Ó terra! Ó Portugal! Ó tanta largueza! Será possível que me falte o ar e na realidade esteja presa?”

Vozes,

imaginários, interrogações, ficções, testemunhos de cada uma de nós ao darmos por terminado Novas Cartas Portuguesas. Mas, então, quantas dúvidas, quantos textos inacabados ou ainda até por imaginar, quanta insatisfação sem querer abandonar o nosso escrever comum, o nosso riso a três diante da vida

Tentei regressar assim ao meu princípio?” – indagou pois uma de nós... Tornando ao nosso início.

Asa de velejar as estrelas, Isabel,

sem entendermos o real tamanho da nossa desobediência e do nosso desafio ao confrontarmos frontalmente a sociedade portuguesa fascista e mais tarde a encarar o mundo,

olhos nos olhos.

Escrevo, Isabel, carta última,

diante da tua súbita partida, que me fez recordar de novo nós três quando na escrita, juntas e unas, em tempo de desmesura frente à vida, que nessa altura nos exigia tudo.

Quando, hoje sem ti,

sinto-me ficar de súbito sem esteio, nesta súbita e irracional vontade de te pedir:

– Não vás já, Isabel

não vás ainda embora. Tu pertences aos tantos sentimentos inacabados e tão

perdidos sentidos.

Consciente de que nunca mais nos olharemos as duas, ora na luz dos poemas, ora nos esconderijos, nas escuridades das cisternas, nos labirintos das escritas

Repara, Isabel

quanta memória inacabada! – Gostaria de te dizer, no tanto que ainda fica por escrevermos!

As rosas serão de condição sangrante – sabíamos, olhando pela fresta da claridade.

Perplexas diante das nossas vidas... Tal como então escrevemos:

– “O que nos resta depois disto? Mas o que nos restava antes disto?

Penso que bastante menos: muito menos, mesmo.

E em boa verdade vos digo: que continuamos sós mas menos desamparadas.

Magnificat!

 

Maria Teresa Horta

Lisboa, 11 de Setembro de 2016

 

A autoria de cada um dos trechos de Novas Cartas Portuguesas, transcritos em itálico, é assumida em conjunto pelas três autoras.

[1]Jornal de Letras, nº 1199, 14 de setembro de 2016