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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.37 Lisboa jun. 2017

 

PIONEIRAS

Olga Mariano

Alexandra Alves Luís*, Ana Catarina André**

 * Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva – Estudos sobre a Mulher, alexandraalvesluis@gmail.com

** Investigadora independente, acatarinaandre@gmail.com


 

 

 

Eu posso ser tudo o que eu quiser ser. Sem nunca deixar de ser quem sou.

Os primeiros anos

Olga Natália Maia Mariano nasceu em 1950 no seio de uma família cigana; o pai era natural de Évora e a mãe de Lisboa. Conheceram-se no Alentejo numa festa tradicional cigana, casaram-se e ficaram a viver no Fogueteiro, na freguesia da Amora, concelho do Seixal.

Na década de 1960, ainda não havia escola no Fogueteiro, e a mais próxima ficava na Amora, a cerca de cinco quilómetros. Contrariando a tendência da época, em que raramente as meninas ciganas eram instruídas, Olga, com 8 anos, e Maria, a irmã mais velha, com 11, começaram a frequentar a escola, deslocando-se a pé com Fernanda, Branca e Elsa, outras meninas do pátio onde viviam. Nunca se sentiram discriminadas, porque a professora, Dona Mercedes, não permitia que as colegas as chamassem ciganas. Olga e Maria iam assim aprendendo aritmética, história, geografia e português, como as outras meninas.

Sendo os pais feirantes em Sesimbra, era Esmeralda, a filha da senhoria da casa onde viviam, quem as preparava para irem para a escola. Olga era uma criança feliz, igual a tantas outras meninas ciganas, apesar de não viver inserida numa comunidade cigana. Apesar de os contactos com a família paterna serem esporádicos, Olga recorda as visitas anuais a familiares, durante uma feira tradicional, que se realizava em Évora. Nestes encontros, Olga ia absorvendo a cultura do seu povo.

Emancipada pelo pai aos 17 anos, foi a primeira mulher cigana a tirar a carta de condução, que, à época, custou dois contos. O pai tinha ficado com um carro, um Fiat 1100 cinzento claro, como pagamento de um negócio, e Olga foi a escolhida, pois era a única da família com a quarta classe, requisito obrigatório para fazer o exame de condução. A partir de então, Olga passou a levar os pais às feiras de Sesimbra e de Cascais. Também era ela quem transportava a família sempre que iam a festas no Alentejo, tornando-se assim cada vez mais autónoma.

O casamento e a vida de feirante

Aos 22 anos, casou com o homem que escolheu, porque, segundo diz, aquele preconceito de que as meninas ciganas casam cedo porque os pais querem é errado. Salvo raras exceções, não há pais ciganos que deixem as suas filhas casar antes dos 18 anos. Da união nasceram três filhos: dois rapazes, Jair e Carlos, e uma rapariga, Noel. Viveram sempre no mesmo pátio, onde a mãe de Olga apoiou a filha, cuidando das crianças e acompanhando-as à escola, enquanto Olga trabalhava na feira com o marido. Durante 25 anos, tiveram banca na feira de Almada, vendendo têxteis e vestuário de segunda a sábado: “Podíamos ir a uma festa de casamento, deitarmo-nos tarde, mas no dia seguinte lá estávamos às 7h”.

A vida de Olga mudaria drasticamente, quando o marido, então com 43 anos, adoeceu. Durante três anos, dedicou-se totalmente ao cuidado dele. Jair, o filho mais velho, garantia, durante este período, o sustento da família na feira. Mas Olga acabaria por ficar viúva.

O luto e a igreja evangélica

Cumprindo a tradição cigana, após a morte do marido, foi todos os dias ao cemitério durante um ano, cortou o cabelo muito curto, passou a andar sempre de preto integral, com roupas largas e compridas, lenço na cabeça, e regressou a casa dos pais.

Hoje, garante que a comunidade cigana aceita segundos casamentos, havendo motivos válidos para tal. Em vez de se criticar, dá-se uma nova oportunidade.

Segundo Olga Mariano, esta mudança de mentalidades deve-se à influência da igreja evangélica. Na atualidade, em Portugal, mais de metade da comunidade cigana faz parte da Assembleia de Fiéis. Deste modo, na sua opinião, a religião acabou por contribuir para a valorização da mulher e para a promoção da igualdade de género. Mas é preciso “trabalhar mais sobre os benefícios da escola”.

Em 1999, por sugestão de uma amiga, Olga recorreu ao rendimento social de inserção, porque, segundo diz: “A necessidade era tanta que a perspetiva de receber 150 euros para ajudar nas despesas com os meus filhos me levou à entrevista.” Acabaria por ser selecionada, juntamente com outras cinco mulheres ciganas e onze africanas, para frequentar um curso de mediadora sociocultural, recebendo uma bolsa equivalente ao salário mínimo nacional na época (cerca de 350 euros). Esse curso permitiu-lhe descobrir aptidões quase esquecidas, como era o caso da escrita1.

Nessa altura, um dos formadores sugeriu às mulheres ciganas que formassem uma associação – além de Olga, estavam no grupo também Alzinda, Anabela, Sónia e Noel. Nascia assim a AMUCIP – Associação para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas. Olga assumiu a presidência, por ser a mais velha, por isso, a mais experiente. Tornava-se assim a primeira mulher cigana a liderar a primeira associação de mulheres ciganas em Portugal. Manteve-se no cargo durante 13 anos, hoje continua a ser sócia e a participar nas atividades da associação. Inicialmente tinham como grande objetivo a abertura de um espaço onde as crianças pudessem brincar depois das aulas, enquanto as mães estavam na feira, porque a sua grande bandeira era a educação das crianças. Por isso, desenvolveram vários projetos, com diversas entidades parceiras, sendo o mais emblemático o P’lo sonho é que vamos2, entre 2005 e 2009.

Sem sede própria, nos primeiros cinco anos reuniam dentro dos automóveis das fundadoras, onde guardavam toda a documentação da Associação. Em alternativa, recorriam a alguns cafés da zona de residência. Mais tarde, com o apoio da Câmara Municipal do Seixal, encontraram um espaço, no bairro da Cucena, inaugurado a 8 de março de 2006, que tinha sala com computadores, uma horta pedagógica e cozinha; em suma, “tudo para cuidarmos bem das crianças”. Em 2013, a Associação organizou o primeiro Encontro Nacional de Mulheres Ciganas.

Paralelamente à atividade da AMUCIP, Olga Mariano trabalhava como mediadora numa escola do Bairro Padre Cruz, em Lisboa, onde implementou diversas atividades inovadoras, em que todas as crianças pudessem mostrar as especificidades das suas culturas; com isso, foi ganhando a confiança das mães não ciganas, e todos aprendiam e todos ensinavam. Ao fim de cinco anos – esteve lá entre 2000 e 2005 –, as crianças continuavam a perguntar-lhe se era mesmo cigana. Outros diziam: “A tia é Irmãzinha? Porque vestia de preto e porque não imaginavam que uma cigana pudesse ensinar numa escola”.

Continuou a ser mediadora e, entre 2007 e 2009, esteve no Gabinete de Ação Social da Câmara Municipal do Seixal. Trabalhando nos bairros, com as técnicas da Autarquia, procurava resolver as necessidades que iam surgindo. As pessoas ciganas também a procuravam para solucionarem os seus problemas. Ao mesmo tempo, Olga tornou-se voluntária numa escola do concelho, por considerar importante que as pessoas ciganas sentissem que pessoas como ela também estavam na escola, e porque os manuais escolares não mencionavam nada sobre a cultura cigana, nem contavam a história da sua vinda para Portugal.

Em 2013, desafiada por Bruno Gonçalves, primeiro presidente da Associação de Ciganos de Coimbra, criou a Letras Nómadas, uma Associação cujo objetivo é a investigação-ação sobre as comunidades ciganas em Portugal, da qual é presidente da direção.

Tendo a educação como foco, esta associação elegeu como primeiro objetivo permitir um maior acesso da comunidade cigana à Universidade. Nasceu assim o primeiro grande projeto – o Opré Chavalé,  que significa, em romani, Erguei-vos jovens –, desenvolvido em parceria com a Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres (PpDM). Este projeto centrou-se em três pilares fundamentais – a Mediação, a Igualdade de Género e o Programa de Capacitação. Considerada uma boa prática pela entidade financiadora, integrou em 2016 a estratégia nacional do Alto Comissariado para as Migrações através do OPRE – Programa Operacional para a Promoção da Educação, a desenvolver em parceria com o Programa Escolhas, pela Associação Letras Nómadas e pela Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens. O OPRE pretende atenuar as barreiras entre as comunidades ciganas e o sistema de ensino formal, atribuindo 25 bolsas de estudo a jovens ciganas e ciganos e incluindo um conjunto de medidas de formação, tutoria e acompanhamento das/os jovens e respetivas famílias.

No ano letivo 2015-2016, havia oito estudantes ciganos no ensino superior. Em 2016-2017, são já 25 (treze mulheres e doze homens). Têm duas mediadoras a trabalhar no terreno, que vão a casa “namorar” os pais para deixarem as filhas frequentar a Universidade e levam as mães a conhecer as instituições onde elas vão ter aulas.

A Associação Letras Nómadas promove ainda o acesso aos cuidados de saúde da comunidade cigana, através do projeto Latchim Sastipen, que quer dizer Boa Saúde, porque, em Portugal, as pessoas ciganas têm uma esperança média de vida 18 anos inferior à comunidade maioritária, o que muitas pessoas desconhecem.

A Letras Nómadas, a entidade representante em Portugal do programa ROMED3 do Conselho da Europa, é responsável por capacitar mulheres e homens ciganos para atuarem como mediadores entre a comunidade cigana e as autoridades locais. Para isso, existem parcerias em Alfandega da Fé e Viseu, e outras estão em negociação.

“Sou uma mediadora nata no que toca ao relacionamento entre as duas culturas. Tenho o sonho de conseguir que o povo cigano obtenha a instrução necessária para saber quais os seus direitos e deveres. Que estudem, que todas e todos estudem. Gostava muito de ter oportunidade de falar e ser ouvida. Isso consegue-se na política, no Parlamento Europeu. Acho que está na altura”, afirma Olga Mariano.

 

1Até 2016 escreveu quatro livros de poesia.

2Cf. http://www.rcc.gov.pt/Directorio/Temas/ServicosCidadao/Paginas/P%C2%B4lo-Sonho-%C3%A9-que-vamos.aspx

3Cf. http://coe-romed.org/