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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.36 Lisboa dez. 2016

 

ENTREVISTAS

Gabriela Moita - Uma mulher que vive todo o “alfabeto”

Maria do Céu Borrêcho*, Rita Mira*

*Universidade Nova de Lisboa, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva – Estudos sobre a Mulher,

mcborrecho@gmail.com

mira.rita@gmail.com


 

 

 

Como se vislumbra na fotografia, o horizonte e o seu avistamento foram o ponto de partida para a nossa entrevista à Doutora Gabriela Moita, psicóloga clínica e especialista em Psicologia da Sexualidade. Dos primeiros doze anos vividos em Angola, recordou-nos a extensão do espaço como uma forte referência, ligada à abertura de pensamento que exige o pleno respeito pelas pessoas e pelos seus Direitos Humanos.

Em 1987, licenciou-se em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, a que se seguiu uma pós-graduação em Psicoterapia da Criança e do Adolescente e o doutoramento em Ciências Biomédicas, em 2001, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, com a dissertação Discursos sobre a homossexualidade no contexto clínico: a homossexualidade de dois lados do espelho. Dirigiu a Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e a Sociedade Portuguesa de Psicodrama, bem como a Associação para o Planeamento da Família. Em 2013, foi agraciada com o prémio Arco-Íris pelo trabalho na luta contra a homofobia.

Recebe-nos de braços abertos, e ao despedir-se com um “até já”, mantém acesa a chama do diálogo iniciado, constituído por palavras que só têm, no seu âmago, um significado: liberdade!

Na sua formação enquanto pessoa, quais foram ou são as suas grandes referências?

Esta é uma pergunta de vida…

Eu nasci em Portugal, mas com um ano de idade fui para Angola, onde os meus pais viviam. O meu irmão e as minhas irmãs nasceram em Angola. Eu fui a única a nascer em Portugal, porque a minha mãe era de cá e queria ter uma filha natural da Metrópole, como se dizia (risos). Considero a grande dimensão de espaço existente em África, onde vivi os meus primeiros 12 anos de vida, um dos meus factores fundadores. A primeira imagem que me surge, com a questão que me colocam, é a daquele espaço sem fim, sem limite. A extensão é tão grande que o desconhecido é a regra e não o conhecido. Desde cedo, aprendi a viver com ele, e a sua aceitação faz parte da vida. O desconhecido significa descoberta e não o temo!

É muito grande na minha vida a necessidade que, ainda hoje e cada vez mais, sinto em ver o infinito, como a de poder viver numa casa de onde se aviste o horizonte sem fim. Além disso, sempre vivi muito perto do mar, que também tem essa lonjura. Esta minha relação com o espaço está ligada, igualmente, à minha forma de pensar e às relações com as pessoas.

A segunda imagem que me invade são os discos do Zeca Afonso e do Sérgio Godinho, numa época, a do Estado Novo, em que ter estes discos e ouvir estas músicas era um verdadeiro tesouro. Se bem que em criança tivesse a noção de que eram discos especiais e que aquelas composições tinham um qualquer significado, eu ainda não sabia qual. Foram tantas as horas de escuta que ainda hoje as conheço, todavia recordo- -me mais das letras do que das músicas. O significado da luta pela liberdade, pela justiça e pelos direitos das pessoas perpetua-se até hoje na minha forma de ver o mundo.

O sentido de justiça esteve presente desde muito cedo. Em Angola, a injustiça maior era a discriminação em função da cor da pele. Só quando vim viver para a Europa é que percebi a diferença entre as classes sociais. Em África, no meu olhar de criança, havia pessoas de uma cor e pessoas de outra cor. A pobreza, pensava eu com o olhar que era dado à criança, estava na cor da pele e não nas classes sociais. Uma pessoa branca não era pobre. O facto de ser branca dava-lhe sempre poder social, a ausência dele é que era a pobreza. Na altura, eu não compreendia nem a discriminação, nem por que razão os pobres eram todos negros. A percepção desta diferença criou em mim um grande sentido de injustiça social.

A figura do meu pai foi também muito forte. Era um homem de direita, com uma grande capacidade de pôr em prática os seus ideais. Trabalhou sempre na área da Saúde, primeiro como enfermeiro e depois como dentista. Tinha um enorme sentido de missão relativamente à remissão do sofrimento, ao apoio das pessoas na doença. Nunca se negava a ajudar ninguém que estivesse em sofrimento, a qualquer hora do dia ou da noite. Esse voluntarismo e essa solidariedade marcaram-me bastante, apesar de termos posições políticas e ideológicas muito divergentes. Por exemplo, recordo o momento em que o meu pai correu para socorrer uma pessoa que acabara de ser atropelada, salvando--a ao estancar, com a mão, até ao hospital mais próximo, o sangue proveniente de um corte no pescoço. Esta sua solidariedade perante a pessoa em sofrimento não tinha limites. A ideia de que uma pessoa ou a vida são um bem maior marcou-me profundamente.

Uma outra referência, marcante para mim, foi ter vivido em diversos lugares, todos com prazer, porque me ensinaram que é sempre possível refazer a vida e que a mudança significa sobretudo novas descobertas e novos ganhos. Não tenho medo nem do desconhecido nem do que é novo.

Mais tarde, já adolescente, duas professoras, a Fernanda Branco, professora de Português, e a Fernanda Henriques, de Filosofia, também foram muito importantes para mim. Ensinaram-me a olhar o mundo, a reflectir sobre ele e a gostar de aprender e de conhecer.

Não posso deixar de mencionar a pessoa que mais admiro no mundo, a minha tia Maria Orlanda, com quem aprendi a viver com alegria. Esta minha tia acolheu-nos quando regressámos de Angola, em 1975, e mais tarde, quando saí de casa dos meus pais, aos 15 anos; foi ela que me ensinou a saber viver. Viver é fácil, mas saber viver exige sabedoria, e a ela devo o pouco que sei.

O meu irmão mais velho é uma pessoa absolutamente extraordinária e esteve sempre presente na minha vida. Ele tem uma avidez de conhecimento, além de uma capacidade de abarcar o mundo todo e de o aceitar. Lembro-me de, quando éramos mais novos, fazermos longos serões a conversar Agradeço-lhe muito toda a reflexão e o exercício de perguntar que me ensinou a fazer.

Desde quando sentiu que a Psicologia, em especial a Psicologia Clínica, era a sua vocação?

O meu interesse pela Psicologia surgiu da necessidade que senti de perceber a construção do sujeito humano e de desejar a possibilidade de cada pessoa encontrar uma forma de vida mais ajustada a si própria. Comecei a entusiasmar-me por esta área ainda no Secundário, pelo que foi, então, a minha primeira opção de entrada na Faculdade.

Num primeiro momento tive dúvidas em seguir Medicina Dentária ou Psicologia. A partir da 4.ª classe, depois da escola, costumava ajudar o meu pai no consultório dentário: na recepção aos clientes, na parte administrativa ou como assistente dentária. Aprendi muito com o meu pai, foi uma aprendizagem de que gostei muito; no entanto, impressionava-me ver sangue e suturas. Aquela experiência “empoderou-me” bastante, fez-me sentir capaz de desempenhar uma função, o que também enchia de orgulho o meu pai. Ele costumava dizer que eu era a melhor colaboradora que já tinha tido, e isso, claro, enchia-me de confiança.

Mais tarde, na adolescência, comecei a sentir que o meu esforço e dedicação não eram valorizados nem reconhecidos. Eu tinha vontade de fazer outras coisas para além da escola e do consultório, como, por exemplo, estar com os meus amigos. Considerava que tinha direito ao meu tempo de lazer, mas tinha de o fazer às escondidas, pois para o meu pai a palavra “lazer” não existia. Ele trabalhava 15 a 16 horas por dia,  incluindo sábados e domingos, e não fazia férias.

A escolha da Psicologia foi também uma manifestação de oposição ao meu pai. Saí de casa aos 15 anos, em revolta contra ele, e nunca mais voltei. Dez anos mais tarde, retomámos a relação que se manteve, com tranquilidade, até ao fim da vida dele. Dos 15 aos 18 anos, porque era menor, vivi com a minha tia Maria Orlanda, que me aceitou em sua casa de novo, e com quem fiz o mais extraordinário “workshop da vida” (risos). Aos 18 anos, entrei na Faculdade de Psicologia do Porto e passei a viver por minha conta, estudando e trabalhando ao mesmo tempo em vários sítios: numa fábrica, num sapateiro, nas vindimas, no teatro, como secretária.

Como surgiu o seu interesse pelas questões de género?

Em criança, eu tinha um ar de rapaz e, quando não estava no consultório do meu pai, os doentes perguntavam pelo seu “filho”, que era eu (risos), porque usava cabelo curto e roupas largas. Eu achava graça a esta confusão, e entrava na brincadeira sempre que alguém me julgava um rapaz. Até tinha um nome para mim nestas situações, que era Miguel. Desempenhava, assim, todos os papéis de género, masculinos e femininos. Lembro-me de um dia ter ido cortar o cabelo ao barbeiro com os meus amigos e o barbeiro achar que eu era um menino. A certa altura, ele decidiu mostrar-nos revistas pornográficas, e os meus amigos, todos rapazes, acabaram por lhe dizer que eu era uma menina. O que deixou o barbeiro muito aflito! (risos)

Este meu ar de menino trouxe-me uma liberdade muito grande, brincava com os meninos e não tinha quaisquer restrições de comportamento. Nunca senti que era diferente deles e que determinadas coisas não eram próprias de meninas; fazia tudo como eles: jogava à bola, ia à pesca ou à caça. Integrava-me bem em todos os grupos; quando estava com os meninos era como se fosse um deles, quando estava com as meninas, era claramente uma delas. Nunca senti que houvesse alguma coisa que não pudesse fazer!

Na infância, nunca vivi com meninas e meninos mas sim com pessoas. Esta é uma ideia muito polémica dentro de certos feminismos. Há pessoas extraordinárias e outras não; às vezes, estas pessoas são meninos, outras vezes, são meninas. Ainda hoje, é assim que penso a sociedade. Mais tarde, por volta dos 16 anos, com os namoros, isso começou a ser mais complicado porque os meus amigos gostavam de raparigas que não se comportavam como eu. A certa altura, pensei que nunca iria ter um namorado! (risos)

Para mim sempre foi muito claro o tipo de mulher que eu queria ser: não uma mulher que correspondesse só a metade do alfabeto, queria ser uma pessoa que pudesse fazer tudo o que existe no alfabeto. Não haveria nada que eu não pudesse fazer por ser mulher. Era uma rota definida desde muito cedo, tanto que, caso fosse necessário, chamar-me-ia Miguel para fazer tudo o que eu quisesse! (risos)

A minha bandeira foi sempre a de ser capaz de viver de forma independente e autónoma. Não o fiz apenas para responder à necessidade que Virginia Woolf tão sabiamente (dada a época) sublinhava, a de ter um quarto só para mim, mas porque não sentia justo as meninas não poderem fazer o que faziam os meninos, e não percebia muito bem as meninas e os meninos que não se sentiam capazes de fazer tudo o que gostassem (estou a dar o meu olhar de criança...). Nunca aceitei que as mulheres não pudessem ter autonomia, nem que houvesse uma relação que as obrigasse a viver uma situação de subserviência.

No geral, as mulheres são ainda educadas para serem dependentes e mães. A organização social continua fortemente construída neste sentido, existindo diversas “armadilhas” sociais que impedem a sua autonomia. Uma delas é a forma como se percepciona a maternidade, associando-a ao chamado “instinto maternal” e remetendo as mulheres para o espaço privado. As crianças precisam de cuidadores, de pessoas que gostem delas, não necessariamente os pais ou em particular a mãe.

Uma batalha dos primeiros feminismos foi o divórcio, que surgiu associado à libertação da mulher. No entanto, esta luta não destruiu a manutenção do casamento enquanto instituição de regulação social. Essa conquista fantástica que foi o divórcio (não o nego), não deixa, todavia, de ser uma forma de manutenção da instituição casamento, não o anulando, mantendo o regime jurídico como regulador das relações de conjugalidade.

Em 1949, no livro O Segundo Sexo, Simone Beauvoir referia que “uma das maldições que pesa sobre a mulher está em que, na infância, ela é abandonada às mãos das mulheres”…

As mulheres reproduzem o sistema social hegemónico, tendo sido educadas para isso. Não podemos condenar essas mulheres, mas temos de reflectir sobre a realidade social. No momento em que os rapazes e as raparigas forem educados de outra maneira, vamos ter uma profunda transformação social.

A área do privado é uma das áreas mais difíceis de mudar porque está ligada às emoções. A mitificação da maternidade também não traz nenhum benefício para as mulheres, perpetua antes, com mais veemência, o seu lugar social.

E, como surgiu o interesse pela Sexualidade?

Tem a ver sobretudo com o meu percurso profissional. Colaborei muitos anos com a Associação para o Planeamento da Família (APF), onde, muito cedo, assumi o cargo de Coordenadora Regional da Delegação do Porto. Esta associação é uma organização não-governamental centrada nas questões do planeamento familiar, da sexualidade e dos direitos sexuais e reprodutivos. Trabalhei directamente no terreno, nomeadamente na área da educação sexual e no apoio a adolescentes, no centro de atendimento para jovens – o primeiro em Portugal – criado na Delegação Regional do Porto da APF. Devo muito a esta Associação; para mim, foi um verdadeiro “ninho” de desenvolvimento profissional. O doutoramento nesta área da Sexualidade – sobre os discursos em relação à homossexualidade – foi uma consequência óbvia do percurso. Temáticas que abordo na minha prática clínica e que, junto com outras, tiveram eco na docência na Escola Superior de Educação e no Instituto Superior de Serviço Social do Porto.

Como surgiu o Psicodrama na sua prática profissional?

O conhecimento do Psicodrama começou curiosamente no Teatro e não na Faculdade, através do meu encenador, que me deu a conhecer Jacob Levy Moreno, o fundador do Psicodrama. Fiz teatro durante alguns anos – no Teatro Universitário do Porto, no Teatro Experimental do Porto e, mais tarde, como co-fundadora de Os Comediantes. Esta é outra área constituinte para mim, pois considero muito libertador o trabalho de preparação de actor. Mais tarde, tive de escolher entre a plateia e o palco, e optei pela plateia! (risos

Os anos em que trabalhei no teatro foram uma dádiva que agradeço. A aprendizagem desenvolvida através do teatro foi-me muito útil para a área da Psicologia, sobretudo para as dinâmicas de grupo. No contexto da Psicologia Clínica, trabalho também em Psicoterapia de grupo através do Psicodrama, que creio ser um contexto mais rico do que o individual.  

Após a licenciatura, fiz um curso de pós-graduação – Psicoterapia da criança e do adolescente –, onde o psicodrama foi abordado pelo Dr. José Teixeira de Sousa, com quem aprendi muito no início da minha caminhada enquanto psicóloga. A partir desse encontro, iniciei a minha formação como directora de Psicodrama, que é hoje a minha psicoterapia de eleição, visto ter uma abordagem muito abrangente e uma gramática de leitura com grande abertura. Nele, a regra é o sujeito, devendo ser ele a construir-se a si próprio, a encontrar as suas verdades. O poder está no indivíduo e não no terapeuta. Esta perspectiva está absolutamente ligada ao princípio de respeito pelos Direitos Humanos e à vontade de construir um mundo melhor, onde todos tenham lugar.

Considera que a Psicologia e a Psicanálise, na sua História, têm contribuído para o reforço e legitimação das desigualdades entre mulheres e homens?

Sem dúvida. Considero que a Psicologia é um dos instrumentos de conhecimento de maior controlo social, precisamente porque nos fornece leituras do desenvolvimento, em si reprodutoras do sistema social. Alguns modelos e teorias da Psicologia perpetuam essa lógica desigual, como por exemplo, algumas teorias ligadas ao instinto maternal e à forma como se interpreta a teoria da vinculação, uma vez que esta não se aplica só às mães ou às mulheres. A vinculação constrói-se em relação às pessoas que estão mais perto da criança, aquelas que dela cuidam. Na nossa cultura, normalmente é a mãe, mas isso é algo cultural e não biológico. Não é a teoria da vinculação que está errada, mas sim a interpretação que dela se faz com base em elementos culturais.

Mais do que a Psicologia, a Psicanálise reforçou os papéis diferenciadores de pai e de mãe, associando-os, e com isso fortaleceu o que era o masculino e o feminino. No entanto, saliento que Sigmund Freud tem um texto em que refere os papéis de pai e mãe, e é muito claro ao situá-los na época, sublinhando: “o papel do pai e o papel da mãe, tal como são vividos na minha época”. Esta segunda parte caiu pois, apesar de ter sido uma citação muito repetida, raramente o foi na sua totalidade. O papel de pai e o papel de mãe têm sido abundantemente atribuídos ao pai e mãe biológicos. De facto, na sua época, estes papéis eram muito rígidos, sobretudo se referidos a famílias pertencentes à burguesia. Felizmente, existem cada vez mais teorias que questionam esta rigidez de papéis, contribuindo para a sua desconstrução. 

Também a interpretação dada à anatomia e à fisiologia contribuiu para a perpetuação dos papéis sociais diferenciados. A forma como são lidas as dissemelhanças fisiológicas ajudou a estigmatizar as diferenças culturais e sociais.

Qual o seu papel nesta desconstrução?

Em todas as minhas actividades profissionais, tenho presente a disseminação da discriminação com base no género e na orientação sexual. São duas construções estruturantes da nossa organização social. Tudo o que eu puder fazer para denunciar os mecanismos que nos enredam e nos prendem de tal forma que nos fazem estar condenados ao corpo com que nascemos, fá-lo-ei!

Na prática de Psicologia Clínica, utiliza uma perspectiva feminista?

Sem dúvida! Não posso compreender que muitas pessoas digam que não são feministas quando praticam no seu dia-a-dia valores feministas. Esta negação significa um total desconhecimento do verdadeiro significado dessa palavra. O feminismo é sobretudo um modelo de interpretação social e de denúncia das desigualdades de género, centrando-se nos direitos das pessoas. É uma teoria política que denuncia a subjugação a que as mulheres ainda estão sujeitas, na actualidade.

Quais são os principais problemas e necessidades das pessoas que a procuram nos seus consultórios?

É uma pergunta muito ampla e a resposta teria de ser tão ampla quanto a pergunta.

Para além das questões da sexualidade, a que as pessoas na generalidade mais me associam, a minha intervenção é alargada ao desenvolvimento humano e à psicopatologia. Poderia, em resumo, dizer que são o bem-estar, a saúde mental e saúde sexual o foco da minha intervenção. 

Relativamente à área da sexualidade, uma das queixas frequentes liga-se ao desejo sexual e ao prazer. Com mais frequência são as mulheres que se queixam. A maioria das vezes, não por um mal-estar pessoal, mas por dificuldades relacionais. Algo que traz problemas no relacionamento com as suas parceiras ou os seus parceiros. Houve uma época em que ele era encarado como uma doença. Por parte da ciência médica, o desejo e o prazer não faziam parte do mundo que era considerado “das mulheres”. Acreditava-se que eram doentes, aquelas que tinham desejo. Mais tarde, no século XX, é a ausência de prazer que passa a ser considerada uma disfunção. Transitámos de uma “ditadura” para outra, e isso é muito difícil de desmontar.

É preciso que cada pessoa encontre o seu ritmo de desejo e de prazer sexual sem que viva com impossibilidades ou obrigações socialmente impostas. Este tema, do desejo e do prazer, é um tema desafiante no modelo dicotómico do género, por estarem, uns e outras, obrigados e obrigadas a cumprirem expectativas ligadas aos seus papéis de género.

A sociedade contribui para a reprodução destes modelos regidificados. O que eu pretendo é denunciar aquelas duas obrigatoriedades, para que cada pessoa, com tranquilidade e serenidade, consiga desenvolver o que sente e o que quer. Outra tarefa difícil é ainda a articulação, em casal, das vontades de cada um dos elementos.

No seu entender, o que esperam da paixão os homens e as mulheres?

As expectativas sobre a vivência da paixão apresentam-se de modo diferente nos dois sexos e, mais uma vez, se relaciona com a educação. É um clássico, as mulheres queixarem-se mais de falta de atenção, de um abraço, de romance, e os homens queixarem-se de falta de encontros eróticos e sexuais e da falta de iniciativa por parte das mulheres. É claro que falo da generalidade, há muitos homens e mulheres que não são assim, e quando comparados os casais heterossexuais com os casais de gays e de lésbicas, verifico que em qualquer um deles, estes temas surgem como factor de mal-estar.

Outro conceito que pode gerar um conflito interior é o do amor e a sua relação com a sexualidade. Há uma série de comportamentos previstos para que os elementos do casal se considerem amados. Nesta área, os papéis de género quanto à organização das tarefas como a domesticidade e o exercício da parentalidade são, muitas vezes, variáveis referidas.

A ética da Saúde é muitas vezes um excelente campo para a manutenção de alguns comportamentos socialmente esperados, e muitos são resultado de princípios religiosos que primeiro estiveram presente no Direito e depois passaram para a Saúde. A orientação sexual é um claro exemplo do que afirmo: os comportamentos sexuais entre pessoas do mesmo sexo foram primeiro considerados pecado, mais tarde crime, e posteriormente doença. Em cada discurso dominante, algumas das alterações que parecem ser aparentemente libertadoras servem apenas para não alterar a ordem instituída. Temos vindo a alcançar muitas, e muito importantes, reformulações liberais, mas ainda não foi possível a criação de uma nova ordem, uma ordem que permita a cada ser humano uma organização de vida que, não invadindo direitos humanos, não seja alvo de discriminação por parte de uma qualquer hegemonia, seja ela cultural, religiosa, estatística ou outra.

Como avalia a saúde sexual dos/as portugueses/as?

Há poucos estudos sobre a matéria, embora os existentes sejam suficientes para enumerar muitas das dificuldades. Todavia, não há uma equivalência de resposta dos serviços públicos de saúde. Há consultas de Sexologia em alguns hospitais públicos, dependendo maioritariamente da boa vontade dos técnicos e da consciência desta necessidade de resposta. O estudo da sexualidade humana começa agora a surgir, timidamente, nos curricula dos cursos de Psicologia, de Medicina, de Enfermagem, de Fisioterapia. Quem procura formação nesta área tem de a obter fora das instituições oficiais, encontrando cursos de formação em associações científicas, como é o caso, em Portugal, da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica. Claro que esta insuficiência tem implicações na prática clínica e no abandono das queixas dos e das pacientes relativamente a estas temáticas.

Qual o papel da educação na formação sexual dos jovens? Considera que tem sido bem-sucedida?

Em termos de educação sexual, num dado momento, fez-se muito, depois essa evolução cessou. Refiro-me aos anos a seguir ao 25 de Abril, particularmente na década de 80 e início da década de 90 do século passado. E, disso ficou uma sensação menos gratificante. O resultado em termos de avanços na legislação foi maior do que os avanços feitos no terreno.

Como encarou a recepção do prémio ILGA/Portugal, em 2003?

Claro que é sempre bom que o nosso trabalho seja reconhecido como válido e fico muito contente com isso. No entanto, não posso deixar de lamentar a necessidade deste prémio, por ser exactamente revelador da discriminação ou da diferente valorização do amor entre pessoas do mesmo sexo.

Porque abraçou a causa da co-adopção?

Pelo que ficou dito, a defesa da co-adopção era óbvia! Primeiro, porque considero que a criança tem direito a que as pessoas que querem cuidar dela o possam fazer, independentemente do modo de organização de vida, desde que isso não viole direitos de ninguém. Temos de ser capazes de nos organizar para que aqueles cuidadores legitimamente possam zelar pela criança. Além disso, o sistema vigente não tinha em conta as pessoas e eu defendia acima de tudo a liberdade. Sou contra todos os sistemas que se oponham às pessoas. O modelo de família tradicional é excelente para alguns, mas não o é para todos! A Biologia mostra-nos com clareza que, quanto maior a diversidade, maior a probabilidade de vida, e eu não consigo ver um só sistema de funcionamento, nós somos todos diferentes! É o direito à vida, à dignidade, que está aqui em causa!

Actualmente, que tema gostaria de investigar?

Muitos haveria. A questão do desejo sexual é um tema sem fim, que merece uma investigação muito cuidada.

Ao longo da vida, o que mais a realizou?

Realiza-me estar no lugar onde estou. Em termos macro, se voltasse atrás, faria tudo igual. Realiza-me também ter sido capaz de fazer esta caminhada sem cair, com todas as ajudas que já referi. Regozijo-me igualmente com as últimas conquistas no plano jurídico no que respeita às questões de género. De igual modo me aprazem, como cidadã, todas as transformações operadas em Portugal após o 25 de Abril, embora numa fase inicial não tenha contribuído especialmente, dada a minha idade. O facto de ter estado empenhada em toda a legislação sobre a educação sexual, particularmente no que diz respeito às questões da igualdade de género e da identidade de género, realiza-me.

Na página pessoal, deixa-se fotografar sentada no tronco de uma árvore. Qual o significado dessa representação?

Essa fotografia é do Diário de Notícias, e acompanhou uma entrevista. O ficus macrophylla é uma árvore particular, e belíssima pela sua estrutura dinâmica. As raízes tanto crescem de baixo para cima como de cima para baixo. É uma bela metáfora da vida! A fundação pode dar-se em qualquer altura. Não estamos condenados às condições com que nascemos.