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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.35 Lisboa jun. 2016

 

DIÁLOGOS

Maria Barroso, a Directora do meu Colégio

João Diogo Nunes Barata, Pedro Cordeiro


 

João Diogo Nunes Barata (JDNB): Sobre Maria de Jesus Barroso, ocorre-me dizer o seguinte: foi uma grande Mulher, como esposa, mãe e defensora dos direitos das pessoas do seu género; foi uma Cidadã exemplar, como defensora da Liberdade e da Democracia e como promotora de inúmeras iniciativas no campo da solidariedade social; foi alguém que à Cultura dedicou um labor incansável até ao fim da sua vida (e já lhe direi porquê); foi uma primeira-dama (para utilizar um jargão sem cobertura constitucional) exemplar, pela elegância natural, pela proximidade com as pessoas e pela maneira como soube tirar partido da sua posição para a pôr ao serviço dos mais fracos e vulneráveis. E, por último (será “por último”?), recordaria a Amiga, que para mim, por razões ligadas ao facto de ter estado separado de meus Pais pela distância, quando estive no Colégio, ela ter sido para mim uma segunda Mãe.

Pedro Cordeiro (PC): Gostaria de pegar, mordendo o isco que lançou, pelo final das suas palavras e pela noção de Maria de Jesus Barroso como Mãe que foi de tantos alunos do nosso Colégio. Por motivos biológicos, já não apanhei a fase em que havia internato no Moderno nem as colónias de férias na Foz do Arelho, mas o cruzamento da vida escolar com a amizade familiar que nos unia levou a que Maria de Jesus fosse, para mim – e nisto as gerações batem certo –, uma espécie de Avó emprestada. Amiga dos meus Avós Maria Antónia e Joaquim Catanho de Menezes, Mãe e Avó de amigos, foi referência que aprendi a acarinhar e respeitar desde criança. Víamo-nos na escola, mas também em festas de família – a dela, a minha, tantas vezes uma – e ocasiões ligadas às muitas causas que promoveu.

JDNB: Falar de Maria de Jesus Barroso Soares é falar de um ser humano excepcional, não só porque assumiu posição de relevo em vários sectores de actividade, mas porque deixou em todos eles uma marca indelével, pela entrega total com que assumiu o papel que neles lhe coube, bem como pela coerência que sempre demonstrou entre o pensamento e a acção. Conheci a Sra. D. Maria de Jesus (assim a tratei sempre) quando aos 6 anos de idade fui internado, com meu irmão, no Colégio Moderno, onde ela não só geria parte importante da logística da escola, como, por vezes, substituía professores temporariamente impedidos. Lembro-me de a ter tido como professora de Português e Francês, por curtos períodos, é certo, mas os suficientes para guardar dela a memória de uma professora que incentivava os alunos a aprender em vez de se limitar a transmitir-lhes conhecimentos. Mencionarei também as iniciativas que tomou para alargar os horizontes culturais dos alunos, facultando-lhes o acesso a vários domínios das artes, nomeadamente o teatro. Passei depois durante sete anos as férias de Verão na colónia de férias que o Colégio tinha na Foz do Arelho, onde tive oportunidade de conviver com a família Soares e de beneficiar do ambiente familiar que aí souberam criar com os jovens que se encontravam afastados de seus Pais, residentes em África. Este era um traço distintivo do nosso Colégio e para a sua consolidação tiveram um papel determinante a atenção constante, a bondade, o cuidado no trato com que a Sra. D. Maria de Jesus sempre orientou a sua acção.

PC: Também eu recordo a ternura com que sempre se me dirigia e que conservou até ao último encontro, no seu derradeiro dia com saúde, no dia da festa das crianças da infantil do Colégio (entre as quais a minha filha do meio, hoje com a idade que eu tinha quando formei as primeiras memórias de Maria de Jesus). A sua presença discreta, frágil, fisicamente pequenina mas moralmente um colosso, marcava toda e qualquer celebração onde estivesse (escolar, familiar, religiosa). Nessa ocasião só nos cumprimentámos brevemente. Mas umas semanas antes vira-a no seu gabinete, onde sempre me dirigia à saída das aulas que dou no Colégio – outrora aluno, hoje professor, mais uma interação do ciclo da vida em que se integrou esta amizade. Era fim de Maio e conversámos com tempo. Assinalava-se a Quinta-feira da Espiga e levei-lhe, como todos os anos, um raminho que comprara na rua, pela fresca, à ida para o Colégio. Comoveu-se com a oferta e ali ficámos a pôr a vida em dia.

JDNB: Também eu, embora tenha saído do Colégio, acabados os meus estudos secundários, não deixei de manter contacto com a minha escola, tanto mais que a Faculdade que fui frequentar, a de Direito, estava ali mesmo ao lado, o que me facilitava as visitas, nas idas e vindas para a Faculdade.

PC: Que engraçado, eu frequentei a Clássica, mas do outro lado da Alameda (Letras), o que favorecia as passagens pelo Colégio, onde, aliás, tinha familiares e amigos.

JDNB: Sempre que lá ia, não deixava de estar com a Sra. D. Maria de Jesus, que se interessava pela evolução dos meus estudos e me perguntava sobre meu irmão, por quem tinha também sincera amizade. Este interesse constante pelo percurso dos antigos alunos, que ela sempre teve, é prova da autenticidade dos seus sentimentos e da importância que dava à manutenção dos laços de afecto que no Colégio se haviam tecido. Mais tarde, quando trabalhei com o Dr. Mário Soares, como seu assessor quando foi primeiro-ministro e como seu chefe de gabinete quando Presidente, conheci de perto as facetas da Sra. D. Maria de Jesus como Mulher e como Cidadã. Tirando partido da influência que naturalmente a sua posição lhe proporcionava, pô-la ao serviço dos mais desfavorecidos, que a ela constantemente recorriam, expondo os seus problemas e contando com a sua ajuda, que nunca lhes faltou.

PC: Falava do país, do mundo, cujo futuro a inquietava e que tanto fez por melhorar. De guerras e injustiças, mas também de fé, de livros, amigos, pessoas, memórias. “A tua Avó, como anda?”, perguntava-me. Às vezes ia à secretária buscar uma agenda alucinante, de tão preenchida. Mostrava-ma, como quem meio se queixa de não ter descanso, meio se orgulha de não parar. Debalde alguém sugerir que abrandasse. Trabalhou sempre, e ainda bem.

JDNB: Noutros campos, todos conhecemos as iniciativas de carácter social que pôs em marcha, nomeadamente as que visavam o combate contra a difusão de programas de televisão em que se propagandeava violência e as que favoreciam políticas de apoio às crianças e a outros sectores mais frágeis da sociedade. Como mulher de um político que teve cargos públicos de grande responsabilidade e representação (e foram todos os que Mário Soares desempenhou a partir de 1974), Maria Barroso foi alguém que soube conciliar com o devido equilíbrio a modéstia, que era seu timbre, com as exigências que a sua posição, digamos, institucional impunha. E fê-lo sempre com uma elegância e uma distinção que todos reconheceram como um exemplo a ser seguido pelas futuras primeiras-damas.

PC: Era exemplar na postura. Mesmo em criança (e eu era-o quando entrei para o Colégio, aos 10 anos), era impossível não reparar nos colares alinhados, no cabelo impecável, no vestido sem um vinco. Mas essa elegância não lhe tirava proximidade: havia o sorriso, havia as mãos que reforçavam o que dizia e que às vezes – que saudade! – agarravam as nossas. Havia diminutivos e palavras de carinho que enchiam o coração.

JDNB: Também pude testemunhar, em mais de uma ocasião, como, em representação de seu marido em actos oficiais no estrangeiro, foi Embaixadora da nossa Cultura, exprimindo-se em francês, inglês ou italiano com uma fluência que não raras vezes causou a admiração da audiência. Quando fui embaixador em Roma, tive várias vezes a honra de a hospedar na nossa residência quando das suas deslocações para contactos relacionados com o seu empenho pela busca da Paz, quer junto de instituições italianas (que lhe outorgaram o prestigiado prémio “Insieme per la Pace”) quer junto de entidades religiosas, nomeadamente quando da sua campanha pela paz em Moçambique.

PC: Só tive conhecimento da acção de Maria de Jesus em Moçambique muito mais tarde, o que de resto é consentâneo com a discrição que sempre impunha a tudo quanto fazia. Recentemente, em missas mandadas rezar em sua memória, padres e fiéis evocaram a simplicidade com que participava – a partir do seu reencontro com a fé, em 1989, depois do acidente do João – nas celebrações. A generosidade com que se oferecia, horas antes da missa, para ajudar outros membros da comunidade a fazer as leituras (com outro talento a que já iremos). Se há coisa que toda a gente destaca (ainda há dias o recordava com a neta Mafalda) é esta disponibilidade permanente para os outros, mesmo quando tinha funções de responsabilidade ou, no mínimo, muito exigentes em termos de tempo. Se em miúdo me impressionava vê-la tantas vezes na escola (era, então, primeira-dama), não menos impressionante foi que até aos 90 anos continuasse a lá ir quase diariamente, antes de seguir para a sua Fundação Pro Dignitate. Aquela presença perene fez com que nos convencêssemos, incautos, de que nunca deixaria de ali estar. A silhueta “pequenina”, como a própria se descrevia, era afinal um pilar sem o qual as pernas hoje me tremem ao entrar no pátio do Colégio.

JDNB: Por último, deixo ainda um outro testemunho do seu permanente interesse por tudo o que se relacionava com a Cultura. Maria Barroso foi até ao último dia um dos membros mais distintos do Conselho Literário do Grémio Literário, órgão que propõe e organiza manifestações nos vários domínios culturais naquela prestigiada instituição. Como membro que sou também daquele órgão, constatei a sua grande assiduidade e a total disponibilidade com que colaborou nas diferentes iniciativas, que enriqueceu com os especiais atributos que tinham feito dela a grande actriz que todos nós lamentamos ter sido obrigada a abandonar os palcos quando estava em pleno domínio da sua arte.

PC: É verdade. Mais uma das vergonhas da ditadura que ela tanto combateu. Chegou a partilhar palco com o meu tio-avô Augusto de Figueiredo… mas, curiosamente, os meus familiares que conheciam Maria de Jesus de há muito dizem que nunca deixou de ser actriz. Ou seja, como diz o Senhor Embaixador, os atributos nunca a abandonaram, e escolheu pô-los ao serviço das suas causas. Felizmente nunca deixou de dizer poemas, e também deles fez armas pela justiça, democracia e liberdade. Sempre achei muito engraçado um costume que tinha: por saber tantos poemas de cor, de repente, a propósito de algo de que falávamos, a doçura na voz enchia-se de força e fulgor, ao converter-se o discurso na declamação de um verso que algum assunto lhe fizera lembrar. Dizia-os com uma paixão, um crescendo a que era impossível ficar indiferente, e que era o mesmo perante uma plateia ou entre amigos. Hoje, quando me dão aquelas saudades que mais doem, socorro-me do manancial que há, felizmente, de declamações suas, discursos, entrevistas. Umas vezes presto atenção ao que está a dizer (ainda surgem coisas para mim inéditas), de outras já conheço o conteúdo mas deixo-me estar apenas a ouvir o timbre daquela voz terna, a mesma que um dia me veio acordar no Vau, às seis da manhã, porque aceitara o seu convite para acompanhá-la na caminhada diária de nove quilómetros até aos molhes da Rocha. “Sempre queres vir comigo?” “Então não quero, querida amiga?” Quem me dera ir outra vez…