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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.35 Lisboa jun. 2016

 

HOMENAGEM A MARIA BARROSO

Homenagem a Maria Barroso

Júlia Maranha*

* Professora de Matemática aposentada e membro da direcção da Pro Dignitate, juliaribasmaranha@gmail.com


 

A Maria Barroso não cabe nas palavras – ultrapassa-as.

Sensibilidade Inteligência Coragem são algumas das suas muitas qualidades.

Na sensibilidade estão a arte, a voz, o poder encantatório da palavra, o entendimento do outro, o sentir com, a generosidade, o amor ao marido, aos filhos, aos netos e à humanidade, a procura de estar presente onde se sofre, onde reina a injustiça.

Na inteligência estão ainda, e sempre, a sensibilidade, a compreensão do mundo, a cultura, o amor à sabedoria, a inteligência posta ao serviço do mundo. O amor ao seu Colégio e a quem nele trabalhava, o orgulho de ter continuado a obra do seu sogro e de ver os progressos feitos por sua filha Isabel no Colégio Moderno.

A coragem sempre presente para enfrentar dificuldades, e muitas teve, vítima de injustiças, sem nunca deixar de amar e respeitar o próximo. Lutadora incansável, está na política pelo que esta tem de mais nobre – a justiça e o serviço aos outros.

É fraterna, espalha o afecto à sua volta, tem fé no ser humano, para ela irmão é irmão de sangue, amigo, habitante do mesmo país, cidadão de todo o Mundo.

A fraternidade, diz sempre, bebeu-a na família, com todas as diferenças entre irmãos, pais, avós, e alargou-a à família humana; não era apenas tolerância, era amor e perdão.

Para Maria Barroso, não há favoritos entre portugueses, africanos, timorenses, refugiados, velhos, jovens, mulheres, homens. Ela é o exemplo do não envelhecimento intelectual – é jovem de espírito, na família, na profissão, nas instituições públicas, no voluntariado e desde muito jovem até ao fim da sua vida.

É de uma energia prodigiosa, disciplinada, com grande sentido de equilíbrio, acompanha a família, interessa-se pelos outros, tem uma palavra amiga para quem encontra, desde as pessoas ditas importantes até ao cidadão comum.

Gostam dela e gosta que gostem dela.

MARIA BARROSO E O TEATRO

Tímida e muito nova, no Liceu Filipa de Lencastre, diz versos e todos se espantam com a sua transfiguração, sentimento e força ao dizê-los.

Quer ir para o Conservatório estudar Teatro, a mãe fica muito preocupada, não gosta, mas o pai confia nela e põe como condição que continue a estudar e tire um curso superior – assim será.

No Teatro Nacional e sob a direcção de Amélia Rey Colaço, que muito admira e que igualmente a aprecia, irá ter uma vida dura, de muito trabalho, ensaios, aulas na Universidade, espectáculos.

Amélia Rey Colaço leva à cena Benilde ou a Virgem-mãe, em que Maria de Jesus é a Benilde e de quem José Régio dirá, em carta dirigida à Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, datada de 4 de Dezembro de 1947: “Maria Barroso encarnou a protagonista com uma justeza, uma inteligência, numa tocante frescura e sensibilidade, que só posso resumir dizendo que já não penso, eu, na minha Benilde, sem a ver através da figura e criação de Maria Barroso” (Santos, 1989, p. 70).

Jorge de Sena (Seara Nova, 13/12/1947, citado por Xavier, 2012, p. 85) dela dirá: “Maria Barroso constitui uma promessa de uma grande actriz trágica, capaz de encarnar qualquer papel, cuja serena tensão supera a agitação dramática, a sua Benilde ficará, desde já, como uma das mais belas interpretações do nosso teatro contemporâneo.”

A Casa de Bernarda Alba, de García Lorca, é outra das escolhas de Amélia Rey Colaço, em que Maria Barroso representa a filha rebelde Adela. A peça segue para Santarém e para Coimbra. Maria Barroso dirá, muitas vezes, que só quando foram representar a peça a Coimbra é que o regime se apercebeu do significado que ela tinha, acrescentando, sempre, que foi a noite mais linda que teve no Teatro, pois tudo quanto era intelectualidade de oposição estava lá – o Paulo Quintela, director do TEUC, o Carlos Oliveira, o Joaquim Namorado, o Arquimedes Silva Santos, o Tossan… E, referindo-se à personagem que representou, dirá frequentemente que, quando partiu a vara em palco, o Teatro, que estava à cunha, ia vindo abaixo com os aplausos. Porque era aquilo que nós, naquele momento, estávamos sofrendo também no país. Por isso ela fazia aquela cena de alma e coração. A sua revolta era sentida, vinha mesmo cá de dentro. Contará ainda que a assistência começou, então, a aplaudir ainda mais e que os estudantes atiraram uma pasta com as fitas da Faculdade de Letras, azuis escuras, para o palco. De de repente, vinda dos bastidores, entrou no palco uma estudante da Universidade que lhe colocou a capa.

A partir daí, com aquela sublevação e o entusiasmo que a cena teve no público – a Bernarda Alba era a encarnação da ditadura, da prepotência –, a Censura percebeu o alcance da peça e o poder de contestação ao regime. A representação, no Porto, já não foi permitida. Em 1948, no princípio do ano lectivo, Maria Barroso foi informada de que o Teatro Nacional a demitira por indicação do Governo. Tratou-se de uma injustiça e de uma perda para o Teatro em Portugal, mas ela não é mulher para parar e continua os estudos na Faculdade.

Nunca a vi odiar ninguém, não é capaz de magoar quem quer que seja; o seu respeito pelos outros é incondicional.

Prepara a Voz Humana de Jean Cocteau, a apresentar no S. Luís, que na véspera será proibida pelo Secretariado Nacional. Contudo, mesmo sabendo-o, no próprio dia da apresentação, resolve ir para o Teatro e o espectáculo acontece, com a sala cheia. Dirá, em castelhano, um poema contra o racismo na América e termina com a “Ode à Liberdade” de Jaime Cortesão. Não haverá segunda representação.

MARIA BARROSO E A EDUCAÇÃO

A educação é a sua preocupação permanente. Os seus alunos recordam-na dezenas de anos depois e têm por ela grande amizade. Gosta de dar aulas, pelo que requer o diploma do ensino particular. Mas, assim como foi excluída do Teatro Nacional, também não lhe permitiram leccionar no Colégio.

Assim, lhe cortaram, além duma brilhante carreira artística, uma carreira profissional na docência. Contudo, acompanha sempre a vida do Colégio e manifesta preocupação pedagógica, afirmando, frequentemente que a juventude é o nosso futuro e esperança, pelo que evoca, particularmente, os pais e educadores para que, com sabedoria, contribuam para o renascimento de uma sociedade mais equilibrada, justa e solidária, sem pobreza, desemprego e fome. Tem como lema que todos podemos fazer mais e melhor, se quisermos.

Enfrenta grandes dificuldades no Colégio, os alunos não são muitos, levanta-se pelas cinco da manhã para, no seu carro, ir ao mercado comprar alimentos frescos e mais baratos. Está sempre preocupada com o pagamento aos professores e empregados, pedindo, por vezes, dinheiro emprestado a amigos, que sempre pagou.

Maria de Jesus recorda muitas vezes com saudade as férias no Algarve com pais e irmãos, amigos e primos, quando comiam ao ar livre, cantavam e diziam versos, nas noites quentes de Verão. Diz frequentemente que a educação vem principalmente da família e do amor que liga as pessoas entre si. Estas férias continuaram depois de casada, com o marido, sogro, filhos, sobrinhos e alunos internos do Colégio. Muitos, por serem das antigas colónias, não podiam ir a casa todos os anos e ficavam com eles na casa da Foz do Arelho.

A Maria de Jesus é uma mulher de cultura, estuda e tem aulas de Inglês e de Alemão. Também fala Italiano, pois tem uma cunhada italiana e, querendo que ela se sentisse bem em Portugal, foi aprender italiano antes da sua chegada.

Dela dirá Sophia de Mello Breyner:

“Porque os outros vão à sombra dos abrigos E tu vais de mãos dadas com os perigos Porque os outros calculam, mas tu não” (Andresen, 1992, p. 309).

MARIA BARROSO E A POLÍTICA

Maria Barroso é um elemento activo na campanha de Norton de Matos, em 1949. Mário Soares e ela aproveitam essa altura para anunciar o seu casamento aos pais e irmãos, mas, na véspera das eleições, a 13 de Fevereiro, ele é preso, bem como todos os organizadores da campanha. Assim, casam por procuração, a 22 de Fevereiro.

O ano de 1970 é, para ela, ano de muitos desgostos: com intervalos de meses, morrem o seu pai, com mais de 80 anos, a mãe, com 80, e o sogro, com 92 anos. São desgostos terríveis que a fazem sentir-se muito deprimida e triste. Mas a vida continua e Maria de Jesus não é mulher para desistir.

O seu nome é proposto pelos círculos de Alpiarça e é escolhida como candidata a deputada à Assembleia Nacional por Santarém. Juntamente com o engenheiro Lino Neto e António Reis, faz a campanha com o rigor que lhe é habitual. Mas, não havendo eleições livres, é claro, não é eleita.

Em 1973, reúne-se na Cooperativa de Estudos e Documentação, na Avenida Duque de Ávila, onde se organizam conferências e debates vários. Aí decidir-se-á que falará no III Congresso de Aveiro (é a única mulher a intervir), onde dirá “O Congresso não é dádiva do regime, é conquista nossa” (Xavier, 2012, p. 169). O jornal República (1973) noticia que Maria Barroso “é o símbolo da mulher portuguesa e assim o entendeu a assistência do Congresso, pela apoteose que a envolveu” (Xavier, 2012, p. 169).

Também na Cooperativa de Estudo e Documentação os companheiros da Acção Socialista Portuguesa (ASP) decidem que ela estará presente na Alemanha (novamente a única mulher), onde se definirá o futuro do Partido Socialista. A fundação do PS está marcada para 19 de Abril de 1973 em Bad-Munstereifel e ela vai mandatada para não votar na fundação do PS, e assim fará. Mas, felizmente, ela e aqueles que representa são vencidos pela maioria a favor da fundação.

No ano seguinte ocorrerá o grande dia 25 de Abril, o fim da mais longa ditadura europeia, com os seus 48 anos de perseguições. É o renascer da esperança e da confiança uns nos outros. Maria Barroso e Mário Soares regressam no Sud Express a 27 de Abril de 1974; com eles vêm alguns dos exilados. São saudados e aplaudidos pelo caminho e uma multidão entusiástica espera-os em Santa Apolónia.

Maria Barroso será candidata pelo PS às primeiras eleições livres, pelo círculo de Santarém. Fará comícios e mais comícios, por terras que tão bem conhece, conversa com as pessoas ao ar livre, em associações, em casas particulares, sempre tendo em vista o respeito pelos direitos humanos. Não está interessada em ser eleita, quer dedicar-se ao Colégio.

Será candidata pela terceira vez na lista do PS, desta feita pelo Algarve. É eleita deputada, reservando sempre tempo para o Colégio, que não quer abandonar. É nomeada vice-presidente da Comissão Parlamentar para a Educação, de que Nuno Abecassis é o presidente, lugar em que se sente à vontade, pela experiência acumulada no Colégio Moderno e no Sindicato dos Professores do Ensino Particular.

Combinará a actividade política com o seu grande amor à arte, dizendo poemas em todas as ocasiões e tornando-se reconhecida como a Declamadora do Povo. Uma semana antes da queda, esteve na Biblioteca Orlando Ribeiro dizendo, de cor, um poema, com a sua voz forte e bem timbrada, numa homenagem à amiga Luísa Dias Amado.

Nas eleições legislativas de 1985, o PS terá a maior derrota de sempre, mas Mário Soares não desiste de se candidatar à Presidência da República, apesar de as sondagens lhe atribuírem cerca de 8%. Maria de Jesus será a grande lutadora pela vitória do marido, entusiamando-o a não desistir. Andará por todo o país, vai onde ele não pode ir, sendo a campanha feita por ambos. Maria de Jesus é activista política, acredita que tudo é possível. A derrota do PS é para ela um desafio e faz discursos de norte a sul em cima de camionetas, de escadas, de escadotes, em câmaras municipais, nas ruas. Vai aos Açores e à Madeira.

Organiza as suas equipas e vai. São discursos e mais discursos, de manhã à noite; não se cansa, dialoga, ouve e é ouvida com respeito e atenção. Sensibilidade e firmeza são as suas armas.

Apoiam-na gentes das artes, da cultura, da aristocracia e, principalmente, as camadas mais humildes da população. A sua presença, em regiões onde não se espera que apoiem Mário Soares, será fundamental para a vitória do marido.

A luta política é para ela respeito recíproco; as pessoas entendem-na e ouvem-na, tal como ela as ouve, concordando ou discordando e dizendo sempre que cada um deve pensar pela sua cabeça e de acordo com o seu sentir mais profundo.

Ganha-se ou perde-se, diz, o necessário é não desistir e lutar pelas convicções. É uma verdadeira democrata.

No seu Colégio há alunos com autocolantes que dizem “este não é o meu candidato” e que os tentam esconder dela. Ela diz-lhes não escondam, têm todo o direito de o dizer e dá um beijo a um deles.

MARIA BARROSO EM BELÉM

Continua a ir ao Colégio, agora mulher do Presidente da República; a filha Isabel é a directora. Está com os netos todos os dias, vai a Belém, faz a sua vida normal, vai almoçar sempre a casa, lê, escreve, interessa-se por várias causas sociais: combate à violência, à droga, apoio aos deficientes. Procura, logo no princípio do mandato do marido, criar uma fundação com base na língua portuguesa, projecto de que foi desencorajada mas que virá mais tarde a ser a CPLP.

Preocupa-se com a decoração do Palácio e dá especial atenção ao reanimar do ateliê do rei D. Carlos. As refeições oficiais passam a ter um cunho tradicional português, servindo-se, aos convidados estrangeiros, cozido à portuguesa, cação de coentrada ou porco com amêijoas.

Discreta, mulher de cultura que sempre foi, convive com artistas. Possui uma grande colecção de arte – Júlio Pomar, Maria Helena Vieira da Silva, Arpad Szenes, Paula Rego, Zé Nuno Câmara Pereira, António Dacosta, Eduardo Luís e Graça Morais –, que adquire desde nova e muito antes do 25 de Abril.

Sempre disponível, fala na sessão de abertura do Congresso Internacional de Geologia, na Fundação Gulbenkian, em que estão reunidos congressistas de cerca de 70 países, num discurso memorável e muito aplaudido. Os convidados dizem ter o Presidente da República Portuguesa assessores de grande categoria – não, não é assessora, é a mulher do Presidente – espanto! De imediato parte para Setúbal, onde se celebra os 500 anos do Tratado de Tordesilhas. Os reis de Espanha e Mário Soares já estão presentes – ela chega em cima da hora.

Todos pedem a sua presença e não gosta de dizer que não. Visita escolas, ajuda imigrantes e excluídos, é presidente da revista Cais. A Senhora Kennedy Shriver, Tony Coelho e Frank Carlucci convidam-na para presidente do Special Olympics em Portugal. Funda o Movimento Emergência Infantil e ajuda a criar vários centros para acolhimento de crianças abandonadas, em situação de risco.

Em Janeiro de 1994 lança, com a Fundação Civitas, o Passaporte Europeu contra o racismo, réplica da ideia da Fundação France Liberté de Danielle Miterrand, cuja palavra de ordem era: “Eu sou um cidadão contra o racismo”. Nesse mesmo ano é legalizada a Fundação Pro Dignitate, a que passa a dedicar muito do seu tempo, em especial depois de terminado o mandato do Presidente da República.

Em Março de 1995, empenha-se na homenagem à memória de Aristides Sousa Mendes, o cônsul que salvou cerca de trinta mil refugiados. Vieram a Portugal muitos familiares dele, residentes na América do Norte e muitos que foram salvos graças à coragem deste cônsul português em Bordéus.

Maria Barroso terá, ainda, tempo para acompanhar o marido nas várias presidências abertas, em que tem também um papel próprio.

Depois do desastre do filho João, outra dimensão se lhe abre, e a partir daí passa a cumprir com todo o rigor os seus deveres de crente.

Não é de espantar a sua conversão, foi sempre uma verdadeira cristã. Já em pequena gostava de ir à Igreja com a avó materna. Para ela, a pluralidade e a diversidade sempre foram unificadoras; sabe dialogar consigo mesma e com os outros.

É boa porque o mal não a seduz; o mal é a vulgaridade, só o bem é profundo e radical. Para Maria Barroso, que não odeia e procura compreender, o perdão é sempre possível, mesmo em relação àqueles que lhe causaram algum mal. É natural que se torne cristã, pois é uma mulher de acção e uma mulher de perdão.

MARIA BARROSO E A PRO DIGNITATE

Na Pro Dignitate Maria Barroso continua a preocupar-se com os direitos humanos, com a violência nos órgãos de comunicação social, nas escolas e na vida, apelando à responsabilidade de todos os cidadãos.

Em 1996 a Universidade de Aveiro propõe o doutoramento honoris causa para Maria Barroso. Em 1999 é doutorada honoris causa na Universidade de Lisboa, doutoramento proposto pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação por “relevantes serviços prestados ao país”.

Nunca esquece o Tarrafal, o Forte de Angra do Heroísmo, Peniche, o Aljube, Caxias – lugares de sofrimento dos melhores de um povo, dos que tiveram coragem de pensar e de se opor.

Foram anos de trabalho intensivo na Pro Dignitate, em prol da educação, na luta contra a venda de armas e contra as minas que, em Angola e Moçambique, tantos mataram e estropiaram.

É de salientar o papel importante que teve na pacificação de Moçambique. Os seus esforços pela Paz demonstram a sua abertura de espírito em relação às várias religiões ou a quem não professa nenhuma. Conhece o Padre Le Scour que, nessa altura, dirigia o Departamento dos Refugiados da Conferência Episcopal Sul-Africana, e o seu trabalho com os moçambicanos.

Enquanto mulher do Presidente da República de Portugal, é convidada para denunciar a violência, em especial na fronteira de Ressano Garcia, para que haja um melhor entendimento entre a África do Sul e Moçambique.

Encontra-se em Maputo, em 1991, com o Presidente Chissano e diz-lhe que gostaria de se encontrar com o líder da Renamo, Afonso Djakama, acrescentando que fará tudo para criar condições de paz (Le Scour, 2012, p. 67). Não foi possível encontrar-se de imediato com Djakama, talvez por algumas intrigas entre interesses moçambicanos, sul-africanos ou até portugueses. Só mais tarde consegue um encontro em Genebra com o líder da Renamo, o qual autoriza o Padre Le Scour a alargar as suas actividades religiosas aos arredores de Ressano Garcia e promete parar com os ataques a essa pequena cidade, onde já pereceram centenas de vítimas que tentavam passar de um país para o outro. Este encontro foi respeitado antes de ser formalizado o Acordo Geral de Paz para Moçambique, assinado em Santo Egídio, Roma, a 4 de Outubro de 1992.

Maria Barroso passou, segundo o Padre Le Scour, a visitar aldeias de refugiados, escolas, creches, centros de formação em Kamakulu, dando alegria e esperança aos refugiados e seus filhos. Com estas visitas fez reconhecer a existência destes refugiados, que eram ignorados. A convite do padre Le Scour, vai ao outro lado da fronteira, contrariando algumas pessoas da sua comitiva. Sempre corajosa!

Vê grande pobreza e sente que a Paz é urgente. Logo em Outubro de 1991, consegue enviar para essas zonas material escolar e, em Dezembro, dois aviões especiais com oito toneladas e meia de medicamentos para o Hospital de Ressano Garcia; em 1992 chegam um médico e uma enfermeira, sob a égide da AMI.

MARIA BARROSO E A CRUZ VERMELHA PORTUGUESA

Em 1996 énomeada presidente da Cruz Vermelha Portuguesa. Posteriormente, passando a presidência da Cruz Vermelha a ser escolhida por eleição, Maria Barroso concorre e é eleita. Declara que não irá receber qualquer remuneração, usará o seu carro e motorista e nem a gasolina aceitará.

Será a primeira vez que uma mulher é Presidente da Cruz Vermelha, e também a primeira vez que é eleita e não nomeada.

Passa a estar diariamente no Palácio Conde de Óbidos, sem deixar de ir à Pro Dignitate e ao Colégio. Não pára.

A situação da Cruz Vermelha é dramática, o Hospital está decrépito. Maria de Jesus decide que é necessário salvar o hospital. Pede ajuda, o seu nome abre portas, chama para a direcção o cirurgião cardiotorácico Manuel Pedro Magalhães. O hospital tem um passivo de mais de dois milhões de contos, mas ela vai em frente, dizendo que o hospital “é uma das nossas jóias”. É preciso saber geri-lo, pedir cotas aos sócios, apelar ao voluntariado e pedir ajuda. Não desiste e, por estranho que pareça, consegue… Serviu durante seis anos a Cruz Vermelha.

A África de língua portuguesa, bem como toda a África, é-lhe especialmente querida. Dirá que sente uma corrente de afecto entre si e os africanos, o que é notório na rua ou em qualquer lugar, dirigindo-se-lhe sempre com alegria e entusiasmo.

Defende o jornalista Rafael Marques, que muitas vezes vai almoçar  a sua casa, reconhecendo que ele foi julgado pela sua coragem e pelo seu amor à paz.

Desde 1985, acompanha o Padre Victor Feytor Pinto, a Roma, à Pastoral da Saúde, de que este é coordenador nacional.

É espantoso tudo aquilo que esta mulher fez e o muito que não é dito. Combateu a ditadura, defendeu a economia ao serviço das pessoas, os direitos humanos e o apoio aos mais frágeis.

Já no fim da sua vida, vai a Roma para conhecer o Papa Francisco, que a recebe. Vem feliz, com várias fotografias com ele, que gosta de mostrar  a todos. Para ela é o Papa da fraternidade, que não é apenas tolerância, é envolvimento com o outro.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Andresen, S. M. B. (1992). Obra Poética I. Lisboa: Círculo de Leitores.         [ Links ]

Le Scour, J. P. (2011). Ao lado do rio Komati. Lisboa: Pro Dignitate e Gráfica de Coimbra.         [ Links ]

Santos, V.  P.  (1989). A companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro (1921-1974): Correspondência. Lisboa: Museu Nacional do Teatro.         [ Links ]

Xavier, L. (2012). Maria Barroso: Um olhar sobre a vida. Alfragide: Oficina do Livro.         [ Links ]