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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.32 Lisboa  2014

 

(AUTO)-RETRATO

Fatima al­‑Fihri – um retrato possível da fundadora da Universidade Qarawiyyin em Fez

 

 

Sónia Frias1

Professora Auxiliar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) - Universidade de Lisboa sonia.frias@iscsp.ulisboa.pt

Na História de todos os países encontramos figuras que deixaram marcas muitos fortes. Das figuras mais antigas, na maior parte dos casos pouco se sabe de concreto. São em regra escassas as fontes fidedignas e não é raro por isso que essas figuras e os seus feitos acabem por ser adornados pela memória coletiva e muitas vezes até, mitificados nas estórias que se vão contando e acrescentando, sobre as suas pessoas, as suas circunstâncias e a sua obra.

Em certa medida parece­‑nos ser este também o caso de Fatma ou Fatima al­‑Fihri (como aqui lhe chamaremos). Não quer isto dizer que Fatima al­‑Fihri não tenha sido uma figura importantíssima da história e cultura marroquinas em particular, e da história e da cultura islâmicas em geral. Ela é reconhecidamente uma referência, no entanto pouco se sabe realmente sobre a sua pessoa e a sua vida pessoal. As fontes que pudemos consultar a fim de lhe tentarmos traçar o retrato são poucas, pouco claras e muito dispersas. O desconhecimento da língua árabe ter­‑se­‑á constituído, neste caso, um impedimento maior na busca de informação mais concreta, pelo que a maioria das fontes a que recorremos, ou são secundárias, ou têm uma base jornalística.

Àparte estas dificuldades, facto indiscutível é o de que o nome de Fatima al­‑Fihri está indubitavelmente ligado à história do conhecimento, pois que terá sido por sua mão que se criaram em Marrocos, mais concretamente em Fez, a Mesquita e a Madrassa Qarawiyyin, esta última considerada uma das primeiras, senão a primeira, universidade do mundo (data do século III do calendário islâmico, séc. IX da nossa era). Mas detenhamo­‑nos um pouco na história pessoal de Fatima.

Fatima al­‑Fihri não era marroquina de origem, reconhece­‑se que nasceu na Tunísia, mas a sua família ter­‑se­‑á transferido para Fez quando ela era ainda criança. O pai, de nome Muhammad al­‑Fihri – al­‑Qayrawani, nome que significa Muhammad, filho de Fihri de Qayrawani (atual Karaouine – Cairuão em português – possivelmente a cidade de origem da família), terá sido um mercador abastado que terá tomado a decisão de se transferir da cidade tunisina de Qayrawani para Fez, durante o reinado dos Reis Idriss I e II de Marrocos, um período particularmente próspero da história de Marrocos, e altura em que Fez se oferecia uma cidade em forte expansão, quer em termos culturais, quer em temos económicos, sendo por isso uma cidade muito atrativa, especialmente para comerciantes em busca de riqueza e prosperidade.

Fatima tinha uma irmã, Mariam, e segundo a maior parte das fontes consultadas, as duas mulheres não teriam tido irmãos. Sendo as únicas filhas de um afortunado comerciante, e tendo vivido a família num momento de grande dinamismo e abertura da história do reino de Marrocos, Fatima e Mariam, certamente com o apoio do pai, tiveram a oportunidade de usufruir de uma educação privilegiada, tendo­‑se tornado duas jovens particularmente cultas, crentes, e especialmente interessadas no conhecimento da religião, da arte e das ciências.

Sabe­‑se também que Fatima terá casado e tido dois filhos varões, ganhando dessa forma a alcunha de “mãe dos rapazes” (um dos poucos factos sobre que há consenso nas fontes consultadas). Não foram encontradas referências sobre se terá tido também filhas, o que se pode justificar pelo facto de nas sociedades mediterrânicas (e noutras) da época, independentemente de serem islâmicas ou cristãs, a sucessão se fizesse por via paterna diretamente para os varões (quando estes existissem), acabando esta circunstância por retirar muitas vezes da História, e das estórias, a presença feminina.

Sabe­‑se que pouco após a morte do pai morreu o marido. Fatima herdou assim por via paterna uma fortuna que se supõe considerável, sendo que a viuvez lhe permitiu por sua vez, uma autonomia pessoal pouco possível à época, às mulheres casadas. Os dados não fazem referência a uma eventual fortuna deixada pelo marido, mas tendo ela filhos, a existir essa fortuna, ela seria legada aos filhos e segundo os cânones islâmicos, certamente administrada pela família do marido. Não encontrámos contudo quaisquer referências a este facto, pelo que não é possível alargarmo­‑nos em considerações fundamentadas sobre o assunto.

Também não encontrámos referência ao facto de Fatima ter cunhados ou não. Segundo as regras islâmicas, se tivesse cunhados, o espectável seria que Fatima passasse a viver em casa do seu cunhado mais velho, tornando­‑se numa das suas mulheres (situação justificada pela proteção que, entre os islâmicos, as famílias dos falecidos maridos ficam obrigadas a dar às viúvas a fim de se evitar o seu desaire e empobrecimento).

Ora dos dados que foi possível reunir, Fatima e também a sua irmã Mariam (de quem também pouco se sabe), apesar de serem mulheres, parece terem usufruído de um conjunto de circunstâncias que lhes permitiu alguma diferença. Nascidas, como já se referiu, no seio de uma família abastada, puderam estudar, cultivar­‑se e por meio disso certamente, ganhar uma consciência particular do mundo; herdaram a fortuna paterna que puderam administrar pessoalmente (como se verá adiante) e particularmente no caso de Fatima, apesar da viuvez, essa mesma fortuna permitiu­‑lhe, ao que se pode depreender, seguir a vida com grande autonomia e autodeterminação.

Estes factos poderão oferecer­‑se a analistas menos conhecedores, particularmente extraordinários, sobretudo se atendermos ao contexto onde se desenrolaram – o norte de África – contexto muito marcado quer pela religião, quer pela cultura islâmicas.

Importa aqui fazer um parêntesis para sublinhar que, sobretudo de há umas décadas a esta parte, com os extremismos (que se começaram a fazer mais notados desde a guerra do Golfo, e posteriormente se vincaram com os ataques de 11 de setembro de 2001), se tem vindo a endurecer substancialmente o olhar dito ocidental, sobre os povos e a cultura islâmica. Esse endurecimento, afigura­‑se­‑nos, tem contribuído de modo muito perverso para um aumento do desconhecimento sobre a história e as culturas islâmicas, que passámos simplesmente a entender como inimigas. Esquecemo­‑nos pois por isso, que o Islão tem uma história muito rica e cheia de diversidade. Que a sua expansão se estendeu por séculos e que diferentes líderes em diferentes locais e em diferentes momentos, puderam produzir, como aliás sempre sucedeu na história de qualquer povo, porque a história é dinâmica, momentos de governação mais e menos herméticos, momentos de maior riqueza, outros de maior liberdade de pensamento e de criação. Em qualquer contexto civilizacional, a organização social é balizada por princípios bem definidos. Desses princípios emanam as diretrizes sobre a conduta que se espera dos indivíduos em sociedade. Importa pois desenvolver um olhar sobre as outras mulheres do mundo (e dos homens), como produtos de tempos históricos diferentes, de circunstâncias específicas e diferentes manifestações políticas. As simplificações generalistas dificilmente nos dão explicações sérias sobre a liberdade e as possibilidades dos indivíduos (neste caso sobre as margens de ação das mulheres islâmicas).

Entender que sempre e por todo o lado, o islamismo se apresentou repressivo e inibidor da ação feminina, não deixa de se afigurar, como tem sugerido em várias entrevistas televisivas, a antropóloga Lila Abu­‑Lughod2, uma reprodução acrítica de uma retórica colonialista. Importa pois, reavaliar alguns dos discursos sobre as muçulmanas (e os muçulmanos em geral), sobre as suas possibilidades, os seus quotidianos, mas sobretudo sobre as circunstâncias e as particularidades dos contextos políticos nos lugares onde as encontramos.

A obra de Fatima al­‑Fihri, como a de sua irmã e certamente as de tantas outras mulheres invisíveis porque desconhecidas e dispersas pela História e pelo mundo, são elementos de um conjunto maior, cuja referência importa não desprezar.

Fatima e Mariam beneficiaram pois, do facto de terem vivido no reinado de Idriss II, considerado um período particular ao nível do desenvolvimento cultural, económico e social – sendo o próprio sultão, pessoa muito culta, sábia e muito crente para além de líder destemido e venerado. A Marrocos, onde se viviam tempos de paz e abundância, acorriam na altura populações de vária proveniência, mercadores de vários países, muitos refugiados (de Córdova), gente de muitas origens, mas também de muitos credos e que nem por isso deixava de ser bem acolhida por Idriss II. A cidade de Fez, dado o seu notável desenvolvimento naquele período, seria certamente, uma cidade verdadeiramente cosmopolita.

Depois deste parêntesis retomamos a história de Fatima al­‑Fihri, a fim de passarmos a explicar porque razão é ela hoje considerada a fundadora de uma das primeiras universidades do mundo, embora com certeza a primeira universidade de Marrocos.

Fatima terá sido também uma pessoa muito pia e preocupada com os pobres e o bem­‑estar social. Esse facto explica em certa medida a razão por que acabou por aplicar a sua fortuna e empenhar o seu esforço na construção de uma Mesquita, a Grande Mesquita Qarawiyyin, em Fez, dedicada à valorização do bem­‑estar social, à religião e ao conhecimento.

Dizem as estórias que a Mesquita terá sido erigida em apenas dois anos, tal o empenho e a dedicação de Fatima na orientação dos trabalhos de construção. Paralelamente Mariam al­‑Fihri, a sua irmã, que tomara decisão idêntica à de Fatima quanto ao emprego da fortuna, passou a patrocinar a construção, também em Fez, da mesquita Al­‑Andaluz, assim chamada por residir então na cidade um importante contingente de população oriunda do sul de Espanha.

As mesquitas construídas pelas duas irmãs deveriam ser, como se espera das Mesquitas, para além de centros religiosos, polos da prática da caridade (um dos pilares do Islão), e de auxílio aos pobres. Muito religiosas, as duas irmãs cuidaram sempre para que a prática e o ensino da religião não deixasse de ser fortalecido.

A mesquita Qarawiyyin rapidamente se tornou, para além de centro de culto, um verdadeiro polo dinamizador de educação e de conhecimento de nível superior (daí nasce a ideia de universidade), sobre a cultura e doutrina islâmicas. Contribuiu de forma muito importante para tornar a própria Fez num reconhecido centro espiritual e educativo do mundo islâmico. A partir da mesquita impulsionava­‑se uma política ativa de construção de madrassas (escolas corânicas, ou escolas religiosas onde se estuda a religião islâmica) na cidade, atraindo­‑se desse modo a Fez um cada vez maior número de estudantes (oriundos não apenas de Marrocos, mas de outros países próximos em África e na Europa), que aí acorriam para estudar teologia e lei islâmica, a fim de poderem assumir posteriormente cargos administrativos e religiosos ao serviço do Islão.

A universidade de Qarawiyyin passou a ser reconhecida como uma instituição de fundamental importância no eixo ocidental das terras do califado islâmico. Não foi só um centro de culto religioso e de estudo, foi uma verdadeira escola fomentadora de saber, mas também de interações políticas e sociais. Importa acrescentar que por Fez e possivelmente também por Qarawiyyin passaram grandes nomes da cultura e da ciência da época. Num período em que na Europa se vivia a Idade das Trevas – um período de clara deterioração civilizacional – em Marrocos, engenheiros, comerciantes e académicos, contribuíam para um enorme enriquecimento cultural. Em Fez, por exemplo, estudou o cartógrafo Muhammad al­‑Idris cujos mapas foram usados ​​por exploradores europeus durante o período renascentista; estudou também Ibn Khaldun que compôs obras significativas sobre filosofia da época, e estudaram muitos outros nomes importantes que pelo seu pensamento e a sua ação contribuíram para o progresso das artes, da economia, da literatura e da ciência e do conhecimento em geral, preservando o legado clássico e acrescentando inovações, fazendo florescer um ambiente cultural que influenciou o mundo inteiro.

Toda esta obra se ficou, em larga medida, a dever a Fatima al­‑Fihir, uma mulher que compreendeu a importância dos centros religiosos não apenas enquanto lugares vocacionados para a prática religiosa e fomento da devoção, mas sobretudo enquanto lugares vocacionados para a promoção do saber e do conhecimento, generosamente abertos mesmo aos mais humildes.

Fátima al­‑Fihri não deixa de ser um exemplo de determinação, ousadia e esperança cuja ação muito contribuiu para melhorar a sociedade do seu tempo.

A sua obra é ainda hoje uma referência, sendo­‑lhe prestada homenagem e reconhecimento mundial que se consubstancia por exemplo em factos como a criação de um programa Erasmus Mundus com o seu nome, o Erasmus Mundus Programme Al Fihri, programa que visa a mobilidade e cooperação inter­‑universitária entre universidades europeias e norte­‑africanas e que prevê, no seguimento da perspetiva de Fatima al­‑Fihri, contribuir entre outros objetivos para o diálogo e para o enriquecimento mutuo das sociedades pelo desenvolvimento das qualificações de homens e mulheres segundo o principio da igualdade de oportunidades e da não discriminação.

 

Referências bibliográficas

Abu­‑Lughod, L. (2001). Orientalism and Middle East Feminist Studies. Feminist Studies, vol 27, n. l, 101­‑113.         [ Links ]

Frias, S. I. G. (1993). Contributo Para o Estudo de Processo de Adaptação à Mudança: o Caso de Duas Mulheres da Região de Lisboa. Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa. Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa.         [ Links ]

H. Abdul Rashid. Fatima al­‑Fihri – Founder of the Oldest University in the World. The Urban Muslim Woman. Junho 20 2014. http://theurbanmuslimwomen.wordpress.com/2008/08/04/fatima­‑al­‑fihri­‑founder­‑of­‑the­‑oldest­‑university­‑in­‑the­‑world/        [ Links ]

Mandaville, P. (2001), Transnational Muslim Politics: Reimagining the Umma, Londres: Routledge.         [ Links ]

Roy, O. (2003), El Islam Mundialisado, Barcelona: Ediciones Bellaterra.         [ Links ]

 

Notas

1Investigadora do CEsA/ISEG – Universidade de Lisboa; CEMRI/Universidade Aberta e CEA/ISCTE­‑IUL.

2 Esta especialista, Professora na Universidade de Columbia, é muitas vezes chamada a vários programas de televisão, sobretudo em programas de canais americanos, para se pronunciar sobre questões islâmicas, nomeadamente sobre os estereótipos que se têm vindo a construir sobre o islamismo e mais marcadamente sobre a situação das mulheres islâmicas, erradamente consideradas como um todo.