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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  no.42 Lisboa dez. 2020

 

RECENÇÕES

 

Gender Studies and the New Academic Governance. Global Challenges, Glocal Dynamics and Local Impacts, edited by Heike Kahlert. Wiesbaden, Springer, 2018, 289 pp.

 

Júlia Garraio*

Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

 

 

Gender Studies and the New Academic Governance analisa como, em diferentes contextos sociogeográficos, o neoliberalismo, enquanto ideologia determinante na gestão das universidades atuais, se repercutiu nos estudos de género e nas relações desta área científica com a comunidade. O volume entende o neoliberalismo como teoria económica e movimento de reforma social vitoriosos na ordem mundial pós-1989, que se alastrou globalmente, moldando decisivamente as sociedades contemporâneas, nomeadamente os processos de produção e disseminação de conhecimento e a maneira como a universidade é atualmente entendida como espaço onde se fornecem competências que os/as estudantes posteriormente poderão vender/rentabilizar como trabalho. O objetivo do volume é assim analisar as repercussões da hegemonia desta visão mercantilista do conhecimento na implementação e disseminação de estudos de género na academia, abordando, entre outros, o papel desta área na atual transformação da universidade, as implicações do modelo de financiamento científico e nas aspirações profissionais e carreiras de investigadores/as da área, sem descuidar as perceções sociais desse tipo de investigação.

O volume encontra-se dividido em três secções temáticas, contando no total com onze estudos de caso, com distintas abordagens metodológicas e uma grande variedade de fontes de análise. A primeira parte (Interventions: Gender, Gender Studies and Feminism) é composta por três estudos sobre as repercussões das dinâmicas neoliberais nos estudos feministas e de género em diferentes contextos académicos e científicos. Louise Morley analisa como o neoliberalismo tende a reforçar o domínio masculino ao validar áreas e atividades científicas nas quais têm dominado tradicionalmente certos tipos de homem. Kadri Aavik e Raili Marling argumentam que a mercantilização das universidades na Estónia contou com a acomodação e cumplicidade de investigadoras feministas. Defendem a revitalização do sindicalismo e da luta coletiva, bem como a adoção de perspetivas interseccionais na investigação. A partir do contexto da África do Sul, Desiree Lewis analisa as repercussões da investigação neoliberal na reprodução de relações de poder Norte-Sul. Segundo a autora, torna-se imperativo investir em iniciativas e perspetivas de feminismo transnacional que, sensíveis às realidades fora da academia, desafiem essas mesmas relações.

A segunda parte (Interactions: Gender Research, Academic Feminism and Society) conta com quatro estudos sobre as interações e colaborações entre investigação e sociedade. Pia Vuolanto debruça-se sobre uma acesa controvérsia que teve lugar na Noruega em 2010-11 em torno da relação entre os estudos de género e a sociedade. Amélia Augusto, Catarina Sales Oliveira, Emília Araújo e Carla Cerqueira analisam a relação entre estudos de género e políticas para a igualdade de género no contexto da introdução de modelos de gestão neoliberal na universidade portuguesa. As autoras identificam as repercussões da gestão neoliberal na produção de conhecimento (aumento da produtividade que obedece a critérios de avaliação interna, individualismo, precariedade laboral, excesso de trabalho) e notam que esta realidade pode ser concomitante com uma certa invisibilização social da investigação. Consideram, todavia, que os estudos de género devem e podem reclamar o seu potencial crítico e transformador. Sigrid Schmitz estuda a influência de um projeto científico em políticas com vista à integração de questões de género na produção científica. Cristiano Rodrigues e Mariana Prandini Assis argumentam que a produção feminista dominante no Brasil deverá confrontar as exclusões com as quais pactua, e empenhar-se na inclusão radical de outras perspetivas, como o conhecimento produzido pelos feminismos negros e por abordagens intersecionais, a fim de garantir a sua relevância social.

A terceira parte (Institutionalisations: Gender Studies’ Epistemic and Organisational Statuses in the Academy) é composta por quatro estudos sobre as condições, os modelos e as estratégias de institucionalização dos estudos de género na academia. Remetendo para diferentes contextos socio-históricos, os quatro capítulos convergem ao apontarem para a posição ambivalente dos estudos de género no modelo de gestão neoliberal: por um lado, verifica-se um apoio formal a iniciativas integrantes de questões de género, mas, por outro, nota-se a falta de reconhecimento científico pela área e a tendência para condições materiais de investigação precárias. Maria do Mar Pereira oferece um panorama dos processos de institucionalização dos estudos sobre mulheres, género e feministas ao longo de várias décadas, apontando para as discrepâncias entre os discursos institucionais de reconhecimento e a desqualificação da área em conversas informais. Farinaz Fassa e Sabine Kradolfer analisam a articulação dos estudos de género com as exigências sociais a partir de um contexto da Suíça francófona. Heike Kahlert debruça-se sobre as universidades alemãs para analisar as relações entre os estudos de género e as políticas promotoras da igualdade de género. Por fim, Blanka Nyklová estuda as interseções entre o posicionamento geográfico e a posição dos estudos de género como disciplina na República Checa, argumentando que o crescimento da área no contexto do neoliberalismo e da integração europeia não deixou de ter algumas dimensões problemáticas, tais como as alegações de irrelevância local, em ressonância com certos discursos antifeministas pós-1989.

Lidos no seu conjunto, os vários capítulos sinalizam que o neoliberalismo criou pressões semelhantes sobre os estudos de género limitadoras do potencial emancipatório desta área; no entanto, a leitura comparativa dos mesmos capítulos expõe as especificidades de cada espaço analisado, com a emergência de diferentes dinâmicas criadas pelas interações entre processos globais e necessidades/ pressões locais. O volume não se limita, porém, a analisar os problemas e os desafios que se colocam aos estudos de género em contextos de mercantilização do conhecimento e precarização laboral. Os/As autores/as fazem também sugestões sobre como resistir ao pulsar individualista-mercantilista e resgatar o potencial emancipatório do feminismo enquanto espaço de transformação social (veja-se nesse sentido, por exemplo, os capítulos sobre a Estónia e o Brasil). Trata-se assim de uma obra de grande valor para percebermos o estado atual dos estudos de género. É certo que, apesar de abranger espaços com diferentes historiais sociopolíticos e formas de introdução do neoliberalismo, o volume caracteriza-se por um inequívoco foco europeu, já que a larga maioria dos contributos incide sobre geografias da Europa do Norte, do Sul, Ocidental e de Leste. Tal deve ser visto, todavia, como um estímulo ao alargamento do campo de investigação a outras zonas do globo, cujas realidades e modelos de integração de estudos de género nos programas académicos poderão complexificar, questionar e alargar os conhecimentos sobre o tema.

A necessidade de alargar o campo de análise a outras realidades geográficas, bem como a pertinência de revisitar os espaços analisados no volume, também se prende com os desenvolvimentos sociais que marcaram os últimos dois anos em termos de perceção social dos estudos de género. 2018, data de publicação do volume, corresponde a um marco importante nos ataques à disciplina. Como sabemos, trata-se do ano em que a Central European University se viu impelida a transferir os seus programas em estudos género para Viena devido a políticas hostis do governo húngaro. Várias vozes conceituadas desta área de investigação têm vindo a advogar a necessidade de se analisar criticamente os ataques à «ideologia de género» também no contexto das reações às inseguranças e desigualdades associadas à globalização neoliberal e das ameaças atuais ao modelo de democracia liberal. Elzbieta Korolczuk e Agnieszka Graff interpretam o discurso anti-género da década de 2010 precisamente como uma nova linguagem conservadora correlacionada com os efeitos da crise económica internacional de 2008.1

Ora, é também aqui que o volume em análise ganha a maior pertinência. Por um lado, apresenta dados e reflexões que nos ajudam a perceber como se chegou ao estado atual em que os estudos de género são confrontados com uma necessidade crescente de justificarem o seu valor e de se defenderem de atitudes hostis e ameaças de desinvestimento. Por outro, aponta caminhos com vista à capacidade de os feminismos e os estudos de género reclamarem a sua pertinência social. Por fim, sinaliza a necessidade de mais trabalho de investigação sobre os ataques aos estudos de género a partir da análise de questões económicas e das implicações da promoção de políticas de igualdade de género em contextos de precarização laboral e afirmação da ideologia neoliberal.

 

 

Notas

* Recensão realizada no âmbito do projeto DeCode/M (Des)Codificar Masculinidades: para uma melhor compreensão do papel dos media na construção de perceções de masculinidades em Portugal», financiado pela FCT (ref. PTDC/COM-CSS/31740/ 2017).

1 Korolczuk, Elzbieta & Agnieszka Graff. 2018. Gender as «ebola from Brussels»: The anticolonial frame and the rise of illiberal populism. Signs43(4), 797-821.

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