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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  no.40 Lisboa dez. 2019

 

RECENSÕES

 

Arquitectas: Modos de (R)Existir. Reflexões a partir de um ciclo de conversas, editado por Patrícia Santos Pedrosa, Joana Pestana Lages e Lia Antunes. Lisboa: Mulheres na Arquitectura, 2018, 100 pp.

 

Isabella Noronha Rusconi

Arquiteta e urbanista, Mestranda em Planeamento Regional e Urbano, Universidade de Aveiro

 

 

O livro «Arquitectas: Modos de (R)Existir. Reflexões a partir de um ciclo de conversas» resulta do registo das discussões ocorridas entre setembro de 2017 e março de 2018, no Teatro São Luiz, Lisboa, organizadas pela Associação Mulheres na Arquitectura (MA)2, com o apoio da Secção Regional Sul da Ordem dos Arquitectos (OA-SRS), da Comissão para a Cidadania e Igualdade de género (CIG) e da Presidência da República Portuguesa. Os encontros abordaram as possibilidades e dificuldades em contexto profissional através de quatro áreas temáticas: «Do Projecto e da Obra», «Da Investigação e do Ensino», «Da Prática em Expansão» e «Da Política», sempre sob a perspectiva desta dupla condição: ser mulher e ser arquiteta. Editado pela MA sob a coordenação de Patrícia Santos Pedrosa, Joana Pestana Lages e Lia Antunes, a publicação tem como objetivo dar visibilidade às mulheres arquitetas em Portugal, trazendo a perspectiva de género para a discussão nas múltiplas arenas que implicam as práticas do saber e fazer arquitetura, cidade e território.

No contexto da quarta onda do movimento feminista, caracterizado pela capacidade de articulação via redes sociais, interseccionalidade e, finalmente, mobilização através de coletivos feministas (Perez, 2019), a MA, enquanto coletivo, assume a vanguarda na reivindicação de espaços de visibilidade, levanta a questão das assimetrias de género em todas as arenas relacionadas à profissão e expõe a condição das mulheres dentro da arquitetura em Portugal.

Em uma compilação de treze textos, arquitetas partilham experiências sobre a prática da profissão. Quem são, o que fazem, como vivem e como percebem os desafios de ser mulher, na arquitetura, em Portugal. O livro é dividido em duas partes, a primeira, «Das Conversas», traz nove textos escritos por convidadas. A segunda parte, «Ao Redor das Conversas», traz quatro textos de arquitetas que participaram do ciclo desde a organização e/ou acompanhamento. As trajetórias são diversas e heterogêneas, como as visões sobre as dificuldades profissionais e discriminações enfrentadas no contexto da prática em Portugal.

No primeiro contributo do livro, «Sapatos, bolinhas e coincidências arquitectónicas », Célia Gomes convida a iniciar o percurso calçando os sapatos bicudos e meias de bolinhas da arquiteta holandesa Liesbeth van der Pol. A autora reconhece e questiona, com delicadeza, a subjetividade da necessidade de Lisbeth, afirmar-se mulher antes de arquiteta, através da imagem de capa do livro com a publicação de sua obra. Os sapatos de Lisbeth transformam-se nos sapatos de cada arquiteta à medida em que transitamos entre as reflexões a partir das conversas e ao redor delas. Desde a sutil ironia com um jogo entre as palavras «coincidência» e «mérito», nos é revelada a gritante desigualdade nas atribuições dos prêmios de arquitetura e, enquanto nos perguntamos por onde andam as mulheres arquitetas, é inevitável recordar a injustiça contra Denise Scott Brown.

No segundo texto, «Marcas individuais» de Cláudia Costa Santos, vê-se o conceito de mérito perder aspas ao vincular-se ao poder da educação, enquanto as entrelinhas, paradoxalmente, nos trazem a compreensão da necessidade de sustentar escolhas pessoais enfrentando estrategicamente o patriarcado. «Onde é que elas estão?» Pergunta Filipa Roseta no terceiro texto, e nos leva aos sapatos da mulher mãe e filha, mulher cuidadora, e aos impactos que o desempenho deste papel têm na vida profissional. A resposta se insinua no horizonte em forma de medidas compensatórias3 como quotas e programas de reintegração profissional.

Em um virar de página, no quarto texto, «C de conjuntura, A de alterada. Subjacente, o género entre outras condições», de Inês Moreira, a questão de género é dissolvida entre outras subjetividades. O discurso do mérito casado com o poder da educação reincide, sustentado pelo argumento da culturalidade marcada pelo contexto. Contra a possível institucionalização de práticas compensatórias, contrapõe- se o reconhecimento pessoal de condição de privilégio «cultural, étnico, económico e simbólico».

No quinto texto, «Um testemunho de vida - mulher, arquitecta, investigadora » de Luz Pereira Valente, percebemo-nos tropeçar em contradições porque «fomos educadas como um homem», ao mesmo tempo que os problemas de género nunca nos afetaram «devido à educação que tivemos na infância». Ser mulher, afinal, talvez não seja «sempre tão natural como respirar.»

Patrícia Santos Pedrosa coloca, de forma pragmática no sexto texto do livro, «A luta por uma história feminista da arquitectura enquanto direito das mulheres », o direito à visibilidade das mulheres arquitetas como ferramenta de garantia da sua existência e afirma que através da visibilização destas mulheres, sobretudo no ensino de arquitetura, se possibilitará o questionamento da prática e a «alteração da sua estrutura patriarcal, classista, racista e capacitista». Patrícia oferece exemplos de projectos de visibilização das mulheres arquitetas e sublinha a necessidade de ações institucionais transversais, enfatizando, por fim, a urgência da realização de um inquérito alargado da profissão para balizar com precisão a condição das mulheres arquitetas em Portugal.

Paula Melâneo, no sétimo contributo, «Alguns comentários», analisa as assimetrias de projeção e visibilidade das arquitetas portuguesas e apresenta os resultados do estudo feito pelo Jornal dos Arquitectos em 2016 (edição J-A #253), enquanto editora, na seleção por género na participação e na curadoria das principais exibições internacionais de arquitetura. «Os números falam por si».

Rita Ochôa com o oitavo texto, «Ser mulher, na arquitectura e na academia. Tópicos para debate», fundamenta as assimetrias de género no ambiente acadêmico. Apesar de já haver equilíbrio numérico dentro das instituições, a representação de mulheres em cargos de gestão contínua manifestamente reduzida, condição que se acentua à medida em que se ascende hierarquicamente. Enfatiza ainda a questão do assédio nas praxes e relações de poder e expõe que a presença de mulheres docentes é mais evidente em matérias teóricas, enquanto os homens ocupam o espaço central da docência de projeto. Traz-nos os resultados de um estudo comparado sobre padrões de género (Sales e Ochoa, 2015) e conclui, alinhando com Pedrosa, sobre o papel que as instituições de ensino superior têm para a desconstrução dos automatismos e a responsabilidade de contrariar as invisibilidades através da promoção do debate e de políticas de igualdade.

No nono e último texto da primeira parte do livro, «Das Conversas», Rosa T. Sheng e Annelise Pitts apresentam a evolução do projeto «Equity by Design», que se originou em 2011 com o projeto «The Missing 32%», questionando o fato das mulheres serem aproximadamente 50% dos licenciados em arquitetura mas apenas ocuparem entre 15% e 18% de cargos de chefia e membros da American Institute of Architects (AIA). Três inquéritos nacionais sobre a Equidade na Arquitetura realizados (2014, 2016 e 2018) nos Estados Unidos mostram a necessidade de aliar a teoria aos resultados em concreto e insinua caminhos para colmatar o desequilíbrio de género e promover a equidade na prática da profissão que transcendem a mera discussão ao estruturar uma estratégia concebida em três pontos: i) desenvolver conhecimento fundamentado por investigações e pesquisas; ii) incentivar o debate informado e iii) promover propostas de ação.

Na última parte do livro, «Ao redor das conversas», Lia Gil Antunes com o texto «Um relato (feminista) da arquitectura» aborda o feminismo como movimento político e social e ressalta a importância da aquisição da consciência histórica, que inclui interseccionalidades, do que é ser mulher como ponto de partida para a construção de novos paradigmas e novas relações de poder. Expõe a educação na desigualdade, estruturada pelos «ismos» que compõem o sistema do patriarcado e aponta as assimetrias vividas no percurso académico. Reivindica, por fim, a necessidade de questionar a prática e reescrever a história a partir de «resistências individuais e colectivas» em busca da equidade na arquitetura.

Luísa Paiva, com «Espaços do Feminino», introduz a profissão estruturada como prática masculina e articula o papel da mulher como cuidadora com os desafios relacionados à sua inserção na profissão e observa, como se comprova por outros contributos deste livro, que apesar de muitas arquitetas não terem consciência dos obstáculos que enfrentam por ser mulher na profissão, o esforço necessário para desconstruir as barreiras e estereótipos que impedem a equidade na prática da arquitetura.

Patrícia Robalo Ribeiro com «Notas da assistência em discurso direto» isola, através de sua percepção, questões relevantes aportadas no ciclo de conversas em quatro temas: 1) Especificidade e ruptura de género; 2) Desigualdade e equidade; 3) Trabalho e visibilidade e 4) Questionar a arquitetura.

Sofia Castelo fecha «Ao redor das conversas», ao trazer o sentido do «Género em arquitectura paisagista: prática e investigação» e aporta ao debate importante questão relacionada à justiça social, que compreende a integração da perspectiva das mulheres no desenho urbano, no construir cidades e espaço público, vinculado ao direito e necessidade de participação da vida pública logo política.

O contraste entre a percepção das experiências pessoais e evidências é explícito em todas as narrativas. Tanto os relatos como os números nos mostram que o percurso pela equidade de género na arquitetura em Portugal recém se inicia. A Associação Mulheres na Arquitectura através do ciclo de conversas registado no livro «Arquitectas; modo(s) de (r)existir» abre com coragem e destreza este espaço de visibilidade e resistência. Espaço de arena discursiva e dialógica para a construção de novas práticas, de novos territórios inclusivos e da ressignificação histórica das mulheres arquitetas em Portugal. O tema está longe de esgotar-se.

 

 

Referência bibliográfica

Perez, Olivia; Ricoldi, Arlene. 2018. A quarta onda do feminismo? Reflexões sobre movimentos feministas contemporâneos. Available from: https://www.researchgate.net/publication/332639884_A_quarta_onda_do_feminismo [accessed Oct 06 2019].         [ Links ]

 

 

Notas

2 A Associação Mulheres na Arquitectura foi criada em 2017 e «visa a reflexão e a acção no âmbito da equidade de género nas várias práticas implicadas no fazer arquitectura, cidade e território.» Para mais informação: https://www.facebook.com/mulheresnaarquitectura/

3 A autora desta resenha prefere utilizar o termo medidas compensatórias à discriminação positiva, termo commumente usado em Portugal.

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