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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  no.39 Lisboa jun. 2019

http://dx.doi.org/10.22355/exaequo.2019.39.07 

DOSSIER: MULHERES NA IMPRENSA PERIÓDICA COLONIAL: DISCURSOS E REPRESENTAÇÕES

 

Beatriz da Conceição de Ataíde Lobo e Faria: um Rosário de Contos para a Coluna «Leituras para Senhoras»

Beatriz da Conceição de Ataíde Lobo e Faria: A Rosary of Stories for the Column «Readings for Ladies»

Beatriz da Conceição de Ataíde Lobo e Faria: Un rosário de cuentos para la columna «Lecturas para Señoras»

 

Cielo G. Festino*

* Universidade Paulista, CEP: 04026-002, São Paulo – SP, Brasil. Endereço eletrónico: cielofestino@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2862-0554

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RESUMO

O objetivo neste artigo é fazer uma leitura dos contos da autora goesa de língua portuguesa Beatriz da Conceição de Ataíde Lobo e Faria (1913-1994) que foram publicados nas seções para mulheres dos jornais goeses A Vida, O Heraldo e O Académico. O principal argumento é que nesses contos Lobo e Faria mostra a necessidade de a mulher ter uma educação esmerada, não para a sua emancipação mas, sim, para se tornar uma verdadeira companheira de seu marido e uma mãe que pudesse ter um papel decisivo na educação de seus filhos. Contudo, se, ao educar uma família, a mulher educa uma nação, conforme o pensamento da época, os contos de Lobo e Faria, de fim moral, tinham como objetivo último a formação da consciência social e política da sociedade goesa.

Palavras chave: A Vida; O Heraldo; O Académico; contos; educação da mulher.

 

ABSTRACT

This article analyses the short stories in Portuguese of the Goan author Beatriz da Conceição de Ataíde Lobo e Faria (1913-1994), which were published in the column for women in the Goan newspapers A Vida, O Heraldo and O Académico. The main argument is that, in these stories, Lobo e Faria makes clear the need for women to be educated not for their emancipation, but to become true companions for their husbands and mothers who could play a decisive role in the education of their children. However, if, when educating a family, a woman educates a nation, according to the beliefs of the time, the ultimate goal of Lobo e Faria´s moral short-stories was to raise social and political awareness in Goan society.

Keywords: A Vida; O Heraldo; O Académico; short-stories; women education.

 

RESUMEN

El propósito de este artículo es analizar los cuentos en lengua portuguesa de la autora goesa Beatriz da Conceição Ataíde Lobo e Faria (1913-1994), publicados en las secciones para mujeres de los periódicos de Goa A Vida, O Heraldo y O Académico. El principal argumento es que en estos cuentos Lobo e Faria deja en claro la necesidad de que la mujer tenga una educación esmerada no para su emancipación, sino para convertirse en una verdadera compañera de su marido y para guiar la educación de sus hijos. Sin embargo, si, al educar a una familia, la mujer educa a una nación, según el pensamiento de la época, los cuentos de Lobo e Faria, de fin moral, tenían como objetivo último contribuir para la formación social y política de la sociedad goesa.

Palabras Clave: A Vida; O Heraldo; O Académico; cuentos; educación de la mujer.

 


 

A autora: de Beatriz Lopes a Beatriz de Ataíde Lobo e Faria

Beatriz da Conceição de Ataíde Lobo e Faria (1913-1994), original da aldeia de Siolim, concelho de Bardez em Goa, ex-colônia portuguesa, foi uma contista cuja obra foi publicada principalmente em jornais, como A Vida, O Heraldo e O Académico. Lobo e Faria escreveu literatura relacionada com o âmbito do doméstico. Enquanto em A Vida, O Heraldo e O Académico a autora publicou uma série de contos destinados ao público feminino, nos dois últimos jornais publicou também os «Contos de Ti Bi-Bi» para crianças. No começo da sua carreira, a autora assinava seus contos com o pseudônimo de Beatriz Lopes. Logo, publicou sua obra com seu nome de solteira, Beatriz de Ataíde Lobo, e, uma vez casada, como Beatriz de Ataíde Lobo e Faria.

Lobo e Faria recebeu a educação de uma mulher de sua classe e tempo. Membro de uma família católica goesa, frequentou a escola primária e logo aprendeu as habilidades que se esperavam de uma moça casadoura: as artes do lar, como costura e bordado, em que as mulheres goesas sempre se destacaram. Seu objetivo, como aponta sua sobrinha Carla Ataíde Maciel (2018, 475), era tornar-se uma dona de casa «prestimosa». Familiarizada desde criança com contos da tradição popular, teve a chance de os publicar em concani no mensário Rotti, de Carachi, e em português em O Heraldo e Mascotte (Costa 1997, 82), o que manifesta não somente seu interesse pela literatura desde cedo, mas também sua habilidade para o aprendizado de línguas.

Como em outras famílias goesas educadas, nas férias era comum a escrita de jornais familiares, de forma manuscrita, em que todos os membros da família Ataíde Lobo participavam com notas e artigos sobre o cotidiano da família e da aldeia, assim como sobre figuras destacadas das letras nacionais e internacionais. O jornal dos Ataíde Lobo chamava-se A Flor da Mocidade (Maciel 2018, 475), e foi talvez nessas páginas que Beatriz ensaiou o ofício de escritora.

Sua vida de casada foi bastante diferente do que ela pregava nos contos; casou com um homem de mais idade do que ela, não teve filhos e eram suas cunhadas que ditavam as regras da vida do lar. Em Goa. Uma Saudade,1 biografia familiar não publicada, sua irmã, Camila Ataíde Lobo, aponta que Beatriz «se sentia frustrada, por não poder por em acção [sic] todo o seu sonho, ser dona de sua casa e dedicar-se à mesma com carinho e amor, pondo em evidência, os seus belos dotes, que para isso possuía» (C. Ataíde Lobo s.d., 21). Assim, as narrativas de Lobo e Faria se apresentam como um espaço onde a autora consegue reinventar a sua identidade por meio de personagens femininas que, muitas vezes, parecem funcionar como seu alter ego, e cujos predicamentos lhe permitem ir além dos muros de sua própria casa e dos limites de sua família, para se integrar mais plenamente na comunidade goesa.

Todos os contos foram cuidadosamente guardados pela autora em uma caixa que cruzou o oceano em 1984 até a cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, em Moçambique, e foram legados a sua sobrinha, Carla Ataíde Maciel.2 Com o intuito de contribuir para a preservação desse tesouro literário, neste artigo, pretende-se fazer uma leitura crítica de algumas das «contas» desse «rosário de contos», como foram chamadas as narrativas de Lobo e Faria em O Heraldo em 1937. Concentrando- nos naquelas que têm como objetivo instruir o público feminino, levaremos em consideração o modelo de mulher que neles se perfila. Entendemos que, com a escrita desses contos de fim moral e marcadamente didáticos, Lobo e Faria queria contribuir não somente para a educação da mulher goesa, mas também para a formação da consciência social e política da sociedade goesa (Garmes e Espalhargas 2018). É clara, então, a importância desses contos serem publicados em jornais, já que estes são poderosos meios de formação de opinião.

É esse interesse didático, que tem como objetivo afirmar o novo perfil da mulher instruída, que vai se destacar nas narrativas da autora, bem mais do que a sua qualidade estética. Contudo, a obra de Lobo e Faria é um importante documento para o estudo da condição da mulher nos últimos anos da colônia, bem como para a reconstituição da literatura goesa de autoria feminina, junto com a obras de outras escritoras goesas de língua portuguesa, como Vimala Devi (1932–) e Maria Elsa da Rocha (1924-2007), e de língua inglesa como Berta Menezes Bragança (1911-1993). Por meio de sua literatura em geral e das suas personagens femininas em particular, essas escritoras fazem uma crítica sagaz da sociedade goesa da primeira metade do século XX, em particular dos costumes fossilizados que não somente limitavam o desenvolvimento da mulher mas também da sociedade goesa.

Como já foi apontado, Lobo e Faria publicou suas narrativas dirigidas ao público feminino em dois dos jornais mais destacados de Goa: O Heraldo, jornal de língua portuguesa fundado em 1900, e que ainda hoje continua circulando em língua inglesa com o nome de Herald, e o jornal A Vida, que circulou entre 1938 e 1966. Juntamente com outros jornais de destaque, eles registraram a conflituosa transformação de Goa de uma colônia portuguesa em um dos Estados da Índia em 1961. Durante o período colonial, esses jornais tinham um marcado interesse nas questões políticas e neles se discutia a relação da ex-colônia com a metrópole, assim como o panorama interno da colônia.

A Vida era publicado em Margão, no concelho de Salcete. Era um jornal que tinha como um de seus objetivos principais educar a população goesa nos princípios do dogma católico, como rezava o subtítulo na primeira página: «Diário Católico de Interesse Geral, de Informação e de Doutrina». Por sua vez, os editores de O Heraldo tinham como objetivo «fazer do jornal um instrumento de educação popular, ensinar ao povo o caminho das actividades construtivas, levantar o nível mental das massas» (Lopes 1971, 24 apud Hohlfeldt e Santos de Souza 2012, 8). Nesse sentido, O Heraldo parece se alinhar com os objetivos dos editores do jornal O Académico, entre eles Jorge Ataíde Lobo (1920-2004), irmão de Beatriz. O Académico teve sua origem na União Académica, associação de jovens intelectuais goeses, fundada em 26 de janeiro de 1934, composta significativamente pelas elites católica e hindu, o que já revela o espírito progressista da associação. Nas páginas de seu jornal, pregavam o desenvolvimento intelectual da sociedade goesa por meio da educação, da leitura e da produção de literatura de alto nível. Isso fica de manifesto no ensaio intitulado «O Problema da Carência do Romance na Literatura Goesa» (Vols. 7, 8, 9-11) de autoria de Jorge Ataíde Lobo, no que o autor prega que são os romances intelectuais de cunho realista, que faltam em Goa, os que devem ser cultivados pelos jovens goeses porque é sobre sua base que se erguerá uma nova sociedade goesa (J. Ataíde Lobo 1942, 15).

Beatriz Lobo e Faria partilhava do ideal dos membros de O Académico de que a educação era essencial em Goa, em particular porque, como apontam Garmes e Espalharga, os goeses «viviam em um contexto de cerceamento da liberdade de expressão promovida pelo governo centralizador e ditatorial salazarista» (2018, 4). Nessa conjuntura, nas páginas de O Académico é promovida a união dos goeses a partir dos valores da sua cultura, como uma maneira de resistência:

Pode um povo perder o solo, o território sobre que exerce a sua actividade económica, e ser integrado na organização política e administrativa de outro povo ou nação, mas desde que conserve sua comunidade de cultura, isto é, as suas concepções e práticas morais, religiosas, estéticas, hábitos de vida doméstica, subsistirá apesar de tudo como Nação (Costa, 1940, Vol 1, 15; nossa ênfase).

São, justamente, essas mesmas concepções morais, religiosas e estéticas que definem a vida doméstica da comunidade e que dão unidade à cultura que são pregados por Lobo e Faria nos seus contos. Por sua vez, como acrescentam Garmes e Espalhargas (2018, 5), esse ideal de união cultural goesa, baseado na sua sociedade de matriz hindu e católica, promovida por O Académico, era de extrema importância para a sociedade goesa porque implicava ora se alinhar com os ideais da luta pela independência da Índia da Inglaterra, ora lutar contra o colonialismo português. Em ambos os casos, acrescentam os autores, «Goa aparecia como denominador comum e a União Acadêmica como o embrião para se alcançar um território livre de qualquer ingerência externa, propiciando, em seu horizonte mais radical, sua independência enquanto nação, ainda que isso jamais seja verbalizado» (2018, 5).

No contexto dos ideais da União Académica, no conto intitulado «A Mocidade »,3 dirigido «Aos Jovens da Minha Terra», Beatriz Lobo e Faria coloca o foco narrativo em um jovem goês que se preocupa com o perigo de uma vida de inatividade, não somente no nível pessoal, mas também no da comunidade: «Queria uma vida dinâmica, a vida como deveria ser, e não a vida tal qual era vivida: preguiçosa, vegetativa, inútil…» (Lobo e Faria 1951). O que se insinua nas palavras do jovem é uma critica velada à elite goesa, que levava uma vida sossegada, quase que indiferente a esse contexto político. A outra dificuldade que o jovem goês da narrativa de Lobo e Faria encontra é a de promover essas mudanças em Goa no nível comunitário: «Mas precisava duma alavanca bem possante para levantar o nível de vida e ele, sozinho, não podia meter mãos a uma obra tão importante e colossal cuja necessidade bem sentia que era preciso prover» (1951). Finalmente, o dilema se soluciona quando o carteiro chega a casa justamente com o jornal A Vida: «Eureka! Exclamou. Tinha me esquecido dessa grande alavanca!» (1951). O que pode ser lido nas entrelinhas do conto é que os valores repassados por Lobo e Faria, por meio da fala da jovem personagem, não se limitam ao espaço doméstico da mulher e da criança, mas referem-se ao mundo do público e, por isso, vão além da seção feminina ou infantil, aos quais estavam restritos, e se alinham ao pensamento dos editores de O Académico.

Contudo, se essa educação deveria se estender tanto para homens como para mulheres, não era o mesmo tipo de educação. No começo da sua carreira como escritora, um dos contos de Beatriz Lobo, «Natal, Festa de Família» (B. Ataíde Lobo 1937), é introduzido pelo editor da seção com um pequeno comentário em que a autora é definida como «a nossa futura» Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921), escritora portuguesa e ativista que publicou em diversos jornais portugueses crônicas sobre ética e educação e analisou a condição da mulher da sua época. O que interessa dessa comparação é que assim como sua par portuguesa, e as mulheres goesas da sua época, como Propércia Correia Afonso de Figueiredo, que era uma assídua colaboradora de O Académico, Beatriz Lobo poderia ser também considerada como uma mulher ativista. Conforme Ataíde Maciel (2018, 475), a autora foi uma grande defensora dos direitos e emancipação da mulher.

O que se depreende da leitura de sua literatura, porém, é que essa emancipação se refere principalmente ao direito de a mulher se educar para se tornar uma digna companheira de seu marido e mãe o suficientemente preparada para guiar a educação de seus filhos. Isso sempre deveria acontecer dentro da estrutura da sociedade patriarcal em que é aceita a posição de sujeição da mulher. Nesse sentido, ela se iguala a Maria Amália Vaz de Carvalho «que não sendo feminista, no sentido de um feminismo radical organizado e militante, era, no entanto, defensora de uma das suas reivindicações fundamentais – o direito das mulheres à educação e à necessidade da sua valorização cultural e intelectual» (Tavares da Silva 1982, 10).

No conto «A felicidade do lar» (B. Ataíde Lobo 1935) pode-se intuir o que Beatriz Lobo pensava sobre a educação da mulher e do feminismo. Embora seja reconhecido o esforço da personagem Maria de estudar, nas entrelinhas da narrativa fica claro que o que se considera como sendo positivo, a mulher sair da ignorância a que tinha sido relegada, torna-se vaidade quando tal esforço de melhorar não está a serviço da família, mas de um desejo pessoal. Nessa instância, o estudar se torna uma «frivolidade» ou «vaidade», associada ao movimento feminista, cujo nome a autora prefere nem escrever por completo: «feminist…». Mas, se os homens mais ilustrados da intelligentsia goesa, como os membros de O Académico, que entendiam a educação como a alavanca que projetaria Goa para o futuro, ainda pensavam que o lugar da mulher, mesmo que educada, continuava sendo o lar, o que poderiam falar as mulheres? Mesmo Propércia Correia Afonso de Figueiredo, uma das goesas mais educadas e ousadas, e que transitou no espaço do público como professora e diretora da Escola Normal de Goa, deixa claro em sua extensa série de artigos «A Mulher Indo-Portuguesa» (Figueiredo 1928-1931) que o lugar da mulher continua sendo o lar. Contrariar esses princípios era se opor à maneira de pensar de uma classe social. Como outras mulheres de seu tempo, Lobo e Faria escreveu primeiro da casa do pai e, logo depois, da casa do marido. Por isso, se bem que a autora propõe um novo modelo feminino, resultado da nova educação formativa da mulher, seu discurso é perpassado pelo olhar masculino, e ela acaba reafirmando o papel tradicional da mãe e da esposa, que era o ideal burguês não somente nas colônias, mas também na Europa.

Assim, nos contos de Lobo e Faria não há referências explícitas à possibilidade de a mulher conseguir sua independência econômica por própria escolha, por meio de uma profissão. Também não há referências ao direito de a mulher votar. Entendemos que isso deve-se ao facto de que, ainda na primeira metade do século XX, Goa era uma colônia e, como é sabido, esse era o segundo tipo de sujeição a que a mulher goesa, tal como as mulheres de outras culturas colonizadas, estava submetida.

 

Um rosário de contas…

Os contos de Lobo e Faria são parte de um estilo literário, muito em voga no final do século XIX e começo do século XX, que tem sido definido como prescritivo, já que, mais do que entreter, tinha como objetivo educar e moralizar, em outras palavras, modificar a mentalidade e o comportamento da mulher. A temática principal dessa literatura era a educação feminina, a preparação para o casamento e o desempenho correto de suas atividades como mãe e esposa. Esse interesse didático seria um dos motivos que explica o facto de os contos de Lobo e Faria serem narrativas instrumentalizadoras, mais do que metafóricas, na forma de parábolas contemporâneas: histórias curtas que ilustram uma lição de caráter moral e que não são narradas por si mesmas, mas apenas na medida em que reforçam a moral que é sempre explícita (Beckson e Ganz 1997, 190). Os contos de Lobo e Faria não se distinguem pela sua complexidade e sofisticação literária, mas pela simplicidade do estilo narrativo, de modo que, mais do que ofuscar a lição moral que a autora quer repassar, ela seja de fácil e rápido entendimento e possa atingir todos os leitores. Assim, os enredos são lineares e curtos, para se adequar ao estilo jornalístico; o vocabulário coloquial, a sintaxe simples, as personagens «como os leitores », para que todos possam se reconhecer neles; os finais felizes, porque sempre depende de uma decisão individual –-a escolha certa do comportamento correto ao alcance de qualquer um – mudar o rumo da própria vida. Consequentemente, é essa consciência da legitimidade dos valores que estão sendo repassados em cada narrativa que faz com que o tom dos contos de Lobo e Faria seja sempre contundente e sem vacilações.

 

A aldeia goesa: espaço de conhecimento e convivência

Muitos dos contos começam com uma apresentação da aldeia em a que a ação se desenvolve, que é sempre bucólica, rodeada por um cenário natural perfeito, a grande obra do Criador: «Manhã de sol. As cigarras avermelhadas e azuladas cruzavam- se no ar entoando sua eterna canção» (B. Ataíde Lobo 1935). No meio dessa beleza natural encontra-se a aldeia cristã, a Goa Dourada. Muitos dos contos começam também com uma alusão ao passado, que é sempre remoto: «Em tempos antigos vivia em uma pequena aldeia…» (B. Ataíde Lobo 1936). Essas referências passam a imagem de uma Goa idílica que habita em suas aldeias, instituição indiana imemorial que, como aponta Filippi Nery Xavier (1903, 66-67), parece durar eternamente em um lugar onde nada dura. O que fazia da vida nas aldeias quase que perfeita era o facto de que os valores da comunidade sustentavam seus membros, apesar de qualquer embate externo (Nery Xavier 1903, 67). Essa parece ser sempre a primeira lição moral dos contos de Lobo e Faria.

A pequena aldeia de Lobo e Faria é mais do que um espaço comum; é também o lar de seus moradores, personagens que pertencem a todas as classes sociais de Goa. Como afirma Antoine Proust em História da Vida Privada:

o espaço concreto do bairro ou da vila é um espaço aberto a todos, regido por regras coletivas, mas que tem como «foco», no sentido ótico, um lugar fechado, um lar. É um exterior, definido a partir de um interior, um público cujo centro é um privado (Proust 2009, 116).

As ruas da aldeia são uma extensão do lar, do espaço do privado. A convivência com os vizinhos, embora fiquem manifestas as diferenças entre ricos e pobres, cristãos e hindus, senhoras burguesas e mulheres trabalhadoras, crianças ricas que estudam e pobres que trabalham na roça, está regida por uma série de valores comuns – honestidade, caridade, lealdade, humildade, abnegação etc. – que, conforme Lobo e Faria, devem ser respeitados, apesar dos privilégios de uns, que nunca são questionados, e das carências de outros, que sempre têm que ver mais com uma falha individual do que com a responsabilidade social, que nunca vai além do que a nobreza obriga. São esses valores que os contos de Lobo e Faria afirmam e circulam – e que já eram pregados pelos editores de O Académico – que devem dar unidade à comunidade, uma outra lição moral que subjaz a todas as narrativas.

Assim, em vários dos contos que acontecem nas ruas da aldeia, o narrador acompanha as mulheres no percurso de seu cotidiano, enquanto comenta sua maneira de se conduzir em público. A modo de exemplo, nessa aldeia provinciana não era visto com muitos bons olhos um excesso de interesse na moda. Em 1938, Beatriz Lobo publicou na seção «Conto da Página» de O Heraldo o conto intitulado «Maria Teresa» (B. Ataíde Lobo 1ª38a), que começa com um breve prefácio em que se adverte, com um leve tom de ironia, que pretende chamar a atenção das leitoras, que não é à «Imperatriz de Áustria, Maria Teresa» que se está fazendo referência, mas a «um tipo das nossas aldeias». A Maria Teresa de Goa é uma mulher que se casa com um emigrado e, ao mudar seu estado civil e econômico, muda também seu aspecto exterior e adota uma maneira de se vestir e comportar considerada artificial e vaidosa. Assumindo a perspectiva das amigas e vizinhas de Maria Teresa, ou seja, a voz da comunidade, para que a lição moral seja mais efetiva, mais do que observar, o narrador censura a mudança na maneira de agir da jovem, tanto no dia de seu casamento como no momento da sua volta de África, porque troca a simplicidade da aldeia goesa, ou seja, os valores da terra, por modas que não combinam com seu estilo e tipo.

Como já foi apontado, os membros de O Académico pregavam, entre outras coisas, a boa relação entre as comunidades cristã e hindu, uma das características marcantes da sociedade goesa, de maneira que os valores de uns deveriam ser os mesmos valores de outros. Precisamente no conto «Mogrem» (B. Ataíde Lobo 1938b), Lobo e Faria sai dos limites da aldeia cristã para mostrar o casamento hindu de uma menina de doze anos que deixa de brincar para casar. Mas o propósito do conto não é discutir o costume do casamento arranjado de uma criança na comunidade hindu, visto da perspectiva da comunidade católica, mas mostrar que a honestidade não conhece religião, e deve ser um dos valores que dá unidade e coesão à sociedade goesa além de qualquer denominação religiosa. Durante a festa, duas amigas da noiva, garotas como ela, roubam um dos presentes de casamento, um belo pente. Finalmente, elas decidem devolvê-lo para poupar à amiga mais um momento difícil com sua futura sogra.

Da mesma maneira, no conto «A Probidade Premiada», que Beatriz Lobo assina com o pseudónimo de Beatriz Lopes (1930), a personagem principal é uma bela moça, de uma família muito rica, que atira uma nota de 10 rúpias no cesto de uma mulher pobre, que chorava no mercado porque não tinha o que comer. A mulher, apesar de sua desgraça, devolve o dinheiro à menina. Então, o pai dá para a pobre mulher as 10 rúpias da filha, além das 50 que levava no bolso, porque a probidade e a decência estão entre os valores que mais importam em uma comunidade. Dessa maneira, Beatriz Lobo deixa às claras a missão pedagógica de seus contos, que têm como objetivo, assim como os jornais em que eram publicados, o desejo de emancipação dos goeses, o que somente seria possível por meio de uma população educada e de valores elevados.

 

O espaço doméstico

Embora haja cenas nas ruas da aldeia, a maioria acontece no âmbito do privado. Como é sabido, a família exerce um rígido controle sobre todos os seus membros, alocando para cada um deles um determinado papel a ser cumprido. Ainda na primeira metade do século XX, a divisão dos papéis familiares situa a mulher dentro do espaço privado e o homem no espaço público onde acontecem «as transações importantes, a representação familiar, a política» (Proust 2009, 78). Essa separação entre um e outro acontecia em sociedades em que alguns de seus membros não tinham autonomia, como seria o caso das mulheres, e era mantida para que a relação desigual se perpetuasse (Mahajan e Reifeld 2003, 11). Pode-se questionar, porém, se tal divisão era real ou apenas ilusória. Nessa linha de pensamento, Mahajan e Reifeld (2003, 11) acrescentam que, no mundo moderno, o privado e o público servem ao mesmo fim, que é o processo de democratização da sociedade: quando o governo e o Estado se democratizam, o privado se reconfigura. Assim, o público e o privado estão profundamente ligados e se influenciam mutuamente. No caso de Goa, conforme expressavam os membros de O Académico, havia o desejo de que sua sociedade fosse progressista e estivesse à altura da metrópole. Nesse projeto, as mudanças no público deveriam ser acompanhadas por iguais mudanças no mundo do lar e do privado. O lar e a esposa eram o bálsamo que fazia com que o homem pudesse aguentar os embates diários desse mundo materialista.

Já em 1880, Amália Vaz de Carvalho, com quem Lobo e Faria tinha sido comparada, afirma que a mulher não tem sido educada para que não aspire «á [sic] perfeita igualdade dos direitos e dos privilegios [sic] do homem» (Vaz de Carvalho 1880, 10). Para Vaz de Carvalho, as mulheres de classe média deviam ser as primeiras a serem educadas porque o «elemento masculino» dessa classe representa «a intelligencia [sic], o commercio [sic], a industria [sic], o progresso d’um paiz [sic]» (1880, 13). A autora divide as mulheres dessa classe social em dois tipos: as que «as vaidades sociaes [sic] ainda não corromperam» (1880, 13), e as que se deslumbram, precisamente, com «as exterioridades elegantes dessa classe» (1880, 4). Enquanto a primeira é laboriosa e sensata, e tem como dever «proporcionar por todos os meios ao seu alcance o bem estar do marido, e da família», (1880, 6) continua sendo «d’uma ignorancia absoluta, ingenua, profunda» (1880, 13) e, por isso, não é a companheira de que esse homem de classe média precisa. A respeito do segundo tipo de mulher, pelo facto de pertencer a uma classe social mais elevada, já não precisa trabalhar. Porém, pelo facto de não ter sido educada, «as distracções elevadas e nobres d’um espirito culto [lhe] são vedadas» (1888, 16) deixando «penetrar na sua alma ignorante o veneno da vaidade» (1888, 16). Conclui a autora que não são as mulheres que devem ser acusadas por essa situação, mas a perniciosa e funesta educação recebida.

Essas questões do papel e da educação da mulher eram também discutidas em Goa por outras mulheres escritoras que faziam parte de O Académico, entre elas Propércia Correia Afonso de Figueiredo e Berta Menezes Bragança. Para elas, a mulher deveria ser educada e disciplinada, para melhor cuidar de seu lar, nas virtudes burguesas: ser ordenada, econômica, limpa; em outras palavras, saber administrar o lar que é a base da comunidade. Ao mesmo tempo, se essa mulher deveria saber como se desempenhar no mundo do público, nunca deveria pôr em risco a vida do lar ou deixar o marido em desvantagem. Ao assim se comportar, ela estaria oferecendo um grande serviço à família e à comunidade.

Os contos de Lobo e Faria reiteradamente ilustram as críticas feitas por Vaz de Carvalho. Por um lado, salientam a importância de a mulher se educar para agir de forma correta e sensata; por outro, criticam com dureza o que ela considera como uma educação frívola e superficial. Em maio de 1943, Lobo e Faria publica em O Heraldo o conto «A carta do Manoel». Ainda solteira, assina-o como Beatriz de Ataíde Lobo (1943). As personagens criadas pela autora exemplificam o casal ideal: o homem sério, dedicado ao trabalho, e a mulher, perfeita companheira. No conto, Manoel e sua esposa Mariana, goeses emigrados, moram em Lourenço Marques, hoje Maputo, onde Manoel trabalha para uma firma. Eles têm uma vida confortável devido ao trabalho do marido e a maneira inteligente como a mulher administra o lar. Um desentendimento com o filho do dono e novo chefe, devido ao seu modo rude, faz com que Manoel, sem muito refletir sobre o tema, envie uma carta para seu antigo patrão pedindo demissão. Isso implicava deixar a casa confortável, a escola das crianças e começar novamente em algum lugar do interior. Ele pede a sua esposa para levar a carta ao correio, a caminho das compras. Com o passar do tempo, porém, a sua relação com o novo chefe melhora e Manoel lamenta ter enviado a carta precipitadamente. Quem salva a família de um problema maior é Mariana que, com bom senso, nunca enviou a carta: «– Como eu te agradeço minha boa Mariana, minha providente amiga!», exclama o Manoel (B. de Ataíde Lobo 1943). O reconhecimento maior do marido é chamar sua esposa de sua «amiga», sua igual. A atitude inteligente da esposa se manifesta tanto no mundo do público, do material, porque salva o marido de um grande erro e o ajuda a preservar o trabalho, quanto no âmbito do privado, porque sua sábia decisão a ajuda a conservar o lar. Esse era o ideal a ser alcançado: a mulher que usa sua inteligência para o bem- -estar de sua família.

Se Vaz de Carvalho lamenta a mulher ignorante, ela também fala, de maneira muito crítica, do que denomina «a mulher de sala» vaidosa, cheia de «requintes falsos» e «donaires artificiaes [sic]» (1880, 20). Esse modelo de mulher, falsamente cultivada, muito em voga até as primeiras décadas do século XX, era também seguido em Goa. Fátima da Silva Gracias (1996, 52) explica que tocar um instrumento musical, como o piano ou o violino, era uma das habilidades que a família de uma moça destacava quando entrava no mercado do casamento. Uma vez casada, porém, quase nunca mais voltava a tocar o instrumento. O que, sim, ficava de manifesto era se a mãe havia educado suas filhas nas artes do lar de maneira correta. Em 31 de março de 1953, no jornal A Vida, Lobo e Faria (1953a) publica o conto «Vingança de um marido escritor». Mais do que uma parábola, é uma paródia da mulher que se acha até mais inteligente do que seu marido. Nele, a autora critica o perfil da «mulher de sala» proposto por Vaz de Carvalho, por meio da criação da personagem significativamente chamada de Maria da Gloria, uma mulher vaidosa e pretensiosa, casada com um escritor modesto que não consegue ser publicado e que, por isso, reunia na sua casa seus amigos «pretendentes a literatos e poetas», com quem compartilhava seus escritos. A crítica do conto está dirigida a Maria da Gloria porque usava essas ocasiões não para apoiar o marido, como uma boa esposa: «–Tu és um vencido na literatura, dizia ela. É por isso que os editores não querem teus trabalhos», mas para exibir «seus vestidos, a sua voz e os seus pastéis de creme rançoso, acompanhados duma beberragem confeccionada por ela e que, por falta de nome, os convidados tinham apelidado de «Vinho Glorioso»» (1953a). Em outras palavras, Maria da Gloria é criticada por sua falta de modéstia por querer se mostrar em público, e por seus «falsos requintes», que não passavam de uma pobre mímica dos salões literários da metrópole.

O tema da educação correta da mulher repete-se em outro conto, «As dádivas da mãe», de tom mais sério, em que os ensinamentos da mãe são mostrados de maneira explícita (Lobo e Faria 1952). Uma moça faz um bom casamento e leva um bom dote, mas uma série de infortúnios reduz o casal à última miséria. O que os salva são os bons ensinamentos da mãe da moça; a jovem esposa não somente fazia as tarefas do lar e cuidava dos filhos, mas ainda «lhe sobrava tempo para arranjar uns reisinhos fazendo as roupas dos vizinhos depois de se ocupar na criação das aves domésticas» (1952). Se o pai tinha lhe dado joias como dote ao casar, e elas já tinham se esgotado para pagar as dívidas, o único recurso que lhes ficara eram as habilidades pessoais da esposa, que tinha aprendido com a mãe, assim como uma atitude de luta frente à vida e às adversidades: «trabalho nas mãos, virtude no peito, sorriso nos lábios» (1952). Conforme a lição moral do conto, o que muitas vezes salva a família, mesmo a de classe média, das penúrias econômicas é a atitude da mulher abnegada que sabe tirar proveito da educação recebida pelo bem-estar da família. No caso do conto de Lobo e Faria, a inteligência da mulher residia no saber economizar ou usar as artes domésticas para incrementar a renda familiar.

Se, como observa Michelle Perrot, esse ideal de trabalho «se irradia [da burguesia] às classes operárias que se pretende moralizar com as virtudes da boa dona de casa» (2009, 15), nos contos de Lobo e Faria difunde-se em ambos os sentidos. Há contos, como se verá na sequência, em que são as mulheres de classe mais abastada que aprendem de suas irmãs pobres, em particular, valores como a humildade. O que deve ser destacado é que são sempre as mesmas artes domésticas que auxiliam a mulher goesa, independentemente de sua classe social, em garantir o sustento familiar em momentos de necessidade. Maria Aurora Couto (2005, 241) explica que para as mulheres de famílias goesas de boa posição o trabalho da terra era uma obrigação sagrada, e elas o sabiam fazer com grande habilidade. Assim, elas combinavam a elegância de suas salas com a vitalidade da experiência rural no cuidado, por exemplo, das plantações de coqueiros. Porém, faziam-no sempre dentro dos limites do privado, embora seu trabalho tivesse uma forte influência no mundo do público. Afinal, os coqueiros tornavam-se renda ao serem vendidos no mercado local.

Ao mesmo tempo, se as mulheres de classe mais abastada em geral não tinham nem a necessidade nem a opção de trabalhar fora do lar, ou da plantação familiar, as mulheres pobres se viam muitas vezes obrigadas, ainda que contra a sua vontade, pois era o que o pudor impunha na época, a sair do lar para trabalhar fora e assim enfrentar os embates do destino. Embora nos contos de Lobo e Faria não seja incentivado o trabalho feminino fora do lar e, ainda menos, o trabalho para o enriquecimento individual da mulher, a autora escreveu dois contos, «O filho da costureira »(Lobo e Faria 1953b) e «O chinelo roto» (Ataíde Lobo 1936) com trama muito parecida e idêntica lição moral dirigida às senhoras de classe alta, para elas se espelharem nas histórias das mulheres pobres, e às mulheres de classe baixa, para seguirem como exemplo em momentos de adversidade. Ambos os contos são sobre viúvas que, embora de forma precária, preferem viver de seu trabalho, ainda que fora de casa, e assim ser autossuficientes e independentes, e ganhar o sustento para educar seus filhos. Tanto em «O chinelo roto», em que a mãe trabalha como piladeira, quanto em «O filho da costureira», as mulheres precisam trabalhar fora de casa. Como seu trabalho é realizado em casas de família, quase não há conflito entre o público e o privado. Contudo, elas precisam conciliar a vida familiar com a nova vida do trabalho fora do lar e, por isso, levam os filhos consigo. Nessas circunstâncias, as patroas proíbem seus filhos de qualquer contato com essas crianças de classe baixa.

Graças aos esforços das suas mães, a piladeira e a costureira, ambos os filhos estudam e vão trabalhar em África, onde são bem-sucedidos. Com seus salários dão uma vida confortável a suas mães. A primeira lição do conto é que o trabalho duro e honesto sempre é recompensado porque libera da miséria e da opressão. Sair da pobreza é, então, responsabilidade de cada um, também no caso das mulheres que se veem forçadas a trabalhar fora de casa para suprir a falta da presença masculina no lar ou melhorar as condições de vida familiar. Contudo, ainda nesse caso, embora a mulher assuma a administração da família, seu trabalho de fundo de quintal, como pode ser visto nos contos acima, continua tendo um papel secundário na economia familiar. Tão logo seus filhos crescem, são eles que tomam conta da economia familiar.

Como era costume na época, os filhos voltam para Goa para se casar com a mulher escolhida pela mãe. E quer o destino, em ambos os casos, que entre as muitas propostas de casamento eles recebam as das filhas das mesmas patroas ricas com quem suas mães tinham trabalhado na sua infância. No dia do casamento, no momento de receber as bênçãos e os presentes, conforme o costume goês, ambos revelam suas verdadeiras identidades ao presentear suas jovens esposas com um objeto que simboliza o esforço de suas pobres mães viúvas. No caso da costureira, uma agulha enferrujada; no caso da piladeira, um chinelo velho e roto. E a segunda lição moral do conto é para as mulheres ricas que, em vez de caridosas, tinham se mostrado presunçosas esquecendo-se de que uma vida de rendas ou dependente de um marido com uma boa situação econômica, que lhes permitia ficar dentro do âmbito do privado, era um privilégio das mulheres de classe alta. Já para as mulheres de classe baixa havia desde sempre uma interpenetração de sua vida privada e pública (Proust 2009, 14), o que se acentuava no caso da viuvez, quando a mulher precisava sair de casa, como se revela nos contos de Lobo e Faria.

A última lição moral do conto, mais uma vez, vai além do âmbito do doméstico e parece estar dirigida ao público masculino goês. Ela diz respeito à mobilidade social que se instala na sociedade goesa com a possibilidade de emigrar para África ou para outros destinos, e assim mudar a sua condição económica. São esses emigrados, novos ricos e antigos manducares –arrendatários de terras – que voltam a Goa para ocupar cargos na sociedade que antes lhes eram vedados, e que chegam até a se casar com as filhas dos batecares, donos de terras, agora empobrecidos devido à estagnação económica em Goa. Ao assim fazer, a estrutura social muda e a relação entre uns e outros se reconfigura.

 

Conclusão

Conforme discutido neste artigo, os contos de Lobo e Faria apresentam algumas das problemáticas da sociedade da época por meio de tramas simples, diretas e concretas que prescrevem comportamentos considerados adequados. Por sua vez, o poder afetivo de sua metáfora, que se manifesta na qualidade de sua representação da aldeia goesa e dos que nela moram, como se viu, bem como a sua publicação em jornais de grande difusão na comunidade goesa, fizeram com que sua literatura tenha sido talvez mais efetiva do que tratados de moral ou discursos políticos para o desenvolvimento intelectual e afirmação dos valores da comunidade goesa.

Em 1947, Lobo e Faria escreveu para o jornal A Vida uma narrativa que, mais do que um conto, é uma alegoria sobre uma moça, Maria Cristina, que gosta de joias. No fundo da caixinha onde a menina guardava seus tesouros estavam inscritas as palavras «humildade, caridade, bondade», as verdadeiras joias (Lobo e Faria 1947). O conto revela a epistemologia da literatura de Lobo e Faria: repassar para as mulheres em particular e os goeses em geral as virtudes e valores morais que considerava de importância não somente para a educação feminina, mas também para o desenvolvimento e melhoramento da sociedade goesa. Se seu discurso não é contra-hegemônico, como o de algumas mulheres de sua época, Lobo e Faria mostra que, por meio de uma educação adequada que a tire da escuridão, a mulher é um dos agentes mais importantes desse processo de mudança. Assim, saindo do âmbito do privado, que ela mesma prescrevia para suas leitoras, seus contos se alinham com o pensamento de uma época e classe social: o desejo de uma Goa educada, unida e emancipada.

 

 

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Endereço postal

Rua Pedroso Alvarenga, 101, ap. 91, CEP 04531-010 Itaim Bibi, São Paulo, SP, Brasil.

 

Cielo G. Festino

Professora de literaturas de língua inglesa na Universidade Paulista, São Paulo, Brasil e professora colaboradora do programa de Mestrado da Universidade Federal de Tocantins. É membro do projeto temático «Pensando Goa. Uma Biblioteca Singular em Língua Portuguesa» (USP/FAPESP). É co-editora do livro A House of Many Mansions: Goan Literature in the Portuguese Language. An Anthology of Original Essays, Short Stories and Poems (Margão, Goa: Under the Peepal Tree, 2017), e do volume «Goans on the Move» do journal Interdisciplinary Journal of Portuguese Diaspora Studies (Canadá, Vol. 8, 2018).

 

 

Artigo recebido a 5 de outubro de 2018 e aceite para publicação a 5 de abril de 2019.

 

 

NOTAS

1 Agradeço a Sandra Ataíde Lobo pela sua generosidade ao me permitir o acesso ao livro Goa. Uma Saudade, de sua tia Camila Ataíde Lobo.

2 Agradeço à Prof.ª Carla Maciel pela sua generosidade ao permitir o acesso aos contos de Beatriz Ataíde Lobo e Faria. Uma primeira seleção desses contos já foi publicada por Paul Melo e Castro, com o título de «Contar com África: pequena antologia de contos de Beatriz Ataíde Lobo e Faria» («Goans on the Move» [«Goeses em Trânsito»], Interdisciplinary Journal of Portuguese Diaspora Studies, 7, 2018, 476-493).

3 Embora no arquivo enviado para sua sobrinha, Beatriz Ataíde Lobo e Faria tenha feito questão de incluir o nome do jornal e o ano e, às vezes, o dia e o mês de publicação, não consta em nenhum de seus contos o número de página do jornal.

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