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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  no.38 Lisboa dez. 2018

 

RECENSÕES

 

L´Europe des Femmes. XVIIIe-XXIe siècle, coordenado por Julie Le Gac e Fabrice Virgílio, Paris: Perrin, 2017, 351 pp.

 

Teresa Pinto

Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais, Universidade Aberta, Portugal.

 

 

L´Europe des Femmes é um livro de conhecimento e de intervenção.

Esta obra é o produto de um projeto comum da Associação Mnémosyne1 e do Grupo Genre & Europe do Laboratório de Excelência Écrire une nouvelle histoire de l´Europe (LabEx EHNE2), fruto da iniciativa e coordenação de um coletivo de doze investigadoras e investigadores,3 movido por uma dupla finalidade: contribuir para a reescrita da história das populações europeias, do século XVIII à atualidade, dando voz às mulheres que sempre a integraram, e intervir na alteração de mentalidades, sensibilizando, a partir da comunicação do conhecimento produzido, para as desigualdades de género.

Na introdução geral, o coletivo de coordenadoras confronta criticamente os curtos momentos em que as mulheres surgem no centro de decisões fundamentais para a vida das sociedades com o longo silenciamento a que é votado o papel das mulheres ao longo da história. Pretende-se conferir «aujourd'hui chair et parole à celles qui, par leurs idées, leurs résistances, leurs combats, ont contribué à transformer nos sociétés» (p. 19). Voltar às fontes, nomeadamente a textos clássicos na sua versão original, para melhor captar as nuances sociais e culturais do respetivo contexto, e estabelecer um diálogo entre essas fontes foi o caminho escolhido para melhor percecionar dinâmicas e redes entre os movimentos e mulheres de diferentes países, bem como identificar desfasamentos no tempo e no espaço. Estamos perante uma antologia que inclui textos em francês, inglês, sueco, alemão, holandês, português, espanhol, italiano, romeno, latim, grego, ídiche, russo, polaco, servo- -croata, albanês e turco.

À voz de figuras bem conhecidas e de referência, como Olympe de Gouges, Condorcet, Mary Wollstonecraft, Concepción Arenal, August Bebel, Alexandra Kollontaï, Anne Frank, Virgínia WolfWoolf, Maria Isabel Barreto, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, juntou-se a de camponesas, operárias, domésticas, migrantes... Ficções, cantigas, discursos, ensaios, correspondências e fontes iconográficas diversificadas foram escrutinadas e reinterpretadas à luz de um conjunto de referências comuns de acordo com uma preocupação comum, a de promover a igualdade de mulheres e homens. São, pois, essas fontes que nos são apresentadas, analisadas e comentadas.

Os documentos organizam-se em torno de temáticas transversais e interrogam interroga campos abrangentes: estereótipos sexistas, relação com o corpo, desafios da educação, influência das religiões, experiência da guerra, feminismos, lutas pela igualdade de direitos civis e políticos, migrações, o reconhecimento das mulheres nas artes, nas ciências e no mundo do trabalho, conferindo às mulheres o papel de agentes da história. São onze os capítulos aglutinadores, cada um deles contendo seis a oito sequências de documentos, num total de setenta e oito, apresentados na sua versão original e na tradução em francês, a que se segue a respetiva informação sobre a autoria do documento e o contexto da sua produção, bem como o comentário e pistas bibliográficas para aprofundamento futuro, da responsabilidade da pessoa autora responsável por cada uma das sequências. Em geral, os documentos ocupam uma página, uma segunda página para a tradução, no caso dos documentos textuais, e os comentários ocupam outras duas páginas. São sínteses bem estruturadas e sustentadas em investigação, o que constitui um valor acrescentado à oferta alargada de vozes e de situações a que se reportam.

Colaboraram neste projeto mais de sessenta autoras e autores que, embora na sua maioria pertençam a Centros de Investigação e Universidades francesas, integram catorze Investigadoras de outros países da Europa (Alemanha, Itália, Suíça, Portugal, Suécia, Bélgica, Espanha, Polónia) e um de um país extra-europeuextraeuropeu (Brunei). O alargamento a investigações provenientes de outros lugares de produção de conhecimento, apesar de não revelar um critério bem definido, permitiu a introdução de algumas visões provenientes de ângulos e perspetivas distintas e menos contaminadas pelo contexto francês. Sublinhe-se o contributo de Júlia Garraio, da Universidade de Coimbra, sobre as Novas Cartas Portuguesas das três Marias, atrás referidas (pp. 44-47).

Numa obra com estas características, justifica-se a enumeração dos contributos, de forma a dar uma ideia da panóplia de assuntos nela contemplados.

O 1.º capítulo, On ne naît pas femme: on le devient, congrega documentos e comentários, respetivamente, de Mary Wollstonecraft (Myriam Boussahba-Bravard), Concepción Arenal (Yannick Ripa), Otto Weininger (Jacques Le Rider), Alexandra Kollontaï (Magali Delaloye), Simone de Beauvoir (Sylvie Chaperon), Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa (Júlia Garraio), Bonne fête maman! [imagem] (Claudine Marissal).

O 2.º capítulo, Entrées en politique, inclui documentos e comentários, respetivamente, de Nicolas de Condorcet (Caroline Fayolle), William Thompson (Michel Prum), Hedwig Dohm (Anne-Laure Briatte), Agence Rol [fotografia] (Myriam Boussahba-Bravard), Victoria Kent (Yannick Ripa), Aslan Tufan Egemen (Emmanuel Szurek), Laura Boldrini (por Anna Scattigno).

O 3.º capítulo, La guerre, une affaire de femmes, apresenta documentos e comentários, respetivamente, de Étienne-Nicolas Méhul [música] e Marie-Joseph Chénier [letra] (Fabrice Virgili), Florence Nightingale (Fabrice Virgili), Paolina Schiff (Ruth Nattermann), Bertha von Suttner (Anne-Laure Briatte), Trois affiches de la guerre civile espagnole [imagens] (Maud Joly), Anne Frank (Julie Le Gac), Nina Lobkovskaia (Amandine Regamey).

O 4.º capítulo, À corps perdus, reúne documentos e comentários, respetivamente, de Mme du Coudray [imagem] (Véronique Garrigues), Magnus Hirschfeld (Agathe Bernier-Monod), Marie Carmichael Stopes (Myriam Boussahba-Bravard), Giuliana Dal Pozzo (Anna Scattigno), Papa Paul Paulo VI (Anthony Favier), Roger Jackson [fotografia] (Ludivine Bantigny), Simone Veil (Yannick Ripa).

O 5.º capítulo, Féminismes en tous genres, compreende documentos e comentários, respetivamente, de Josefa Amar y Borbón (Mercedes Yusta Rodrigo), August Bebei (Jean-Numa Ducange), Arma Kuliscioff (Simonetta Soldani), Report of the Fourth Conference of the International Woman Suffrage Alliance (Myriam Boussahba- Bravard), Astrid Lindgren (Eva Söderberg), Hymne du MLF (Fabrice Virgili e Michelle Zancarini-Fournel), Vida Tomsic (Fábio Giomi), MARShojmë S'festojmë [fotografia] (Francoise Thébaud.

O 6.º capítulo, Et Dieu créa la femme, abarca documentos e comentários, respetivamente, de Glückel von Hameln (Sylvie Anne Goldberg), Predikatorul Jurnal Eklesiatic (Constanta Vintila-Ghitulescu), Franz Hipler (Malgorzata Sokolowicz. Nelly Roussel (Véronique Rieu), Hasnija Berberovic (Fábio Giomi), The Church of EnglandIgreja Anglicana (Rémy Bethmont).

O 7.º capítulo, À l'école du genre, incorpora documentos e comentários, respetivamente, de Jean-Jacques Rousseau e Nicolas de Condorcet (Dominique Picco), Caterina Franceschi Ferrucci (Simonetta Soldani), Emilia Pardo Bazán (Yannick Ripa), École de Carouge (Marianne Thivend), Pavel Cubinskij (Denise Karnaouch), Dr Rudolf Bode (Nicolas Patin), Dr Benjamin Spock (Didier Lett).

O 8.º capítulo, Travailleuses de tous les pays, abrange documentos e comentários, respetivamente, de Pedro Rodríguez de Campomanes (Ofelia Rey Castelao), Vittoria e Felice Carpano (Beatrice Zucca Micheletto), Molteni [fotografia] (Marie- -Élisabeth Handman), Adelheid Popp (Paul Pasteur), Olive Schreiner (Myriam Boussahba-Bravard), Coco Chanel [imagem] (Louis-Pascal Jacquemond), Internationale du personnel des PTT (Peggy Bette).

O 9.º capítulo, Parcours d'exil, introduz documentos e comentários, respetivamente, de The Hon. Mrs. Stuart Wortley (Marie Ruiz), Raden Adjeng Kartini (Frank Dhont), Joseph-Porphyre Pinchon [imagens] (Joël Cornette), Weronika Kapusta (Louis-Pascal Jacquemond), Solange Fasquelle e Maurice Henry [imagens] (Bruno Tur), Sabine de Dresde (Anne-Laure Briatte), Lina Prosa (Camille Schmoll).

O 10.º capítulo, Place aux artistes, contém documentos e comentários, respetivamente, de Maria Rosa Coccia (Mélanie Traversier), Marie Bashkirtseff [imagem] (Charlotte Foucher Zarmanian), Virginia Woolf (Anne Besnault-Levita), Mariama Bâ (Pascale Barthélémy), VALIE EXPORT (Louis-Pascal Jacquemond), Carlos Sánchez Pérez, dito Ceesepe [imagem] (Brice Chamouleau), Niki de Saint Phalle [fotografia] (Louis-Pascal Jacquemond).

O 11.º capítulo, À la conquête des sciences, convoca documentos e comentários, respetivamente, de Maria Gaetana Agnesi (Clara Silvia Roero), Sophie Germain (Sonia Bledniak), Hertha Marks Ayrton (Louis-Pascal Jacquemond), Franziska Tiburtius (Johanna Bleker), Benjamin Couprié [fotografia] (Louis-Pascal Jacquemond), Komsomol'skaia Pravda [texto e imagem] (Sylvain Dufraisse), Mary Nash (Yannick Ripa).

O livro termina com um comentário a um pormenor da representação «Europa sobre o touro» de Astéas, 340 a.C., sugestivamente intitulado «Europe, la belle étrangère».

L'Europe des Femmes, não só confere visibilidade a mulheres e contextos históricos que marcaram a vida das populações europeias e as relações entre mulheres e homens do século XVIII à atualidade, como sugere uma opção metodológica metodológico que pode ser desenvolvida e aprofundada através do alargamento das redes de investigação intra e internacionais.

 

 

NOTAS

1 A Associação Mnémosine, cujo nome remete para a deusa da memória e mãe das musas, promove a história das mulheres e do género numa dimensão internacional, europeia e francófona (http://www.mnemosyne.asso.fr). Constituída em 2000, pública a revista em linha Genre & Histoire.

2 O LabEx EHNE surgiu em 2012, no contexto da crise da União Europeia e do projeto europeu, propondo-se abordar a história da Europa a partir de eixos temáticos que recobrem uma ampla gama de campos que, no quadro institucional em que a investigação histórica é conduzida, são apenas apreendidos nas suas evoluções autónomas (http://www.labex-ehne.fr).

3 Face às dificuldades editoriais colocadas pelo elevado número de pessoas coordenadoras da obra, foram escolhidos coletivamente dois nomes que assumiram formalmente a coordenação para efeitos da publicação do livro. A justa referência ao coletivo está presente numa nota do editor (p. 9): Peggy Bette, Sónia Bledniak, Myriam Boussahba-Bravard, Anne-Laure Briatte, Véronique Garrigues, Louis-Pascal Jacquemond, Julie Le Gac, Amandine Malivin, Dominique Picco, Yannick Ripa, Mélanie Traversier e Fabrice Virgíli.

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