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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  no.37 Lisboa jun. 2018

 

EDITORIAL

 

Editorial

Virgínia Ferreira

 

 

Neste trigésimo sétimo número da ex æquo reunimos um conjunto de textos em torno de um tema – A «ideologia de género» e a religião – que tem suscitado vivas polémicas. A organização do dossier esteve a cargo de três académicas com um notável curriculum nestas temáticas – Carmen Bernabé Ubieta, Fernanda Henriques e Teresa Toldy. No texto de introdução, intitulado «A ‘Ideologia de Género' da Igreja Católica», assinado pelas organizadoras do dossier temático, é posto em evidência o contributo que cada artigo traz para a abordagem da problemática.

Antes da apresentação dos conteúdos deste número da revista, partilhamos uma muito boa notícia recentemente recebida. Este espaço do Editorial tem vindo a constituir-se enquanto montra das nossas ansiedades e angústias perante a vulnerabilidade a que uma realização como a ex æquo está exposta num tempo dominado, segundo Nigel Thrift, pelo knowing capitalism. Aqui enunciámos os desafios com que uma revista interdisciplinar é confrontada numa época de entrincheiramento disciplinar. Aqui nos insurgimos contra o papel dos sistemas de métricas de produtividade no desenvolvimento quer do capitalismo, quer do conhecimento e da sua matriz androcêntrica. Aqui também tivemos oportunidade de declarar a nossa vontade de resistir, sem abdicarmos dos nossos princípios e desígnios. Por fim, interessa sublinhar que também aqui fomos dando conta dos passos que a ex æquo foi dando no sentido de criar condições à continuidade da sua missão (nomeadamente, a entrada no mundo da DOI – digital object identification – e do DOAJ – Directory of Open Access Journals).

Nos passos a dar mencionámos a candidatura à SCOPUS que se autodenomina «largest abstract and citation database of peer-reviewed literature: scientific journals, books and conference proceedings». A boa notícia é que a candidatura da ex æquo foi aceite. Este acervo de literatura que está obrigada a aplicar com rigor a dupla arbitragem científica anónima dos respetivos conteúdos passou a contar com mais um elemento. Que perspetivas é que este novo passo abre à ex æquo?

Este reconhecimento da qualidade do trabalho feito ao longo dos quase vinte anos da revista não deixará, pelo menos é essa a nossa expectativa, de robustecer o esforço colaborativo com que editoras, coordenadoras/es de dossiers temáticos, autoras/es e revisoras/es nos têm brindado, mas também de conferir maior crédito a esse esforço. Em resultado da integração nesta base de dados, o nosso trabalho chegará a um maior número de pessoas «nos quatro cantos do mundo», beneficiando todas as pessoas que colaboram com a ex æquo. A todas elas o nosso profundo reconhecimento.

A ofensiva religiosa e política, por parte de setores religiosos conservadores, nos últimos vinte anos, à chamada «ideologia de género» (contexto latino-americano) ou «teoria do género» (contexto europeu) tem conhecido desenvolvimentos diferenciados em diferentes regiões do globo, mas com o mesmo fundamento – a defesa do princípio doutrinal que fixa a diferença entre os sexos como um dado indiscutível. A obra de Butler é denunciada como um perigo para a humanidade, dado que rompe com a «sacralização» da diferença entre os sexos, põe em causa a «missão da mulher no seio da família» e normaliza a homossexualidade. Na verdade, há quem a considere como mais perniciosa do que o marxismo e as ideologias totalitárias (como o faz Tony Anatrella, na introdução de Gender. La controverse, 2011). A educação, tema do último número da ex æquo, tem constituído um dos campos de batalha mais procurados para as polémicas em torno da «ideologia de género», a par do casamento entre pessoas do mesmo sexo, entre outros. Faz, por isso, todo o sentido que tenhamos decidido por este alinhamento de temáticas para os dossiers destes dois números.

Apesar da sua periculosidade, dado que tem poderosas organizações de natureza global ao seu serviço, a questão da «ideologia de género» não tem sido muito trabalhada, donde o acrescido interesse do dossier temático deste número da ex æquo, complementado com três outros artigos com abordagens que nos mostram que a matriz da assimetria entre os sexos invade todas as representações e relações sociais. No caso do texto de Taynara Fitz Patriarcha e de Sandra Lourenço de Andrade Fortuna, intitulado «Ordem patriarcal de gênero, mediação e serviço social», mostra-se como essa matriz, em intersecção com os antagonismos de raça/etnia e de classe, enformou a profissão de serviço social. Ilsa Mendoza Mendoza e de Susan Sanhueza Henríquez, por seu turno, no seu estudo das «Percepciones de equidad de género en las/os futuras/os profesoras/es», mostram através de um exercício de grounded theory como, entre esta população jovem, persistem os estereótipos convencionais de género. No texto que fecha a secção de Estudos e Ensaios, intitulado «Violência sexual e consumo de substâncias psicoativas: podem os contextos festivos ser educativos», da autoria de Cristiana do Vale Pires, Raquel Pereira, Helena Valente e Helena Moura, são identificados os fatores que contribuem para a autoculpabilização das vítimas de violência sexual nos contextos festivos e de consumos de álcool ou drogas, porque «não foram cuidadosas» ou «não souberam resguardar-se», na voz até de outras mulheres.

A secção de Recensões, por fim, convida-nos a acompanhar de perto as leituras que a Ana Oliveira, a Helena Santos e o Pedro Saraiva fizeram, respetivamente, das obras de Maria do Mar Pereira, de Sara Falcão Casaca e Johanne Lortie e de José María Calleja. Todos bons motivos para continuarmos com atenção ao que a ex æquo vai dando a conhecer com todo o gosto e rigor.

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