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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  no.36 Lisboa dez. 2017

 

RECENSÕES

 

Sexualidades, gravidez e juventude: relações sociais e educativas, organizado por Laura Fonseca e Sofia Santos. Porto: Edições Afrontamento, 2015, 312 pp.

 

Preciosa Fernandes

Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Portugal

 

 

O livro organizado por Laura Fonseca e Sofia Santos sobre a problemática Sexualidades, Gravidez e Juventude resulta de um projeto de investigação que tem como foco educacional de pesquisa «formas como as sexualidades são aprendidas, ensinadas, pensadas e vividas pela juventude que está, ou deveria estar, a receber a escolaridade no meio dos seus pares» (p. 11). Para além do capítulo I, relativo à introdução, o livro está organizado em três partes: Parte I – Compreender a Maternidade e Sexualidades Jovens; Parte II – Interpretar Gravidez Jovem: Biografias, Experiências e Contextos e Parte III – Interpretar Sexualidades Jovens: Vozes, Narrativas e Debates Educacionais. Da parte I constam os capítulos II e IIII, respetivamente, «Maternidade jovem num mundo de maternidade em mudança», da autoria de Mary Jane Kehily e «Corpos, Sexualidades e Educação: novas políticas?», da autoria de Guacira Lopes Louro. A Parte II integra: o capítulo IV, «Percursos de gravidez/maternidade e parentalidade jovem: risco, vulnerabilidade, pânico ou projecto?» de Laura Fonseca, Sofia Santos, Joana Barbara, Ana Cláudia Freitas e Norberto Ribeiro; o capítulo V Biografias de gravidez/maternidade jovem: experiências de educação e cidadania sexual e íntima?, de que são autoras Helena Araújo, Laura Fonseca e Sofia Santos e o capítulo VI, Biografias de jovens grávidas e mães em contextos de protecção social: percursos e questões educativas, da autoria de Laura Fonseca e Sofia Santos. A parte III inclui: o capítulo VII, Nós não somos educados a falar disso e a dar nome às coisas»: vozes e perspectivas jovens, cuja autora é Sofia Santos; o capítulo VIII, Sexualidades e Educação sexual na escola: perspectivas e protocolos sexuais de jovens, com autoria de Paulo Nogueira; o capítulo IX, Culturas sexuais de estudantes: debates sobre mudanças, sexualidades, género e diversidade sexual, de Laura Fonseca e Ana Raquel Simões e o capítulo X, dedicado à Gravidez/maternidade e Sexualidades jovens: questões sociais e educativas, que configura as conclusões da obra e de que são autoras Laura Fonseca e Sofia Santos.

As temáticas abordadas são de enorme complexidade o que torna a obra inquietante, extremamente pertinente e atual. Inquietante, por ser um texto que dá voz a jovens, privilegiando o discurso na 1ª pessoa, confrontando-nos com perceções sobre sexualidades e saúde sexual, e com trajetórias de vidas muito vulneráveis das quais fazem parte a experiência precoce de gravidez e de maternidade. Pertinente e atual porque traz à tona argumentos teóricos e empíricos que contribuem para pensar «fora da caixa» as sexualidades e a gravidez na juventude e, assim também, para a construção de novas mentalidades. São muitos, e interessantes, os tópicos em debate. Por essa razão, detenho-me em aspetos para os quais esta obra chamou mais a minha atenção esperando provocar nos e nas leitores/as o desejo de aprofundar a leitura de todo o texto.

Num primeiro olhar destaco a relação da adolescente grávida com o corpo. Sofia Santos, refere a propósito «que o barrigão numa adolescente é visto como um desafio à moral» (p. 136) desaprovado pelas famílias, pela escola e pela sociedade em geral esquecendo-se, digo eu, o quanto significa para a jovem adolescente a condição de gravidez, e os diferentes processos de transição por que passa. Estar grávida é seguramente diferente de ser mãe: a responsabilidade de passar a ser «cuidadora da criança» compromete o curso natural do desenvolvimento da adolescente e, a maior parte das vezes, a sua trajetória escolar (capítulo 6). Isto significa que do ponto de vista educacional, e é esse que se destaca aqui, os aspetos de ordem social, psicológica e emocional precisam de ser equacionados para que, por um lado, a solução não tenda a ser a de institucionalização das jovens insistindo- -se, tal como revelam as jovens entrevistadas, na sua recriminação e estigmatização social, e interrompendo-se o seu percurso escolar e, por outro, se continue a «silenciar a paternidade». A este propósito, Sofia Santos chama a atenção para o facto de a paternidade ser percecionada nos discursos femininos e masculinos como uma opção que é dada aos rapazes e não como um dever a assumir, como acontece às raparigas, levando-os a «fugirem da responsabilidade» e a ignorarem a possibilidade de uma co-responsabilidade parental (p. 133). Esta situação, parece também significar uma certa apropriação pelos rapazes de um modelo social que os legitima a «fugirem» dessa responsabilidade parental; um modelo social onde «cabe» a figura de mães solteiras e está ausente a figura de pais solteiros, e em que à mãe compete cuidar dos filhos, tal como demonstram as narrativas biográficas das jovens adolescentes apresentadas nos capítulos 4 e 5.

Esta questão relaciona-se também com a saúde sexual e o planeamento familiar que na opinião da autora têm de «ultrapassar o duplo padrão que coloca as mulheres como naturalmente mais responsáveis, vítimas e ausentes de desejo sexual, em oposição aos homens irresponsáveis e sem controlo sobre si» (p. 145), embora como mostram os dados, esta visão negativa do pai adolescente seja já contestada por alguns rapazes que alertam para a vontade de partilha e de co-responsabilidade no processo de gravidez, e no uso de contracepção.

Destaco, nesta linha, a ideia que dá conta do «escasso impacto que a informação transmitida nos contextos de saúde, educação e mesmo nos media tem na transformação das práticas sexuais, e a ideia de que os discursos jovens se mostram impermeáveis às indicações médicas por uma saúde sexual mais eficaz» (p. 146). Importará, pois, pensar porque continuam os e as jovens a não estar informados? Porque continuam a viver uma cultura de risco? A não ter uma atitude consciente e responsável relativamente às infecções sexualmente transmissíveis, tal como revelaram as/os entrevistadas/os?

Trazendo a discussão para o interior da escola, com as autoras somos levadas a interrogar-nos por um lado sobre o papel que tem tido a escola neste domínio (p.194) e, por outro, porque continuam os jovens impermeáveis às informações sobre saúde sexual e educação sexual que são transmitidas na escola? E estas interrogações são tão mais importantes quando os dados revelam que para uns a escola é o sítio ideal e legítimo para se adquirir conhecimento sexual e aprender os protocolos sexuais e de género (p. 195)… e para outros é um espaço de vigia e de recriminação, que os aprisiona nas suas manifestações sexuais e de afeto. Como sublinha Paulo Nogueira, no capítulo 7 deste livro, «mesmo flutuando entre redes cada vez menos controláveis pela Escola, as relações genderizadas de poder e de expressão das sexualidades jovens manifestam-se e reproduzem-se no espaço escolar, o que justifica repensar, para a actualidade, os alcances e as finalidades da educação sexual na escola pública (ibidem). Reconhecendo capital importância ao papel da escola na educação sexual considera, no entanto, que os debates sobre educação sexual que nela têm acontecido se limitam a modelos de educação assentes na transmissão de saberes biológicos e/ou contraceptivos não valorizando, e não integrando, outras propostas de conhecimento que os e as jovens produzem e manifestam na escola. Concordando com o autor, também no capítulo 8, Laura Fonseca e Ana Raquel Simões se posicionam nesta mesma linha ao defenderem a importância de se reconhecerem as culturas sexuais dos estudantes e ao considerarem que esse reconhecimento oferece um ponto de partida para os professores, ao mesmo tempo que sustenta o trabalho educativo da escola.

Em face das ideias aqui destacadas estaremos de acordo sobre a importância desta obra enquanto dispositivo esclarecedor de pensamentos e perspetivas teóricas e despoletador de atitudes de maior consciencialização sobre estereótipos, preconceitos e atitudes homofóbicas sobre sexualidades. Uma obra que ajuda a pensar sobre o trabalho já feito por muitas escolas ao mesmo tempo que prospetiva novas reflexões quanto à mudança de mentalidades e à amplitude e melhoria de práticas de educação sexual nas escolas. Uma obra que estimula a que essa amplitude e melhoria sejam, desejavelmente, feitas com os contributos dos jovens que, de modo transversal, manifestaram querer educação sexual e deram pistas para a reformulação de estratégias, nomeadamente reclamando um espaço que lhes permita ficarem mais «à vontade» para falarem sobre si e sobre a sua sexualidade.

Considerando que no que toca ao papel da escola muito trabalho já tem sido feito, importará, todavia, refletir sobre o modo como tem sido feito esse trabalho nas escolas e sobre os impactos que tem tido na formação dos e das jovens. A circulação nas escolas de discursos moralistas, a que não é alheio o facto, como sublinham Laura Fonseca e Ana Raquel Simões, de sermos um país católico que vivenciou durante quatro décadas grandes repressões morais e sexuais poderá constituir um constrangimento na abordagem destas problemáticas. Ter consciência desta situação é já um grande passo em frente.

Estamos, como referi, perante uma obra inquietante. Inquietante porque nos confronta com os nossos próprios preconceitos provocando a auto-reflexão e a aprendizagem. Estamos perante uma obra que, indiscutivelmente, fornece um conjunto de instrumentos teóricos e elementos empíricos que ajudam a compreender temáticas tabus, incitando a novas leituras potenciadoras de abordagens educacionais orientadas por princípios de uma cidadania ampla e de respeito pelos direitos de cada pessoa. Uma obra que constituirá um importante contributo para todos os/as educadores/as, professores/as, pais/mães e Encarregados/as de Educação, cidadãos e cidadãs em geral.

Em síntese, uma obra que é atravessada por um questionamento de fundo e que vai deixando importantes reptos, uns mais explícitos do que outros, que ajudam a resignificar os modos de pensar as sexualidades e a perspetivar processos de intervenção educacional pautados por uma cidadania ampla e dos direitos.

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