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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  no.26 Vila Franca de Xira  2012

 

Introdução. Para uma Compreensão Genderizada do Processo de Envelhecimento

 

Cristina C. Vieira e Heloísa Perista

FPCE-U. Coimbra / CESIS, Portugal

 

A organização social persiste em pautar-se por hierarquias de estatuto e valor, que outorgam a mulheres e homens diferenças ao nível do poder real e simbólico com que gerem as suas vidas. E se é um facto que as mulheres continuam a representar a face mais visível das desigualdades de género – por cifras alarmantes como as referentes à violência doméstica, de que são alvo, ou à sua escassa participação política, entre outros exemplos, – a verdade é que tais assimetrias também afetam os homens, em domínios talvez menos visíveis, nomeadamente ao nível do espaço privado e familiar, mas igualmente penalizadores da respetiva capacidade de autodeterminação individual.

Partindo destas constatações, a análise do processo de envelhecimento e das suas implicações pessoais e sociais para a vida de mulheres e homens, a envelhecer, não pode deixar de fazer-se através das lentes de género. Na realidade, este parece ser um fenómeno profundamente genderizado e o cruzamento de diferentes formas de discriminação, como o idadismo (ageism) e o sexismo, entre outras, poderá acarretar consigo problemáticas diferenciadas para cada um dos sexos nas etapas ulteriores do ciclo vital.

Na chamada idade adulta avançada, sabe-se que a distribuição tradicional dos papéis de género continua a estruturar as relações entre homens e mulheres, se bem que isso possa acontecer de forma menos pronunciada do que em faixas anteriores, em virtude de fatores como a perda de poder simbólico em domínios como a reprodução ou o mercado de trabalho. As desigualdades de género, visíveis em idades mais jovens, tendem a manter-se, por isso, em idades mais avançadas, acentuando-se mesmo em alguns domínios, e acarretam consigo obstáculos reais para a vida de homens idosos e mulheres idosas.

A maior longevidade das mulheres associada à sua maior autonomia ao nível da domesticidade são fatores que lhes permitem viver sozinhas mais tempo, após um divórcio ou separação, e que ainda as tornam as principais cuidadoras informais na família, entrincheiradas entre as gerações de filhos/as (e de netos/as) e as de progenitores/as idosos/as. Além disso, o seu tendencialmente mais baixo estatuto profissional durante a vida ativa fá-las agora receber uma pensão de reforma muito inferior às dos homens da mesma idade. Esta disparidade, em termos dos recursos monetários, coloca as mulheres idosas em maior risco de pobreza e costuma ser, inclusive, o mote para a manutenção de relações de conjugalidade baseadas na suposta superioridade do poder masculino, fruto da mais elevada contribuição do homem para o orçamento familiar.

No caso dos homens idosos, a sua menor autonomia ao nível das questões da domesticidade compele-os a optarem mais do que as mulheres pela institucionalização, no caso de ficarem sozinhos, ainda que do ponto de vista físico e mental possam estar perfeitamente funcionais. Pode ainda mencionar-se que a problemática da solidão talvez seja mais gravosa para eles do que para elas, não só pela razão atrás mencionada, mas também pelo facto de os homens se inclinarem a fomentar ao longo da vida uma rede social de relações mais restrita, que funciona por isso como um suporte social mais frágil, em situações de divórcio, viuvez ou negligência familiar, votando-os com maior probabilidade a isolamento social na velhice.

O dossier temático, intitulado Género e envelhecimento: indicadores, problemáticas e desafios para a intervenção, que integra este número da Revista ex aequo e comporta sete artigos de autoras e autores nacionais e estrangeiras/os, pretende trazer para a discussão estas e outras temáticas com importância fulcral para a compreensão do envelhecimento, que, quando analisado sob a óptica do género, tende a apresentar um duplo padrão: um para mulheres e outro para homens.

O primeiro artigo, de Fernanda Daniel, Teresa Simões e Rosa Monteiro, analisa as representações sociais sobre o envelhecimento no masculino e no feminino. Através da Técnica de Associação Livre de Palavras, as autoras confirmam a prevalência de estereotipia idadista negativa e destacam alguma diferença na classificação do envelhecer no masculino e no feminino: o primeiro ancorado na proeminência posicional da dependência e da perda, enquanto no envelhecer no feminino emergiram atributos associados aos papéis sexuais e designadamente ao cuidar, bem como à dimensão estética/física.

Segue-se o artigo de Sally Bould e Sara Falcão Casaca. Este texto parte da análise de alguns dados sobre o emprego de mulheres com idades compreendidas entre os 55-64 anos no contexto da UE15. As políticas atuais em torno do «envelhecimento ativo» e da idade de reforma são discutidas pelas autoras, por não integrarem uma perspetiva de género, descurando o trabalho não pago e a prestação de cuidados. São ainda exploradas questões, que se colocam de forma particularmente evidente no atual contexto de prolongamento tendencial do ciclo de vida ativa das mulheres, relativamente a quem assegura a prestação de cuidados familiares; e ao risco (cada vez maior) subjacente à situação económica presente e futura das mulheres mais velhas.

O artigo de Fernando Pocahy, sobre as questões do desejo e do (homo)erotismo em homens idosos, traz para a ribalta um assunto praticamente esquecido da agenda de prioridades de quem estuda o envelhecimento, como se existisse um muro de silêncio – não só em termos sociais, mas também na investigação científica – em torno das questões da sexualidade das pessoas idosas. Em resultado de um estudo empírico de cariz qualitativo, e movido por um paradigma crítico de análise da realidade, este autor brasileiro dá-nos conta de uma certa performatividade do processo de envelhecer, neste domínio particular do sentir e do vivenciar experiências eróticas, as quais, nos homens idosos que observou e entrevistou, pouco ou nada se mostraram permeáveis a fatores como a idade ou a (falta de) juventude do corpo.

O quarto artigo a integrar este dossier temático é das autoras austríacas Helga Amesberger e Birgitt Haller. Este artigo sintetiza os principais resultados de uma pesquisa sobre violência contra mulheres idosas em relações de intimidade na Áustria. Dando voz às próprias mulheres idosas sobre as suas experiências e perspetivas sobre a violência, as autoras põem em evidência a importância de uma abordagem integrada da idade e do género. O artigo reflete ainda sobre as respostas institucionais às necessidades de mulheres idosas vítimas de violência em relações de intimidade.

As vivências do processo de institucionalização de mulheres idosas são o objeto de análise do artigo de um conjunto de seis pessoas autoras: Inayara Santana, Maria da Penha Coutinho, Natália Ramos, Deraci Santos, Gilcínila Lemos e Paloma Silva. Neste trabalho são analisados aspetos psicossociais do processo de institucionalização de mulheres idosas. Com base numa pesquisa qualitativa, desenvolvida numa instituição de longa permanência para pessoas idosas na cidade de Santo Antônio de Jesus-Bahia-Brasil, as autoras concluem que a maioria das mulheres entrevistadas considera boa a vida que têm na instituição. Os resultados confirmam, por outro lado, a insuficiência de programas de apoio à população idosa no Brasil.

A problemática do envelhecimento da geração das mulheres cuidadoras é debatida no artigo de Alda Britto da Motta, que nos leva a refletir, de uma forma muito clarividente, sobre as implicações que as mudanças sociais que afetam as famílias de hoje – nomeadamente, a coexistência de várias gerações vivas e o adiamento do momento da saída dos/as jovens de casa, – têm para as mulheres, também elas a envelhecer, as quais se vêem obrigadas a assumir a penosa função de ‘cuidadoras em série’, quer dos/as mais velhos/as, quer dos/as mais novos/as.

As autoras Laise Jardim e Juliana Perucchi dividem a autoria do artigo que encerra este dossier temático, o qual chama a nossa atenção para o conteúdo estereotipado e eivado por hierarquias de género de campanhas brasileiras, destinadas à população idosa, cujo objetivo é alertar para a necessidade de prevenção do VIH/SIDA. A desconstrução dos discursos oficiais produzidos nestas campanhas, diferentes para homens e para mulheres, mostra-nos de que forma as entidades com responsabilidades no domínio público, neste caso na área da saúde, podem – ainda que implicitamente – contribuir para a manutenção da ordem social de género que está na base das desigualdades penalizadoras para ambos os sexos.

Na certeza de que este dossier temático poderá contribuir para uma melhor compreensão do envelhecimento, quer pela reflexão crítica despertada pelas temáticas abordadas, quer pelas implicações destes trabalhos para a melhoria das práticas junto das pessoas idosas, estamos convictas de que continuam em aberto muitas avenidas para a investigação futura, se o objetivo for a promoção de um efetivo envelhecimento ativo tanto de mulheres como de homens.

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