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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  no.25 Vila Franca de Xira  2012

 

Entre mulheres: Género e representações das relações íntimas1

 

Ana Maria Brandão*

ICS – Universidade do Minho

 

Resumo

Na modernidade tardia, as relações íntimas são enformadas por um ideal igualitário que se estendeu à relação homoerótica, reforçado pela homogamia de género dos/as parceiros/as e pela necessidade de estes/as construírem novos modelos de conjugalidade. A relação homoerótica feminina, em particular, tem sido apresentada como traduzindo a recusa de conformidade ao poder masculino e potencialmente subversiva de uma ordem assente no género. Neste artigo, discute-se de que modo certas representações da relação homoerótica feminina traduzem uma reprodução do pensamento binário que faz do género o elemento central de valorização da relação, tornando questionável a sua capacidade de subverter a ordem dominante.

Palavras-chave: igualitarismo; homoerotismo feminino; desigualdade de género.

 

Between women: Gender and representations of intimate relationships

Abstract

In late modernity, intimate relationships have been shaped by an egalitarian ideal, which is reinforced, in the case of homo-erotic relationships, by gender homogamy and the need to construct new conjugality models. Female homo-erotic relationships, particularly, have been equated as a refusal of women’s conformity to male power and potentially subversive of the gender order. In this article, one discusses how certain representations of the female homo-erotic relationship convey a reproduction of the binary thought that perceives gender as its core and most valued element, questioning its ability to subvert the dominant order.

Keywords: egalitarianism; female homo-eroticism; gender inequality.

 

Entre femmes: Genre et représentations des relations intimes

Résumé

Dans la modernité tardive, les relations intimes sont édifiées sur un idéal égalitaire qui s’est élargie à la relation homo-érotique, renforcé par l’homogamie de genre des partenaires et par la nécessité que ceux-ci ont de construire des nouveaux modèles de conjugalité. La relation homo-érotique féminine, en particulier, a été présentée comme en traduisant le refus de conformité au pouvoir masculin et potentiellement subversive d’un ordre basé dans le genre. Dans cet article, on discute de que façon certaines représentations de la relation homo-érotique féminine traduisent une reproduction de la pensée binaire qui fait du genre l’élément central de valorisation de la relation, en rendant problématique sa capacité de subvertir l’ordre dominant.

Mots-clés: égalitarisme; homo-érotisme féminin; inégalité de genre.

 

Introdução

Autores como Pierre Bourdieu (1998), Manuel Castells (1998) ou Anthony Giddens (1997) sublinharam o papel do feminismo na transformação dos entendimentos acerca do género e da sexualidade e das práticas sociais a eles ligadas. Especialmente sob os impactos do feminismo de segunda vaga, as relações íntimas – nomeadamente, as amorosas – teriam passado a guiar-se por uma ideologia que recusa a hierarquização dos parceiros em função do género, um ideal igualitário e simétrico que haveria de estender-se à relação homoerótica (cf. Gillies, 2003; Heilborn, 1993; Weeks, Heaphy e Donovan, 2001). A «relação pura», considerada por Giddens (1997) o protótipo relacional da modernidade tardia, apresenta ligação estreita a esse ideal. Internamente referencial, isto é, não dependente de fatores externos para o seu encetamento ou preservação, a relação pura exige o trabalho e o investimento mais ou menos contínuo dos parceiros (idem) e tem sido lida como demonstração «de que a intimidade, hoje, depende menos de esquemas de género como meio de organização das relações e mais da negociação igualitária deliberativa» (Santore, 2008: 1209).

Um dos domínios onde o ideal igualitário parece ser mais fortemente posto à prova diz respeito à divisão do trabalho doméstico, ao cuidado com os filhos e à conjugação das vidas profissional e privada/familiar. Considerada a persistência das assimetrias de género nos casais heterossexuais a estes níveis, esse ideal parece, entretanto, surgir mais como ambição do que como realidade (Jamieson, 1999, 2003; Poeschl, 2000; Wall e Amâncio, 2007). Este aspeto terá estado na base da eleição da relação homoerótica como protótipo, por excelência, da relação pura (Diamond e Butterworth, 2009; Dunne, 2003; Giddens, 1997; Gillies, 2003; Jamieson, 2003; Weeks, Heaphy e Donovan, 2001). Não só o ideal igualitário parece ter-se tornado dominante entre os/as que escapam à heterossexualidade normativa, como estes/as tendem a encarar as suas relações amorosas como mais igualitárias do que as relações entre parceiros de sexo diferente, características que têm sido explicadas pela necessidade de criar novos modelos de conjugalidade face à inadequação do modelo heterossexual e pela homogamia de género dos/as parceiros/as (Diamond e Butterworth, 2009; Dunne, 2003; Gillies, 2003; Jamieson, 2003; Weeks, Heaphy e Donovan, 2001).

A preservação e o sucesso da relação homoerótica implicariam, assim, um trabalho de negociação que envolve explicitar e refletir sobre o seu estado e uma particular atenção às desigualdades de poder, assentando num compromisso claro com o ideal igualitário (Weeks, Heaphy e Donovan, 2001). Todavia, isto não elimina a influência do género no modo como a relação homoerótica é concebida ou vivida. Por um lado, a similaridade dos/as parceiros/as em termos de género tem sido apontada como um dos fatores que contribuem para o facto de a divisão de tarefas não obedecer ao padrão dominante de distinção entre masculino/ /homem e feminino/mulher (Diamond e Butterworth, 2009; Dunne, 2003; Gillies, 2003; Heilborn, 1993; Jamieson, 2003; Weeks, Heaphy e Donovan, 2001). Por outro lado, os estudos que revelam um maior igualitarismo na relação entre parceiros/as do mesmo sexo indicam, frequentemente de forma implícita, a presença daquilo que Maria Luiza Heilborn (1993: 19) classificou como um fenómeno aparentemente paradoxal de intensificação do género: na relação homoerótica feminina, como na masculina, são intensificados os valores associados ao feminino e ao masculino, respetivamente. Assim, e a despeito de a relação homoerótica poder apresentar-se como mais igualitária do que a relação heteroerótica, parece mais questionável a sua capacidade de subverter as categorias de género e a ordem social que nelas assenta, como pretendia o feminismo radical, em especial no que respeita ao lesbianismo (cf. Echols, 1989; Ferreira, 1988; Tavares, 2011).

Pretende-se, com este artigo, contribuir para a discussão da influência do género – aqui entendido como a «construção social e cultural da diferença dos sexos» (Perrot, 1995: 39)2 – nos modos como as relações amorosas são percebidas e vividas. Centrando a análise nas representações de um conjunto de mulheres envolvidas em relações homoeróticas, sugere-se que estas parecem contribuir para o desenvolvimento de uma consciência acrescida dos efeitos da dominação masculina, sem que, todavia, lhes seja, necessariamente, atribuída uma orientação no sentido da subversão das classificações sociais dominantes. Pelo contrário, o género tende a ser encarado como diferença ontológica que explica os moldes de funcionamento das relações amorosas, traduzindo aquilo que Amâncio (2003: 707) classificou de «corrupção do género pelo sexo».

Os dados discutidos fazem parte de um estudo de casos de caráter qualitativo que tomou como objeto teórico os processos de construção social das identidades sexuais e referem-se às histórias de vida de dezoito mulheres com idades compreendidas entre os 23 e os 54 anos, com maior concentração entre os 30 e os 39 anos, todas residentes na região Norte de Portugal à data da entrevista e maioritariamente originárias das frações de classe superiores (Brandão, 2007)3. As entrevistadas foram localizadas por recurso combinado a informantes privilegiadas e a um procedimento em bola de neve. O único critério de selecção das entrevistadas foi o facto de terem mantido, nalgum momento das suas vidas, uma relação amorosa com outra mulher, a despeito de se definirem, ou não como lésbicas. A esmagadora maioria das entrevistadas manteve, igualmente, relações amorosas com homens, das quais algumas bastante duradouras. Todas as entrevistas foram submetidas, após transcrição integral, a uma análise de conteúdo temática. Embora não fizesse parte do guião de entrevista, a comparação entre as relações heteroeróticas e homoeróticas que sustenta esta análise surgiu espontaneamente nas narrativas das entrevistadas, tendo sido subsequentemente explorada. Considerando as características sociodemográficas do objeto empírico da pesquisa, os resultados devem, todavia, ser encarados com cautela, abrindo sobretudo pistas de aprofundamento futuro.

 

De homens e mulheres: O que define a relação?

Embora com exceções que sublinham a influência das atitudes face aos papéis de género (cf. Kamano, 2009; Sullivan, 2004: 93-123), as investigações realizadas até à data sugerem, de forma consistente, que os casais do mesmo sexo procedem, em geral, a uma divisão mais equilibrada e justa das tarefas domésticas e das responsabilidades pelo cuidado com os/as filhos/as (quando estes estão presentes), atendendo, nessa divisão, entre outros aspetos, às características e exigências das atividades profissionais respetivas (Diamond e Butterworth, 2009; Dunne, 2000, 2003; Heilborn, 1993; Kurdek, 2004, 2005, 2006, 2007; Sullivan, 2004: 93-123). Em Portugal, a generalidade dos estudos neste domínio tem tomado como objeto central o casal heterossexual, salientando, a despeito de algumas mudanças, a persistência da diferença de género na distribuição diferencial das responsabilidades domésticas dos/as parceiros/as, em detrimento das mulheres (e.g., Inglez, 2007; Núncio, 2008; Perista, 2002; Poeschl, 2000; Torres, 2004; Wall e Amâncio, 2007). As poucas exceções a esta regra enquadram-se na linha das conclusões avançadas para outras realidades sociais, reforçando a ideia da prevalência de um maior igualitarismo a esse nível entre os casais do mesmo sexo – ou, pelo menos, da perceção da sua presença (cf. Meneses, 2000; Moreira, s.d.; Nico e Rodrigues, 2009; Paulus, 2002).

Ainda que a preponderância do ideal igualitário e das práticas que lhe estão associadas possam estar ligadas à similaridade dos/as parceiros/as em termos de pertença socioeconómica e a uma maior representação de camadas sociais onde esse ideal tende a ser privilegiado (cf. Heilborn, 1993), fator nem sempre considerado nas pesquisas, o equilíbrio na divisão do trabalho doméstico é, precisamente, um dos aspectos que as entrevistadas mais sublinham como traço distintivo da relação homoerótica. Isto é muito claro especialmente no caso das entrevistadas mais velhas, como Teresa, ou Carolina, que esteve casada com um homem durante vinte anos:

A minha ligação de trinta anos é porreirinha porque eu encontrei, realmente, uma pessoa que vai ao encontro do meu projeto de vida e porque nos damos muito bem e porque as tarefas são todas divididas e porque há uma harmonia! […] se uma está a fazer o arroz e a outra vai não sei aonde, passa pela cozinha, acrescenta um bocado mais de água… Não é preciso dizer «Olha, vai ver o arroz!» // Há uma cumplicidade extraordinária! (Teresa, 52 anos, PTE)

Há uma maior cumplicidade. É totalmente diferente. Se vivem juntas numa casa, o que uma faz, a outra também faz. Se é um homem, a pessoa está habituada a fazer a lida da casa. O marido vem, janta. A comida está pronta. Se não está, levanta-se e vai embora – a maior parte deles, não é? – e, hoje, eu já não aceitava isso do meu marido. // E, quando vejo isso, irrita-me […], mesmo, seja com quem for. // Portanto, há mais igualdade. Estão as duas em igualdade de circunstâncias. // Se uma quer, também faz. Não está à espera que a outra tome a iniciativa e faça aquilo. (Carolina, 43 anos, EE)

Ora, a igualdade que as entrevistadas fazem assentar na maior cumplicidade entre mulheres e que as leva a classificar a relação como «mais fácil», decorre, como refere Gillian Dunne (2003: 63), da capacidade aprendida por algumas mulheres de estar em sintonia com as exigências do trabalho doméstico, emergindo o equilíbrio de uma monitorização dos contributos de ambas as parceiras que assenta na partilha de critérios idênticos. Ao contrário do que acontece na relação heteroerótica, a dinâmica do género constitui, neste caso, uma vantagem para as mulheres (idem). E parece ser a mesma dinâmica a sustentar a classificação da relação entre mulheres como «mais fácil» numa outra dimensão: a da comunicação. As relações heteroeróticas são frequentemente retratadas pelas entrevistadas como apresentando maiores dificuldades de comunicação e contrastadas com a comunhão efetiva entre mulheres. A intimidade, entendida como a capacidade de conhecer o outro e a consideração recíproca nas relações, assente num processo de revelação mútua que exige «avenidas de comunicação abertas» (Santore, 2008: 1203), é particularmente valorizada e frequentemente apresentada como traço distintivo da relação homoerótica feminina. A descrição de Bárbara da relação que manteve com um homem durante quase sete anos, e a de Leonor das relações entre mulheres, são exemplificativas do que se acaba de afirmar:

[…] foi sempre uma coisa a dois mundos: o meu mundo e o mundo dele, com uma interseção, aliás, muito pequena e nada dirigida para o entendimento e para a verbalização. // Havia ali, obviamente, uma interseção grande em termos de gostar de fazer isto e gostar de ir para aqui, fazer campismo, e isto e aquilo e aqueloutro... Mas, em termos de entendimento, era sempre uma distância de uma margem à outra do rio, enorme, um rio enorme! (Bárbara, 31 anos, PTE)

As mulheres envolvem-se realmente numa relação e vivem os problemas e sentem da mesma forma que a outra sente. // […] tu sentes […] quando a outra pessoa está a mentir! Tu sentes quando a outra pessoa está a sofrer! Tu sentes isso tanto ou mais de uma forma muito mais forte do que numa relação com um homem em que tu não fazes muito bem ideia do que ele está a pensar, do que ele está a sentir… // É uma coisa muito mais vivida, muito mais sentida! (Leonor, 35 anos, EE)

O excerto de Leonor, em especial, ilustra um traço frequentemente atribuído à relação homoerótica feminina: a tendência para a fusão, isto é, para a dissolução da fronteira entre o self e o outro através da qual o sentimento de união suplanta o de separação (Burch, 1993, cit. in Kamano: 137)4. Característica que pode levar à entropia, ela não deixa de refletir a presença e o reforço das dinâmicas de género a dois níveis: por um lado, resulta da socialização a que as mulheres são sujeitas, que se traduz na valorização da ligação e da partilha emocionais e na abnegação; por outro lado, o autocentramento na relação e o fechamento das fronteiras do casal enquanto tal seriam também uma resposta de proteção à pressão social que impende sobre a relação homoerótica feminina, nomeadamente por representar uma fuga à dominação masculina e ao seu potencial de diluição desta (Greene, Causby e Miller, 1999; Krestan e Bepko, 2004; Mackey, Dimmer e O’Brien, 2000; Pardie e Herb, 1997).

É, na verdade, interessante notar como a própria subcultura gay e lésbica traduz, muitas vezes, a presença de tais dinâmicas, especialmente visível no modo como os seus protagonistas são representados: «Os gays são máquinas sexuais, ao passo que as lésbicas valorizam o relacionamento» (D’Augelli, 1994: 127). Esta visão está bem presente no discurso de Leonor:

Dois homens juntos é mesmo... sexo e pouco mais. Eu não conheço nenhuma relação entre dois homens que eu diga: são felizes! Completam-se um ao outro. Gostam de estar um com o outro. // Não têm nenhum tipo de affaires. Não conheço uma! (Leonor, 35 anos, EE)

Os discursos das entrevistadas traduzem, assim, a incorporação de esquemas dicotómicos de género presentes tanto nas suas representações das relações entre parceiros de sexo diferente, como das relações entre parceiros do mesmo sexo, ainda que de formas distintas. São as noções dominantes de feminilidade e masculinidade que subjazem à forma como as relações amorosas e as vivências conjugais são descritas e que sustentam uma visão da relação homoerótica feminina como mais igualitária do que a relação heteroerótica e mais próxima do ideal da relação pura tal como definido por Giddens (1997) no que respeita, em especial, à reciprocidade e aos processos de comunicação que implicam a revelação mútua enquanto parte da procura da intimidade.

 

Da consciência da dominação à intensificação do «feminino»

O papel primordial da heterossexualidade na preservação da dominação masculina e a visão do lesbianismo não só como uma ameaça a esta, mas sobretudo como recusa mais ou menos consciente da opressão a que as mulheres estão sujeitas no quadro de uma sociedade patriarcal têm sido sustentadas, em especial, no âmbito do feminismo lésbico (Kitzinger, 1995; Rich, 1980; Wittig, 1993), em parte como resultado da extensão das teses do feminismo radical (cf. Echols, 1989; Ferreira, 1988; Tavares, 2011). Neste quadro, a identificação de muitas mulheres como lésbicas poderia dever-se menos à «orientação sexual» do que à sua vontade de escapar à submissão ao poder masculino (Echols, 1989; Ferreira, 1988; Weeks, Heaphy e Donovan, 2001). Ora, apesar de a relação homoerótica feminina ser entendida pelas entrevistadas como uma relação mais igualitária e de a maioria delas se definir como lésbica, esse argumento surge apenas no caso de Teresa, que esteve envolvida no feminismo português de segunda vaga. Quando questionada, na sequência das suas respostas, sobre se considerava que o seu lesbianismo tinha uma relação com a recusa do papel tradicionalmente reservado às mulheres, não hesita:

Completamente! Cada vez tenho mais consciência disso [...]. // Felizmente que eu seria incapaz de viver com um indivíduo entre quatro paredes e gramar o papel que ele tem e o papel que me impinge a mim como mulher! Felizmente que eu sou feminista! // Os casamentos existem na continuidade, hoje em dia, em Portugal (lá fora também, mas já é diferente, um bocadinho) à custa da subserviência das mulheres, quanto mais subservientes elas forem! (Teresa, 52 anos, PTE)

Apesar de Teresa ser a única entrevistada a articular diretamente estas questões, em cerca de metade das entrevistas, com maior peso entre as mulheres que se situavam próximo ou acima dos 40 anos, as referências à recusa de uma posição de subalternidade face aos homens são múltiplas, estando ausentes entre as que se situavam na casa dos 20 anos. Estas diferenças geracionais podem sugerir várias coisas. Por um lado, é provável que tenha ocorrido uma redução das desigualdades de género na sociedade portuguesa, visto que, entre as entrevistadas mais jovens, a comparação nunca é enunciada nesses termos. Trata-se, todavia, de uma explicação que deve ser temperada pelos resultados de estudos recentes que apontam para a persistência de um discurso ideológico de negação da discriminação que continua a sustentar a reprodução da dominação masculina (e.g., Nogueira, 2006; McRobbie, 2009). Por outro, uma maior visibilidade do homoerotismo nos contextos socioculturais das gerações mais jovens pode conduzir a um envolvimento mais precoce numa relação homoerótica e/ou a um menor número de relacionamentos heteroeróticos ao longo do trajecto de vida, traduzindo-se numa menor perceção da desigualdade, sobretudo no âmbito da relação amorosa. Em qualquer caso, trata-se de alterações que parecem retirar força a uma postura feminista entre as mulheres mais jovens, nomeadamente porque tornam menos visível a dominação masculina.

Nos casos em que a questão da desigualdade de género surge, poder-se-ia, entretanto, classificar as apreciações da generalidade das entrevistadas como uma espécie de «feminismo de ação», um feminismo sem teoria, na terminologia de Adrienne Rich (1980: 652), visto que, por um lado, a esmagadora maioria delas não se classifica como feminista e, por outro, tende a concentrar as suas reflexões em torno da divisão das tarefas e responsabilidades domésticas, face mais visível da desigualdade. Teresa e Marisa são as únicas entrevistadas que se assumem espontaneamente como feministas e que estabelecem uma relação entre lesbianismo e feminismo. Ambas consideram que o seu feminismo é anterior ao seu lesbianismo, embora em moldes diferentes. Ao passo que o discurso de Teresa é claramente politizado, enunciando uma recusa clara de submissão à dominação masculina, a postura de Marisa não vai no mesmo sentido:

Onde é que eu sou feminista? // É no meu discurso, para defender a minha integridade e a minha liberdade de ação porque senão tenho tudo em cima de mim a querer reduzir, a querer espezinhar, porque a coisa pior que existe é uma mulher ser inteligente, é uma mulher saber o que quer, é uma mulher reivindicar seja o que for! (Teresa, 52 anos, PTE)

Acho que, de alguma maneira, já era feminista antes de ser lésbica, mas não neste sentido militante de «Viva as mulheres e, portanto, só me posso relacionar com mulheres porque temos que estar na vida como mulheres, então, não vou estar com homens, só vou estar com mulheres». Não, eu acho que é mais no sentido de eu ter tido sempre muita facilidade em relação às mulheres, como amigas, em termos de intimidade, em termos do mundo feminino. (Marisa, 37 anos, PTE)

É possível deduzir das palavras de Marisa uma proximidade com a noção de «contínuo lésbico» proposta por Rich (1980). A expressão pretende designar um leque – ao longo da vida de cada mulher e ao longo da História – de experiências identificadas como femininas5 que não se resume ao desejo consciente ou à presença da experiência sexual genital com outra mulher, podendo abarcar outras formas de intensidade primária entre mulheres, incluindo «a partilha de uma vida interior mais rica, a aliança contra a tirania masculina, o dar e receber apoio prático e político» (idem: 648). A noção parece ser aplicável a muitas entrevistadas, cuja referência a esse tipo de experiência é recorrente. A tónica é colocada no envolvimento num mundo «feminino», definido como mais emotivo, complementar e igualitário, e são esse mundo e a ideia de feminilidade que lhe está associada a emergir como fatores centrais de atração amorosa, como resulta claro das declarações de Margarida:

[…] eu gosto de pensar como uma mulher, gosto de alguém que pense como uma mulher. // [...] há um relacionamento intelectual, emocional, que eu nunca consegui ter com um homem e consigo ter com uma mulher. // Faltava-me o complemento que a mulher me dá, que é muito mais para além do sexo... Eu acho que é o ser mulher... Não te sei explicar, mas acho que é isso, que é o ser mulher... Um homem pensa como um homem. // É muito mais sexuado, mais físico, para já não falar na parte machista... A mulher é um ninho de carinho, de complementaridade, que eu não encontro num homem [...]. (Margarida, 33 anos, EE)

A noção de «contínuo lésbico» adquire potencialidade no quadro de uma sociedade onde homens e mulheres são socializados de modo diferente, aprendendo a valorizar, a treinar e a expressar de modo distinto os afetos. Ela convoca, portanto, o género das parceiras como elemento caracterizador das sua relações íntimas e, neste sentido, pode ser lida como fazendo parte daquilo que Barbara Ponse (1978: 99) designou de «aristocratização do lesbianismo», um processo através do qual se atribuem qualidades especiais e atributos desejáveis ao lesbianismo que vão para além da sua mera normalização, e que é levado a cabo de duas maneiras: afirmando a natureza superior das relações entre mulheres quando comparadas às relações entre homens e mulheres; e atribuindo qualidades especiais às mulheres. De entre estas, Ponse (1978) encontrou, no seu estudo, as que são geralmente associadas à feminilidade hegemónica (o cuidado, a sensibilidade, a empatia, o calor, a compreensão) e as que se relacionam com o seu estatuto socialmente desvalorizado (a resistência, a força, a persistência), ainda que algumas mulheres reclamassem, igualmente, qualidades associadas à masculinidade hegemónica, como a competência, a assertividade ou a agressividade.

Como sublinha Ponse (1978: 100-102), a tendência para a aristocratização do lesbianismo atingiu o seu ponto mais alto nos setores politizados e ativistas da cultura lésbica, embora possa ter também lugar no domínio da convicção privada, levando, por vezes, a uma postura separatista, isto é, à recusa de uma relação heteroerótica por esta simbolizar a opressão a que as mulheres, em geral, e as lésbicas, em particular, estão sujeitas6. No entanto, é importante estabelecer uma diferença entre a aristocratização do lesbianismo, que apela a uma idealização das características «femininas», e a postura de questionamento dessa idealização que representa uma visão mais radical das identidades sexuais e de género7. Esta é sumariada por Monique Wittig (1993: 105) quando defende que o que «o conceito «mulher é maravilhoso» consegue fazer é reter, para definir as mulheres, os melhores traços (melhores de acordo com quem?) que a opressão nos atribuiu e não questiona radicalmente as categorias «homem» e «mulher», que são categorias políticas e não dados naturais».

Na verdade, muito poucas entrevistadas defendem, como Bárbara, que

[…] o mundo não se divide entre homens e mulheres! Ou dividir-se-á, nalgumas coisas, por exemplo, na cama, mas acho que, de resto, tem a ver com as características das pessoas, não tem a ver com o sexo. Isso, para mim, não faz sentido, se é homem ou se é mulher… (Bárbara, 31 anos, PTE)

As categorias de género são, pelo contrário, encaradas pela generalidade das entrevistadas como ontologicamente determinantes e são as características atribuídas ao género a emergir como elemento central de definição da relação íntima a dois níveis: enquanto fator de atração amorosa e enquanto variável determinante da (des)igualdade entre parceiros/as. Assim, se no contexto da relação homoerótica feminina a intensificação do género parece reforçar a consciência do funcionamento da dominação masculina, como defende Celia Kitzinger (1995: 63), esta não se traduz, forçosamente, numa visão politizada dessa relação ou das identidades sexuais e de género das parceiras voltada para a destruição das categorias que as definem. A postura de questionamento e/ou de confrontação clara dos pressupostos culturais dominantes acerca dessas categorias está presente apenas num pequeno número de casos, todos correspondentes a entrevistadas originárias das frações de classe dominantes. Algumas destas mulheres, não chegando a apresentar um discurso sistematizado acerca da desigualdade de género e da sua relação com o lesbianismo, exibem maior reflexividade acerca destas temáticas quando comparadas com as restantes, em que elas tendem a surgir de forma mais ou menos implícita e desarticulada.

 

Notas conclusivas

As entrevistas realizadas a um conjunto de mulheres envolvidas em relações homoeróticas ilustram a presença do género nas suas representações das relações íntimas e os seus efeitos aparentemente paradoxais ao nível da relação homoerótica feminina, em particular. A incorporação de um esquema de género binário está presente numa noção de alteridade que entende homens e mulheres como categorias ontologicamente distintas com efeitos nos modos como os termos e os conteúdos das relações são descritos. A um primeiro nível, as relações entre parceiros de sexo diferente surgem intimamente ligadas aos efeitos da dominação masculina, com tradução prática direta numa divisão das responsabilidades domésticas que opera em detrimento das mulheres. A mesma noção de alteridade sustenta a ideia de que a relação heteroerótica apresenta maiores dificuldades de comunicação, colocando dificuldades à construção da intimidade. A um segundo nível, são as características atribuídas ao feminino a emergir como principal fator de atração amorosa e de valorização da relação homoerótica feminina, sugerindo uma intensificação do género nesse contexto que se traduziria num maior igualitarismo e numa mutualidade acrescida quando comparada com a relação heteroerótica ou com a relação homoerótica masculina.

Assim, se, por um lado, o género é entendido como fator de desequilíbrio nas relações heteroeróticas, ele emerge como fator de equilíbrio na relação homoerótica pela sua aproximação ao ideal igualitário e por parecer facilitar a intimidade dos/as parceiros/as. Paralelamente, a relação homoerótica feminina parece criar, pela intensificação do género, condições favoráveis à perceção de formas de desigualdade que se tornam menos legíveis para outras mulheres e que são tomadas como inerentes à diferença de sexo dos parceiros. Por esta razão, para algumas mulheres, os arranjos homoeróticos podem ser considerados preferenciais por serem considerados mais igualitários e também por responderem de forma mais satisfatória às suas necessidades afetivas. É importante salientar, a este propósito, que não se encontra, na generalidade das entrevistas, uma reflexão sistematizada e articulada acerca da desigualdade de género, ou a sua ligação a uma decisão consciente de optar por uma ligação amorosa com outra mulher, ainda que algumas mulheres apresentem maior reflexividade acerca destas temáticas. Assim, se a não conformidade à heterossexualidade normativa parece facilitar a perceção dos efeitos da dominação masculina, raramente as categorias de género são questionadas e em nenhum caso a relação homoerótica é verbalizada pelas entrevistadas como detendo potencial subversivo a esse nível. Não se pretendendo, com isto, negar que as relações homoeróticas possam ser favorecidas por muitas mulheres precisamente por permitirem escapar ao poder masculino, pelo menos nos casos analisados isto pode corresponder mais ao aproveitamento da liberdade que elas oferecem do que a uma atitude politizada e consciente de combate a esse poder.

Se no que respeita à construção da intimidade e à intensidade emocional atribuída à relação homoerótica feminina a origem de classe e a idade das entrevistadas, esta última através do duplo efeito da extensão do trajeto de vida e da pertença geracional, não apresentam potencial diferenciador, já no que se refere à questão dos efeitos da dominação masculina no contexto da relação heteroerótica o caso parece ser outro. É entre as entrevistadas mais velhas – que são também, por definição, aquelas cujo trajeto de vida se apresenta mais longo, englobando uma experiência mais diversificada no que respeita aos relacionamentos íntimos – que a questão da desigualdade de género e o modo como opera em detrimento das mulheres surge com mais frequência. A ausência deste tipo de referências no discurso das entrevistadas mais novas poderá ter diferentes explicações, provavelmente concorrentes entre si: por um lado, a redução da desigualdade de género na sociedade portuguesa pode tornar menos visíveis os efeitos da dominação masculina, possibilidade que não deve fazer esquecer a presença de uma ideologia de negação da discriminação que esconde os seus verdadeiros fundamentos; por outro lado, a adolescência das entrevistadas mais jovens teve lugar num quadro sociocultural bastante diverso no que respeita à possibilidade de envolvimento mais precoce numa relação homoerótica, tornando mais distante o contacto com os efeitos do género no contexto de uma relação heteroerótica. Quanto à origem de classe, é entre as entrevistadas originárias das frações dominantes que o discurso acerca da dominação masculina surge de forma mais articulada, nalguns casos voltado para o questionamento das próprias categorias de género, revelando a posse de e o acesso a recursos discursivos socialmente filtrados, claramente centrados na defesa do ideal igualitário ao nível das relações íntimas. Em qualquer caso, atendendo à composição do objeto empírico desta investigação, os efeitos destas variáveis carecem de aprofundamento em trabalhos futuros.

 

Bibliografia citada

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Artigo recebido em 23 de setembro de 2010 e aceite para publicação em 27 de abril de 2012.

 

Notas:

*Socióloga, é Professora Auxiliar do Departamento de Sociologia do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. Concluiu em 2008 o doutoramento em Sociologia, com tese intitulada «‘E se tu fosses um rapaz?’ Homoerotismo feminino e construção social da identidade». Tem trabalhado especialmente sobre os processos de construção identitária e sua relação com o género e a sexualidade. anabrandao@ics.uminho.pt

1O meu agradecimento à Tânia Cristina Machado, Bolseira de Iniciação à Investigação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Programa Ciência 2009), pelo auxílio na organização e recolha de parte da bibliografia que sustenta este trabalho.

2Neste sentido, como sublinha Amâncio (2003: 702), «O género refere-se a uma relação social, e não a uma propriedade de indivíduos concretos, e essa relação, que é marcada pela assimetria no plano dos significados e define um contexto de dominação, é socialmente construída».

3A determinação da origem de classe das entrevistadas seguiu os procedimentos definidos por Machado, Costa, Mauritti e Martins et al. (2003) e é mencionada, ao longo do texto, pela indicação da sigla correspondente. No caso, 3 entrevistadas são originárias da fracção dos Empresários, Dirigentes e Profissionais Liberais (EDL), 8 dos Profissionais Técnicos e de Enquadramento (PTE), 6 dos Empregados e Executantes (EE) e 1 uma do Operariado Industrial (OI).

4Widmer, Kellerhals e Levy (2005) definem o grau de fusão, dimensão fundamental das interações conjugais, como a extensão em que os recursos individuais (tempo, actividades, dinheiro, ideias, sentimentos) são encarados como comuns, permitindo distinguir entre casais e famílias que fazem assentar o seu equilíbrio na similaridade, na parecença e no consenso e os que o fazem assentar na procura da autenticidade e da autonomia. Sobre a noção de fusão, consulte-se também Salem (1989) e Aboim (2006).

5No original, woman-identified experience.

6A posição separatista, no sentido da recusa em manter qualquer relacionamento de carácter amoroso ou meramente sexual com um homem, chegou a ser significativamente designada de «dormir com o inimigo» (Stein, 1997: 155). A este propósito, consulte-se também Ferreira (1988).

7A «identidade de género» refere-se ao «sentido subjectivo do self de um indivíduo como sendo masculino ou feminino» (Appleby e Anastas, 1998: 52-53), ao passo que a «identidade sexual» se reporta à auto-rotulagem como heterossexual, lésbica, gay ou bissexual (Reiter, 1989, cit. in Appleby e Anastas, 1998: 49).

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