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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  n.23 Vila Franca de Xira  2011

 

Magalhães, Maria José; Tavares, Manuela; Coelho, Salomé; Góis, Manuela; Seixas, Elisa (coord.) (2010), Quem tem medo dos feminismos? Congresso Feminista 2008, 2 vols, Nova Delphi, Funchal.

 

Carla Cerqueira

Doutoranda em Ciências da Comunicação, Universidade do Minho

 

«Quem tem medo dos feminismos?» é a interrogação que os dois volumes que saíram do Congresso Feminista realizado em Portugal, em 2008, procuram enfatizar. Mais do que procurar respostas, apresentam pistas para a reflexão, num projecto caracterizado pela inter e multidisciplinaridade.

A colectânea de textos revela que o Congresso Feminista 2008 foi um marco de enorme relevância na sociedade portuguesa. Constituindo-se como um acontecimento de carácter científico e interventivo, que juntou académicas/os e activistas feministas de diferentes gerações, trouxe da penumbra para a esfera pública o debate sobre os feminismos. Marcado pela diversidade de perspectivas teóricas, metodológicas e analíticas, mostrou que já foi e está a ser feito muito trabalho neste campo, mas que há ainda um longo caminho a percorrer.

O primeiro volume apresenta uma panóplia de artigos sobre as mulheres e os média; as questões de liderança; a pobreza e exclusão social; a violência de género e as problemáticas em torno do poder e da ciência. Os movimentos sociais e políticas públicas; o trabalho, sindicalismo e empoderamento das mulheres também marcam presença nesta primeira parte, tal como os direitos humanos. Foca-se igualmente a questão das famílias, casamentos e trajectos emancipatórios e o papel de homens e mulheres na mudança social.

No que concerne ao segundo volume, este abarca reflexões sobre as religiões; a história das mulheres; as correntes feministas; as trajectórias migratórias; a saúde e educação. Simultaneamente, foca a escrita feminista e feminina; as análises no campo das representações, sexualidade e erotismo, em paralelo com o tráfico de mulheres e prostituição e as artes.

Há ainda oportunidade para ler os textos que resultaram da comemoração do centenário de Simone de Beauvoir e da homenagem à feminista portuguesa Madalena Barbosa. Outra secção de extrema relevância prende-se com os questionamentos em torno do que é ser feminista no século XXI e quais são os desafios que têm que ser enfrentados.

Como é referido no prefácio, durante décadas houve um apagamento e silenciamento dos feminismos, por isso esta obra tem o mérito de dar visibilidade à panóplia de trabalhos que estão a ser realizados sob a alçada feminista, recuperando a sua memória histórica e dando um novo fôlego a quem pretende enveredar por esta área de investigação-acção.

Se durante muito tempo o movimento feminista português foi secundarizado, relegado para um plano inferior, este é um ponto de viragem essencial para perceber que este não é frágil, fragmentado e guetizado, mas plural, no pensamento e na acção, comprometido socialmente, empenhado em despertar a consciência da academia, das variadas instituições e, de um modo mais abrangente, da sociedade.

É, neste sentido, que esta obra cria um espaço discursivo polifónico, que cruza novas e velhas questões, mas que, acima de tudo, apresenta uma visão holística dos problemas sociais, económicos e políticos vividos por mulheres e homens. Junta no mesmo espaço reivindicações diversas que pretendem quebrar os tectos de vidro existentes e que cimentam os alicerces conjuntos entre investigação e activismo. Este aspecto é crucial numa altura em que os estudos feministas já possuem legitimidade intelectual no seio da academia, mas sabemos que continuam numa localização marginal quando comparados com outras áreas do saber. Porque, parafraseando Sofia Neves, que recorreu ao trabalho de Donna Haraway, na sua intervenção no Congresso, a ciência é um acto político situado e contextualizado.

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