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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  n.21 Vila Franca de Xira  2010

 

Macedo, Eunice e Koning, Marijke de (coord.) (2009), Reinventando Lideranças: Género, Educação e Poder, Porto, Ed. Fundação Cuidar o Futuro & Livpsic, 222 pp.

 

Isabel Menezes

Centro de Investigação e Intervenção Educativas, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto

 

Este livro integra os contributos de um simpósio internacional «(Re)Inventando lideranças: Género, educação e poder» organizado por iniciativa da Fundação Cuidar o Futuro, em Janeiro de 2008, na Universidade Aberta em Lisboa e na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Estamos perante uma obra complexa, mas não difícil, que se dá bem a conhecer ao leitor e lhe dá tempo – e até o espaço de algumas páginas em branco – para ir pensando sobre o livro.

O livro organiza-se como uma ópera, começando com a abertura pelas coordenadoras, passando depois a notas breves sobre liderança de Virgínia Ferreira, Teresa Vasconcelos, Maria do Céu da Cunha Rego e Maria José Magalhães com textos que em que as lideranças são vistas pelo lado do vivido; evoluindo para o 1.º acto em que pontua um texto de Rosiska Darcy de Oliveira, seguido dos comentários de Eunice Macedo e Sofia Neves. O 2.º acto revisita lideranças a partir dos contributos de Marijke de Koning, Eunice Macedo e Helena Araújo, Sofia Neves, Laura Fonseca e Eunice Macedo, e Luís Rothes que permitem, como sugere o título do primeiro destes contributos, «abrandar no espaço em branco» e proceder a uma reflexão sobre lideranças (e exclusões) das mulheres em contextos diversos e sobre formas de intervir para promover lideranças inclusivas. O 3.º acto retoma os testemunhos a partir das experiências de intervenção contadas por Ine van Emmerick, Liliana Lopes, Sónia Doutel e Vânia Ribeiro. Cada acto termina, como seria de esperar, com um entreacto ou, no final, com um recomeço, que paradoxalmente desafia à reflexão e expressão – e não ao «sossego» acomodado. O livro entende-se como uma experiência de fazer pensar e assume esse desígnio do princípio ao fim, com contributos que sistematicamente nos incitam à reflexão e expressão.

Estamos perante um livro que afirma o pluralismo e a diversidade, de diversas maneiras. Diversidade nas formas de escrita: mais biográficas umas, mais académicas outras, mais centradas na intervenção outras ainda, mas todas com um igual estatuto. Diversidade nas disciplinas e domínios conceptuais a partir dos quais a reflexão se produz, incluindo a ciência política, as ciências da educação, a psicologia ou a sociologia. E diversidade porque chama a atenção para os riscos de dizermos «nós, as mulheres» como se estivéssemos a falar de uma categoria social homogénea. No núcleo do livro está o reconhecimento de que «as mulheres» remetem para muitos grupos cruzados com a classe social, a incapacidade, o estatuto de migrante ou a geração – e que esta diversidade é uma condição essencial para pensar e intervir, questionando a ideia de princípios universais e reconhecendo, com Hannah Arendt, que «as questões particulares devem receber respostas particulares» (1966 in Kohn, 2004, p. ix).

Hannah Arendt é, aliás, conjuntamente com Lourdes Pintasilgo e Paulo Freire, uma referência inspiradora recorrente neste livro, com quem as autoras e o autor estabelecem uma conversa que lhes vai permitindo desocultar tensões, discutir formas de intervir e, finalmente, reinventar noções de liderança. Assumindo, com Hannah Arendt, uma visão eminentemente relacional da política (1995 [1950]), reforçada pelo pensamento de Maria de Lourdes Pintasilgo, a liderança é aqui assumida como um processo de comunicação, cooperação e decisão partilhada – reconhecendo, tal como May (1972), um dos autores de referência de Maria de Lourdes Pintasilgo, que o poder com é a única forma de promover o empoderamento. Freire certamente subscreveria, sublinhando que a conscientização é um elemento central deste processo, como se torna evidente nos capítulos em que a reflexão sobre a intervenção é mais central.

No entanto, esta visão da liderança como um processo de comunicação, cooperação e decisão partilhada é recorrentemente afirmada como não sendo «para as mulheres», mas «para as mulheres e para os homens». Aliás, são diversas as chamadas de atenção sobre as exigências suplementares que tantas vezes se colocam ao exercício da liderança pelas mulheres, em que para além de serem competentes, eficazes, criativas, … ainda têm de revelar cuidado, compreensão, solidariedade para com as outras mulheres, … Seja porque esta afirmação pode resvalar para «outra» visão essencialista do género e dos papéis sexuais, igualmente discriminatória. Seja porque coloca as mulheres na situação de dupla desvantagem: estão sistematicamente mais expostas e sobre um escrutínio mais exigente por parte do poder hegemónico – como facilmente se regista na atitude dos média face a mulheres em situações de liderança política, por exemplo –, a que se acrescentaria um igualmente exigente escrutínio por parte do poder contra-hegemónico.

Gostaria também de salientar que o livro é, ele próprio, uma experiência empoderante, não só porque assume que «só estará completa quando leitores e leitoras nele inscreverem a própria voz» (p. 9), mas porque dá oportunidade de pensar de formas diversas, e até de escrever nas tais páginas propositadamente deixadas em branco, estimulando a considerar – tal como as autores e o autor – a diversidade das experiências biográficas, académicas, activistas, … como fonte de aprendizagem e de reflexão. E essa é uma lição preciosa: a de que o conhecimento se produz de várias formas e em vários contextos e que é importante aprender com as experiências diversas no exercício de diferentes papéis sociais. Aliás, tanto a perspectiva de Paulo Freire quanto a investigação sobre o empoderamento psicológico, desde os trabalhos iniciais de Kieffer (1981) com mulheres activistas, à reflexão de Rappaport (1981) e de Martin-Baró (1986), salientam como efectivamente as experiências opressoras e a reflexão crítica sobre elas é fonte de conscientização e empoderamento. Nesse sentido, a opressão é aqui o ponto de partida que permite esta reinvenção de lideranças, pensadas como um instrumento conscientizador e empoderante – isto é, mais centradas na relação (de poder com) do que no controlo (de poder sobre). É por isso que poderemos afirmar que esta noção de liderança está essencialmente preocupada com a sua legitimidade relacional em contextos diversos.

Finalmente, a pluralidade de experiências e de lugares como ponto de partida para a reflexão é outra importante mais-valia, especialmente porque esta análise se reveste de uma intensa validade ecológica, na medida em que cada capítulo assenta e atende nos/aos contextos da sua produção: este livro, reafirmando Hannah Arendt, coloca e dá resposta a questões sempre e assumidamente particulares.

 

Referências Bibliográficas

Arendt, Hannah (1995 [1950]), Qu’est-ce que la politique?, Paris, Seuil.

Kieffer, Charles H. (1981), The Emergence of Empowerment: The Development of Participatory Competence Among Individuals in Citizen Organizations. Unpublished doctoral dissertation, Departments of Psychology and Education, Ann Arbor, Michigan, University of Michigan.

Kohn, Jerome (2004), «Introdução», in Hannah Arendt, Responsabilidade e Juízo, Lisboa, D. Quixote, pp. I-XXIX.

Martin-Baró, Ignacio (1986), «Hacia una psicología de la liberación». Boletín de Psicología, 22, 219-231. http://www.uca.edu.sv/deptos/psicologia/hacia.htm (acedido em 26 de Julho de 2006).

Rappaport, Julian (1981), «In praise of paradox: A social policy of empowerment over prevention», American Journal of Community Psychology, 9.        [ Links ]

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