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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  n.20 Vila Franca de Xira  2009

 

Macedo, Ana Gabriela (coord.) (2008), «Dossier Género e Estudos Feministas», Revista Diacrítica – Ciências da Literatura, n.º 22, 158 pp.

 

Salomé Coelho

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

 

Literatura, dança, pintura, sociologia da linguagem, gestão empresarial, estudos pós-coloniais, cinema, filosofia e sociologia da comunicação são algumas das áreas do saber em que se inscrevem os textos que compõem o dossier «Género e Estudos Feministas», incluído no número 22 da Revista Diacrítica, do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho. O dossier é composto por duas secções. A primeira parte – «Lugares-Fronteira na Performance Académica: Género, Feminismos e Identidade» – inclui textos de investigadoras do «Núcleo de Investigação em Género e Estudos Feministas» da Universidade do Minho (Margarida Pereira, Joana Passos, Francesca Rayner, Márcia Oliveira, Isabel Ermida, Silvana Mota-Ribeiro, Emília Fernandes e Ana Gabriela Macedo). A segunda parte, designada «Testemunhos, percursos pessoais, percursos académicos, estórias outras…», é um singular «puzzle polifónico» (Macedo: 14) de narrativas pessoais de investigadores/as dos estudos feministas e de género (Patsy Stoneman, Rosemary Betterton, Rachel Bowlby, Tânia Ramos, Ana Paula Ferreira, Teresa Joaquim, João Manuel Oliveira, Ana Luísa Amaral).

A originalidade e a relevância deste dossier não se circunscrevem à amplitude de epistemologias feministas ou temas abordados. Mais do que um aglomerado de textos variados, aquilo que encontramos neste dossier é uma teia de textos que se interpelam mutuamente e convergem no «questionamento do “conceito de fronteira”» (Macedo: 14) e da aparente fixidez das áreas do saber, onde os estudos feministas e de género se incluem. Tal questionamento das fronteiras (do que é ou não possibilidade de análise nos estudos feministas, do que é central ou marginal) não se faz apenas a partir da leitura do dossier, mas no próprio dossier, já que subjectividades de académicos/as dos estudos feministas, através de narrativas na primeira pessoa, são, como vimos, reclamados para o centro da reflexão. Há, assim, uma espécie de «política da localização», tal como definida por Adrienne Rich, que perpassa todos os textos, na medida em que cada sujeito de enunciação se revela, se convoca e se expõe, sem falsas pretensões de distanciamento ou de verdades universais. A consciência e exposição dessa parcialidade parecem constituir o motor para o «cruzamento de olhares» (Macedo: 13) tão presente neste dossier. É como se cada autor/a partisse da consciência e da afirmação do seu olhar parcial, localizado, constrangido pelas normas científicas dominantes do campo disciplinar de onde parte ou onde chega, e da noção da urgência de cruzar esse olhar com outros, para se confrontarem e resignificarem. Como o nome da revista deixa adivinhar, o desejo é, como a letra diacrítica se junta a outra para criar significados diversos, que os textos se interroguem mutuamente, dialoguem entre si, se misturem e contaminem, criando significados outros.

Mas as fronteiras colocadas sob suspeita não são apenas as que (não) delimitam as áreas do saber. Também as fronteiras entre o que é pensamento e acção, ciência e ideologia são debatidas ou, até, esbatidas. Partindo da afirmação do saber implicado, da reflexão como acção, da literatura como política – ou da poesia como sendo para comer, como dizia o poema de Natália Correia –, os textos apresentados neste dossier assumem-se como comprometidos, como formas de intervenção política, e concorrem para a transformação social das realidades analisadas.

A fechar o dossier, um poema de Ana Luísa Amaral, cujo verso penúltimo – «nem homem nem mulher» (158) –, ainda que apresentado como conclusão, se afigura como nova possibilidade de abertura dos textos. Como transgressão última das fronteiras, neste caso das fronteiras de «género», o poema aproxima e projecta o dossier para as discussões prementes, ainda que tímidas a nível nacional, reclamadas aos estudos feministas, por via das abordagens queer. Será desejável que, aos diversos olhares presentes neste dossier, se cruzem os da teoria queer, para que os Estudos Feministas e de Género possam continuar a reclamar-se como (in)disciplina que questiona as fronteiras dos saberes, mas que não se esquece de começar por si própria, contestando os seus próprios limites e silenciamentos.

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