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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  n.20 Vila Franca de Xira  2009

 

Queer, mas não muito: género, sexualidade e identidade nas narrativas de vida de mulheres

 

Ana Maria Brandão

Universidade do Minho

 

Resumo

Partindo de uma investigação empírica baseada nas narrativas de vida de um conjunto de mulheres envolvidas em relações homo-eróticas, pretende-se discutir algumas propostas da teoria queer, explorando a aplicação do conceito de performatividade e as teses da fluidez identitária ao estudo das identidades. Em especial, examina-se até que ponto as entrevistadas partilham de uma visão das relações entre género, desejo e identidade como sendo fluidas, incoerentes e instáveis, como se relaciona a visão que defendem com a identidade sexual que reclamam e de que modo é essa identidade construída através de práticas de modelação e apresentação do corpo. Os resultados sugerem a necessidade de aprofundar e expandir a análise dos pontos de tensão entre género e sexualidade.

Palavras-chave Performatividade; teoria queer; identidade; homo-erotismo feminino.

 

Abstract

Queer, but not much: Gender, sexuality, and identity in women’s life-stories

Based on an empirical research supported on the life-stories of women involved in homo-erotic relationships, this article discusses some proposals of queer theory, exploring the relevance of the concept of performativity and the theses of the fluidity of identity to research on identities. Especially, one examines the extent to which the interviewees share a vision of the relations between gender, desire, and identity as being fluid, incoherent, and unstable; how the vision they defend is linked to the sexual identity they claim; and how that identity is constructed through practices of body shaping and self-presentation. Results suggest the need to expand the analysis of the points of tension between gender and sexuality.

Keywords Performativity; queer theory; identity; female homo-eroticism.

 

Résumé

Queer, mais pas trop: Genre, sexualité et identité dans les récits de vie de femmes

En partant d’une recherche empirique basée sur des récits de vie de femmes engagées dans des relations homo-érotiques, nous discutons quelques propositions de la théorie queer, en explorant la pertinence de la notion de performativité et les thèses de la fluidité identitaire pour l´étude des identités. Spécifiquement, nous examinons jusqu’à quel point les interviewées partagent une vision des rapports entre genre, désir et identité comme étant fluides, incohérents et instables; comment cette vision se lie à l’identité sexuelle qu’elles réclament et comment cette identité est construite à travers des pratiques de façonnement et présentation du corps. Les résultats suggèrent la nécessité d’approfondir et épandre l’analyse des points de tension entre genre et sexualité.

Mots-clés Performativité; théorie queer; identité; homo-érotisme féminin.

 

Introdução

A teoria queer pretende articular reflexão teórica e intervenção política, emergindo na sequência do debate entre abordagens essencialistas e construtivistas da identidade (Cascais, 2004; Santos, 2006). Com epicentro nos estudos literários e influenciada pelo construtivismo, pelo pós-estruturalismo e pelo pós-modernismo, a abordagem surge na década de 1990, salientando as relações fluidas, incoerentes e instáveis entre corpo, sexo, género e desejo, questionando a existência de fronteiras estáveis entre «normalidade» e «desvio» e a hetero-normatividade (Dynes, s.d.; Jagose, 1996; Penn, 1995). No seu âmbito, o que define a identidade não é uma essência, mas um trabalho permanente de (re)construção discursiva através do qual se constitui o/a próprio/a sujeito/a.

Com base nos resultados de uma investigação sobre a construção social da identidade, articulando género e sexualidade (Brandão, 2007), pretende-se problematizar estes eixos analíticos. Os dados referem-se às narrativas de vida de mulheres residentes nos distritos do Porto e Braga, distribuídas por três gerações, de acordo com o período da sua adolescência e início da idade adulta: uma, anterior a Abril de 1974; outra, situada na fase de estabilização da democracia portuguesa; finalmente, uma geração cuja adolescência tem lugar a partir da década de 1990. As entrevistadas foram escolhidas com base num único critério: terem mantido pelo menos uma relação homo-erótica, independentemente das suas identidades sexuais1.

Confrontando os argumentos queer com os resultados da investigação de actores/as concretos/as e da sua subjectividade, este artigo insere-se no debate acerca do modo como o conceito de performatividade e as teses da fluidez identitária podem ser aplicados ao estudo das identidades. Partindo da discussão das propostas queer, são abordadas duas dimensões de análise: a maneira como a relação entre género, desejo e sexualidade é perspectivada pelas entrevistadas em ligação com as identidades que reclamam e com a concepção de identidade que defendem; de que modo é essa identidade construída através de práticas de modelação e apresentação do corpo.

 

1. O que há de queer na identidade?

Recuperando um termo com conotação injuriosa – queer é uma expressão possível do insulto homofóbico, significando «bicha» ou «maricas» –, a teoria queer pretende unir sob ele todas as formas de (des)identificação proscritas, «estranhas», «esquisitas», não conformes. Queer seria um termo aplicável a um conjunto de identificações engendradas por exclusão pelos discursos que produzem as categorias identitárias normativamente aceites (Butler, 1999b). Como a existência da norma implica traçar fronteiras que definem o que é «aceitável», «bom», «normal», os mecanismos da sua produção revelam e forjam o seu negativo, o «inaceitável», «mau», «anormal».

Nas propostas queer, não está em causa a produção de identidades alternativas, mas a exploração de situações que, revelando os limites da norma, emergem como potencialmente destrutivas para esta. A abordagem assume-se como um projecto revolucionário de destruição das categorias identitárias, vistas como limites à expressão da multidimensionalidade e incoerência que caracterizam o ser humano (St-Hilaire, 1999; Santos, 2006). A essência e congruência de qualquer identidade são questionadas, apostando-se na revelação e crítica dos mecanismos que, ao produzirem uma categoria identitária, geram novos espaços de marginalização. Queer é «uma categoria de identidade que não tem interesse em consolidar-se, ou mesmo em estabilizar-se», «é menos uma identidade do que uma crítica da identidade» (Jagose, 1996: 3).

Tal missão parece, todavia, comprometida, pois, ao propor-se uma designação, está-se a dar o primeiro passo para a sua objectivação. Enquanto sistema de classificação, a linguagem traduz maneiras de ver a realidade que atribuem existência real ao que é classificado pela actualização das categorias de pensamento nas disposições e práticas dos/as actores/as que lhes dão, assim, literalmente, corpo. Ela sustenta sistemas de nomeação que possuem um «poder performativo» (Bourdieu, 1987; Butler, 1999a), que têm a capacidade de fazer existir na realidade aquilo que enunciam.

Judith Butler (1999a, 1999b) propôs a ideia de que o género é performativo, i.e., produzido através de repetições ritualizadas que o naturalizam enquanto corpo sexuado e fundamento primordial da heterossexualidade normativa. A realidade do género seria produzida através de discursos, entendidos como práticas que formam sistematicamente os objectos de que falam, constituídos por signos, mas não redutíveis a eles (Foucault, 1969: 66-67). O género seria trazido à existência através de práticas, rituais e nomeações continuados, sendo a sua incorporação entendida como a produção continuada da sua inteligibilidade num contexto sociocultural particular.

A dimensão ritualizada da noção de performatividade apresenta similaridades com a noção de habitus de Pierre Bourdieu (cf. Butler, 1999a: 192, nota 8): ambas sublinham a produção diacrónica da identidade no decurso da qual o indivíduo se constitui como sujeito/a – e como sujeito/a de um tipo particular.

Este processo implica uma definição e «naturalização» de fronteiras, especialmente quando a identidade surge como fundamento de lutas políticas (Bourdieu, 1989, 1998; Butler, 1999b).

Ora, a disseminação e apropriação do termo queer parecem ter originado uma nova solidificação identitária (Jagose, 1996; Santos, 2006) mais do que uma representação destinada a simbolizar a contestação ao policiamento das condutas e o direito à expressão individual e individualizadora. Se noções como a de performatividade podem ser usadas para o questionamento subversivo das categorias identitárias e se a sua representação – também no sentido lúdico – pode reflectir a vontade de expor a sua dimensão construída, em muitos casos, a reclamação do queer tende para a reificação do não normativo, levantando a questão de saber se consegue deslocar a norma (Eves, 2004; Jagose, 1996; St-Hilaire, 1992). Este tipo de apropriação terá mesmo levado de Teresa de Lauretis, a quem é atribuída a cunhagem da expressão queer theory2, a abandoná-la (Dynes, s.d.; Jagose, 1996).

Com efeito, como defende Butler (1999b: 228),

Se o termo queer pretende ser um sítio de contestação colectiva, o ponto de partida para um conjunto de reflexões históricas e imaginários futuros, terá que permanecer o que é, no presente, nunca inteiramente apropriado, mas sempre e apenas redefinido, revolvido, a partir de um uso anterior e na direcção de propósitos políticos urgentes e em expansão.

É difícil compreender a exequibilidade deste projecto, especialmente considerando que a identidade, e sobretudo o sentimento de se possuir uma identidade, estão ligados à ideia de uma certa constância e coerência ao longo do tempo, e que é face à alteridade que o Eu pode afirmar-se tanto pela identificação, como pela diferenciação (Dubar, 1997; Jenkins, 1996; Tap, s.d.).

Outro aspecto problemático nas propostas queer é a não explicitação do papel do/a actor/a nos processos analisados. Além dos discursos sobre o género e a sexualidade, dar conta dos processos de identificação implica perceber como é que os/as actores/as intervêm na produção, consolidação e subversão das categorias identitárias. A identidade é uma síntese em curso de um conjunto de (des)identificações, que exige um trabalho activo por parte de um/a sujeito/a (Tap, s.d.). É preciso dar conta do modo como essa produção ocorre, como este/a chega a uma certa identificação. Em especial, considerando que o género se define também pela sua íntima ligação à (hetero)sexualidade, o que acontece, ao nível da identidade de género, com aqueles/as que não se conformam às normas que regulam a sua coerência? Até que ponto a fuga à heterossexualidade hegemónica se traduz numa perda do sentido do lugar de género, como sugere Butler (1999a: xi)? Essa perda é tomada como demonstração da instabilidade intrínseca de qualquer identidade, ou está em causa a fabricação e consolidação de identidades alternativas que produzem novos espaços de exclusão?

 

2. Visões da identidade – fluxo ou fronteira?

A (re)produção do género normativo passa pela imposição da heterossexualidade (Almeida, 1995; Butler, 1999a; Cucchiari, 1994; Rich, 1980; Rubin, 1997). Uma parte importante de ser mulher inclui o desejo por um homem, constituindo o desejo homo-erótico uma transgressão das fronteiras do género normativo, um «elemento anómalo» (Douglas, 1994). Além disso, as identidades sexuais e de género3 são geralmente apresentadas como categorias bipolares e discretas. O desejo homo-erótico tende a originar confusão, ou estranheza, porque se presume que o desejo sexual se deve dirigir a alguém do outro sexo e que existem fronteiras claras entre os «tipos» de pessoa que se pode ser. Isto mesmo é relatado por Alexandra quando descreve os seus pensamentos quando se apaixonou pela primeira vez por outra mulher:

«“Meu Deus! Como é que eu estou a fazer uma coisa destas?! // Eu não sou homossexual. Eu já namorei com rapazes. Eu gosto de rapazes. Eu sinto-me bem com os rapazes”…».

Alexandra, 37 anos

No discurso da maioria das entrevistadas, como no discurso socialmente dominante, é-se heterossexual ou homossexual. Raramente se equaciona a possibilidade do desejo sexual ser eminentemente fluido ou do objecto sexual não ser determinante na definição identitária. Isto é especialmente claro na visão corrente da bissexualidade como correspondendo à situação

«[…] [d]os “mal-definidos”… // Eu acho que, se há bissexuais, é porque ou são hetero que não conseguem encarar-se como hetero, ou são gays e lésbicas que não conseguem encarar-se!»

Paula, 23 anos

Em termos psicológicos e sociológicos, adoptar uma identidade com fronteiras precisas, como a identidade lésbica, «permite algum tipo de estabilidade e continuidade na relação com os outros» (Markowe, 1996: 33). Ela estabelece uma ordenação da realidade que, aparentemente, não se presta a confusões porque delimita cenários presentes e futuros de acção, facilitando a interacção.

A crença na existência de identidades sexuais estanques tem sido reforçada pela vulgarização da «história de saída do armário», a que Barbara Ponse (1978: 124-125) chamou a «trajectória gay», que se tornou no guião privilegiado da subcultura gay e lésbica, o seu princípio de construção identitária. A conformidade a esse guião tornou-se num critério de pertença à comunidade gay e lésbica e num instrumento de institucionalização da homossexualidade. No modelo proposto, está em causa não só um descobrir-se, revelar-se e assumir-se, mas um tornar-se (Stein, 1997: 67-69), que se converteu numa espécie de «confessional colectivo». O processo culmina, tipicamente, numa estabilização da identidade gay ou lésbica, afastando outras possibilidades de identificação (Jensen, 1999; Stein, 1997), mesmo quando, em privado, essa identidade é considerada menos permanente do que se apregoa. Apesar da presença da ideia de uma certa previsibilidade futura no sentido de as entrevistadas se continuarem a definir como «lésbicas», «gays» ou «homossexuais», esse sentido de permanência é percebido, essencialmente, em termos de probabilidade ou improbabilidade:

«Eu dizer que é impossível, não digo, até porque há homens que me continuam a dizer alguma coisa e a ser interessantes e a atrair-me, mas, geralmente, aquilo que eu sinto é que a probabilidade de acontecer é pequena. // Mas tenho mais dificuldade em imaginar uma relação muito continuada com um homem! // Eu acho que vou morrer com mulheres!»

Marisa, 37 anos

«Já fui capaz de me apaixonar por um homem. // Parece menos provável, muito menos. // Não quero dizer que não porque acho que não se pode ter a certeza, mas, neste momento, não».

Célia, 37 anos

A questão da constância identitária é também interessante pela sua ligação a teorias etiológicas, «psicologias espontâneas» que explicam a existência e contribuem para a produção de tipos identitários (Berger e Luckmann, 1989: 178-180). As explicações essencialistas predominam entre as entrevistadas mais velhas e entre aquelas cujo meio privilegiado de sociabilidade é o meio gay e lésbico. Os seus contextos de socialização, em termos geracionais e de grupos de pares parecem contribuir para privilegiarem teses essencialistas mais ou menos moderadas, que entendem o lesbianismo como traduzindo um self autêntico a «descobrir», uma «verdade» interior que aguarda revelação (Stein, 1997; Ponse, 1978). O termo «descoberta» é recorrente nas narrativas destas mulheres:

«Acho que nasceu comigo! Não houve nada, nenhuma situação, que me tivesse causado isso. // Nasceu, veio cá para fora… Podia nunca ter vindo! Podia nunca ter descoberto!»

Margarida, 33 anos

Embora nem sempre explicitem o que significa dizer que é algo que «nasce» com elas, os argumentos tendem a recair sobre factores genéticos. Mas este tipo de discurso tende a sublinhar, paralelamente, a presença de contextos facilitadores ou inibidores da actualização de uma espécie de «lesbianismo latente», patente na afirmação de Margarida que «podia nunca ter descoberto».

A pressão externa no sentido quer da conformidade à norma, quer ao «padrão desviante», é outro factor avançado por algumas entrevistadas para explicarem a adopção de uma identidade lésbica. Leonor refere-se à pressão sofrida quando a sua primeira ligação homo-erótica se tornou conhecida, defendendo que

«Se as pessoas me tivessem deixado, com o tempo, viver as coisas, contar aos meus pais na altura certa… // Foi tudo precipitado, precipitado demais, e eu própria me pergunto, agora já numa introspecção muito profunda, se o processo tivesse sido normal, até que ponto é que eu estava aqui como estou?… Se calhar, se tivesse encontrado as mesmas pessoas, nas mesmas alturas, tinha acontecido tudo igual!…Se calhar, não!»

Leonor, 35 anos, EE

Sendo as identidades sexuais comummente apresentadas em termos mutuamente exclusivos, um envolvimento homo-erótico tende também a ser entendido pelos/as outros/as como manifestação de uma identidade lésbica. Ao ser conhecido, ele compromete e limita as possibilidades dessa imagem vir a modificar-se, mostrando que a estabilização identitária é produzida através de um jogo de expectativas e reclamações mútuas (Goffman, 1989; Strauss, 2002). A maioria das entrevistadas acaba, assim, por reclamar uma identidade «lésbica», «homossexual», ou «gay», sendo minoritários os casos em que é visível a hesitação ou a recusa em adoptar uma identidade institucionalizada. Nestes casos, a identidade sexual é entendida como circunstancial e fluida, desprovida de centralidade particular:

«[…] não me assumo como lésbica, não me assumo como fufa, não me assumo como bissexual, ou assumo-me como essas coisas todas consoante os contextos, se isso for relevante. Agora, para mim, não é, de todo, importante!»

Bárbara, 31 anos

«A ambiguidade é uma coisa muito bonita! // Se calhar, a minha identidade também é assim… Não sou formatada, formatada! // Acho que a vida é muito mais rica, muito mais plural, muito mais livre! // As pessoas são todas bissexuais, são todas homossexuais… As pessoas são isso tudo se tiverem oportunidade de experimentar…».

Teresa, 52 anos

Estas entrevistadas aproximam-se de uma disposição queer, nomeadamente pela crença na não linearidade entre sexualidade, afectos e identidade e pelo questionamento da importância das categorias sexuais, patentes no discurso de Catarina, que argumenta que

«[…] a pergunta nunca está muito bem formulada… Não é a tua pergunta, é a pergunta que o mundo se põe sobre… // […] essa visão do tema já é uma visão que é uma linguagem contextual… Quer dizer, neste contexto, fala-se de orientação sexual o que, noutra cultura qualquer, noutro contexto qualquer, é ver o problema pelo lado errado! // Isso já é uma construção, já responde…».

Catarina, 35 anos

Para compreender a presença deste tipo de discurso, é fundamental considerar os efeitos de classe e trajectória destas entrevistadas. Além de serem todas originárias e pertencentes à fracção dominada da classe dominante (Bourdieu, 1979), têm formação superior, estão ligadas ao mundo das artes e/ou académico e o reconhecimento do desejo homo-erótico não levou à substituição dos grupos de pares originais pela comunidade gay e lésbica. Estas variáveis entrecruzam-se. Por um lado, a divulgação das teses queer, em Portugal, tem-se confinado a círculos relativamente restritos, precisamente o meio académico e o circuito das artes. Por outro lado, o mundo artístico caracteriza-se pela afirmação da individualidade, pela contestação dos discursos dominantes, pela tolerância à variação, à incongruência e à ambiguidade. Finalmente, histórica e sociologicamente, a fracção dominada da classe dominante tem recusado a assimilação do indivíduo ao grupo, marcando o seu direito à livre expressão como forma de realização pessoal. As características dos contextos sociais de apoio destas entrevistadas sugerem, pois, um menor grau de pressão grupal no sentido da conformidade a categorias identitárias estanques. Estes factores contribuem para explicar por que convivem mais facilmente com a incerteza e indefinição identitárias, elementos perturbadores, ao passo que «construir um sentido de espaço, formar uma comunidade e estabelecer fronteiras, por muito precárias que sejam, promove uma sensação de segurança» (Stein, 1997: 199).

Isto não significa que não ocorra uma delimitação de fronteiras que garanta alguma estabilidade. A própria recusa das classificações normativas constitui um traçar de limites que valoriza a heterodoxia. Estas entrevistadas não ignoram, nem recusam, a dimensão homo-erótica das suas identidades, porém, a linha divisória não coincide com a da rotulagem convencional, mas com a sua recusa e desvalorização. Elas não se definem por uma designação particular, mas por contraposição ao quadro normativo dominante, pretendendo situar-se «entre, mais do que dentro de categorias de identificação» (idem: 200).

No trabalho de (re)construção identitária estão, pois, em causa variáveis que as entrevistadas não controlam e que se situam para lá do discurso. São os casos da classe, da pertença geracional ou da presença dos/as outros/as com quem têm que interagir, que impõem limites às suas possibilidades de escolha e que sustentam e explicam diferentes visões da identidade.

 

3. Qual é o género lésbico?

Constituindo a atracção homo-erótica uma violação do princípio que faz do género o sinal externo e visível da identidade sexual, quando confrontadas com ela, as entrevistadas procuram enquadrar a nova experiência. Na busca de coerência entre passado e presente, sustentáculo crucial da identidade, socorrem-se de dois instrumentos: crenças e teorias espontâneas que apresentam a lésbica como uma mulher masculina, estereótipo reforçado pela noção psiquiátrica de «inversão sexual» (Katz, 1996; Weeks, 1995); e a «história de saída do armário», que impele à procura de «sinais» anteriores de um lesbianismo «latente».

A maioria das entrevistadas, evocando a adolescência, sublinha a sua não conformidade às «normas de comportamento e aparência estereotipadamente ligadas a cada género» (Appleby e Anastas, 1998: 52), encarada como sinal de «diferença» face às outras raparigas, que passa pelo vestuário (a recusa de saias e vestidos), pela (ausência de) maquilhagem, pelo cabelo (curto), pelos (poucos) cuidados com o corpo, pelas atitudes, pelas predilecção por brincadeiras ou actividades tradicionalmente conotadas com o outro sexo. A recorrência da temática leva Raquel a declarar que tem

«[…] sempre a sensação de que quase todas as mulheres homossexuais devem dizer isto quando falam da infância, que é “Eu era muito Maria-rapaz!”»

Raquel, 31 anos

A não conformidade de género é avançada como elemento explicativo predominantemente por entrevistadas originárias das fracções de classe mais baixas e está ausente dos discursos das mais jovens. O argumento deve ser interpretado, sobretudo, como oferecendo pistas para uma interpretação retrospectiva da identidade (Plummer, 1996: 71), garantindo o sentimento de continuidade. O facto de não se encontrar tais relatos entre as mulheres mais jovens está provavelmente ligado a mudanças sociais que têm esbatido as diferenças de género e alterado visões do homo-erotismo como equivalente de uma espécie de «inversão». Isto também explicaria a sua preponderância entre as mulheres originárias de fracções de classe onde o dimorfismo de género é mais acentuado (cf. Bourdieu, 1979).

Mas em nenhum caso está em causa a identidade de género. Quase todas apontam a «feminilidade» e o «mundo feminino» como factores centrais de atracção amorosa, sustentando-se num imaginário próximo da noção de woman-identified-woman (Newton, 1984). É recorrente a referência a aspectos alegadamente característicos do relacionamento lésbico que enaltecem os afectos e as emoções em detrimento da dimensão sexual/genital:

«Eu acho que é o ser mulher… // Um homem pensa como um homem. É diferente, tem um pensar diferente… É muito mais sexuado, mais físico, para já não falar na parte machista… A mulher é um ninho de carinho, de complementaridade, que eu não encontro num homem, embora tenha tido uma experiência. É o lado feminino da mulher que me atrai. Que nem por isso é o lado físico, obviamente, mas é o eu feminino».

Margarida, 33 anos

O rompimento com a heterossexualidade hegemónica não conduz obrigatoriamente à recusa da identificação como mulheres, mas à sua reelaboração em moldes que mantêm uma ligação com o género normativo. É a ruptura com este que emerge como problemática, algo particularmente visível nas manifestações generalizadas de resistência à «lésbica máscula», consagrada na figura da «camionista»4. A não identificação com esta é apreendida por uma divergência estética ligada às dimensões visíveis da apresentação, como o vestuário ou o corte de cabelo, classificados como «masculinos». Mas o aspecto estético é menos salientado do que a hexis corporal, ou uma atitude mais agressiva, nomeadamente no que respeita aos rituais de sedução:

«Pela maneira de se sentar… Senta-se em frente da outra… A maneira de olhar, de cima a baixo, parece que a está a comer com os olhos… // Como um homem olha uma mulher. Se essa mulher lhe interessa, já está a despi-la com os olhos, parece que a está a comer…».

Carolina, 43 anos

A camionista é a «mítica lésbica máscula», a «verdadeira invertida» (Newton, 1984), durante muito tempo considerada o expoente do lesbianismo, e definida pelas entrevistadas em termos similares aos dos primeiros sexólogos:

«Provavelmente, é uma mente masculina num corpo feminino».

Carolina, 43 anos

Comum a esta imagética é a suspeita de uma «disforia de género»5. Apesar da lésbica que se confunde com um homem poder ser encarada como uma representação ou incorporação problemática do género e não como mera imitação da masculinidade masculina, representando, «simultaneamente, a masculinidade feminina e uma rejeição da feminilidade anatómica imposta» (Halberstam, 1998: 126), para as entrevistadas, ela é a manifestação de algo «errado» na relação entre género e sexo. A rejeição que provoca resulta da dificuldade das entrevistadas lidarem com uma infracção de género incompatível com as suas autodefinições como mulheres (Markowe, 1996; Jenness, 1993).

Se a «lésbica máscula» é um tropo problemático, o mesmo acontece com a «lésbica feminina». Ao contrário da primeira, a feminilidade da segunda geralmente exclui suspeitas de lesbianismo. Precisamente por isso, tende a ser vista como uma lésbica «não assumida», que oculta o seu lesbianismo, podendo passar por heterossexual (Ponse, 1978; Stein, 1997), insinuação presente nas declarações de Leonor, que as define como

«[…] extremamente femininas, que ninguém diria que são lésbicas, e que são extremamente discretas, não sei se assumidas ou não – isso já é outra questão –, mas que são mulheres «normais», passam na rua e ninguém imagina, sequer!»

Leonor, 35 anos

A visão que algumas entrevistadas partilham do significado deste arquétipo revela um quadro normativo subcultural que não só questiona, como menospreza – pela insinuação de frivolidade e passividade – uma feminilidade da qual fazem questão de se distinguir. Na óptica de Leonor,

«[…] de uma maneira geral, os homossexuais – as mulheres –, normalmente, são práticas, não se preocupam muito com a beleza, não se pintam, a maneira de vestir é, normalmente, mais prática, não é necessariamente masculina, cabelo mais para o curto… // E, normalmente, as mulheres que, por coincidência, até são menos inteligentes, pintam-se imenso, cuidam imenso da imagem e, se calhar, isso é um escape para não pensarem, porque não lhes interessa pensar, nem viver mais nada…».

Leonor, 35 anos

Estes comentários reenviam para três dimensões de análise: revelam a institucionalização da identidade lésbica e da identidade heterossexual feminina, traduzida na existência de «fachadas» próprias (Goffman, 1989); mostram que a reclamação de pertença a uma categoria pressupõe a adopção da fachada correspondente; indiciam a presença, no âmbito da subcultura lésbica, de uma fachada «adequada» da lésbica, assente numa estética andrógina, uma mistura de géneros raramente equivalente à ambiguidade total (Halberstam, 1998: 57). É aqui que a noção de performatividade se torna particularmente elucidativa, permitindo compreender como o género – no caso, uma forma particular de fazer o género – se constrói no âmbito de discursos culturais e subculturais que fornecem os instrumentos necessários à sua incorporação. Mas o género – apreendido e manifestado através da estética corporal – é entendido pelas entrevistadas não só como uma forma de enunciação do que são, mas também do que querem ser, resultando de uma modelação específica e pelo menos parcialmente voluntária no contexto de uma comunidade que estabelece normas de pertença. A possibilidade de reconhecimento dessa pertença é, aliás, valorizada por algumas entrevistadas:

«Obviamente que há uma construção [da imagem], mas eu sinto-me bem com essa construção precisamente porque não me sinto bem com a outra… // Hoje em dia, faço algum gosto, também, em manter uma imagem que continua a condizer com aquilo em que me sinto bem, mas gosto que, principalmente nos meios [gays e lésbicos], as pessoas percebam que eu sou homossexual».

Raquel, 31 anos

O apelo à transgressão das fronteiras de género, incluindo o elogio da estética andrógina, está ausente das narrativas das mulheres mais jovens, indicando diferenças geracionais de socialização. As apreciações das entrevistadas mais velhas apontam para uma mudança nas representações do homo-erotismo feminino que se traduziu na multiplicação das suas formas de expressão e na perda de relevância da masculinização como parte de um código de identificação recíproca:

«Era um sinal importante nos anos sessenta (e antes disso) uma certa masculinização, certos sinais para que se pudesse dar o contacto, o que mostra o quanto era difícil e hoje talvez não seja assim tão difícil, visto que esses sinais estão bastante diluídos».

Emília, 54 anos

A masculinização é um critério fundamental de identificação, sobretudo em momentos e/ou espaços em que o homo-erotismo feminino se caracteriza pelo secretismo e pela invisibilidade (Faderman, 1992; Eves, 2004; Ponse, 1976), razão pela qual terá sido mais relevante para as mulheres mais velhas. Adicionalmente, o facto das entrevistadas mais jovens evidenciarem menor ligação à comunidade gay e lésbica pode também explicar a ausência da apologia de uma estética particular nos seus discursos, pois estão menos sujeitas à coacção da conduta que resulta da existência dessa «idealização» (Goffman, 1989; Strauss, 2002).

As entrevistas mostram que a identidade resulta de um trabalho levado a cabo no contexto de comunidades e discursos particulares sobre o que significa ser determinado tipo de pessoa (Stein, 1997; Ponse, 1978), evidenciando a interpenetração de discursos sobre a sexualidade e género, produzidos e veiculados no âmbito das comunidades a que se pertence. Precisamente porque esses discursos nem sempre são consensuais, o trabalho de (re)construção identitária exige um/a sujeito/a dotado/a de uma certa reflexividade, que deve efectuar escolhas, ainda que dentro de certos limites.

 

Conclusão

A identidade é dotada de plasticidade, mas, contrariamente ao que pretendem as teses queer, a análise empírica dos processos de (re)construção identitária mostra que ela se caracteriza por e carece de uma constância relativa (Jenkins, 1996; Tap, s.d.). Possuir uma identidade corresponde a um fechamento de possibilidades, à estabilização e encerramento provisórios do Eu em torno de uns certos predicados que excluem a actualização de outros. Não impedindo a mudança e a inclusão de novos elementos na identidade, esse encerramento parece essencial para a remoção do elemento da escolha ansiosa (McIntosh, 1992; Markowe, 1996).

Como o género normativo está ligado à heterossexualidade hegemónica, o desejo homo-erótico desencadeia um processo de (re)construção identitária que tende a desembocar na reclamação de uma identidade «lésbica», «homossexual» ou «gay», ligada à produção de outros espaços de proscrição, como a bissexualidade, equacionada com a indefinição e a inconstância. Parte do que significa «ser lésbica» parece incluir um afastamento face à feminilidade hegemónica, apoiando a tese de que certas práticas sexuais possuem a capacidade de desestabilizar o género (Butler, 1999a; Rich, 1980; Rubin, 1997; Wittig, 1993).

A identificação como lésbica, uma identidade institucionalizada, implica uma reelaboração da identidade de género que inclui uma remodelação dos modos de apresentação do corpo (Faderman, 1992; Holliday, 1999; Markowe, 1996; Ponse, 1978; Stein, 1997). Noções como a de performatividade são aqui particularmente heurísticas, desvendando a dimensão construída da identidade. Apesar da maioria das entrevistadas salientar o facto de ser lésbica, as narrativas revelam um trabalho que visa tornarem-se lésbicas, porém, garantindo uma certa coerência entre identidades passadas e actuais. Este trabalho exige a presença activa de um/a sujeito/a que se (re)constrói como ser coeso e inteiro, sob a influência de discursos e condições estruturais e contextuais que não domina inteiramente e que interferem no resultado final.

Quando os contextos de socialização favorecem a expressão do homo-erotismo, encarando a relação entre identidade e prática sexual como fluida, plural e/ou ambígua, a tendência para aglutinar ambas reduz-se. Uma visão da identidade próxima da concepção queer está mais presente entre mulheres com acesso a recursos discursivos alternativos que acentuam o carácter construído da identidade. É, todavia, excepcional no conjunto das entrevistas, surgindo ligada aos efeitos cruzados da classe com contextos de socialização e trajectórias de vida específicos, todos concorrentes para uma menor propensão à conformação a categorias identitárias discretas. A maioria das entrevistadas encara a identidade lésbica como preexistente e relativamente estável. Esta concepção mais essencialista não impede, todavia, a tensão entre o apelo ao genético e a invocação de explicações mais construtivistas, sugerindo uma certa consciência da instabilidade constitutiva da identidade.

Os resultados obtidos sugerem a necessidade de aprofundar e expandir a análise dos pontos de tensão entre género e sexualidade. Apesar da presença de identidades sexuais e de género institucionalizadas, as narrativas mostram deslocações diversas face às suas normas definidoras. Um aspecto particularmente interessante diz respeito à bissexualidade pelas dificuldades de apropriação e institucionalização que levanta no âmbito da subcultura lésbica (Ponse, 1978; Stein, 1997) e da cultura dominante (Weinberg, Pryor e Williams, 1994). O aprofundamento destas questões pode constituir um contributo relevante para o desenvolvimento das teses queer e para o seu projecto político.

 

 

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Notas

1 A noção de homo-erotismo é tomada de Bernadette Brooten (1996) para designar um acto, desejo ou preferência erótico(a) entre/por indivíduos do mesmo sexo, respectivamente, exclusivamente ou não, abarcando subcategorias e contingentes populacionais diversos e independentemente das identidades reclamadas e/ou atribuídas pelos/aos indivíduos em causa.

2 Usada, pela primeira vez, pela autora, num número da revista Differences coordenado por si, para propor «um outro horizonte discursivo, uma outra forma de pensar o sexual» (de Lauretis, 1991: iv).

3 A «identidade de género» designa o «sentido subjectivo do self de um indivíduo como sendo masculino ou feminino» (Appleby e Anastas, 1998: 52-53). A «identidade sexual» refere-se à auto-rotulagem como heterossexual, lésbica, gay ou bissexual (Reiter in Appleby e Anastas, 1998: 49).

4 A palavra camionista pode ser considerada sinónimo do inglês butch.

5 A expressão refere-se, em sentido lato, a «uma série de dificuldades em estabelecer uma identificação de género convencional» (Newton, 1984: 574).

 

 

Ana Maria Brandão é Socióloga, Professora Auxiliar do Departamento de Sociologia do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho.

Correio electrónico: anabrandao@ics.uminho.pt

 

 

Artigo recebido em 01 de Maio de 2009 e aceite para publicação em 28 de Outubro de 2009.

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