SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número19Revista estudos feministas, Brasil, 16 anos: uma narrativa«Esta é a minha casa»: A intersecção entre a raça e o género no romance Brick Lane de Monica Ali e no filme de Sarah Gavron índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Em processo de indexaçãoCitado por Google
  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO
  • Em processo de indexaçãoSimilares em Google

Compartilhar


Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  n.19 Vila Franca de Xira  2009

 

EX AEQUO: 10 Anos em revista

Teresa Pinto

Directora da Ex aequo

 

Resumo

Neste texto não se pretende apresentar exaustivamente o percurso da ex æquo ao longo dos seus dez anos de publicação, mas, sobretudo, sublinhar aspectos que a particularizam, como sendo: os seus objectivos e opções editoriais; a sua relação com a APEM e a sua autonomia em relação a qualquer outra entidade; o seu modo de funcionamento; o mapeamento da composição do seu conselho de redacção; os temas que nela foram sendo publicados; o seu crescimento e progressiva internacionalização.

Palavras-chave Estudos sobre as mulheres, estudos de género, estudos feministas, multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, teorias e práticas políticas.

 

Résumé

Ex aequo: 10 années em revue

L'article n'a pas le but de retracer exhaustivement la trajectoire de dix ans de publication de la revue ex æquo. On soulignera, surtout, les aspects les plus remarquables de son existence, dont ses objectifs et ses options éditoriales; son appartenance à l'APEM – Association Portugaise d'Etudes sur les Femmes; son autonomie institutionnelle; son fonctionnement; l'analyse de la composition de son comité de rédaction dès le début; les thématiques qu'elle a publiées; son développement et progressive internationalisation.

Mots-clé Études femmes, études genre, études féministes, multidisciplinarité et interdisciplinarité, théories et pratiques politiques.

 

Abstract

Ex aequo: 10 years in review

This paper aims at pointing out the most distinctive aspects of the journal ex æquo throughout its ten years of existence. The journal's objectives and editorial options; its affiliation to APEM – Portuguese Women Studies Association and its independence towards any other organization; the working method and the composition of its editorial board all over this years; the central subjects that have been published up to now; the journal's reorganisation and internationalisation.

Keywords Women studies, gender studies, feminist studies, multidisciplinarity and interdisciplinarity, political theories and practises.

 

Percurso e razão de ser

A ex æquo é mais jovem do que qualquer das revistas representadas neste número. O seu título, segundo Teresa Joaquim, remetendo para «a expressão usada num concurso para traduzir a situação de igualdade de desempenho em igualdade de circunstâncias (…) reflecte de certo modo como a própria constituição deste campo de Estudos sobre as Mulheres esteve, após 1974, ligado a uma instituição da Administração Pública para a igualdade, a Comissão da Condição Feminina (1977), posteriormente Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres» (Joaquim, 2004: 90)1.

Assumindo-se como uma revista científica inter e multidisciplinar, foi fundada por um colectivo que apresenta a particularidade de ser uma Associação de Estudos sobre as Mulheres, a APEM, de âmbito nacional. Integrando, não só investigadoras/es de diversas instituições de ensino superior e/ou centros de investigação de todo o país, como elementos de ONG de mulheres e estudiosas não vinculadas à academia, tem como objectivo contribuir para o desenvolvimento, visibilização e legitimação do conhecimento produzido no âmbito dos Estudos sobre as Mulheres/Estudos Feministas/Estudos de Género, favorecendo o intercâmbio entre quem faz investigação sob a égide das perspectivas destes estudos, ao nível académico, governamental ou das organizações cívicas e culturais. Permanece, assim, vinculada à APEM e, portanto, independente de qualquer instituição académica, sendo a direcção da revista assegurada, desde o início, pela presidente da associação. A sua direcção e corpo redactorial têm-se mantido rotativos, acompanhando as mudanças nos corpos sociais da Associação, sendo que cada um desses colectivos tem integrado sempre elementos de distintas pertenças institucionais e geográficas.

Virgínia Ferreira (U. de Coimbra), fundadora, e Helena Costa Araújo (U. do Porto) precederam a actual directora. O conselho de redacção, passou, em 2003, de nove membros para sete (circunscrevendo-se à composição das direcções da APEM) e tem sido maioritariamente constituído por investigadoras de diversas universidades. Regista-se, todavia, a presença de elementos que estiveram ligados profissionalmente, de forma mais ou menos continuada, à CIG (ex-CIDM). Apesar da rotatividade, verifica-se que apenas dezanove pessoas passaram por este conselho e que, mesmo em momentos de alteração, se mantiveram sempre alguns dos elementos da equipa anterior, pelo que a rotatividade nunca se traduziu em descontinuidade2. As investigadoras do Porto (5 da U. do Porto, 1 da U. Fernando Pessoa, 1 da ESE do Porto) têm predominado na história do conselho de redacção (com 37% do total de pessoas que dele fizeram parte); seguem-se Lisboa (U. Aberta com 3 e U. Técnica com 1) e Coimbra (U. de Coimbra com 3); os restantes 26% distribuem-se pelas U. de Évora e do Minho (1 elemento de cada) e pela filiação à CIG (3 elementos).

Em 2004 foi formado um grupo de sete consultoras, quatro das quais do Porto3, que constituiu o núcleo inicial de um conselho editorial constituído em 2006. Para este, mais alargado, apenas transitaram alguns dos elementos do grupo anterior. Os seus 14 membros distribuíam-se por dez instituições diferentes, universidades na sua maior parte, predominando agora a de Coimbra, mas também ONG de mulheres e a CIDM4.

Ao modo de funcionamento rotativo do conselho de redacção não têm sido alheios momentos de dificuldade e de instabilidade. No entanto, mercê, eventualmente, de uma certa continuidade assegurada pela permanência de elementos anteriores a par da integração de elementos novos, a revista não perdeu a periodicidade semestral e manteve uma assinalável coerência de percurso e capacidade de mudança perante os desafios que se lhe foram colocando. A sua autonomia institucional face a instituições de ensino superior ou a centros de investigação repercute-se, à semelhança das experiências relatadas sobre as outras revistas, em pesados encargos financeiros. O facto de a sua publicação ser assegurada desde o início por uma editora comercial5 não a exime de custos, suportados pela Associação e por alguns subsídios, dos quais se destaca, pela sua renovação anual desde 2001, o da FCT6.

Em 2001, no balanço dos dez anos da APEM, Maria José Magalhães refere que, nas entrevistas realizadas, «a revista, considerada como um marco na vida da APEM, concentra todas as avaliações positivas, deixando outras iniciativas mais escondidas nas memórias» (Magalhães, 2001: 48). Esta percepção da revista tem-se repercutido, por um lado, no grande investimento que nela tem sido feito por parte da Associação e, por outro lado, no significativo interesse que ela tem mantido junto de um público que se tem revelado crescente. Sublinhe-se que continua a ser a única revista em Portugal que, aberta ao contributo das diversas disciplinas e correntes na área dos Estudos sobre as Mulheres, do Género e Feministas, visa contribuir para a alteração de práticas e representações estereotipadas e discriminatórias em função do sexo ou de outras pertenças identitárias.

 

Um olhar sobre os temas publicados

Vários têm sido os temas abordados ao longo dos dez anos de publicação. O número inaugural organizou-se em torno das «Representações sobre o Feminino », incluindo abordagens provenientes da filosofia, da história, da literatura, da educação e da teologia, bem como artigos de balanço sobre os estudos sobre as mulheres em Portugal. Estes voltaram a assumir centralidade por altura do décimo aniversário da APEM, sendo-lhes dedicados dois números (n.º 5 e n.º 6 – «A construção dos Estudos sobre as mulheres em Portugal»), nos quais se examinam os percursos, não só da própria Associação, como de áreas do saber, das expressões e da intervenção, como a Filosofia, a Literatura, os Estudos Culturais, o Teatro, a Educação, a Psicologia Social, o Direito, a Economia, a Sociologia e a História. Campos mais recentes de pesquisa foram evidenciados num número dedicado a «Polifonias na investigação em torno dos Estudos sobre as Mulheres » (n.º 11) e foram publicados balanços mais recentes, no que respeita à História das Mulheres e do Género e à dimensão dos estudos de género nos currículos do ensino superior em Portugal (n.º 16). A divulgação em língua portuguesa de alguns textos teóricos fundamentais de autoras estrangeiras (Genevieve Lloyd, Carole Pateman, Luce Irigaray, Nancy Fraser, Kathleen Weiler, Iris Marion Young), organizados sob a temática «Reconceptualizações filosóficas e de teoria política. Perspectivas feministas» (n.º 8), pretendeu estimular um
debate, ainda muito incipiente no nosso país, sobre a relação entre teorias feministas, filosofia e teoria política. O enfoque nas políticas da igualdade foi objecto de um duplo número (n.º 2/3 – «Políticas de Igualdade») e, posteriormente, outros números privilegiaram as dinâmicas político-sociais e as problemáticas da cidadania participativa: «Um legado de cidadania. Homenagem a Maria de Lourdes Pintasilgo» (n.º 12); «Mulheres, participação e democracia» (n.º 13); o dossier «Género, Responsabilidade Social e Cidadania. Voluntariado e Educação Não-formal» (n.º 16). As dimensões interculturais da cidadania e os processos de empoderamento das mulheres, designadamente em contextos educacionais foram aprofundadas em «Outros sentidos para novas cidadanias» (n.º 7). A educação volta a ser foco de análise em «Género, problemáticas e contextos educacionais » (n.º 15), num artigo sobre o Brasil (n.º 17) e num outro sobre as estudantes-trabalhadoras universitárias (n.º 18).

Os temas «Mulheres e Desporto» (n.º 4), «Filosofia e Literatura em textos de mulheres» (n.º 9), «Direito da Igualdade de Género» (n.º 10), «Representações mediáticas de mulheres» (n.º 14), «Vozes de Mulheres do Sul» (dossier do n.º 17), «Género e Mercado de Trabalho» (dossier do n.º 18) e «Fazer o Género: performatividades e abordagens queer» (dossier do n.º 20) reflectem o empenho da revista em «dar conta da pluralidade de perspectivas nos estudos sobre as mulheres» (Ferreira, 1999: 9) e dar «acolhimento às contribuições que reflictam projectos sociais emancipatórios, na sua caleidoscópica complexidade» (ibidem). Referindo apenas os mais recentes, têm sido introduzidos campos menos enraizados no panorama investigativo nacional, caso das representações das mulheres nos média, da análise, numa perspectiva de género, de questões emergentes das novas realidades sociais geradas pelos fenómenos da globalização e da mobilidade, obrigando à reflexão sobre as relações de poder e de diálogo Norte-Sul e, ainda, das ligações entre género, identidade e desejo, a da discussão em torno da performatividade do género e da teoria queer. Retomar a abordagem das relações de género no mercado de trabalho assume, hoje, inquestionável pertinência, face a mecanismos geradores de práticas de segregação e discriminação sexual cada vez mais complexos.

Nos artigos publicados, desde 2007, na nova secção de Estudos e Ensaios e ainda não referidos, conferiu-se destaque a classes profissionais, caso das pioneiras psicólogas espanholas (n.º 16) ou das enfermeiras numa perspectiva de história comparada (n.º 18); a mulheres que, apesar do papel fundamental que desempenharam na e para além da sua época, caso de Clara Zetkin, são pouco conhecidas no contexto nacional (n.º 16); ao corpo como lugar de manifestação do género enquanto sistema de poder, a partir de questões como o aborto (n.º 16), a feminização da pobreza (n.º 17) e a violência doméstica (n.º 18).

 

Alargamento e Internacionalização

Em 2005 a revista deixou de publicar exclusivamente em língua portuguesa e passou a integrar artigos em espanhol, francês e inglês, procurando reforçar o diálogo internacional, estimular as abordagens comparadas e favorecer a divulgação da revista e das investigações por ela veiculadas. A revista foi adquirindo espaço de maior destaque no sítio internet da APEM, com a disponibilização em linha, em português e em inglês, dos objectivos e linha editorial, das normas para apresentação e avaliação de artigos, dos apelos a contribuições, bem como dos índices e resumos dos artigos publicados em cada número.

Estruturada em números temáticos até 2007, apresentou-se com um novo formato, a partir do n.º 16 desse ano, que conciliou a intenção de abordar problemáticas substanciais e significativas a partir de abordagens disciplinares e perspectivas teóricas distintas (Dossier temático) com a necessidade de divulgar artigos, provenientes de investigação diversa, e alargar o intercâmbio de informação e de conhecimento científico na área dos estudos sobre as mulheres, do género e feministas (Estudos e ensaios). A secção de leituras e/ou recensões de obras manteve-se.

A abertura da revista a uma colaboração mais alargada, nacional e internacional, conduziu, também, a um aperfeiçoamento do seu sistema de arbitragem científica, integrando referees externos, de modo a garantir uma elevada qualidade dos artigos de acordo com os padrões de exigência das revistas de aquém e além fronteiras. O processo de alargamento e internacionalização do conselho editorial encontra-se em curso. A este processo, não foi alheia a integração, primeiro no Catálogo da Latindex e, depois, na base de indexação SciELO, em cujo portal os artigos integrais em versão pdf ou html passam a poder ser livremente acedidos.

 

 

Referências

Magalhães, Maria José (2001), «Dez anos da APEM: percorrer as vozes, significar os percursos », ex æquo, n.º 5.        [ Links ]

Ferreira, Virgínia (1999), «Editorial», ex æquo, n.º 1.        [ Links ]

Joaquim, Teresa (2004), «Ex æquo: Contributo decisivo para um campo de estudos em Portugal», Revista de Estudos Feministas, vol. 12, n.º especial, pp. 88-93 [em linha], disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s0104026X2004-000300009&Ing=en&nrm=iso&tlng=pt [consultado em 02/10/2006].

 

Notas

1 Actualmente Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.

2 Por ordem cronológica da primeira participação: 1999: Fernanda Henriques, Helena Costa Araújo, Luísa de Paiva Boléo, Maria José Magalhães, Maria Regina Tavares da Silva, Sílvia Portugal, Teresa Tavares, Virgínia Ferreira; 2000: Teresa Pinto; 2002: Ana Luísa Amaral, Ana Maria Ferreira, Conceição Nogueira, Laura Fonseca Fernandes; 2004: Maria Helena Koning, Sofia Marques da Silva; 2007: Isabel Cruz, Sara Falcão Casaca, Teresa Alvarez, Teresa Toldy.

3 Anne Marie Fontaine, Cristina Rocha, Laura Fonseca, Lígia Amâncio, Manuela Ferreira, Teresa Joaquim e Virgínia Ferreira

4 Graça Abranches, Helena Costa Araújo, Lígia Amâncio (até 2007, por razões profissionais), Manuela Silva, Manuela Tavares, Margarida Chagas Lopes, Maria do Céu da Cunha Rego, Maria Irene Ramalho, Regina Tavares da Silva, Teresa Joaquim, Teresa Tavares, Teresa Vasconcelos, Tereza Beleza, Virgínia Ferreira.

5 Primeiro a Celta Editora e, desde 2004, Edições Afrontamento.

6 Registou-se apenas uma interrupção deste subsídio entre o n.º 8/2003 e o n.º 10/2004. Outros subsídios menos continuados foram atribuídos à APEM para a publicação da revista: ONGM do Conselho Consultivo da CIDM (n.º 1/1999, n.º 4 e n.º 5/2001, n.º 6 e n.º 7/2002); Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (n.º 1/1999; n.º 9/2003); Fundação Calouste Gulbenkian (n.º 2-3/2000); Centro de Direito da Família da FD da U. Coimbra (n.º 10/2004); CIIE – Centro de Investigação e Intervenção Educativas da FPCE da U. do Porto (n.º 15/2007) O apoio concedido algumas vezes pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas do Ministério da Cultura (n.º 4 e n.º 5/2001, n.º 6 e n.º 7/2002; n.º 8 e n.º 9/2003; n.º 18/2008) foi sempre atribuído directamente à editora.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons