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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  n.17 Vila Franca de Xira  2008

 

Silva, Maria Paula Monteiro Pinheiro da (2007), A construção/estruturação do género na Educação Física, Loures, Câmara Municipal de Loures.

 

Silvana Vilodre Goellner

Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

 

Por que ler um livro que discute as relações de género no campo da Educação Física e do esporte? Que contribuições os estudos sobre as mulheres podem trazer a um campo marcadamente representado como masculino? Que relações se podem estabelecer entre os aportes feministas e a construção de masculinidades e feminilidades em corpos que se esforçam para serem belos, saudáveis e performáticos? Que importância esse livro pode ter para àqueles/aquelas que não atuam no campo específico da educação física escolar ou, ainda, do esporte?

A leitura do livro de Paula Silva suscita várias respostas para essas indagações, fundamentalmente, porque faz ver que «género» não é apenas um tema acadêmico. Diz respeito a cada um/uma de nós. De como nos constituímos, entendemos, representamos, enfim, do modo como produzimos nossa subjetividade, e também, nosso corpo.

Oriundo de sua tese de doutoramento, apresentada à Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e vencedor (ex-aequo) do Prémio Mulher Investigação «Carolina Michaelis de Vasconcelos» (2006), o texto contempla duas partes: a primeira situa a ancoragem teórica utilizada para subsidiar e analisar a construção/ estruturação de género nas aulas de Educação Física. A segunda, apresenta os dados empíricos coletados nas instituições de ensino na cidade do Porto, os fundamentos metodológicos utilizados e a discussão dos resultados advindos da pesquisa. Se por um lado essa estruturação obedece a um modelo já consagrado de feitura de teses e dissertações, por outro, o modo através do qual a autora se utilizou dessa estrutura escapa de um mero formalismo. Seu texto evidencia uma intrínseca relação entre forma e conteúdo e entre empiria e teoria na medida em que, em ambas as partes, o que se vê é uma escrita densa, contextualizada, articulada e muito bem fundamentada. O texto de Paula Silva reflete um trabalho de fôlego, tanto na elaboração da pesquisa e na interpretação dos posicionamentos de professores/as e alunos/as acerca das questões afetas as relações interde género na educação física escolar, quanto na delimitação e explicitação da ancoragem teórica, mais especificamente, na articulação entre temas como epistemologias feministas, estudos de género, educação física, esporte e corpo.

Merece destaque a profundidade teórica presente nos capítulos intitulados «Sexo, Género, Biologia e Cultura», «Os Feminismos e a Ciência» e «Desporto e Género», pois neles a autora explicita que a categoria de género não é um bloco uníssono visto que, ao longo de sua história, o termo adquiriu significações e ênfases diferenciadas consoante os referenciais teóricos que lhe deram suporte. Evidencia, ainda, que são diferentes as epistemologias feministas e que estas também apresentam nuances diferenciadas no que respeita ao entendimento de género, de mulher e de produção do conhecimento.

O capítulo «Sexo, Género, Biologia e Cultura» é construído de forma exemplar pois fornece vários elementos para que se possa identificar que as representações de género são construções culturais e históricas e não apenas uma mera extensão da diferenciação biológica de nossos corpos. A autora é enfática ao afirmar que os atributos relacionados ao género resultam de minuciosos aprendizados e estes constituem a identidade dos sujeitos. Indica, ainda, que não há fixidez nestas representações visto serem diversos os modos de ser e viver as masculinidades e feminilidades.

O capítulo que aborda a relação entre os feminismos e a ciência contempla uma discussão bastante pertinente, sobretudo, quando demonstra que são plurais as teorias que encontram abrigo na adjetivação «feminista». Neste item, a autora faz uma breve explicitação da emergência do movimento feminista evidenciando algumas das reações que despontaram a partir do momento em que, como força política, apontou muitas das desigualdades existentes entre homens e mulheres, inclusive, no campo da ciência. Ao contextualizar os feminismos em Portugal, chama a atenção para a primeira vaga do movimento que atuou, fundamentalmente no embate contra a ditadura militar o que, em certa medida, tornou mais lenta a produção acadêmica feminista se comparado a outros países europeus. Essa situação pode ser mensurada pela escassez de estudos que focalizam as relações de género na sociedade portuguesa, o que dificulta a proposição de mudanças epistemológicas e políticas que, efetivamente, atuem em prol da minimização das desigualdades de género presentes em várias instâncias sociais.

Se estas temáticas são ainda pouco desenvolvidas no campo da educação em Portugal, a autora demonstra que são praticamente inexistentes no âmbito da educação física e do esporte. Por esse motivo, o capítulo intitulado «Desporto e Género» adquire um sentido muito especial, dado seu ineditismo, não apenas na investigação realizada em Portugal mas, ainda, em todos os países de fala portuguesa. Paula Silva elaborou um quadro teórico bastante rigoroso contemplando autores/as clássicos e contemporâneos cujas obras discutem as relações de género na educação física no esporte. Além disso, apresenta, com bastante propriedade, vários estudos que têm aporte na teorização feminista para analisar alguns temas absolutamente significativos para se compreender como são desiguais ascondições de acesso e permanência de homens e mulheres no universo cultural das práticas corporais e esportivas, sejam elas de lazer, rendimento ou educativas.

Ao afirmar que o esporte é um território generificado, a autora demonstra como essa generificação se opera concreta e cotidianamente produzindo corpos cujas marcas expressam representações de masculinidades e feminilidades. Ao tomar o aporte feminista para alavancar suas reflexões, faz ver que, muitas das discussões que hoje são realizadas no âmbito do esporte, só emergiram porque os feminismos abriram caminhos para que elas pudessem lá figurar. São exemplares dessa afirmação alguns dos temas contemplados no livro, tais como, o assédio sexual e a homofobia no esporte, os modos através das quais a mídia representa as mulheres atletas, a feminilização acentuada e a masculinização hegemônica na prática esportiva, entre outros. Temas estes que permitem, inclusive, problematizar vários dos discursos que circulam nas sociedades contemporâneas ocidentais, acerca, por exemplo, da relação entre o esporte com a potencialização dos corpos e com a aquisição de um estilo de vida saudável e ativo.

A primeira parte do livro promove, ainda, uma discussão específica sobre a educação física escolar e sua implicação na educação dos corpos e na produção de subjetividades incorporadas. A partir de alguns documentos que regulamentam o sistema educativo português, a autora mostra o quanto este componente curricular é atravessado pelas relações de género. Por fim, advoga em prol de uma educação física coeducativa por entendê-la capaz de enfrentar as iniqüidades de género tão presentes neste espaço educativo. Neste particular, argumenta que a coeducação vai muito além da proposição de aulas mistas pois estas, por si só, não são suficientes para reduzir desigualdades: há que existir um trabalho árduo e detalhado de sensibilização dos alunos e alunas e, sobretudo, dos/as docentes pois estes/as, em grande medida, reforçam tais desigualdades seja na forma como estruturam as aulas, seja no tratamento diferenciado que conferem aos alunos e as alunas no que tange ao seu desempenho corpóreo no esporte e fora dele.

Finda a primeira parte do livro, a autora investe na descrição detalhada de todos os passos percorridos para a realização da sua pesquisa empírica. Essa parte divide-se em quatro tópicos que, apesar de estarem separados na forma, são trabalhados de modo complementar. Intitulam-se: «Fundamentos Metodológicos », «Estudo Empírico – Métodos e Procedimentos», «Posicionamentos e Práticas dos/as Professores/as» e «Posicionamento de Alunos e Alunas».

A densidade da investigação desenvolvida salta aos olhos de quem percorre, vagarosamente, estes tópicos. Estão detalhadas as epistemologias feministas, os instrumentos utilizados para a coleta das informações, os critérios adotados para a escolha dos sujeitos investigados, as estratégias de cruzamentos de informações, as categorias analíticas e, por fim, a interpretação densa e minuciosa das falas e dos atos dos/das docentes e discentes.

O modo através do qual a autora articula a concepção teórica e metodológica da investigação com os dados advindos da pesquisa de campo é bastante consistente, sobretudo, porque a descrição é suplantada pela análise. Ao interpretar as vozes dos/das professores/as e dos/das alunos/as acerca das relações de género presentes na educação física escolar, a autora demonstra que, apesar de circularem discursos que mencionam serem os aspectos culturais aqueles que produzem muitas das diferenças existentes neste espaço, as questões biológicas são freqüentemente mencionadas para justificar e legitimar tais diferenças. Nas suas falas surgiram vários argumentos cuja ênfase estava na explicação de que os corpos de meninos e meninas são diferentes; conseqüentemente, suas capacidades físicas e suas habilidades não são apenas distintas mas, ainda, desiguais. Em síntese: a educação física escolar reforça a ordem de género, segundo a qual, acredita-se que os corpos masculinos são «naturalmente» mais preparados para o exercício de atividades físicas. Reitera, ainda, a representação de que o homem é o referente a partir do qual as mulheres são analisadas, observadas e mensuradas. Não é sem, razão, portanto, que vários/as entrevistados/as mencionaram que percebem a existência de diferentes oportunidades de prática esportiva entre os géneros e que estas são claramente desfavoráveis para as meninas e mulheres.

Se o livro de Paula Silva é importante do ponto de vista acadêmico não apenas no contexto específico de Portugal mas para os países de língua portuguesa, o é, também, por questões políticas. Ainda que faça referência a um determinado tempo e a uma cultura específica, as reflexões que suscita são necessárias para subsidiar ações afirmativas direcionadas para a minimização das diferenças e desigualdades de género presentes na educação física, no esporte e na educação. Nas suas palavras:

As políticas educativas, as escolas e os seus projectos educativos, os departamentos e os grupos disciplinares de EF devem providenciar um clima mais equitativo, isento de apreciações e julgamentos de raiz homofóbica. Para tal, precisam antes de tudo, de ficarem conscientes e de conscientizarem todos e todas acerca de como o heterossexismo e a homofobia actuam para uma limitação na participação das actividades desportivas. Devem tornar cientes alunos e alunas acerca das múltiplas formas de masculinidade, feminilidade e identidade sexual, de modo que eles e elas fiquem preparados/as para experimentarem os prazeres de serem fisicamente activos/ as, sem o receio de serem censurados/as ou gozados/as (p. 299).

Enfim, são palavras como estas que fazem deste livro uma obra a ser lida não somente por quem atua no campo específico da educação física e do esporte. As discussões que apresenta, as análises sugeridas, os entrecruzamentos dos/as autores/as, as referências teóricas, as indagações que provoca, seu teor argumentativo oferecem possibilidades de compreensão a algumas de nossas indagações mais íntimas e particulares. Razão pela qual, este livro diz sobre nós e sobre como o género inscreve-se na nossa carne.

 

Silvana Vilodre Goellner é doutora em Educação e professora da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento Humano e do GRECCO (Grupo de Estudos sobre Cultura e Corpo). É Pesquisadora Produtividade em Pesquisa do Cnpq-Brasil.

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