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Psicologia

Print version ISSN 0874-2049

Psicologia vol.16 no.2 Lisboa July 2002

http://dx.doi.org/10.17575/rpsicol.v16i2.484 

Efeitos da recategorização e da descategorização na redução do enviesamento intergrupal: A perspectiva do desenvolvimento infantil1

Recategorization and descategorization effects on reduction of intergroup bias: a child development perspective in intergroup symmetry and asymmetry

 

Margarida Rebelo*; Catarina Matias**; Maria Benedicta Monteiro***

*,**Grupo de Ecologia Social, Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

***Centro de Investigação e Intervenção Social do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.

 


RESUMO

Os estudos em epígrafe testam a eficácia do modelo da recategorização (Gaertner et al, 1989) e da descategorização (Brewer & Miller, 1984) na redução do enviesamento intergrupal, em crianças DE baixo e de elevado estatuto étnico. Ambos os estudos foram estruturados de acordo com um desenho experimental de 3 (condição) x 2 (estatuto étnico do grupo) x 2 (grupo-alvo). As medidas dependentes consideradas foram a avaliação social, a atribuição de recursos e a proximidade social. Os resultados obtidos no estudo 1 (grupos com estatuto étnico equivalente) mostraram que as crianças de elevado estatuto reduzem o favoritismo endogrupal através da recategorização. No estudo 2 (grupos com desigualdade de estatuto étnico) tanto a recategorização como a descategorização foram eficazes a reduzir o favoritismo endogrupal. De acordo com as hipóteses, a redução do enviesamento intergrupal, na recategorização, processou-se através do aumento da atracção pelos membros do exogrupo, enquanto que na descategorização se operou a partir da diminuição da atracção pelos membros do exogrupo.

Palavras-chave Simetria e assimetria intergrupal, relações interétnicas na infância, modelo da identidade endogrupal comum, redução do enviesamento intergrupal.


ABSTRACT

Two studies test the efficacy of recategorization (Gaertner et al., 1989) and Decategorization (Brewer & Miller, 1984) models on reducing intergroup bias in high and low ethnic status children. Both studies were structured according to a 3 (condition) x 2 (group ethnic status) x 2 (target group) experimental design with social evaluation, social proximity and resource allocation as dependent measures. In study 1, using interaction between same ethnic status children, results showed that ingroup favouritism was better reduced through de-categorisation in low ethnic status groups, but was better reduced through re-categorisation in high ethnic status groups. In study 2, using interaction between different ethnic status children, both de-categorisation and re-categorisation were effective in reducing ingroup favouritism. Moreover, according to hypotheses, while in the de-categorisation condition discrimination was reduced through a decrease of ingroup members evaluation, in the re-categorisation condition discrimination was reduced through an increase of outgroup members' evaluation.


 

Introdução

A emergência de sociedades multiculturais, entre as quais a portuguesa se inclui, remete-nos inegavelmente para as diversas formas e cenários de convivência e de relacionamento entre culturas e grupos étnicos diferenciados (diferentes grupos etnonacionais e grupos étnicos minoritários).

O estudo das relações de cooperação e conflito entre os grupos sociais e das formas de redução de conflito conta com uma longa tradição na psicologia social (Allport, 1954; Cook, 1978; Pettigrew, 1971; Sherif et al., 1961; Sherif, 1966). Essas relações foram, no entanto, essencialmente analisadas em indivíduos adultos, pouco se sabendo sobre o modo como elas se formam e se modificam em idades anteriores à adulta. É sobre esta temática que os dois estudos apresentados se debruçam e é neste quadro que assumem relevância as controvérsias teóricas sobre as condições e os factores que favorecem ou dificultam a redução do preconceito e da hostilidade intergrupais. Mais especificamente, interessa-nos conhecer, no quadro da investigação psicossocial, as condições que determinam as relações de cooperação ou de hostilidade interétnicas na infância, bem como os factores que determinam a redução do preconceito e da discriminação interétnicos nesse mesmo contexto.

A investigação de matriz sociocognitiva produzida no âmbito do comportamento intergrupal mostra que a categorização dos indivíduos em grupos distintos é suficiente para gerar enviesamentos intergrupais e nomeadamente o favoritismo endogrupal (Tajfel et al., 1971; Tajfel & Tumer, 1979). A principal implicação deste princípio para a questão da redução desses enviesamentos é a de que a redução da saliência das categorizações grupais deverá diminuir os julgamentos baseados nas representações do endogrupo e do exogrupo, o que, consequentemente, diminuiria o favoritismo endogrupal. Por outro lado, a criação de uma representação de identidade endogrupal comum não só reduziria essa saliência da categorização, como tomaria saliente uma nova categoria com a qual os indivíduos se podem identificar (Gaertner et al., 1989; Gaertner et al., 1993; Gaertner et al., 2000; Gaertner & Dovidio, 2000).

A importância de estudar como operam estas duas vias de redução do preconceito e da discriminação intergrupal no quadro do desenvolvimento humano apoia-se em dois argumentos. O primeiro é o de verificar a possibilidade, em crianças, de desfazer os efeitos nocivos das categorizações sociais e da estigmatização de grupos minoritários que lhe está associada, dada a natureza e complexidade dos processos cognitivos que, em qualquer das propostas teóricas já mencionadas, estão envolvidos na redução de enviesamentos intergrupais. O segundo é o de verificar qual destas vias se revela mais eficaz na redução dos enviesamentos intergrupais, de modo a que se demonstre que a redução do preconceito não seja um fenómeno apenas possível na idade adulta, mas sim um fenómeno potencialmente presente noutras fases do desenvolvimento humano, designadamente na infância. Deste modo, e a verificar-se a existência na infância dos tipos de processos sociocognitivos que subjazem àqueles fenómenos, tomar-se-iam possíveis intervenções preventivas, redireccionando, desde cedo, a força da categorização social em relações interpessoais e intergrupais mais harmoniosas.

A identidade social como factor de integração ou de segregação social

Uma das principais contribuições teóricas da psicologia social para a compreensão dos fenómenos inerentes à relação entre grupos sociais e ao comportamento social a ele associado, foi, sem dúvida, a do modelo da identidade social (Tafjel, 1972; Tajfel & Turner, 1979; Tajfel & Tumer, 1986). Entre outras mais-valias, o modelo evidenciou a importância do papel da identidade social na modalidade que a relação assume entre grupos sociais. É neste contexto que a relação maiorias-minorias tem sido habitualmente equacionada. Do processo de comparação das maiorias com as minorias resulta, na maior parte dos casos, uma discriminação negativa, ou seja, os grupos maioritários e dominantes desvalorizam os grupos minoritários, não por possuírem características passíveis de serem tomadas como fontes de discriminação, mas como resultado da elevada identidade social e do exercício de poder das maiorias (Tajfel, 1982).

Nas relações que apresentam uma estrutura assimétrica de estatuto, e mais particularmente no quadro das relações interétnicas, tem-se verificado que os resultados com crianças acompanham de perto os dos adultos: a preferência, mas também o favoritismo endogrupal, dos grupos branco e negro, foi observada em muitos estudos, em crianças a partir dos 4-5 anos. No entanto, a replicação desses estudos pioneiros nos anos mais recentes tem vindo a mostrar uma mudança nas preferências das crianças negras, que aumentam em relação ao seu grupo, mas não nas preferências das crianças brancas, que continuam a preferir e a beneficiar sistematicamente as crianças do seu grupo (para uma revisão, ver Brown, 1995, e Aboud, 1998).

O acervo decorrente da literatura e da investigação sobre as relações intergrupais e a diminuição do preconceito intergrupal remete-nos, por um lado, para explicações que colocam em evidência os processos cognitivos que estão na base do preconceito e da discriminação intergrupal e, por outro, para explicações associadas à estrutura das relações intergrupais. Os modelos da descategorização (Brewer & Miller, 1984) e da identidade endogrupal comum (Gaertner et al, 1993) pretendem, de alguma forma, incorporar estes aspectos. É sobre as propostas destes autores que nos deteremos nos pontos seguintes.

O modelo da descategorização: a individuação como forma de reduzir o preconceito intergrupal

A principal contribuição do modelo da descategorização de Brewer e Miller (1984), na perspectiva da redução do preconceito, é a de que esta redução é possível quando os membros do endo e do exogrupo forem induzidos a conceberem-se como indivíduos separados (Wilder, 1981), ou quando o contacto entre os membros dos grupos se caracteriza por uma interacção diferenciada e personalizada, interacção essa que se contrapõe à estabelecida com base na categorização social. Neste sentido, os autores propõem que a redução dos efeitos da categorização, nas interacções sociais, pode ser alcançada com sucesso quando a natureza da interacção, na situação de contacto, promove uma orientação interpessoal entre os participantes e promove a diferenciação dos indivíduos. Esta redução pode ser operada por forma a diminuir gradualmente o favoritismo endogrupal ou a minimizar a importância da informação estereotípica sobre o exogrupo (Miller, Brewer & Edwards, 1985).

A diferenciação refere-se à distintividade entre os elementos de um mesmo grupo, ou seja, à percepção de diferenças intracategoriais, não implicando, no entanto, a eliminação das fronteiras categoriais que diferenciam o endogrupo do exo-grupo (Brewer & Miller, 1984: 287).

O processo de personalização implica responder ao outro em termos individuais. Este processo baseia-se na relação que se estabelece com o indivíduo em si, ao invés de o considerar como o representante de determinada categoria ou grupo (Brewer & Miller, 1984: 287).

Segundo os autores (Brewer & Miller, 1984), as fronteiras entre os grupos, durante o contacto, devem ser menos rígidas e, em última instância, poderão ser completamente eliminadas. Desta forma, a situação de contacto deveria tomar-se cada vez mais "personalizada" e as interacções deveriam ter lugar a um nível interpessoal. Neste modo "personalizado" de contacto, os participantes devem tomar mais atenção a informações idiossincráticas acerca de cada indivíduo e estar também menos atentos à informação estereotipada sobre o grupo. O contacto interpessoal nestas condições poderá resultar numa desconfirmação de estereótipos (negativos) preexistentes acerca do exogrupo (Brown, 1995:260). Como claramente se percebe, este tipo de contacto (personalização) baseia-se essencialmente no processamento de informação sobre os membros do grupo, redireccionando a atenção para a informação personalizada e relevante acerca dos outros.

Neste sentido, os autores assumem que esta experiência de contacto tem mais probabilidades de se generalizar a outras situações, uma vez que a utilização frequente e duradoura de informações alternativas nas interacções sociais reduz a eficácia e utilidade da identidade categorial. Desta forma, a personalização pode integrar a categorização como uma característica dos sujeitos, a qual pode contribuir (mas não determinar) a formação de impressões e de avaliações interpessoais (Brewer & Miller, 1984:288), podendo ser compatível com o modelo de integração descrito por Berry (1984: 289).

Para Brewer e Miller (1984), os factores que promovem a personalização são inversos dos factores que promovem a saliência e relevância das fronteiras categoriais em situações específicas. A categorização cruzada (Deschamps & Doise, 1978) pode ser encorajada através do aumento da relevância, no contexto social imediato, de múltiplos sistemas de categorização não relacionados entre si e da criação de novas categorias sociais construídas intencionalmente. No entanto, e ainda na opinião dps autores, este processo perpetua as percepções e interacções baseadas na categorização, uma vez que mesmo que estejam disponíveis várias categorizações, uma delas pode tomar-se dominante e constituir a base da identidade social. Os autores colocam, então, a hipótese de que a redução dos efeitos da categorização nas interacções sociais é efectuada com sucesso quando a natureza da interacção promove uma orientação interpessoal ao invés de uma orientação para a tarefa, e quando a base para a atribuição dos papéis, estatutos, funções sociais e composição dos subgrupos é percebida como independente da categoria.

A alteração da representação do agregado produzida pela descategorização reduziria o enviesamento intergrupal porque a orientação face aos membros do endo-grupo se toma menos positiva e equivalente à dos membros do exogrupo (Brewer &

Miller, 1984), permitindo a generalização dos efeitos positivos da descategorização a outros grupos (Miller, Brewer & Edwards, 1985; Miller & Harrington, 1990; Harrington & Miller, 1995; Marcus-Newhall, Miller, Holtz & Brewer, 1993; Rich, Kedem & Shlesinger 1995).

O modelo da identidade endogrupal comum: o impacte da redefinição de fronteiras para a redução do preconceito intergrupal

O modelo da identidade endogrupal comum surge como uma alternativa às propostas anteriores de redução do preconceito através do contacto em condições de simetria de estatuto e de interacção cooperante num contexto normativo favorável (Gaertner et al., 1993), da construção de objectivos supra-ordenados em condições de interdependência dos grupos (Sherif et al, 1961) e de interacções que anulam a saliência da categoria de pertença e acentuam as características individuais dos sujeitos (Wilder, 1981; Brewer & Miller, 1984; Miller, Brewer & Edwards, 1985).

Segundo Gaertner e colaboradores (1993), o conceito de identidade endogrupal comum e o modelo em si mesmo propõem que a indução em ambos os grupos (endo e exogrupo) da diluição das suas fronteiras, no sentido de se percepcionarem como partes integrantes de um todo (recategorização), reduziria eficazmente o enviesamento intergrupal decorrente de uma categorização prévia, tal como está presente no modelo da identidade social (favoritismo endogrupal).

Desta forma, o preconceito e a discriminação intergrupais podem ser reduzidos através da manipulação da percepção de pertença grupai (alteração na percepção das fronteiras grupais), ou seja, pode ser reduzido por factores que transformem a representação cognitiva de pertença dos membros de dois grupos distintos na representação de pertença a um único grupo.

A investigação realizada (laboratorial e de campo) demonstrou que a recategorização de dois grupos distintos num só grupo tanto pode ser alcançada através do aumento da saliência da pertença a um grupo comum supra-ordenado (Sherif, 1966), como pela introdução de novos factores (tarefas ou destinos comuns) per-cepcionados pelos sujeitos como sendo partilhados pelos membros de ambos os grupos (Rabbie & Horwitz, 1969; Sherif, 1966).

O modelo da identidade endogrupal comum propõe um conjunto de factores causais que podem influenciar as representações cognitivas de pertença dos membros dos grupos. Os seus autores colocam como hipótese a de que diferentes tipos de interdependência intergrupal, de factores cognitivos, perceptivos, linguísticos, afectivos e contextuais podem, independentemente ou em conjunto, alterar as representações cognitivas que os grupos têm sobre si próprios e sobre os outros grupos. Estas diferentes representações (grupo único, dois grupos ou indivíduos separados) teriam consequências a nível cognitivo, afectivo e comportamental e implicariam diferentes formas de relação entre os grupos (Gaertner et al., 1993).

Em oposição ao processo de redução do enviesamento intergrupal preconizado pelo modelo da descategorização, a representação do agregado em grupo único (recategorização) produziria, por um lado, orientações mais positivas face aos membros do exogrupo inicial (Gaertner et al, 1993) e possibilitaria, por outro, a generalização dos benefícios da identidade endogrupal comum, na medida em que esta representação do agregado não implica que os membros dos grupos ignorem as suas identidades originais e pode integrar, sem ruído, informação contra-estereotípica sobre os membros do exogmpo (Anastasio et al, 1992, cit. em Anastasio, Bachman, Gaertner & Dovidio, 1997; Dovidio et al, 1997).

O modelo da identidade endogrupal comum (Gaertner et al, 2000) (cfr. figura 1) organiza-se em torno de três eixos: 1) as causas ou antecedentes da representação cognitiva dos grupos, 2) os mediadores representacionais ou variáveis mediadoras (grupo único, indivíduos separados, dois grupos num grupo e dois grupos) e, 3) as consequências da representação cognitiva dos grupos em interacção.

Testes empíricos ao modelo da identidade endogrupal comum

A revisão de literatura que passamos a apresentar foi organizada em função dos estudos que se debruçam sobre as causas e as consequências da representação cognitiva do agregado.

Como iremos ver, a investigação laboratorial e de campo realizada sobre o modelo da identidade endogrupal comum demonstrou que a recategorização dos grupos em grupo único reduz o nível de enviesamento intergrupal atingido na condição de controlo e que esse processo de redução do favoritismo endogrupal se consegue à custa do aumento da atracção pelos membros do exogrupo (Gaertner et al., 1989). Vejamos, então, o corpo empírico desenvolvido em torno do modelo da identidade endogrupal comum.

Causas ou antecedentes no modelo da identidade endogrupal comum

Cooperação intergrupal

A hipótese referente à cooperação intergrupal (interacção orientada para a tarefa e destino comum) defende que esta reduz o enviesamento intergrupal, através da minimização da saliência das fronteiras entre os grupos. Especificamente, os autores defendem que a cooperação intergrupal induz os membros dos grupos a conceberem-se como um grupo ou categoria supra-ordenada, em vez de se representarem como dois grupos separados, fundindo o exogrupo e o endogrupo num grupo único, mais inclusivo e capaz de reduzir o favoritismo endogrupal (Gaertner & Dovidio, 2000). Partindo deste pressuposto, Gaertner e colaboradores (1990) desenvolveram um estudo com adultos em contexto laboratorial, em que tanto a interacção cooperativa (cooperação para atingir um objectivo comum vs. não cooperação) como a representação dos grupos (dois grupos, grupo único e indivíduos separados) foram manipuladas. As medidas dependentes utilizadas referiam-se a itens de avaliação social dos membros do endo e do exogrupo. Os resultados evidenciaram que os sujeitos, nas condições não cooperação / grupo único, avaliaram melhor os participantes e apresentaram menor enviesamento intergrupal, comparativamente aos sujeitos na mesma condição de cooperação, mas na condição dois grupos. Estes resultados, segundo os autores, fornecem uma importante contribuição na exploração da relação de causa-efeito que se pode estabelecer entre a representação de grupo único e a redução do enviesamento intergrupal, mesmo quando se trata de um contexto de não cooperação entre os participantes. Os resultados da condição de cooperação (objectivo e destino comuns) e da condição dois grupos revelaram que os sujeitos emitem avaliações mais positivas e tendem a sentir-se mais como grupo único quando a situação de cooperação está presente e, consequentemente, apresentam níveis mais baixos de enviesamento intergrupal durante o período de contacto.

Os resultados do estudo apresentado anteriormente revelaram as potencialidades da cooperação na redução do conflito e do enviesamento intergrupais. Apesar do consenso a propósito deste princípio, permanecem dúvidas a propósito dos elementos específicos de cooperação capazes de produzir a redução do enviesamento intergrupal. Muito embora as tradicionais definições de cooperação intergrupal não refiram éxplicitamente a absoluta necessidade de interacção entre os grupos, a literatura neste domínio defende claramente a sua importância na redução do enviesamento intergrupal (Allport, 1954; Brewer & Miller, 1984; Cook, 1984; Miller & Davidson-Podgomcy, 1987). No entanto, outros investigadores (Brown & Wade, 1987; Deschamps & Brown, 1983) demonstraram que o trabalho partilhado e o destino comum são, em conjunto, condições suficientes para reduzir o enviesamento intergrupal, sem que ocorra interacção intergrupal. Face a estas duas diferentes linhas de evidência empírica, Gaertner e colaboradores (1999) elegeram como objectivos primordiais deste estudo a exploração das contribuições independentes da interacção intergrupal e do destino comum (resultados partilhados) na redução do enviesamento intergrupal. Dois grupos (apoiantes do Partido Republicano rs. apoiantes do Partido Democrático) de três elementos foram postos em contacto segundo duas condições experimentais, designadamente, destino comum (destino comum us. ausência de destino comum) e interacção intergrupal (interacção total, interacção parcial e não interacção). As medidas consideradas neste estudo incluíam medidas de auto-avaliação, avaliação das expressões faciais dos participantes, avaliação da quantidade da informação que os participantes cediam acerca deles próprios e avaliação da cooperação. Estas medidas foram tratadas em termos de avaliação do endo e do exogrupo.

Os resultados do estudo revelaram um efeito principal do factor interacção. Assim, o nível de enviesamento intergrupal mais baixo surgiu nos participantes na condição interacção total, quando comparados com os participantes nas condições interacção parcial e não interacção, não se tendo, no entanto, verificado diferenças significativas entre estas duas últimas.

No que se refere ao factor destino comum, os resultados evidenciam, em relação à medida de avaliação das expressões faciais dos participantes, um favoritismo endogrupal mais elevado na condição ausência de destino comum do que na condição destino comum.

A ausência de resultados significativos em termos de efeitos de interacção entre os dois principais factores do estudo (interacção intergrupal e destino comum) levou os autores (Gaertner et al, 1999; Gaertner & Dovidio, 2000) a concluírem que estes factores se afiguram como componentes separados da cooperação intergrupal e de forma independente parecem contribuir para a minimização do enviesamento intergrupal, contrariando, assim, os resultados de estudos anteriores (Brown & Wade, 1987).

Diferenciação intergrupal

A diferenciação intergrupal, mais especificamente o contacto visual, foi testada num estudo realizado por Gaertner e Dovidio (1986), no qual os autores demonstraram que o contacto visual tem um impacte directo nas representações do grupo e consequentemente no enviesamento intergrupal. A mera disposição dos lugares (segregado vs. integrado) à volta de uma mesa criou nos participantes uma representação supra-ordenada do grupo, a qual reduziu significativamente o enviesamento intergrupal, no que se refere à avaliação social dos membros do grupo e à nomeação de líderes.

Ainda sobre este tópico, um outro estudo (Dovidio, Gaertner, Isen &

Lowrance, 1995) foi desenvolvido por forma a explorar em que medida a forma de vestir dos participantes pode influenciar o enviesamento intergrupal. Neste sentido, os autores manipularam a forma como os participantes se apresentavam segundo duas condições: todos os participantes vestiam roupa igual (batas do laboratório) ou todos os participantes vestiam roupa diferente (cada participante com a sua própria roupa). Os resultados indicaram que a condição roupa igual surge como condição suficiente para induzir a representação de grupo único e, consequentemente, produz atitudes intergrupais mais positivas e menor enviesamento intergrupal.

Condições do contacto intergrupal

As condições em que o contacto intergrupal ocorre também podem influenciar as representações do grupo. Referimo-nos especificamente às representações de grupo único (recategorização), dois grupos (categorização) e indivíduos separados (descategorização). Sobre este tópico, o estudo experimental desenvolvido com adultos por Gaertner e colaboradores (1989) adquire, no âmbito dos estudos que integram este artigo, particular relevância, na medida em que nele se apresenta o paradigma experimental por nós utilizado. Por esta razão, optou-se por apresentá-lo em maior detalhe, descrevendo o procedimento experimental, as medidas dependentes e os resultados obtidos.

A sessão experimental incluía dois momentos distintos, designadamente, a formação de subgrupos e o reforço da identificação com o grupo, e a introdução das manipulações experimentais. Os participantes (estudantes universitários), seis em cada sessão, foram divididos em dois grupos de três elementos. Aos membros de cada um desses subgrupos eram dadas etiquetas de cores diferentes (púrpura, amarelo e castanho para os elementos do subgrupo A e verde, cor-de-laranja e vermelho para os elementos do subgrupo B). Ao entrarem na sala experimental era-lhes pedido que prendessem à roupa a etiqueta que lhes tinha sido atribuída e que se sentassem no lugar identificado com a sua cor. Através de uma gravação áudio explicava-se o objectivo do estudo — explorar os processos de decisão em grupo — e pedia-se que resolvessem um problema. A tarefa experimental consistia na resolução do winter survival problem (Jonhson & Jonhson, 1975), em que era pedido aos subgrupos que ordenassem, por grau de importância para a sobrevivência dos indivíduos, dez objectos que existiam num avião em caso de desastre aéreo. Os participantes eram informados de que se iria gravar a interacção até que chegassem a um consenso. Posteriormente, pedia-se aos membros de cada grupo que atribuíssem um nome ao seu grupo e que o escrevessem no formulário de resposta destinado ao registo da decisão do grupo. Após a resolução consensual do problema os participantes eram informados, também através de uma gravação áudio, que iriam realizar de novo o mesmo problema, mas de forma diferente daquela em que tinham estado a trabalhar.

Este estudo contava com três condições: uma condição de controlo (categorização — dois grupos) e duas experimentais, designadamente, recategorização (novo grupo de seis elementos) e descategorização (seis indivíduos separados).

Estas condições foram manipuladas segundo quatro critérios relacionados com a situação de contacto entre os dois grupos, designadamente, o arranjo espacial dos membros durante a interacção, a identidade com o grupo durante a interacção, a natureza e objectivo da interacção, e a natureza da interdependência.

O primeiro desses critérios introduziu diferentes formas de arranjo espacial entre os elementos participantes. Assim, na condição grupo único, os membros dos dois grupos foram conduzidos a uma sala e sentados alternadamente em tomo de uma mesa hexagonal em que cada sujeito estava sentado entre dois dos membros do exogrupo. Na condição dois grupos, os membros de cada grupo foram conduzidos a uma sala e sentados de frente uns para os outros de lados opostos de uma mesa. Na condição indivíduos separados, cada sujeito era conduzido a um de seis cubículos individuais, para aí realizar novamente a tarefa experimental. O segundo critério — identificação com o grupo ao longo da interacção — foi manipulado da seguinte forma. Na condição grupo único, era pedido aos seis participantes que criassem um nome para o novo grupo. Na condição dois grupos, mantinham-se os nomes dos dois grupos iniciais. Por último, na condição indivíduos separados, era pedido a cada participante que atribuísse um nome a si próprio. Imediatamente antes da situação de interacção o experimentador dava a seguinte instrução: "Nesta sessão o grupo A vai fundir-se com o grupo B e serão designados como o grupo X" (nome do grupo único). Na condição dois grupos e indivíduos separados, o experimentador anunciava, respectivamente, os nomes dos dois subgrupos c os novos nomes de cada um dos seis participantes.

A natureza e objectivo da interacção foram operacionalizados da seguinte forma: na condição grupo único, os participantes discutiram livremente o problema de sobrevivência com o objectivo de chegarem a uma solução consensual; na condição dois grupos, os membros de cada um dos subgrupos apresentavam ao outro subgrupo as razões que presidiram à solução encontrada; na condição indivíduos separados cada participante descreveu a sua solução individual inicial aos outros cinco participantes.

A natureza da interdependência foi operacionalizada a partir da possibilidade de cada participante se habilitar a um sorteio na universidade, a realizar no final do semestre. A habilitação a este sorteio dependia da eficácia da solução encontrada para o problema de sobrevivência. Na condição recategorização, a solução consensual do grupo tinha de ser mais eficaz do que a de um outro suposto grupo de seis pessoas que já tinha realizado a mesma tarefa. Na condição de controlo, a solução final de um dos subgrupos tinha de ser mais eficaz do que a do outro. Na condição descategorização a possibilidade de participar no sorteio era atribuída ao participante que tivesse a solução final mais eficaz.

Para além do controlo da manipulação da representação cognitiva do agregado durante a interacção (dois grupos, grupo único e indivíduos separados), as medidas dependentes incluíam a eleição de um líder, a intensidade com que os participantes sentiram que o grupo funcionou em dois grupos, grupo único e indivíduos, a avaliação de cada participante em três atributos (honestidade, cooperação e valor na discussão) e a avaliação da interacção em vários itens.2

Um dos resultados mais importantes que este estudo revelou foi a real alteração da representação das fronteiras dos grupos nas duas condições experimentais, a qual se traduziu em menor enviesamento intergrupal. Para além disto, os sujeitos na condição recategorização (grupo único) apresentavam um menor enviesamento intergrupal comparativamente aos sujeitos nas restantes condições (controlo e descategorização). Este menor enviesamento era traduzido em avaliações mais favoráveis dos membros do exogrupo e da própria situação de interacção. Finalmente, as duas propostas de alteração das fronteiras dos grupos pressupuseram diferentes formas de operar a redução do enviesamento intergrupal. Na recategorização (grupo único) a redução do enviesamento intergrupal foi feita à custa do aumento da atracção pelos membros do exogrupo, enquanto que na condição descategorização (indivíduos separados) essa redução operou-se a partir da diminuição da atracção pelos membros do endogrupo (Gaertner et al, 1989: 245).

Tal como o trabalho de Sherif e colaboradores (1961) demonstrou, a interdependência grupai em contexto de cooperação constitui uma ferramenta essencial na redução do preconceito e do favoritismo intergrupal. O comportamento dos sujeitos no estudo da "caverna dos ladrões" (Sherif et al., 1961) sugere claramente o papel mediador da representação cognitiva de grupo único na redução do enviesamento intergrupal. Esta mediação foi testada num estudo experimental realizado por Gaertner e colaboradores (1990). Neste estudo, e quando os sujeitos eram induzidos a funcionar em dois grupos (usando para tal a metodologia experimental do estudo de 1989), a introdução da cooperação reduziu o enviesamento intergrupal no que se refere à avaliação dos grupos com os quais não foi permitido cooperar, e este efeito foi mediado pela representação de grupo único. Assim, a cooperação não só reduziu o enviesamento intergrupal como definiu o processo pelo qual isso aconteceu, ao se demonstrar a transformação da representação de dois grupos num grupo único.

Contexto ambiental

Sobre este tópico do modelo foram realizados três estudos correlacionais, em contexto natural. Os participantes neste estudo foram estudantes do ensino secundário de uma escola multiétnica (Gaertner, Rust, Dovidio, Bachman & Anastasio, 1994,1996), executivos de várias instituições bancárias dos EUA que tinham passado por uma fusão empresarial (Bachman, 1993; Bachman & Gaertner, 1998; Gaertner, Dovidio & Bachman, 1996) e estudantes universitários provenientes de famílias em processo de reunificação (Banker & Gaertner, 1998). Por forma a replicar os estudos sobre cooperação em contexto laboratorial, as medidas utilizadas nestes estudos incluíam a percepção dos sujeitos das condições de contacto (i.e. estatutos iguais, interacção auto-reveladora, cooperação e normas igualitárias), as representações do agregado (grupo único, dois grupos, dois grupos num grupo e indivíduos separados) e uma medida de enviesamento intergrupal. Os resultados obtidos revelaram que as condições de contacto eram predictoras do enviesamento intergrupal e influenciavam as representações cognitivas do agregado. Os sujeitos que avaliaram a representação do agregado em grupo único eram aqueles que apresentavam valores mais baixos de enviesamento intergrupal relativamente às reacções afectivas face à escola secundária (alunos do ensino secundário), menor ansiedade intergrupal (bancários) e maior harmonia familiar (estudantes universitários).

Condições de pré-contacto

Um outro conjunto de estudos foi desenvolvido sob o primado da activação (printirtg)3 afectiva. Sobre este tópico foi realizado um estudo em contexto laboratorial (Gaertner et al, 1996). Os participantes neste estudo trabalhavam em pequenos grupos na resolução de um problema. Depois dessa interacção, os participantes na condição afecto positivo recebiam um presente (chocolate), enquanto que aos participantes na condição de controlo não era feita qualquer referência. Os principais resultados deste estudo indicaram que os sujeitos na condição afecto positivo possuíam representações mais inclusivas de grupo (grupo único) e avaliavam melhor os membros do exogrupo.

Ainda sobre a activação (priming) afectiva, Gaertner e colaboradores realizaram um outro estudo experimental, com estudantes universitários, em que investigaram a influência da natureza das relações intergrupais sobre o impacte do afecto positivo na produção de atitudes intergrupais (Gaertner et al, 1998). Os resultados obtidos neste estudo revelaram que os sujeitos com fortes identidades separadas (liberais ps. conservadores) e na condição afecto positivo apresentavam valores mais elevados de enviesamento intergrupal do que aqueles na condição de controlo (afecto neutro). Por outro lado, os sujeitos com forte identidade com uma categoria supra-ordenada — grupo único (forte identidade com a universidade) e na condição afecto positivo produziram avaliações mais favoráveis do exogrupo e, consequentemente, menor enviesamento intergrupal.

Tomados no seu conjunto, os resultados que derivaram das várias incursões teóricas e empíricas levadas a cabo pelos autores (Gaertner et al, 2000; Gaertner & Dovidio, 2000) fornecem um acervo empírico consistente ao modelo da identidade endogrupal comum. Reduzir a diferenciação intergrupal, introduzir a cooperação interdependente, introduzir condições de contacto suficientemente inclusivas e criar situações de contacto ditadas por afecto positivo constituem uma forte base para a criação de uma identidade endogrupal comum, a qual resultará em formas mais harmoniosas de avaliação do exogrupo e em condições favoráveis à redução do enviesamento intergrupal. Os pontos que se seguem debruçam-se sobre os estudos realizados sob o prisma das consequências da identidade endogrupal comum.

Consequências da identidade endogrupal comum

Apesar de o modelo da identidade endogrupal comum apresentar consequências a nível cognitivo e afectivo, os estudos sobre as suas consequências centraram-se, fundamentalmente, na exploração dos efeitos ou das consequências comportamentais, nomeadamente no que diz respeito aos comportamentos de ajuda e de auto-revelação.

Sobre este tópico, Dovidio e colaboradores (1997) desenvolveram um estudo experimental com estudantes universitários no qual manipularam a representação cognitiva do agregado em duas condições (categorização e recategorização; ver Gaertner et al, 1989, para procedimento experimental) e avaliaram o comportamento de ajuda e de auto-revelação em relação aos dois grupos-alvos (endogrupo e exogrupo). Os resultados obtidos indicaram que os sujeitos na condição recategorização ajudam mais e têm interacções mais personalizadas (auto-reveladoras) com os membros do exogrupo do que os sujeitos na condição de controlo (dois grupos).

Nier e colaboradores (1996, cit. em Gaertner et al, 2000) estudaram, em contexto laboratorial e com estudantes universitários, as reacções positivas face a membros de diferentes grupos raciais (brancos e negros). Os participantes, neste estudo, estavam distribuídos por duas configurações de interacção grupai, designadamente, simetria intergrupal com grupos de elevado estatuto (brancos vs. brancos) e assimetria intergrupal (brancos vs. negros). Os resultados obtidos revelaram que, na situação de simetria intergrupal (brancos vs. brancos), os sujeitos recorriam tanto à recategorização como à descategorização para reduzir o enviesamento intergrupal, produzindo avaliações mais positivas sobre os seus pares. Na situação de assimetria intergrupal (brancos vs. negros), os membros dos grupos de elevado estatuto étnico reduziam mais eficazmente o enviesamento intergrupal na condição de recategorização do que na condição descategorização (Nier et al., 1996, cit. em Gaertner et al., 2000).

Como vimos, os resultados obtidos ao longo de vários estudos (Gaertner et al., 1989; Gaertner et al., 1990; Gaertner et al., 1993; Gaertner et al., 1994; Dovidio et al., 1997; Anastasio et al., 1997; Dovidio et al., 1998; Gaertner et al., 1999; Gaertner et al., 2000), efectuados em diversos contextos e sobre diferentes tópicos, constituem um suporte empírico particularmente significativo na demonstração da utilidade do modelo da identidade endogrupal comum para o entendimento dos processos que reduzem o enviesamento intergrupal e favorecem relações intergrupais mais harmoniosas.

Os estudos claramente evidenciaram que a representação do agregado como grupo único está directamente relacionada com sentimentos mais positivos face aos membros do exogrupo e que as condições propostas pela hipótese do contacto para o sucesso das relações intergrupais, como por exemplo a cooperação, produzem efeitos positivos.

Objectivos e hipóteses

O principal objectivo dos dois estudos experimentais aqui apresentados é o de contrastar os modelos da identidade endogrupal comum (Gaertner et al, 1993) e da descategorização (Brewer & Miller, 1984) na redução do preconceito e do enviesamento intergrupais na infância. Trata-se, assim, de testar em que medida é que a representação cognitiva e o funcionamento dos grupos durante a interacção, nas duas condições experimentais — recategorização (grupo único) e descategorização (indivíduos separados) — pode desfazer o favoritismo endogrupal criado pela categorização (condição de controlo) (Tajfel et al, 1971; Tajfel & Tumer, 1979), reduzindo, ou até mesmo eliminando, a discriminação intergrupal.

A este primeiro objectivo reuniu-se um outro, referente à (des)igualdade de estatuto étnico dos grupos na situação de interacção. Assim, e por forma a testar a eficácia relativa das duas condições experimentais na redução da discriminação intergrupal, efectuaram-se dois estudos experimentais: o primeiro com grupos de elevado estatuto étnico (crianças de origem lusa) e de baixo estatuto étnico (crianças de origem africana), interagindo em situação de simetria intergrupal (estudo 1), e um outro estudo com crianças de baixo e de elevado estatuto étnico em contexto de assimetria intergrupal (lusas vs. africanas) (estudo 2).

A opção por este plano visou responder a duas questões que a literatura neste domínio não esclarece (Snider & Dovidio, 1996; Kafati, 1999; Nier et al, 1999, cit. em Gaertner et al, 2000; Nier et al, 1996, cit. em Gaertner et al, 2000). A primeira tem a ver com a situação de simetria intergrupal, quando os grupos em presença possuem baixo estatuto étnico. Neste sentido, parece fundamental identificar, no quadro do Modelo da Identidade Endogrupal Comum, qual a representação mais eficaz do grupo para a redução do enviesamento intergrupal em contexto de igualdade estatutária. A outra questão, não menos importante, tem a ver com eficácia relativa da recategorização e da descategorização em grupos de baixo estatuto étnico, em contexto de assimetria intergrupal (baixo estatuto vs. alto estatuto). Apesar de a literatura neste tópico apontar para a recategorização (identidade endogrupal comum) como a representação mais eficaz para reduzir o enviesamento intergrupal em grupos de elevado estatuto étnico em contexto de assimetria intergrupal (Nier et ai, 1996, cit. em Gaertner et al, 2000; Nier et al, 1999, cit. em Gaertner & Dovidio, 2000), não esclarece esta eficácia quando se trata de membros de baixo estatuto.

Face a este conjunto de questões elaborou-se um corpo de hipóteses que irá pautar as análises efectuadas nos dois estudos desenvolvidos.

A primeira hipótese considera que a criação de uma identidade endogrupal comum — operacionalizada pela condição recategorização — constitui a forma mais eficaz de redução do enviesamento intergrupal, partindo, naturalmente, de uma categorização suficientemente potente para produzir favoritismo endogrupal, independentemente de essa categorização ter sido experimentalmente induzida (estudo 1), ou de resultar de um contexto real de assimetria de estatutos (estudo 2) (Gaertner et al, 1989; Gaertner et al, 1993; Gaertner et al, 2000; Gaertner & Dovidio, 2000).

A segunda hipótese refere-se aos diferentes processos de redução do enviesamento intergrupal, definidos pelos respectivos modelos. Segundo o modelo da identidade endogrupal comum (Gaertner et al, 1989; Gaertner et al, 1993; Gaertner et al., 2000; Gaertner & Dovidio, 2000), a redução do enviesamento, produzida pela recategorização (identidade endogrupal comum), processar-se-á através do aumento da atracção pelos elementos do exogrupo. Já no modelo da descategorização (Brewer & Miller, 1984), a redução efectuada a partir do processo de individuação traduzir-se-á pela diminuição da atracção face aos membros do endogrupo.

A literatura referente às situações de (as)simetria de estatuto étnico dos grupos apenas considera duas configurações de interacção grupai, designadamente, simetria intergrupal com grupos de elevado estatuto (brancos vs. brancos) e assimetria intergrupal (brancos vs. negros) (Nier et al., 1996, cit. em Gaertner et al., 2000; Nier et al., 1999, cit. em Gaertner & Dovidio, 2000). Assim, e no que se refere à primeira situação de interacção, espera-se que os sujeitos de alto estatuto étnico recorram tanto à recategorização como à descategorização para reduzir o enviesamento intergrupal, produzindo avaliações mais positivas sobre os seus pares. Em situação de assimetria intergrupal, espera-se que os membros dos grupos de elevado estatuto étnico reduzam mais eficazmente o enviesamento intergrupal na condição de recategorização (identidade endogrupal comum) do que na condição descategorização (Nier et al., 1996, cit. em Gaertner et al., 2000; Nier et al., 1999, cit. em Gaertner & Dovidio, 2000).

Sobre as restantes situações de interacção contempladas nos estudos que aqui apresentamos (simetria intergrupal em grupos de baixo estatuto étnico e assimetria intergrupal analisada do ponto de vista dos membros de baixo estatuto étnico) espera-se, para ambas, que a recategorização (identidade endogrupal comum) seja a forma mais eficaz de reduzir o favoritismo endogrupal e, consequentemente, o enviesamento intergrupal, na medida em que esta implica a reestruturação das fronteiras dos grupos em tomo de uma nova categoria mais inclusiva. Para além disso, e utilizando a proposta de equivalência entre o modelo da identidade endogrupal comum e os modelos de assimilação (Berry, 1984) defendida por Snider e Dovidio (1996) e por Kafati (1999, cit. em Gaertner e Dovidio, 2000), a criação de uma identidade endogrupal comum, apesar de comparável à estratégia de assimilação (Hewstone, 1996), é preferível à individuação, na medida em que esta se pode configurar como uma forma de marginalização, ao significar uma simultânea não-identificação com o endogrupo (baixo estatuto étnico) e com o exogrupo (elevado estatuto étnico) (Gaertner & Dovidio, 2000).

Método

Sujeitos

As 238 crianças de ambas etnias (lusa e africana) consideradas nos dois estudos frequentavam o 4.° ano de escolaridade do 1.° ciclo do ensino básico, provinham de 10 escolas públicas da área metropolitana de Lisboa e foram distribuídas por etnia e por condição experimental, conforme se apresenta no quadro 1. A selecção das crianças participantes foi feita com base numa listagem por turma fornecida pelas várias escolas, da qual constava informação referente ao sexo, idade, nível de sucesso escolar e origem étnica.4

Procedimento e desenho experimental

Após a selecção, as crianças compareceram numa sala da escola especificamente preparada para o efeito (disposição das mesas), provenientes de diferentes turmas, em grupos de seis elementos do mesmo sexo.5 Nessa sala eram recebidos por dois investigadores que os informavam sobre a situação que lhes ia ser apresentada: "Eu sou o (nome do investigador 1) e o (nome do investigador 2) e estamos a escrever uma história de aventuras com crianças da vossa idade, e por isso gostaríamos de saber a vossa opinião sobre uma parte dessa história que estamos com dificuldade em escrever. A história é sobre uma aventura no mar e uma ilha deserta. Querem nos ajudar nesta parte da nossa história?".

A formação dos subgrupos de três elementos foi feita, em ambos os estudos, de duas formas distintas. No estudo com grupos em simetria intergrupal os subgrupos foram formados a partir da estimativa do número de barcos desenhados numa prancha. A referida prancha era apresentada durante sete segundos e seguidamente solicitava-se aos sujeitos que escrevessem numa folha em branco o número de barcos que pensavam estar desenhados nessa prancha.

As instruções dadas nesta fase do procedimento experimental e no estudo com grupos em simetria intergrupal foram as seguintes: "Antes de vocês nos ajudarem no problema que aqui nos trouxe queríamos fazer primeiro um jogo convosco para nos ajudar a dividir-vos em dois grupos. No desenho que vos vamos apresentar estão vários barcos e o que vocês têm de fazer é tentar contá-los o mais depressa que puderem e escrever nesta folha de papel o número de barcos que acham que lá estão. Estão preparados? Então, podemos começar".

Depois da realização desta tarefa, as crianças foram colocadas aleatoriamente nos dois subgrupos, embora julgassem que a sua posição decorria de terem feito estimativas superiores ou inferiores ao número correcto de barcos na prancha.

No estudo dos grupos em assimetria intergrupal, a formação de subgrupos era feita a partir da variável etnia e a partir das sugestões das próprias crianças quando confrontadas com as seguintes instruções: "Como já vos dissemos temos que vos dividir em dois grupos. Como é que vocês acham que poderíamos fazer os grupos? Em que é que vocês são diferentes?".

Face à pergunta colocada as crianças sugeriam a categorização étnica (lusos/portugueses e africanos) como o critério a adoptar para a divisão dos grupos.

Nos dois estudos, e após a criação dos subgrupos de três elementos, era pedido às crianças participantes que escolhessem um nome para esse subgrupo e com ele iriam resolver a 1.a fase da tarefa experimental. As instruções dadas foram as seguintes: "Antes de mais vocês vão escrever o nome que escolheram para o vosso grupo aqui neste cartão. Imaginem então que vocês são os personagens da história que nós estamos a escrever. Vamos imaginar que foram fazer um passeio num barco parecido com este (apresentação de uma fotografia de um veleiro). A viagem estava a ser muito bonita, passaram por lugares muito bonitos mas, a certa altura, começava a ficar mau tempo, a chover muito e a fazer vento e vocês tinham de ir para terra. Um de vocês consegue avistar uma ilha assim como esta (apresentação da fotografia de uma ilha) onde iriam ter mais segurança do que se ficassem dentro do barco. Então lembram-se que existe um barco mais pequeno, a motor, e parecido com este (apresentação da fotografia de uma pequena lancha a motor) que vos pode levar até à ilha. Como este barco só dá para levar poucas coisas, vão ter de escolher, entre as várias coisas que têm no barco grande, as mais importantes para levar para a ilha. E precisamente nesta escolha que precisamos da vossa ajuda. Assim, o que eu gostava de saber é o que vocês acham que é mais importante levar para a ilha deserta para se conseguir estar lá durante alguns dias. Para isso têm de ver os objectos todos que podem escolher e em conjunto escolherem os cinco mais importantes. Mas atenção, têm de estar todos de acordo nessa escolha. Se houver algum de vocês que não concorde com o que outro escolheu têm de escolher outra coisa que toda a gente concorde. Vamos então ver o que aqui temos (apresentação da caixa com os cartões de exemplo dos objectos)6 e começar a escolher. Quando tiverem escolhido tudo colam os cartões nesta prancha".

A primeira fase do procedimento experimental, e que acabámos de apresentar, foi semelhante nos dois estudos e em todas as condições (controlo e experimentais). Após a resolução do problema de sobrevivência, adaptado do problema de sobrevivência de Johnson e Johnson (1975)7 as crianças dirigiam-se para um outro espaço dentro da mesma sala, onde se encontravam outras mesas e outros lugares, agora já dispostos de formas diferentes, consoante a condição em que as crianças se encontravam.

Na condição de controlo (categorização), os dois subgrupos sentavam-se em duas mesas separadas, de frente uns para os outros, mantendo a cor das etiquetas8 e os nomes que tinham escolhido aquando da formação dos subgrupos. Sob esta configuração o experimentador anunciava que se seguia uma outra fase em que cada um dos grupos iria apresentar ao outro os objectos escolhidos e as razões inerentes a essa escolha. Nesta altura, e de acordo com o procedimento adoptado por Gaertner e colaboradores (1989), era introduzida a recompensa pela melhor escolha, a qual seria decidida pelos investigadores, comparando as prestações dos dois subgrupos. Terminada esta fase e mantendo as crianças sentadas nas posições e ainda com as etiquetas postas, procedia-se à aplicação das medidas dependentes. Seguia-se a comunicação do resultado da comparação das respostas dos dois subgrupos (as respostas dos dois subgrupos tinham sido ambas muito boas) e a entrega de prémio (pacote com rebuçados) às duas equipas, por forma a desfazer a situação de competição criada. Após a entrega do prémio as crianças voltavam às salas de aula acompanhadas por um dos investigadores.

Na condição descategorização, as crianças eram sentadas alternadamente (ABABAB) em mesas separadas viradas para o centro da sala. Antes de se sentarem segundo a nova disposição, os investigadores retiravam-lhes as etiquetas azuis e vermelhas (estudo 1) ou beges e castanhas (estudo 2) e pediam-lhes para escolher uma de seis novas cores (amarelo, laranja, cinzento, verde, roxo e azul turquesa). Após esta escolha cada criança sentava-se na mesa correspondente à sua cor e nessa altura o investigador dava novas instruções: "Agora gostaríamos de saber o que cada um de vocês pensa sobre o problema que resolveram em grupo ainda há pouco. Por isso pedíamos que agora resolvessem novamente o problema sozinhos, cada um por si. Antes de começarem escrevam o vosso próprio nome nessa prancha onde vão colar os cartões com os objectos que escolherem". A introdução da recompensa era feita com a instrução: "Antes de começarem queremos dizer-vos que vamos dar um prémio à melhor resposta e por isso, depois de terminarem, cada um de vocês vai dizer aos outros quais os objectos que escolheu e porquê. Podem começar". Após a resolução da tarefa experimental pela segunda vez e da comunicação a todas as crianças participantes, os investigadores aplicaram as medidas dependentes, mantendo as crianças nos mesmos lugares e com as etiquetas postas, tal como na condição de controlo. A situação de competição era desfeita pelos investigadores ao dizerem a todas as crianças que as suas respostas tinham sido muito boas, que tinha sido muito difícil escolher a melhor e que por isso tinham decidido dar o prémio a todos sem excepção. Após a entrega do pacote de rebuçados (prémio) as crianças voltavam às salas de aula acompanhadas por um dos investigadores.

Na condição experimental recategorização, as crianças após terem resolvido o problema em dois subgrupos eram dirigidas até outra parte da sala onde se encontrava uma mesa grande. Aí foram sentados alternadamente (ABABAB) à volta da mesa e foram-lhes retiradas as etiquetas correspondentes à primeira fase da experiência. Nessa altura o investigador dava a seguinte instrução: "Agora vamos resolver o problema novamente mas com uma diferença. Antes de mais vão colocar estas etiquetas (verdes), que como vocês vêem são todas da mesma cor e escolher um novo nome para o novo grupo de seis meninos(as). Quando escolherem esse nome um de vocês escreve-o na prancha onde vão colocar os cartões dos objectos que escolherem. Como já perceberam agora a resolução do problema vai ser feita em grupo, com todos vocês, e todos têm de participar na escolha dos objectos. Como há pouco, quando estiveram a escolher em dois grupos, têm de estar de acordo em relação aos objectos escolhidos e, por isso, se algum de vós não estiver de acordo em relação a um objecto têm de escolher outra coisa ou chegar a um acordo entre vocês". A introdução da recompensa era feita segundo a instrução: "Vamos comparar as vossas respostas com as respostas dadas por outros meninos de outra escola com quem já fizemos este jogo e se as vossas escolhas forem melhores que as deles no final damos um prémio a todos vocês". Após a resolução da tarefa pela segunda vez e da comunicação ao investigador da solução encontrada pelo grupo de seis elementos, os investigadores aplicaram as medidas dependentes, mantendo as crianças nos mesmos lugares e com as etiquetas postas. A situação de competição era desfeita pelos investigadores ao dizerem que a resposta daquele grupo tinha sido melhor que a de outros grupos de outras escolas e que por isso todos iriam receber o prémio. Após a entrega do prémio as crianças voltavam às salas de aula acompanhadas por um dos investigadores.

O desenho experimental utilizado nos dois estudos foi de 3 (condição: categorização, recategorização e descategorização) X 2 [estatuto étnico do grupo: alto (lusos) e baixo (africanos)] X 2 (grupo-alvo: endogrupo e exogrupo), sendo os dois primeiros factores inter-sujeitos e o terceiro intra-sujeitos.

Medidas dependentes

A adaptação do modelo da identidade endogrupal comum à perspectiva do desenvolvimento infantil implicou alterações significativas às medidas originais (Gaert-ner et al, 1989), designadamente, a redução do número de medidas a aplicar e a adaptação destas para crianças de 9/10 anos.

A primeira medida dependente avaliação social correspondeu à avaliação dos membros dos grupos em dois atributos ("jogar bem" e "escolher como eu"), respondida sobre uma escala de Likert de quatro pontos (4. muito; 3. assim-assim; 2. pouco; 1. nada). A medida que apresentaremos nos resultados corresponde à média das pontuações obtidas nesses atributos para o endo e o exogrupo.9

A medida de preferência social foi obtida a partir da seguinte questão: "Até que ponto é que gostarias que o(a) ficasse contigo na tenda?", respondida sobre uma escala de Likert de quatro pontos (4. muito; 3. assim, assim; 2. pouco; 1. nada), em relação a cada um dos membros do endo e do exogrupo. A medida final foi a média dessas respostas para os dois grupos.

A medida de atribuição de recursos foi a média do número de lápis atribuído ao endo e ao exogrupo, em resposta à questão "Quantos lápis de cor é que queres dar a cada um(a) dos(as) meninos(as) que estiveram aqui a fazer o jogo?".10

Apresentação de resultados

As análises efectuadas visaram responder a três questões fundamentais, a saber, a análise da redução do enviesamento intergrupal, a influência do estatuto étnico do grupo na escolha de diferentes formas de redução/eliminação do enviesamento e a ilustração dos processos de individuação (descategorização) e de formação de uma identidade endogrupal comum (recategorização) na redução ou eliminação do enviesamento intergrupal.

Relativamente à primeira questão espera-se que a condição de controlo (categorização) seja suficientemente potente para produzir um favoritismo endogrupal e que as condições experimentais, sobretudo aquela em que se forma uma identidade endogrupal comum (recategorização), sejam responsáveis pela redução do enviesamento intergrupal (Gaertner et al., 1989; Gaertner et al., 1993; Gaertner et ah, 2000; Gaertner & Dovidio, 2000).

Relativamente ao impacte do estatuto étnico do grupo, em situação de assimetria intergrupal, espera-se que os grupos de estatuto étnico superior (lusos) na condição recategorização reduzam mais eficazmente o enviesamento em relação aos membros do grupo de baixo estatuto. Ainda sobre os grupos de estatuto elevado, mas agora em contexto de simetria intergrupal, esperamos uma equivalente eficácia entre as duas condições experimentais na redução do enviesamento intergrupal (Nier et al., 1996, cit. em Gaertner et al., 2000; Nier et al., 1999, cit. em Gaertner & Dovidio, 2000).

Sobre os processos de redução do enviesamento espera-se, na condição recategorização, que este se expresse através do aumento do favoritismo pelos elementos do exogrupo, enquanto que na condição de descategorização se espera que a redução se faça a partir da diminuição do favoritismo pelos membros do endogrupo (Gaertner et al., 1989).

Para o teste de hipóteses, em ambos os estudos, foram executadas análises de variância multivariada com medidas repetidas (Manovafor repeated measures) para todas as medidas dependentes, com dois factores nominais — condição experimental e estatuto étnico do grupo.

Para testar a primeira hipótese esperamos encontrar efeitos de interacção intra-sujeitos entre o grupo-alvo e a condição experimental. Para a segunda esperamos que os efeitos de interacção dupla que acabámos de referir se qualifiquem através de interacções triplas abarcando a variável estatuto étnico do grupo. Por fim, e para a ilustração do processo de redução do favoritismo endogrupal, efectuámos análises de variância a um factor nominal (Oneway Anova) com as avaliações do endogrupo e do exogrupo nas medidas dependentes em que se assistiu à redução/eliminação do enviesamento intergrupal, tomando a condição experimental como variável independente. A identificação de diferenças entre médias foi efectuada a partir das comparações post hoc, utilizando-se, para tal, o teste de Scheffe.

Apresentação de resultados do estudo com grupos em simetria intergrupal

(estudo 1)

Índice de avaliação social: grupos em simetria inter-grupal

No que respeita ao efeito 1, verificamos que, independentemente da condição e da etnia dos sujeitos, o endogrupo é melhor avaliado do que o exogrupo, ou seja, os indivíduos do próprio grupo são considerados como mais competentes e mais semelhantes entre si do que os membros do exogrupo (Mendogrupo=3,41; Mexogrupo=3,07).

Já no que toca ao efeito de interacção entre o grupo-alvo e a condição experimental (efeito 2), verificamos que, enquanto na condição de controlo (categorização) se assiste a um favoristimo endogrupal estatisticamente significativo [Cat.endo-exogrupo F(1,5)=63,60], nas condições experimentais (recategorização e descategorização) não se encontram diferenças estatisticamente significativas entre as avaliações do endogrupo e do exogrupo [Rec.endo-exogrupo F(1,6)=2,54; p=0,118; Desc.endo-exogrupo F(1,0)=0,63; p=0,431] (cfr. figura 2).

Relativamente ao efeito 3 — interacção tripla entre grupo-alvo, condição experimental e estatuto étnico do grupo —, verificamos que no grupo de estatuto superior (lusos) e na condição de controlo existe um enviesamento intergrupal estatisticamente significativo [Cat.endo-exogrupo F(1,3)=22,98; p=0,000], enquanto que nas condições de recategorização e descategorização não se encontraram diferenças significativas entre a avaliação do endo e do exogrupo [Rec •endo-exogrupo F(1,3)=1,1; p=0,282; Desc.endo-exogrupo F(1,9)=0,855; p=0,367] (cfr. figura 3).

No grupo de baixo estatuto étnico verificamos que na condição de controlo (categorização) existe uma diferença estatisticamente significativa entre a avaliação do endo e do exogrupo [Cat.endo-exogrupo F(1,2)=39,82; p=0,000] enquanto que nas condições experimentais as diferenças entre essas duas avaliações não se revelaram significativas [Rec.endo-exogrupo F(1,3)=1,4; p=0,259; Desc.endo-exogrupo F(1,1)=0,000; p=0,995].

O efeito de interacção tripla, neste índice, é explicado a partir da diferença de enviesamento intergrupal na condição de controlo nos grupos de estatuto étnico elevado e baixo, ou seja, o enviesamento intergrupal naquela condição e no grupo de elevado estatuto é significativamente inferior ao enviesamento encontrado no grupo de baixo estatuto [alto estatuto — Menviesamento endo-exogrupo=0,56; Baixo estatuto Menviesamento endo-exogrupo—1/06; t(39,49)=2,46; p5^0,05].

Relativamente ao efeito 4 (efeito principal inter-sujeitos da condição experimental) os resultados indicam que, independentemente do grupo-alvo e do estatuto étnico dos grupos, as crianças na condição recategorização avaliam melhor a generalidade dos seus parceiros do que as crianças na condição descategorização (teste Scheffe post hoc p<0,05; Mcategorização=3,19; Mrecategorização=3,40; Mdescategorização=3/12).

Índice de preferência social: grupos em simetria intergrupal

Os resultados obtidos em relação à medida de preferência social revelaram dois efeitos estatisticamente significativos, designadamente um efeito principal intra-sujeitos do grupo-alvo (efeito 1) e um efeito principal inter-sujeitos do estatuto étnico do grupo (efeito 2).

Assim, e relativamente ao primeiro deles, verificamos que os elementos do endogrupo são globalmente mais preferidos para partilhar a tenda do que os do exogrupo, independentemente da condição experimental e do estatuto intra-grupal dos sujeitos (Mendogrupo=3,36; Mexogrupo=3,12).

No que toca ao efeito 2, verificamos que as crianças de baixo estatuto étnico (africanos) atribuem maior nível de preferência social a todos os participantes do que as crianças de alto estatuto (lusos), independentemente do grupo-alvo e da condição experimental em que se encontram (Malto estatuto=3,13; Mbaixo estatuto=3,43).

 

Quadro 3

 

Índice do atribuição de recursos: grupos em simetria intergrupal

No que se refere à medida de atribuição de recursos, apenas se encontrou um efeito principal do grupo-alvo. Assim, e independentemente da condição experimental e do estatuto étnico dos grupos, os membros do endogrupo recebem um maior número de lápis comparativamente aos membros do exogrupo (Mendogrupo=7,06; Mexogrupo=6,37).

 

Quadro 4

 

Os processos de redução do enviesamento intergrupal em grupos em simetria intergrupal: contraste entre o processo de individuação e o processo de indução de uma identidade endogrupal comum

De acordo com a hipótese sobre os processos de redução do enviesamento intergrupal espera-se que a recategorização produza um aumento significativo da avaliação do exogrupo e que a descategorização implique uma diminuição significativa da avaliação do endogrupo, tomando como base as avaliações dos grupos-alvos na condição de controlo.

O objectivo das análises que em seguida se apresentam é o de testar a forma como a redução do enviesamento se operou nas duas condições experimentais consideradas (recategorização e descategorização). Para responder a esta questão executaram-se duas análises de variância monofactoriais {oneway Anova) com a condição experimental como factor independente e as medidas de avaliação social11 do endogrupo e do exogrupo como variáveis dependentes.

No que se refere à avaliação social do endogrupo, verifica-se que apenas existem diferenças significativas entre os resultados obtidos na condição de controlo e na condição descategorização. Este resultado indica que as crianças, na condição descategorização, avaliam pior os membros do seu próprio grupo do que as crianças na condição de controlo (teste Scheffe post hoc p<0,01), tendo-se, assim, registado uma diminuição significativa da avaliação do endogrupo. No que se refere à avaliação do exogrupo, verificou-se a existência de diferenças significativas entre os valores obtidos na condição de controlo e na condição recategorização (teste Scheffe post hoc p<0,001). Este resultado revela que, na condição recategorização, esta avaliação é significativamente superior à obtida na condição de controlo, sendo possível concluir pela existência de um aumento significativo da avaliação do exogrupo (cfr. quadro 5).

Apresentação de resultados do estudo dos grupos em assimetria intergrupal (estudo 2)

Por forma a responder ao corpo de hipóteses apresentado, foram efectuadas três Manovas para medidas repetidas (o grupo-alvo), com dois factores independentes — condição experimental e estatuto étnico do grupo. Iniciaremos a apresentação destes resultados pelo índice de avaliação social.

Índice de avaliação social: grupos em assimetria intergrupal

Os resultados obtidos com esta medida evidenciaram dois efeitos intra-sujeitos e um efeito inter-sujeitos (cfr. quadro 6).

Os resultados referentes ao efeito principal do grupo-alvo (efeito 1) indicam que o endogrupo é socialmente melhor avaliado do que o exogrupo, independentemente da condição experimental e do estatuto étnico dos grupos (Mendogrupo=339; Mexogrupo=3,23).

A interacção da condição experimental com o grupo-alvo (efeito 2) qualifica o efeito principal anterior, mostrando que apenas na condição de controlo (categorização) se verifica o favoritismo endogrupal (Catendo-exogrupo F(1,1 )=15,05; p=0,00). Relativamente às duas condições experimentais (recategorização e descategorização) não se registaram diferenças estatisticamente significativas entre as avaliações sociais do endo e do exogrupo [Rec.endo-exogrupo F (1,33)=0,441; p=0,511; Desc.endo-exogrupo (1,30)=0,559; p =0,460] (cfr. figura 4).

Relativamente ao efeito principal inter-sujeitos da condição experimental (efeito 3), verificamos que a avaliação social é, independentemente do grupo-alvo e do estatuto étnico do grupo, superior na condição recategorização e que esta se distingue significativamente da avaliação dos sujeitos na condição descategorização (Mcategorização=3,27ab; Mrecategorização=3,51a; Mdescategorização=3,15b; teste Scheffé post hoc p£0,05).

Índice de preferência social

Os resultados obtidos a partir da Manova realizada com esta medida apenas revelaram um efeito intra-sujeitos significativo do grupo-alvo (Fgrupo-alvo(1,90)=9,34; p=0,003], verificando-se, assim, que as crianças sujeitos manifestam um maior nível de preferência social pelos membros do próprio grupo do que pelos elementos do exogrupo (Mendogrupo=3,41; Mexogrupo=3,16).

Índice de atribuição de recursos

Os resultados obtidos a partir da Manova realizada com esta medida revelaram dois efeitos intra-sujeitos e um efeito inter-sujeitos (cfr. quadro 7).

No que se refere ao efeito principal do grupo-alvo (efeito 1), verificamos que o número de recursos dados ao endogrupo é significativamente superior ao atribuído aO exogrupo (Mendogrupo=7,47; Mexogrupo=6,22).

Os resultados obtidos a. partir do efeito de interacção dupla entre o grupo-alvo e a condição experimental (efeito 2) qualificam os anteriores. Assim, assiste-se, na condição de controlo, a um favoritismo endogrupal [Cat ¦endo-exogrupo (1,30)=12,13; p=0,002], não se tendo registado diferenças entre os recursos atribuídos ao endogrupo e ao exogrupo nas condições experimentais [Rec.endo-exogrupo (1,27)=0,791; p=0,382; Desc.endo-exogrupo (1,26)=0,892; p=0,354] (cfr. figura 5).

Os resultados obtidos relativamente ao efeito de interacção tripla entre o grupo-alvo, a condição experimental e o estatuto étnico do grupo (efeito 3) especificam ainda mais os anteriores. No que se refere ao grupo de alto estatuto (lusos), verificamos que na condição de controlo e na recategorização a avaliação dos grupos-alvos não SC distingue ((Catendo-exogrupo F(1 /16) —1,91p=0,186; (Rec.endo-exogrupo F(1,4)=0,126; p=0,728], enquanto que na descategorização a avaliação do endo-grupo é significativamente superior à do exogrupo [Desc.endo-exogrupo F(1,4)*5,47; p=0,04l (cfr. figura 5). No grupo de baixo estatuto (Africanos) assiste-se a um favoritismo endogrupal na condição de controlo e a um favoritismo exogrupal na condição descategorização [Cat-cndo-exognipo F(1,4)=9,28; p=0,009; Desc.endogrupo F(1,2)=533; p=0,04], não se tendo, no entanto, verificado diferenças entre as avaliações do endogrupo e do exogrupo na condição recategorização [Recendo-exogrupo F(1,13)=0,929; p=0,353] (cfr. Figura 6).

Relativamente ao efeito principal inter-sujeitos da condição experimental, verificamos que as crianças na condição recategorização atribuem mais recursos a todos os participantes do que aquelas na condição de controlo (teste Scheffe post hocp<0,Q5) e na condição descategorização ( Mcategorização=6,46b; Mrecategorização=8,80a; Mdescategorização=5,29b; teste Scheffe post hoc p<0,05).

Os processos de redução do enviesamento intergrupal em grupos em assimetria intergrupal: contraste entre o processo de individuação e o processo de indução de uma identidade endogrupal comum

Tal como fizemos no estudo anterior, os resultados que apresentamos de seguida têm como objectivo entender se, de facto, a recategorização e a descategorização constituem diferentes formas de redução do enviesamento intergrupal. Os resultados apresentados anteriormente permitem escolher apenas duas das medidas dependentes para a exploração destes processos, encontrando-se os grupos em situação de assimetria intergrupal.

Para este efeito foram realizadas quatro análises de variância a um factor (condição experimental), duas delas com as avaliações sociais do endogrupo e do exogrupo e as restantes para a medida de atribuição de recursos. Como podemos observar a partir dos dados apresentados no quadro 8, obtivemos resultados estatisticamente significativos em todas as análises efectuadas.

No que se refere à avaliação social do endogrupo, verificamos que as crianças na condição descategorização avaliam pior os membros do seu próprio grupo do que as crianças na condição de controlo, não se tendo registado mais diferenças estatisticamente significativas (teste Scheffe post hoc p£0,05). Já no que toca à avaliação social do exogrupo as comparações planeadas revelam que as crianças na condição recategorização avaliam melhor os membros do exogrupo do que as crianças na condição de controlo, sendo esta a única diferença significativa encontrada (teste Scheffe post hoc p£0,05) (cfr. quadro 8).

Na medida atribuição de recursos ao endogrupo, verificamos que na condição recategorização o processo de redução do enviesamento significa um aumento da atracção pelos membros do exogrupo [Fcognipo (2,90)=9,17; p =0,000; teste Scheffe post hoc pá0,001]. Na condição descategorização as comparações planeadas para a avaliação do endogrupo não produziram resultados estatisticamente significativos.

Discussão de resultados

O resultado mais consistente encontrado nos dois estudos e nas três medidas dependentes consideradas foi a produção de um favoritismo endogrupal associado à condição categorização social (condição de controlo). Independentemente do tipo de medida, do estatuto étnico do grupo e da natureza da categorização (experimentalmente induzida ou real), as crianças avaliam melhor, atribuem mais recursos e manifestam maior proximidade em relação ao seu grupo do que em relação ao exogrupo (Tajfel et al, 1971;Tajfel&Tumer, 1979). De facto, os membros dos grupos que representaram o agregado como dois grupos distintos (como aconteceu na condição de categorização) apresentaram maiores níveis de enviesamento inter-grupal, manifestando atitudes e comportamentos mais desfavoráveis em relação aos membros do exogrupo.

No que se refere à redução/eliminação do enviesamento intergrupal, constatamos que as medidas de avaliação social e de atribuição de recursos forneceram, em ambos os estudos, resultados suficientemente consistentes para testar esta hipótese. Assim, e em ambos os estudos, a recategorização (identidade endogrupal comum) e a descategorização (individuação) foram igualmente eficazes para produzir a eliminação do enviesamento e da discriminação intergrupais. Como vimos, as crianças nestas duas condições produziram avaliações do endogrupo e do exogrupo suficientemente próximas para que a diferença entre elas não fosse significativa. Face a esta evidência empírica não podemos concluir que a recategorização é a forma mais eficaz para reduzir ou eliminar o enviesamento intergrupal, mas antes que tanto a criação de uma identidade endogrupal comum (Gaertner et al, 1989; Gaertner et al, 1993), como a indução de uma interacção personalizada entre os membros dos grupos (Brewer & Miller, 1984), são igualmente potentes para operar a redução do enviesamento intergrupal. Em suma, de acordo com as predições do modelo da identidade endogrupal comum, as representações do agregado enquanto grupo único ou indivíduos separados foram capazes de alterar as atitudes e os comportamentos em relação aos membros do endogrupo e do exogrupo (Gaertner et al., 1989).

Outra linha importante de resultados foi encontrada quando se explorou a influência do estatuto étnico dos grupos na redução do enviesamento intergrupal. Como vimos, uma das hipóteses neste domínio considerava que as crianças de alto estatuto étnico, em situação de simetria intergrupal, recorriam tanto à recategorização como à descategorização para reduzir o enviesamento intergrupal, produzindo avaliações mais positivas sobre os seus pares. Sobre este assunto, e no que respeita ao estudo com grupos em simetria de estatuto étnico (estudo 1), somente na medida de avaliação social obtivemos resultados passíveis de verificar esta hipótese. Assim, verificamos que tanto as crianças de elevado estatuto (lusas) como as de baixo estatuto (africanas) recorrem a ambos os processos (recategorização e descategorização) para eliminar o enviesamento intergrupal. O que de facto distinguiu os dois grupos (elevado e baixo estatuto) foi a amplitude do enviesamento intergrupal produzido pela categorização (condição de controlo), onde o enviesamento intergrupal era significativamente superior no grupo de crianças de baixo estatuto, em situação de simetria, quando comparadas com as crianças de elevado estatuto, em situação semelhante de interacção. Assim, os resultados obtidos vão ao encontro do previsto pela hipótese no caso das crianças lusas e não confirmam a hipótese para as crianças Africanas, na medida em que para estas crianças se esperava que a indução de uma identidade endogrupal comum fosse mais eficaz na redução/eliminação do enviesamento intergrupal.

Relativamente à situação de assimetria intergrupal, esperava-se que os membros dos grupos de estatuto étnico elevado reduzissem mais eficazmente o enviesamento intergrupal na condição de recategorização (identidade endogrupal comum) do que na condição descategorização (Nier et al, 1996, cit. em Gaertner et al, 2000; Nier et al, 1999, cit. em Gaertner & Dovidio, 2000). Sobre esta questão, e centrando-nos agora nos resultados obtidos no estudo com grupos em assimetria intergrupal (estudo 2), os resultados obtidos com as crianças de elevado estatuto revelam que a categorização étnica não foi eficaz para produzir um favoritismo endogrupal. Por isso, no que se refere ao grupo de alto estatuto, os resultados foram insuficientes para testar esta hipótese.

Para o grupo de baixo estatuto (africanos), em situação de assimetria intergrupal, esperava-se que a recategorização (identidade endogrupal comum) fosse a forma mais eficaz de reduzir o enviesamento intergrupal, na medida em que esta não implica a redução ou eliminação da categorização, mas sim a reestruturação das fronteiras dos grupos em tomo de uma categoria supra-ordenada. Os resultados obtidos confirmam a hipótese, na medida em que somente na recategorização se assistiu à eliminação do enviesamento intergrupal produzido pela categorização étnica.

No que se refere às diferenças preconizadas pela recategorização e pela descategorização na redução do enviesamento intergrupal, encontramos evidência empírica suficiente para podermos concluir sobre esta matéria. Tanto no estudo com grupos em simetria de estatuto, como no estudo com grupos em assimetria estatutária, foi possível distinguir com clareza estes dois processos — descategorização e recategorização. Assim, foi possível confirmar que a recategorização reduz ou elimina o favoritismo endogrupal através de uma melhor avaliação dos membros do exogrupo, enquanto que a descategorização reduz esse favoritismo através de uma pior avaliação dos membros do endogrupo (Gaertner et al., 1989; Gaertner et al, 1993; Gaertner et al., 2000; Gaertner & Dovidio, 2000).

Em termos gerais, e face às evidências empíricas encontradas, a categorização social — experimentalmente induzida e real —, como quadro teórico de referência para o entendimento das relações intergrupais, encontra, neste estudo, um lugar de destaque. De facto, os membros dos grupos que não alteram as suas representações apresentam, em todos os domínios, um maior enviesamento intergrupal, quando comparados com sujeitos cujas representações sofreram alterações (recategorização e descategorização). Para além disto, os sujeitos com representações em grupo único e indivíduos separados apresentam atitudes mais equivalentes em relação ao endo e ao exogrupo (Gaertner et al, 1989) e parecem, efectivamente, passar por diferentes processos na redução do enviesamento intergrupal.

Apesar da importância destes resultados, não nos parece possível concluir a favor da primazia da recategorização como a forma mais potente de redução do enviesamento intergrupal em crianças desta idade. O que de facto parece acontecer, nesta fase do desenvolvimento, é uma equivalência relativa entre a eficácia dos dois processos na eliminação do enviesamento intergrupal, donde se conclui que tanto a criação de uma categoria supra-ordenada (Sherif, 1966) que implique a criação de uma identidade endogrupal comum, como a mudança da interacção social para uma forma mais individualizada ou, porventura, personalizada, assumem uma importância semelhante na redução do favoritismo endogrupal.

Tomando em consideração a multiplicidade de resultados encontrados em torno da importância da recategorização e da descategorização na redução do enviesamento intergrupal, tanto em quadros de simetria como de assimetria de estatuto étnico, parece importante assinalar que a cooperação e o envolvimento das crianças em práticas que promovam positivamente o contacto constituem forças fundamentais na formação de atitudes interétnicas mais positivas (Slavin & Madden, 1979; Slavin, 1985).

No futuro, o desenvolvimento do estudo dos processos de redução do enviesamento intergrupal deverá pautar-se pela extensão a dois tópicos fundamentais. Em primeiro lugar, a necessidade de um novo teste ao modelo da identidade endogrupal comum, contemplando a revisão recentemente operada pelos autores (Gaertner et al, 2000; Gaertner & Dovidio, 2000), a partir da proposta de Hewstone e Brown (1986), continuando a ancorar a importância dessa exploração em fases de desenvolvimento anteriores à idade adulta. Em segundo lugar, a necessidade de se estudarem as potencialidades da generalização dos benefícios produzidos pelas várias formas de representação cognitiva do agregado durante a interacção em relação a membros de outros exogrupos e ao longo do tempo.

 

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Notas

1Os estudos apresentados neste artigo foram co-financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia ao abrigo do Programa PRAXIS XXI (PCSH/P/PSI/83/96) e pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

2Os itens em que os participantes avaliaram a interacção foram os seguintes: cooperativa, amigável, conflituosa, próxima, agradável, de confiança, frustrante, bem sucedida, honesta e útil (escalas de Likert de 7 posições).

3Priming, termo associado a detonador, ou que prepara para a acção, que desencadeia, que activa.

4O total de crianças considerado no primeiro estudo foi de 144, mas atendendo à ineficácia da manipulação experimental em 7 deles, a análise de resultados apenas se refere a 137. O total de crianças considerado no segundo estudo foi de 108, mas pela mesma razão em 7 delas, a análise de resultados apenas se refere a 101. As idades destas crianças estavam compreendidas entre os 9 e os 11 anos de idade, de modo a excluir crianças com insucesso escolar anterior.

5No estudo com simetria de estatuto os grupos eram constituídos por 6 crianças lusas ou por 6 crianças africanas. No estudo sobre a assimetria de estatutos os grupos eram formados por 3 crianças lusas e 3 crianças africanas.

6A caixa continha dez cartões com as ilustrações dos objectos, designadamente, uma tenda, medicamentos, cordas, uma garrafa de água, roupa, livros, loiça, mala, uma lanterna e um relógio. A selecção destes objectos foi feita com base num estudo anterior onde se pediu a 143 crianças da mesma faixa etária a frequentarem o 4.° ano de escolas públicas de Lisboa que indicassem os 5 objectos mais importantes para levar para uma ilha deserta para se poder sobreviver durante alguns dias. Da listagem de objectos mais escolhidos seleccionaram-se os dez referidos como mais importantes.

7A tarefa experimental utilizada neste estudo constitui uma adaptação do winter survival problem (Jonhson & Jonhson, 1975) em que se pretendia que cada grupo escolhesse, entre dez objectos, os cinco mais importantes para levar num barco pequeno para uma ilha deserta.

8No estudo com grupos em simetria intergrupal as cores das etiquetas utilizadas por cada um dos três membros dos subgrupos eram azuis vs. vermelhas. No estudo com grupos em assimetria intergrupal o subgrupo de crianças africanas utilizava etiquetas castanhas e o subgrupo de crianças lusas utilizava etiquetas beges.

9Em ambos os estudos calculou-se o coeficiente de consistência interna para a média dos atributos para o endogrupo e o exogrupo em conjunto (estudo 1: a = 0,72; estudo 2: a = 0,71].

10A distribuição das variáveis é próxima da normal (estudo 1 — recursos endogrupo: M=7, 22; d.p.= 4,4; recursos exogrupo: M=6,65; d.p.=4,23; estudo 2 — recursos endogrupo: M=16,18; d.p.=12,57; recursos do exogrupo: M=18,78; d.p.=12,49).

11Utilizou-se a medida de avaliação social dado que apenas nela se encontraram resultados significativos a propósito da redução do enviesamento intergrupal nas duas condições experimentais (cfr. quadro 2). Este mesmo critério será utilizado no ponto referente ao contraste entre os processos de redução do preconceito no estudo com grupos em assimetria intergrupal (estudo 2).

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