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Psicologia

versão impressa ISSN 0874-2049

Psicologia vol.15 no.1 Lisboa jan. 2001

 

Sucesso / insucesso escolar: A importância do nível socioeconómico e do género

Success and failure at school: the importance of socioeconomic status and gender

 

Luísa Saavedra*

*Universidade do Minho.

 


RESUMO

Este estudo pretende verificar se existe veracidade sob a ideia tão difundida na opinião pública de que as raparigas são melhores alunas que os rapazes. Partindo do pressuposto de que nem a categoria "rapariga" nem a categoria "rapaz" são homogéneas estas categorias foram estudadas em relação com o nível socioeconómico. Para tal, analisou-se se existia uma relação entre as classificações escolares e o sexo e nível socioeconómico dos alunos. Realizaram-se diversos procedimentos estatísticos que compararam: (1) rapazes e raparigas do mesmo nível socioeconómico e de níveis socioeconómicos diferentes; (2) as raparigas dos diferentes níveis socioeconómicos e os rapazes dos diferentes níveis socioeconómicos. Os resultados deste estudo são discutidos em função dos pressupostos teóricos e da política educativa relativa à igualdade entre sexos e classes sociais.

Palavras-chave Sucesso escolar, género, classe.


ABSTRCT

This study attempts to verify if there is any truth behind the commom public opinion that girls are better students than boys. Assuming a gender perspective, we departed from the idea that neither the category "girl" nor the category "boy" are homogenous Therefore, in this study, we considered both sex and socioeconomic background of the students as possible explanations for their school results. Statiscally we have compared: (1) boys and girls from the same socio economic background and of different socioeconomic background; (2) girls from different socio economic backgrounds and boys from different socio economic backgrounds. The results of this study are discussed in relation with the theorethical assumptions, as well as the implications for policies of equal opportunities in education.


 

Introdução

O estudo que aqui se apresenta foi concebido para tentar compreender e dar resposta a uma questão que tem sido muito difundida na opinião pública, e que é as raparigas estarem a ultrapassar os rapazes, quer na frequência de todos os níveis de escolaridade, quer na obtenção de melhores resultados escolares, igualmente em todos os níveis de ensino.

É sabido que o sucesso ou insucesso escolares não têm uma relação directa com as classificações, contudo estas são, em última análise, o modo como aqueles são analisados em grande parte dos países europeus (Eurydice, 1994). Além disso, são estas classificações que vão ter uma influência determinante no futuro escolar, ou na ausência de um futuro escolar, da maior parte dos alunos. É com base nas "notas" que uns continuam no sistema de ensino e outros são excluídos.

Por isso, neste estudo, pretende-se analisar se existe uma relação entre as classificações escolares e o sexo e nível socioeconómico dos alunos. Em termos mais específicos, pretende-se avaliar se o sexo e o nível socioeconómico influenciam de modo diferenciado o aproveitamento escolar nas diversas disciplinas.

Para abordar esta questão foi necessário ter em conta duas conceptualizações teóricas que lhe estão intimamente ligadas: os estereótipos do género associados às disciplinas e a heterogeneidade das categorias sociais.

A problemática dos estereótipos nas disciplinas escolares prende-se com aquilo a que Martino (1995) chama bipolarização dos conhecimentos, ou seja, que os rapazes escolhem e são melhores alunos no campo das ciências (sobretudo física e menos na biologia), matemática e tecnologias (como arquitectura e engenharias), e as raparigas no campo das línguas e humanidades. Ainda segundo o mesmo autor, esta bipolarização dos conhecimentos reflecte o dualismo do género que está profundamente enraizado na linguagem e na cultura. Assim, os atributos geralmente associados ao género feminino, de intuição, emocionalidade, subjectividade, expressividade e sensibilidade, estão associados às línguas, às humanidades e às artes. Os supostos traços masculinos, de racionalidade, objectividade, frieza e impessoalidade, encontram-se associados às ciências e matemática (idem). Foi, pois, com base nestes pressupostos que foram seleccionados para este estudo cinco disciplinas que pensamos poderem representar os estereótipos do género no domínio escolar: português, história, matemática, físico-química e educação física.

No que diz respeito à heterogeneidade das categorias sociais, diversos autores (Amáncio, 1994; Deschamps, 1984; Lorenzi-Cioldi, 1988) começaram nas últimas décadas a chamar a atenção para o facto de estas categorias não serem homogéneas, fossem elas o género, a raça ou a classe social. Nomeadamente, as autoras feministas pós-modemas têm referido que a categoria mulher é atravessada por outras categorias onde se enquadram a raça, a classe social, a orientação sexual, a religião, a idade, etc. (Nogueira, 1997; Phillips, 1996; Skeggs, 1997).

Como o objectivo deste estudo era estudar a categoria "género" na sua heterogeneidade, decidiu-se analisá-la em conjunto com o nível socioeconómico, embora se pudesse ter utilizado outras categorias. Teria sido nossa intenção estudar o género em conjunto com o nível socioeconómico e a raça, mas as características demográficas do Norte do Pais obrigaram-nos a restringir-nos unicamente às duas categorias já anteriormente referidas: género e classe social.

No que diz respeito à relação género/classe social, diversos autores (Davy, 1995; Grácio, 1997; Walkerdine, 1998) e estudos têm indicado que, embora as raparigas obtenham melhores notas que os rapazes da mesma classe social, as raparigas das classes sociais mais baixas obtém resultados muito inferiores às dos rapazes das classes sociais mais elevadas.

A associação entre o insucesso escolar e os níveis económicos mais desfavorecidos não é novidade. É geralmente reconhecido que os alunos das classes sociais mais desfavorecidas têm uma atitude negativa face à escola, pouca motivação e dificuldade em realizar com sucesso as tarefas nela proposta s. Nesta ordem de ideias, a classe social é frequentemente considerada como podendo criar situações de risco, quando é baixa, porque grande parte das crianças provenientes de meios socio-económicos e culturais desfavorecidos têm ambientes familiares intelectualmente pouco estimulantes (Manning & Baruth, 1995). Outros autores do âmbito da sociologia têm defendido que esta relação entre o insucesso escolar e as classes sociais mais desfavorecidas se deve ao facto de a escola ter sido construída à medida da classe média (Bourdieu & Passeron 1977; Giroux, 1992; 1997). Uma perspectiva não invalida a outra, podendo mesmo complementar-se.

Resumindo, o ponto de partida deste estudo é verificar se as raparigas são, efectivamente, melhores alunas que os rapazes; os pressupostos teóricos são que: (1) existem estereótipos associados às disciplinas escolares e que umas são tipicamente femininas enquanto outras são tipicamente masculinas; (2) as categorias sociais, nomeadamente de género e classe social, não são homogéneas; (3) o insucesso escolar está associado, predominantemente, às classes sociais mais baixas.

Com base neste ponto de partida e nestes pressupostos teóricos, o estudo foi elaborado tendo em conta as seguintes hipóteses:

1) dentro do mesmo nível socioeconómico, as raparigas obterão melhores classificações escolares nas disciplinas orientadamente femininas (português e história) e os rapazes obterão melhores classificações escolares nas disciplinas orientadamente masculinas (matemática, físico-química e educação física):

2) as raparigas do nível socioeconómico mais elevado serão significativamente melhores alunas que as raparigas dos restantes níveis socioeconómicos, e os rapazes do nível socioeconómico mais elevado serão, igualmente, significativamente melhores alunos que os rapazes dos restantes níveis socioeconómicos.

Para levar a cabo este estudo, realizaram-se diversos procedimentos estatísticos assentes em dois tipos de comparações: (1) compararam-se rapazes e raparigas do mesmo nível socioeconómico e de níveis socioeconómicos diferentes; (2) compararam-se entre si as raparigas dos diferentes níveis socioeconómicos e compararam-se entre si os rapazes dos diferentes níveis socioeconómicos.

Metodologia

Procedimento

Os dados recolhidos para este estudo incluíram o sexo dos sujeitos, as classificações escolares do 3.° período de alunos e alunas do 7.° e 9.° anos de escolaridade e as profissões e habilitações escolares dos seus pais e mães. Estes dados foram recolhidos em três escolas no concelho de Vila Nova de Gaia.

Para a obtenção destes dados recorreu-se às fichas biográficas que alguns directores de turma preenchem com os alunos das turmas que estão sob a sua direcção. Os dados são relativos ao ano lectivo de 1998/99 e incluem as classificações escolares das seguintes disciplinas: português, história, matemática, físico-química e educação física.

Os níveis socioeconómicos (doravante designados por NSE) foram organizados tendo em conta a profissão do pai e da mãe e as respectivas habilitações académicas e repartiram-se por quatro níveis:

— NSE 1 agrupa as profissões não especializadas (operários indiferenciados e equivalentes), cujo nível académico não ultrapassava o antigo Ciclo Preparatório; representa 45,3% do total da amostra;

— NSE 2 agrupa as profissões especializadas (serralheiros, picheleiros, carpinteiros, etc.), cujo nível académico poderia ir até ao 9.° ano de escolaridade; representa 22,0% da amostra;

— NSE 3 agrupa as profissões do domínio dos serviços, empresários e comerciantes (empregados de escritório, bancários, etc.), cujo nível académico poderia ir do 4.°ano de escolaridade até ao 12.° ano; representa 22,8% da amostra;

— NSE 4 agrupa todas as profissões de formação académica superior incluindo professores, economistas, médicos, engenheiros; representa 9,8% da amostra.

Sujeitos

A amostra foi recolhida em três escolas do concelho de Vila Nova de Gaia. E constituída por 591 alunas e alunos, sendo 276 do sexo feminino — o que representa uma percentagem de 46,7% — e 315 do sexo masculino — sendo neste caso a percentagem de 53,3%. Destes 591 alunos e alunas 302 são do 7.° ano de escolaridade (51,5%) e 289 do 9.° ano (48,9%).

Variáveis e procedimento estatístico

Neste estudo são consideradas duas variáveis independentes, cinco variáveis dependentes e uma variável auxiliar que será posteriormente apresentada.

As variáveis independentes são o sexo dos alunos e o nível socioeconómico dos mesmos (com quatro categorias: níveis socioeconómico 1,2, 3 ou 4, sendo 1 o nível mais baixo e 4 o mais elevado). As cinco variáveis dependentes são as classificações escolares das disciplinas de português, história, matemática, físico-química e educação física. As classificações escolares apresentam-se agrupadas em cinco categorias correspondentes aos cinco níveis de classificações (níveis 1, 2, 3, 4 e 5), em que 1 e 2 são níveis negativos e os restantes positivos.

Tendo em conta que as variáveis consideradas eram todas elas categorias e que se teria, como tal, de efectuar comparações de frequências entre amostras independentes no que diz respeito ao sexo e ao NSE, recorreu-se ao método estatístico do qui-quadrado.

Para cada disciplina e dentro desta para cada nível de classificação (níveis 1, 2,3,4 e 5) foram elaboradas tabelas de contingência para o cruzamento entre o sexo e o NSE. O cruzamento entre o sexo e o NSE foi analisado de dois modos: (1) analisou-se se existiam diferenças significativas entre o sexo masculino e feminino em cada um dos NSE, e (2) se existiam diferenças intra-sexos, ao longo dos vários NSE, ou seja, se existiam diferenças entre as raparigas dos quatro NSE e entre os rapazes dos quatro NSE.

Como o método do qui-quadrado permite unicamente verificar a existência de diferenças significativas, mas não permite determinar entre que categorias de variáveis se manifestam essas diferenças nem qual o seu sentido, recorreu-se ao teste U de Mann-Whitney para efectuar comparações de duas amostras. Dado que este teste só permite analisar o efeito de uma variável independente sobre uma variável dependente, para comparar o efeito das duas variáveis independentes (sexo e NSE) sobre as classificações escolares foi criada uma variável auxiliar que conjugava o NSE e o sexo. Assim, e a título de exemplo, às raparigas do NSE 1 foi atribuída a categoria 1, às raparigas do NSE 2 foi atribuída a categoria 2, e assim sucessivamente, até aos rapazes do NSE 4, aos quais foi atribuída a categoria 8. Obteve-se assim uma variável com oito categorias.

Resultados

Os resultados serào apresentados por disciplina, aparecendo em primeiro lugar os dados relativos à hipótese 1 (diferenças entre rapazes e raparigas dos diversos NSE) e seguidamente os dados relativos à hipótese 2 (diferenças entre as raparigas dos diversos NSE e diferenças entre os rapazes dos diferentes NSE).

Disciplina de português

No que diz respeito às diferenças entre rapazes e raparigas do mesmo NSE, na disciplina de português, como se pode verificar no quadro 1, revelaram-se diferenças estatisticamente significativas em todos os níveis socioeconómicos. Para o NSE 1 o valor do x2 foi de 12,72 (g/=3; p<0,01); para o NSE 2 o valor do x2 foi de 16,00 (gl=3; p=0,001); para o NSE 3 o valor foi de 13,01 (gl=4; p<0,01); e para o NSE 4 de 7,57 (gl=3; p<0,05).

A realização do teste de Mann-Whitney indicou que em todos os NSE as raparigas obtiveram melhores classificações escolares que os elementos do sexo masculino do mesmo NSE. No NSE 1 (U =6904,0; p<0,01) a graduação média das raparigas foi 150,97 e a dos rapazes foi 121,15. No NSE 2 (U=1331,0; p<0,001) graduação média do sexo feminino foi 77,33 e a do sexo masculino foi 53,30. No NSE 3 (U=1702,0; p<0,01) o sexo feminino obteve uma graduação média de 76,82, enquanto para o sexo masculino este valor foi de 59,81. Finalmente, no NSE 4 (U=252,5; p<0,01) o sexo feminino obteve uma graduação média de 35,79 enquanto para o sexo masculino este valor foi de 24,39.

Para além das diferenças entre rapazes e raparigas do mesmo NSE, verificaram-se também diferenças significativas entre os dois sexos de diferentes NSE.

Estes resultados são apresentados no quadro 2. Destes resultados salientem-se, como particularmente interessantes, a superioridade das raparigas do NSE 1 sobre os rapazes do NSE 2 e a ausência de diferenças significativas entre as raparigas do NSE 1 e os rapazes do NSE 3, entre as raparigas do NSE 2 e os rapazes do NSE 3 e entre as raparigas do NSE 3 e os rapazes do NSE 4.

Passar-se-á seguidamente a apresentar os resultados relativos às diferenças entre as raparigas dos diferentes NSE e entre os rapazes dos diferentes NSE (hipótese 2). Como se pode verificar pelo quadro 3, os valores do qui-quadrado apontam para diferenças significativas entre as raparigas dos diferentes NSE (x2=69,68, gl=12, p<0,001) o mesmo acontecendo com os rapazes (x2=60,71, gl=12, p<0,001).

Comparando duas amostras de cada vez, através do teste U de Mann-Whitney, foi possível determinar, para cada sexo, entre que NSE se verificaram estas diferenças e o sentido das mesmas.

No caso do sexo feminino estas diferenças revelaram-se entre:

— o NSE 1 e o NSE 3 (U=2889,0; p<0,01) sendo esta diferença favorável ao NSE 3 (a graduação média foi de 84,57 para o NSE 1 e de 108,55 para o NSE 3);

— o NSE 1 e o NSE 4 (U=422,5; p<0,001) levando este último grupo a vantagem sobre o primeiro (a graduação média foi de 64,02 para o NSE1 e de 117,25 para o NSE 4);

— o NSE 2 e o NSE 4 (U=314,5; p<0,001) sendo uma vez mais a diferença favorável ao NSE 4 (a graduação média foi de 38,27 para o NSE 2 e de 67,40 para o NSE 4);

— o NSE 3 e o NSE 4 (U=367,0; p<0,001) sendo a vantagem favorável a este último NSE (a graduação média foi de 38,65 para o NSE 3 e de 64,38 para o NSE 4).

— Saliente-se a ausência de diferenças estatisticamente significativas entre os NSE 1 e o NSE 2 e entre o NSE 2 e NSE 3.

No caso do sexo masculino as diferenças revelaram-se entre:

— o NSE 1 e o NSE 3 (U=4021; p<0,01), sendo a diferença favorável ao NSE 3 (a graduação média para o NSE 1 foi de 101,67 e para o NSE 3 de 126,06);

— o NSE 1 e o NSE 4 (U=1072; p<0,001), sendo a diferença favorável ao NSE 4 (graduação média para o NSE 1 foi de 81,74 e para o NSE 4 de 131,00);

— o NSE 2 e o NSE 3 (U=1653; p<0,01), sendo a graduação média para o NSE 2 de 58,33 e para o NSE 3 de 75,89 o que indica a superioridade do NSE 3;

— o NSE 2 e o NSE 4 (U=437; p<0,001), sendo, uma vez mais, a diferença favorável ao NSE 4 (a graduação média para o NSE 2 foi de 39,33 e para o NSE 4 de 66,84);

— o NSE 3 e o NSE 4 (U=713,5; p<0,01), sendo a graduação média para o NSE 3 de 45,69 e para o NSE 4 de 64,20, o que indica a superioridade dos rapazes do NSE 4.

Disciplina de história

No que diz respeito às diferenças entre rapazes e raparigas do mesmo NSE (hipótese 1), na disciplina de história, os valores do qui-quadrado não indicaram diferenças significativas entre os sexos do mesmo NSE. Como se pode verificar pela análise do quadro 4, as diferenças de classificações entre os dois sexos no mesmo NSE são, de facto, muito insignificantes. Embora no NSE 1 os rapazes obtenham mais classificações de 3 e as raparigas obtenham ligeiramente mais classificações de 4 e 5, no NSE 2 não existem diferenças dignas de nota entre os dois sexos. No NSE 3 a situação é idêntica à do NSE 1: maior número de classificações de 3 obtidas pelos rapazes e ligeiramente maior número de classificações de 4 e 5 obtidas pelas raparigas.

A realização do teste de Mann-Whitney confirmou os valores do qui-quadrado, no que diz respeito à disciplina de história, não indicando diferenças estatisticamente significativas entre os elementos do sexo feminino e masculino do mesmo NSE. Revelaram-se, no entanto, diferenças estatisticamente significativas entre rapazes e raparigas pertencentes a diferentes NSE (cf. quadro 5), revelando, de uma maneira geral, que quanto mais elevado o NSE melhores são os resultados escolares. As excepções a esta regra manifestaram-se no caso das raparigas do NSE 1, que obtiveram melhores resultados escolares que os rapazes do NSE 2, e na não existência de diferenças significativas entre as raparigas do NSE 1 e os rapazes do NSE 3.

Passar-se-á seguidamente a apresentar os resultados relativos às diferenças entre as raparigas dos diferentes NSE e entre os rapazes dos diferentes NSE (hipótese 2).

Como se pode verificar pelo quadro 6, mantém-se uma acentuada diferença entre as raparigas do NSE 4 e as raparigas dos restantes NSE (y2=52,24; gl=12; p<0,001), bem como entre os rapazes do NSE 4 e dos restantes NSE (x2=64,40; gl=12; p<0,001).

Através do teste U de Mann-Whitney, e comparando duas amostras de cada vez, foi possível determinar, para cada sexo, entre que NSE se verificaram estas diferenças e a que grupo foram favoráveis.

No caso do sexo feminino as diferenças significativas revelaram-se entre:

— o NSE 1 e o NSE 3 (U=3037; p<0,01); a graduação média foi de 85,81 para o NSE 1 e de 106,28 para o NSE 3, o que significa que a diferença foi favorável às alunas do NSE 3;

— o NSE 1 e o NSE 4 (U=529,5; p<0,001); a graduação média foi de 64,91 para o NSE1 e de 113,13 para o NSE 4, o que significa que a diferença foi favorável às alunas do NSE 4;

— o NSE 2 e o NSE 3 (U=1537,5; p<0,01); a graduação média foi de 56,80 para o NSE 2 e de 75,35 para o NSE 3, o que indica a superioridade das raparigas do NSE 3;

— o NSE 2 e o NSE 4 (U=268,5; p<0,001); a graduação média foi de 37,57 para o NSE 2 e de 69,17 para o NSE 4, o que significa que a diferença foi favorável às alunas do NSE 4;

— o NSE 3 e o NSE 4 (U=435; p<0,001); a graduação média foi de 39,64 para o NSE 3 e de 61,77 para o NSE 4, o que indica a superioridade das raparigas do NSE 4;

— não se revelaram diferenças estatisticamente significativas entre os NSE 1 e NSE 2.

Para o sexo masculino as diferenças significativas foram entre:

— o NSE 1 e o NSE 3 (U=3765; p<0,001), sendo a diferença favorável ao NSE 3 (graduação média para o NSE 1 foi de 99,94 e para o NSE 3 de 129,71);

— o NSE 1 e o NSE 4 (U=1002; p<0,001), sendo a diferença favorável ao NSE 4 (graduação média para o NSE 1 foi de 81,27 e para o NSE 4 de 133,17);

— o NSE 2 e o NSE 3 (U=1532; p<0,001), sendo a graduação média para o NSE 2 de 56,44 e para o NSE 3 de 77M o que indica a superioridade dos rapazes do NSE 3;

— o NSE 2 e o NSE 4 (U=402,5; p<0,001), sendo a graduação média para o NSE 2 de 38,79 e para o NSE 4 de 67,92, o que indica a superioridade dos rapazes do NSE 4;

— o NSE 3 e o NSE 4 (U=700; p<0,01),), sendo a graduação média para o NSE 3 de 45,50 e para o NSE 4 de 64,63, o que indica a superioridade dos rapazes do NSE 4;

— não se revelaram diferenças significativas entre os NSE 1 e 2, à semelhança do que aconteceu com o sexo feminino.

Disciplina de matemática

Relativamente à hipótese 1 — diferenças entre os sexos dos diferentes NSE —, apenas se encontram diferenças estatisticamente significativas entre rapazes e raparigas do NSE 1, como se pode ver no quadro 7 (x-10,04; g/=4; p<0,05).

A realização do teste de Mann-Whitney para a disciplina de matemática não indicou diferenças estatisticamente significativas entre os sexos do NSE 1, o mesmo acontecendo para os restantes NSE.1

No entanto verificaram-se diferenças significativas entre rapazes e raparigas pertencentes a diferentes NSE (cf., quadro 8). Destes resultados saliente-se o facto de as raparigas dos NSE 1 e 2 só serem superadas pelos rapazes dos NSE 4.

Analisando, agora, as diferenças entre as raparigas dos vários NSE e entre os rapazes dos vários NSE (hipótese 2), verifica-se que a disciplina de matemática distingue claramente as raparigas dos vários NSE (x2=51,70; gl=12; p<0,001) como se pode ver no quadro 9. Situação semelhante acontece com os rapazes dos diferentes NSE (x2=75,40; g/=12; p<0,001).

O teste U de Mann-Whitney foi usado para comparar duas amostras de cada vez e determinar entre que NSE se verificaram estas diferenças e a que grupo foram favoráveis.

No caso do sexo feminino e na disciplina de matemática estas diferenças revelaram-se entre:

— o NSE 1 e o NSE 3 (U=3109,5; p<0,05); a graduação média foi de 86,41 para o NSE 1 e de 105,16 para o NSE 3, o que indica uma diferença vantajosa para as raparigas do NSE 3;

— o NSE 1 e o NSE 4 (U=621; p<0,001); a graduação média foi de 65,68 para o NSE1 e de 109,62 para o NSE 4, o que indica uma diferença favorável às raparigas do NSE 4;

— o NSE 2 e o NSE 4 (U=314,5; p<0,001); a graduação média foi de 38,27 para o NSE 2 e de 67,40 para o NSE 4, o que indica uma diferença vantajosa para as raparigas do NSE 4;

— o NSE 2 e o NSE 3 (U=1674; p<0,05), sendo esta diferença favorável ao NSE 3 (a graduação média foi de 58,86 para o NSE 2 e de 73,25 para o NSE 3);

— o NSE 2 e o NSE 4 (U=348; p<0,001), sendo esta diferença favorável ao NSE 4 (a graduação média foi de 38,77 para o NSE 2 e de 66,12 para o NSE 4);

— o NSE 3 e o NSE 4 (U=446; p<0,001); a graduação média foi de 39,66 para o NSE 3 e de 66,16 para o NSE 4, o que indica uma diferença vantajosa para as raparigas do NSE 4;

— não se revelaram diferenças estatisticamente significativas entre os NSE 1 e NSE 2.

No caso do sexo masculino as diferenças manifestaram-se entre:

— o NSE 1 e o NSE 3 (U=4381; p<0,05), sendo a graduação média para o NSE 1 de 104,10 e para o NSE 3 de 120,91, o que indica uma diferença vantajosa para os rapazes do NSE 3;

— o NSE 1 e o NSE 4 (U=1087; p<0,001), sendo a graduação média para o NSE 1 de 81,84 e para o NSE 4 de 130,53, o que indica uma diferença favorável para os rapazes do NSE 4;

— o NSE 2 e o NSE 4 (U=484; p<0,001),), sendo a graduação média para o NSE 2 de 40,06 e para o NSE 4 de 65,38, o que indica uma diferença, uma vez mais, vantajosa para os rapazes do NSE 4;

— o NSE 3 e o NSE 4 (U=666; p<0,001), sendo a graduação média para o NSE 3 de 45,01 e para o NSE 4 de 66,74, o que indica uma diferença favorável para os rapazes do NSE 4;

— não se manifestaram diferenças estatisticamente significativas entre os NSE 1 e 2 e NSE 2 e 3.

Disciplina de físico-química

Antes de passar aos resultados desta disciplina, será importante salientar que a amostra a físico-química foi constituída unicamente pelos sujeitos do 9.°ano de escolaridade, já que os alunos do 7.° ano não têm esta disciplina no seu currículo. Este facto pode explicar o menor número de diferenças significativas nesta disciplina.

No que diz respeito à hipótese 1— diferenças entre os sexos dos diferentes NSE — verificam-se diferenças estatisticamente significativas unicamente entre os rapazes e raparigas do NSE 1 (Χ2=10,66;g/=5; p<0,05). Saliente-se nestas diferenças a presença de duas alunas que obtêm a classificação de 5 a esta disciplina e um maior número de "notas" 4 obtidas pelas raparigas relativamente aos rapazes. Em contrapartida, as raparigas obtêm também um maior número de classificações de 2 e os rapazes maior frequência de níveis 3 (cf. quadro 10).

Para além das diferenças entre rapazes e raparigas do NSE 1, o teste de Mann-Whitney apontou para diferenças significativas entre rapazes e raparigas de diferentes NSE como é indicado no quadro 11. Destes resultados saliente-se o facto de as raparigas do NSE 1,2 e 3 só se distinguirem significativamente relativamente aos rapazes do NSE 4, e ainda o facto de as raparigas do NSE 4 superarem unicamente dos rapazes do NSE 1 e 2.

No que diz respeito à hipótese 2 — comparação entre rapazes dos vários NSE e entre raparigas dos vários NSE — a disciplina de físico-química, como se pode verificar pelo quadro 12, diferencia claramente as raparigas dos vários NSE (X2=84,32; gl-15; p<0,001), o mesmo acontecendo relativamente aos rapazes dos vários NSE (x2=51,51; g/=15; p<0,001).

Comparando duas amostras de cada vez, através do teste U de Mann-Whitney, foi possível determinar, para cada sexo, entre que NSE se verificaram estas diferenças e o sentido das mesmas.

No caso do sexo feminino estas diferenças revelaram-se unicamente entre o NSE 3 e o NSE 4 (U=367,0; p<0,001); a graduação média foi de 38,65 para o NSE 3 e de 64,38 para o NSE 4, o que indica a superioridade das raparigas do NSE 4.

No caso do sexo masculino as diferenças revelaram-se entre:

— o NSE 1 e o NSE 3 (U=4374,5; p<0,05), sendo a diferença favorável aos rapazes do NSE 3 (a graduação média para o NSE 1 foi de 104,06 e para o NSE 3 de 121,01);

— o NSE 1 e o NSE 4 (U=1553; p<0,001), sendo a diferença favorável aos rapazes do NSE 4 (graduação média para o NSE 1 foi de 84,99 e para o NSE 4 de 115,97);

— o NSE 2 e o NSE 4 (U=705; p<0,01), sendo a diferença novamente favorável aos rapazes do NSE 4 (a graduação média para o NSE 2 foi de 43,52 e para o NSE 4 de 58,47;

— o NSE 3 e o NSE 4 (U=862; p<0,05), sendo a diferença também favorável aos rapazes do NSE 4 (a graduação média para o NSE 3 foi de 47,82 e para o NSE 4 de 59,55);

— não se revelaram diferenças estatisticamente significativas entre os NSE 1 e 2 e entre os NSE 2 e 3.

Disciplina de educação física

No que concerne às diferenças entre rapazes e raparigas do mesmo NSE (hipótese 1), o quadro 13 permite verificar que a educação física é a única disciplina em que os rapazes superam as raparigas em todos os NSE, apesar de as únicas diferenças estatisticamente significativas se terem verificado unicamente entre rapazes e raparigas do NSE 1 (x2=16,28; gl=4; p<0,001) e NSE 3 (x2=9,75; gí=4;p<0,05).

Os resultados do teste de Mann-Whitney indicam que, relativamente ao NSE 1 (U=6682,5; p<0,001), os rapazes obtêm melhores classificações escolares que as raparigas (graduação média do sexo masculino=149,35; graduação média do sexo feminino=116,19). Igualmente no NSE 3 (U=1732,5; p<0,01) os elementos do sexo masculino obtêm melhores classificações escolares (graduação média=75,75) que os elementos do sexo feminino (graduação média=59,65).

Para além das diferenças entre rapazes e raparigas do mesmo NSE, verificaram-se também diferenças significativas entre rapazes e raparigas de diferentes NSE (cf. quadro 14). Destes resultados saliente-se o facto, bem diferente das outras disciplinas, de as raparigas do NSE 4 não conseguirem superar os rapazes do NSE 1.0 que o teste de Mann-Whitney permite verificar é que os rapazes do NSE 1 obtêm melhores resultados nesta disciplina do que as raparigas dos NSE 2 e 3, e que não se distinguem significativamente das raparigas do NSE 4. Igualmente os rapazes dos NSE 2 e 3 não se distinguem estatisticamente das raparigas do NSE 4.

Comparando, agora, os resultados a educação física (cf. quadro 15) entre raparigas dos diversos NSE e rapazes dos diferentes NSE (hipótese 2), constata-se que esta disciplina é um oásis no âmbito dos resultados que se tem vindo a apresentar, já que é a única que não distingue as raparigas dos diferentes NSE, nem os rapazes dos diferentes NSE, pelo menos através do qui-quadrado. No entanto, o teste U de Mann-Whitney, ao comparar duas amostras de cada vez, permitiu encontrar algumas diferenças significativas entre as raparigas dos diferentes NSE e entre os rapazes dos diferentes NSE, não reveladas através do qui-quadrado.

No caso do sexo feminino estas diferenças mani festaram-se unicamente- entre o NSE 1 e o NSE 4 (U= 1149; p<0,05) sendo a diferença favorável às raparigas do NSE 4 (a graduação média foi de 70,07 para o NSE1 e de 89,31 para o NSE 4).

No caso do sexo masculino as diferenças revelaram-se entre:

— o NSE 1 e o NSE 4 (U=1752; p<0,05), sendo a graduação média para o NSE 1 de 8634 e para o NSE 4 de 109,75, o que significa que esta diferença é favorável aos rapazes do NSE 4;

— o NSE 2 e o NSE 4 (U=678; p<0,01),), sendo a graduação média para o NSE 2 de 43,09 e para o NSE 4 de 5931, o que indica que esta diferença é igualmente favorável aos rapazes do NSE 4;

— o NSE 3 e o NSE 4 (U=873; p<0,05),), sendo a graduação média para o NSE 3 de 47,97 e para o NSE 4 de 52,22, o que significa que esta diferença é novamente favorável aos rapazes do NSE 4.

Discussão dos resultados

Na discussão e análise dos resultados apresentar-se-ão, em primeiro lugar, os resultados relativos à comparação entre rapazes e raparigas dos diversos NSE — que se referem à hipótese 1 — e, posteriormente, os resultados relativos às diferenças entre raparigas dos diversos NSE e rapazes dos diversos NSE — que se referem à hipótese 2. Para cada uma destas hipóteses serão apresentados os resultados das cinco disciplinas em causa.

Diferenças entre rapazes e raparigas, de diversos NSE

Disciplina de português

Nesta disciplina verificou-se que as raparigas eram superiores aos rapazes do mesmo NSE. Estes dados confirmaram a hipótese de que dentro do mesmo NSE as raparigas superariam os rapazes nesta disciplina. Para além disso, as raparigas dos NSE mais baixos conseguiram mesmo, por vezes, superar os rapazes do NSE superior ao seu. Esta situação aconteceu com as raparigas do NSE 1, que obtiveram melhores classificações escolares que os rapazes do NSE 2 e que tiveram classificações idênticas às dos rapazes do NSE 3. Quanto às raparigas dos NSE 2 e 3, conseguiram obter classificações escolares idênticas às dos rapazes do NSE imediatamente superior. Estes dados vieram ao encontro dos resultados de estudos noutros países e coincidem com o estereótipo do género segundo o qual as raparigas têm maior capacidade no domínio verbal que os rapazes.

Disciplina de história

Esta disciplina apresentou um panorama bastante diferente do português, já que aqui não se verificaram diferenças entre os elementos do sexo feminino e do sexo masculino do mesmo NSE e, como tal, a hipótese de que as raparigas superariam os rapazes do mesmo NSE foi totalmente rejeitada. No entanto, quando se tiveram em conta os diferentes NSE, verificou-se que as raparigas do NSE 1 obtinham melhores classificações escolares que os rapazes do NSE 2 e igualavam os rapazes do NSE 3.

Disciplina de matemática

No caso desta disciplina só se verificaram diferenças entre rapazes e raparigas do NSE 1, levando as raparigas a vantagem nesta diferença. Contudo, as comparações entre rapazes e raparigas de diferentes NSE permitiram verificar que as raparigas dos NSE 1 e 2 só eram superadas pelos rapazes do NSE 4. Estes dados contrariam o que habitualmente se considera serem os estereótipos do género do sexo feminino e masculino, pois os resultados deste estudo indicam que, quando existem diferenças significativas, estas são favoráveis às raparigas.

Disciplina de físico-química

Nesta disciplina, tal como na matemática, as diferenças entre os elementos do sexo feminino e masculino do mesmo NSE só se verificaram no NSE 1, tendo sido esta diferença favorável ao sexo feminino. Estes resultados contrariaram totalmente a hipótese de que os rapazes obteriam melhores classificações escolares. Além disso, as diferenças significativas verificadas entre os rapazes e as raparigas de diferentes NSE foram também favoráveis ao sexo feminino. Destes resultados saliente-se que as raparigas dos NSE 1,2 e 3 só foram superadas pelos rapazes do NSE 4. Outro facto interessante a ressaltar é que os rapazes do NSE 3 conseguiram obter classificações idênticas às das raparigas do NSE 4. Esta disciplina parece, assim, ser bastante favorável às raparigas dos NSE mais baixos, o que não deixa de ser um resultado que contraria grande parte da literatura sobre o assunto.

Disciplina de educação física

Esta foi a única disciplina em que os elementos do sexo masculino, de uma maneira geral, superaram os elementos do sexo feminino. Embora só em parte a hipótese se tenha confirmado, pois só se verificaram diferenças significativas entre as raparigas e os rapazes do NSE 1 e entre as raparigas e os rapazes do NSE 3, esta diferença, tal como tinha sido formulada na hipótese, foi favorável aos elementos do sexo masculino. Quando se tiveram em conta os outros NSE, verificou-se, contudo, que os rapazes do NSE 1 tinham obtido melhores classificações escolares que as raparigas do NSE 2 e 3 e ainda que os rapazes dos NSE 2 e 3, superaram significativamente as raparigas dos NSE 4. Esta foi, claramente, uma disciplina favorável aos alunos do sexo masculino e aos alunos do sexo masculino dos NSE mais baixos.

Diferenças entre raparigas dos diversos NSE e rapazes dos diversos NSE

No sentido de verificar se existia homogeneidade ou heterogeneidade nas classificações escolares entre o grupo das raparigas e entre o grupo dos rapazes, compararam-se os elementos do sexo feminino dos quatro NSE, usando-se o mesmo procedimento para os elementos do sexo masculino.

Disciplinas de português, história e matemática

Estas são as disciplinas que mais distinguiram as raparigas dos diversos NSE e os rapazes dos diversos NSE. Verificaram-se diferenças estatisticamente significativas entre todos os NSE (entre os NSE 1 e 3; entre os NSE 1 e 4; entre os NSE 2 e 3; entre os NSE 2 e 4 e entre os NSE 3 e 4), exceptuando-se a ausência de diferenças significativas entre os NSE 1 e 2. As classificações escolares foram sempre favoráveis aos NSE mais elevados.

Disciplina de físico-química

No que diz respeito ao sexo feminino, só se encontraram diferenças significativas entre os NSE 3 e 4. No caso do sexo masculino, estas diferenças revelaram-se entre os NSE 1 e 3,1 e 4,2 e 4, e 3 e 4, o que pode indicar que as classificações escolares das raparigas são menos sensíveis à influência do NSE do que as classificações escolares dos rapazes.

Disciplina de educação física

Nesta disciplina os resultados parecem indicar que as raparigas foram menos influenciadas pelo NSE que os rapazes, pois as classificações escolares só distinguiram as raparigas do NSE 1 das do NSE 4. No caso do sexo masculino as diferenças foram entre os NSE le4,2e4e3e4.

A totalidade dos resultados referentes à hipótese 2 parece, assim, indicar que os rapazes são mais influenciados pelo NSE em todas as disciplinas, enquanto as raparigas são mais sensíveis ao NSE nas disciplinas de português, história e matemática. Estes resultados vão no mesmo sentido das conclusões retiradas por Margarida Rebelo (1996) e Sérgio Grácio (1997) nos estudos que realizaram.

O estudo realizado por Margarida Rebelo (1996), sobre as expectativas e atribuições de competência escolar feitas por professores, indica que essa competência é diferentemente influenciada pelas características sociais da família consoante o aluno é do sexo masculino ou do sexo feminino. Os alunos do sexo masculino são categorizados, em termos de competência escolar, de acordo com o posicionamento social do seu agregado familiar, carregando consigo essa categorização social, situação que não se verifica com as alunas, cuja categorização social reflecte uma dimensão relacional que se estabelece com o professor.

Sérgio Grácio (1997), ao estudar a influência do género e da classe social no aproveitamento escolar de alunos dos nove anos de escolaridade básica, verificou que as raparigas eram tanto mais superiores aos rapazes do mesmo NSE quanto mais baixos eram os seus meios sociais de origem. Em termos concretos isto significava que enquanto nas raparigas e nos rapazes filhos de professores o aproveitamento escolar era idêntico, já no que se refere às classes populares as diferenças entre rapazes e raparigas eram muito acentuadas sendo favoráveis a estas últimas.

Conclusões

Os resultados relativos às diferenças entre rapazes e raparigas permitem concluir que, no conjunto global das disciplinas analisadas, as raparigas conseguem superar os rapazes dos NSE superiores, exceptuando-se a educação física. Contudo, estes resultados permitem também concluir que é errado dizer que as raparigas são melhores alunas que os rapazes, pois, à excepção do português, os rapazes do NSE 4 superaram sempre as raparigas dos NSE 1,2 e 3. Estes dados indicam ainda que enquanto a disciplina cie português é essencialmente favorável ao sexo feminino, a disciplina de educação física é, fundamentalmente, do domínio masculino. Tal pode significar que os estereótipos se tornaram menos acentuados para o sexo feminino — com as raparigas a conseguirem igualar e até superar os rapazes dos NSE iguais ou ligeiramente superiores aos seus nas disciplinas consideradas tipicamente masculinas — mas que o mesmo não se pode dizer para o sexo masculino, que não conseguiu "ganhar terreno" nas disciplinas consideradas tipicamente femininas.

Ao mesmo tempo os estereótipos do género continuam presentes, embora reduzidos neste estudo a duas disciplinas: o português para o sexo feminino e a educação física para o sexo masculino. A estes estereótipos do género não são indiferentes as concepções de masculinidade e feminilidade. Como afirma Elaine Millard (1998), os rapazes envolvem-se pouco em actividades de leitura, porque as consideram actividades femininas, e a sociedade encoraja-os a não se envolverem em nada que seja associado às mulheres, porque essas actividades são geralmente ridicularizadas. Ann Clark (1998), ao analisar os fracos resultados escolares dos rapazes nas línguas estrangeiras, chega a conclusões semelhantes, ao concluir que os rapazes se sentem pouco à vontade ao pronunciar palavras numa língua estrangeira e que têm receio de cair no ridículo perante os seus colegas.

No que diz respeito às fracas classificações escolares das raparigas na educação física, estes resultados prendem-se, segundo Vertinsky (1995), com alguns preconceitos, nomeadamente o de que os rapazes não gostam de raparigas que ficam sujas e a suar por jogar futebol e que as atletas que levam o desporto a sério são homossexuais. Por aqui se pode ver que em torno da prática desportiva se organizam ideias acerca do que é ser feminino ou masculino. Além disso, segundo refere a mesma autora, grande parte das raparigas não vê nesta disciplina qualquer interesse para o seu futuro. Em termos gerais as raparigas percebem-se a si próprias como menos capazes que os rapazes para a actividade desportiva e esta percepção faz com que se recusem a participar ou que participem com pouca motivação (idem). E embora estes dados sejam fruto de estudos realizados em países estrangeiros, é bem provável que as raparigas portuguesas passem pelo mesmo tipo de pensamentos e sentimentos. Seria, no entanto, um trabalho importante a realizar o de analisar o porquê deste tipo de resultados das raparigas portuguesas na disciplina de educação física.

Todos os resultados acabados de referir vão ao encontro da ideia de que tanto as raparigas do NSE 4 como os rapazes do NSE 4 obteriam melhores classificações escolares que as raparigas e os rapazes dos restantes NSE. Assim, tudo leva a crer que, efectivamente, a reprodução social continua a ser uma realidade das nossas escolas, embora esta se processe de um modo diferenciado para os dois sexos. Como refere José Manuel Oliveira Mendes (1998), a estrutura social portuguesa é muito pouco permeável à mobilidade social do sexo masculino, acabando estes por manter, em grande percentagem a mesma posição social dos seus pais. Para as mulheres a estrutura social é mais aberta, permitindo uma mobilidade que é mais ou menos idêntica em todas as posições de classe. Os dados estatísticos indicam que enquanto apenas 8,1% dos homens cujos pais eram operários conseguiram obter uma formação superior, para as mulheres esse valor sobe para 19,5%.

Perante esta realidade a esperança de que a escola pudesse vir a minorar as desigualdades do espaço macro-social em que se inserem mais não passou de um sonho ou, quem sabe, de um discurso para manter o status quo. Os alunos e alunas dos NSE elevados, cujos pais e/ou mães possuem licenciaturas, são bons alunos e carregam consigo toda uma bagagem escolar e cultural que permitirá que a grande maioria destes alunos venha a obter, tal como os pais, diplomas de nível superior. Em contrapartida, os alunos cujos pais e/ou mães têm no máximo o 12.° ano de escolaridade têm baixas classificações escolares e tudo leva a crer que, tal como os seus pais, virão a desempenhar profissões cujo prestígio será sempre inferior ao da classe média. Parece importante salientar que quanto mais baixo é o nível socioeconómico mais baixas são as classificações escolares em todas as disciplinas, quer se trate de rapazes ou de raparigas. Além disso, tanto os alunos do NSE 1 como os alunos dos NSE 2 e 3 obtêm piores classificações escolares que os alunos do NSE 4. Este facto parece indicar que é indiferente os pais terem apenas o 4.° ano de escolaridade ou o 12.° ano. O que faz a diferença parece ser o facto de ter ou não ter uma licenciatura.

Perante esta situação parece ser possível concluir que a escola continua a ser um espaço de desigualdade social, tanto no que diz respeito ao género como ao nível socioeconómico, que foram as duas dimensões aqui analisadas. No que diz respeito ao género, as desigualdades são, contudo, de dimensões inferiores às que dizem respeito à classe social. As raparigas, mesmo das classes mais baixas, parecem tender a igualar-se aos seus pares, e até por vezes a superá-los, em disciplinas consideradas tipicamente masculinas, como é o caso da físico-química e da matemática, embora continuem a ter resultados escolares desfavoráveis na educação física. Verifica-se, assim, que as raparigas conseguem ultrapassar melhor que os rapazes as desvantagens do seu nível socioeconómico. Talvez porque, como refere Lígia Amâncio (1999), "o capital escolar é, no caso delas, mas não no deles, a condição indispensável para a mobilidade ascendente" (p. 200).

Ao comparamos os resultados deste estudo com o discurso oficial da política educativa, que defende a igualdade de oportunidades para todos os alunos, o que se verifica é um profundo desfasamento entre esse mesmo discurso e a realidade actual das escolas. E verdade que o insucesso escolar foi oficialmente reconhecido como uma realidade em 1987, tendo levado à criação do PIPSE — Programa Inter-ministerial de Promoção do Sucesso Educativo — e em 1991 ao PEPT — Programa de Educação Para Todos. Contudo, a ineficácia destes programas está patente nos resultados deste estudo. Perante a ineficácia de todas as medidas de combate ao insucesso escolar foram criadas medidas que visam permitir a conclusão da escolaridade obrigatória aos alunos que não o conseguiram fazer dentro do ensino regular. Foi o caso dos currículos alternativos e dos cursos de formação profissional inicial. Só que estes cursos são, na nossa perspectiva, uma falsa solução do problema, porque só aumentam a desigualdade social, ao darem a uns uma "escolaridade de primeira", iminentemente teórica, e a outros uma "escolaridade de segunda", iminentemente prática. De algum modo este sistema assemelha-se ao sistema anterior ao 25 de Abril, em que vigoravam o ensino liceal e o ensino técnico. Sob a capa da igualdade de oportunidades o discurso dominante mais não faz do que promover a desigualdade, como se pode ver pelos argumentos utilizados para justificar a criação dos currículos alternativos.

Numa escola caracterizada pelo elevado grau de heterogeneidade sociocultural, em que as motivações, os interesses e as capacidades de aprendizagem dos alunos são muito diferenciados, os estabelecimentos de ensino deverão ter condições para o desenvolvimento de pedagogias diferenciadas, adequando a estratégia pedagógica ás necessidades de cada aluno ou grupo de alunos, procurando, desse modo, equilibrar as diferenças através da diversificação das ofertas educativas e de formação (Desp. 22/SEEI/96, itálicos nossos).

É verdade que são necessárias "pedagogias diferenciadas", mas a pedagogia diferenciada não é necessariamente sinónimo de "diversificação das ofertas educativas e de formação". A tão falada heterogeneidade sociocultural deve ser gerida dentro da mesma sala de aula e dentro de um mesmo tronco comum, tirando disso benefícios que sirvam para enriquecer todos os alunos e não para acentuar e desvalorizar cada vez mais as diferenças daqueles que não partilham da cultura dominante.

No que diz respeito ao género, os resultados levam a crer que as raparigas parecem ter sido capazes (através de mecanismos pessoais ou sociais que não são alvo de estudo neste artigo) de ultrapassar, em certa medida, os preconceitos e desigualdades sexuais. Pensamos, contudo, que não foi certamente a legislação sobre igualdade sexual na educação que as ajudou a ultrapassar muitos dos obstáculos existentes. Essa legislação, além de ser escassa, é omissa em muitos aspectos considerados fundamentais pela maior parte dos países onde, pelo menos legalmente, se pratica a igualdade entre os sexos na escola. Estamos a referir-nos, por exemplo, à ausência de uma política educativa do desporto que fomente uma efectiva igualdade entre os sexos e à ausência de legislação sobre o assédio sexual na escola, que parece ser considerada para muitos uma realidade inexistente.

Terminaremos com uma citação de Jurjo Torres Santomé que parece sintetizar bem o teor deste estudo e as conclusões a que ele permitiu chegar:

A história da educação, desde o momento em que se generaliza a toda a população, pode ser relida também relativamente aos seus efeitos como a história da institucionalização e da legitimação do insucesso escolar da classe trabalhadora e dos grupos sociais desfavorecidos, apesar da existência de um discurso explícito que insiste, uma vez e outra, na educação como a única solução à qual a sociedade pode recorrer para conseguir uma sociedade mais igualitária (Santomé, 1995, p. 35)

 

Referências

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Notas

1Esta diferença entre a significância do qui-quadrado e a ausência de significância do U de Mann-Whitney deve-se ao facto de os dois métodos estatísticos se basearem em diferentes processos para encontrar a significância.

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