SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número24O encanto da criança em HomeroO aristotelismo e o pensamento árabe: Averróis e a recepção de Aristóteles no mundo medieval índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Revista Portuguesa de História do Livro

versão impressa ISSN 0874-1336

Rev. Port. de História do Livro  n.24 Lisboa  2009

 

A fortuna de um autor chamado Menandro

 

Maria de Fátima Silva*

*Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Especialista em temas helénicos.

A autora gradece aos Doutores Sebastião Pinho, M. Cadafaz de Matos, M. Margarida Miranda, Belmiro Fernandes Pereira, Cláudia Teixeira, António Manuel Andrade e António Guimarães Pinto as informações que me forneceram sobre a presença de Menandro no Renascimento e a sua disponibilidade no empréstimo de títulos bibliográficos. Sem esta disponibilidade e colaboração não me teria sido possível a reunião de elementos tão dispersos, como os que respeitam, em particular, ao caso português.

 

 

La fortune d’un auteur appelé Menandre

Resumé

Cet article analyse la popularité de Ménandre pendant des siècles, en considérant que, dans une première phase, à l’époque du papyrus, soit disant, du IIIe. siècle a.C. au IIe. siècle d.C.,  il était  bien connu. Après une période de silence sur sa figure et son oeuvre pendant le Moyen Âge, les références qui lui sont faites à la Renaissance européenne sont discrètes. Seule la modernité, par la rencontre d’une partie expressive de sa production, a permis l’apparition de plusieurs éditions et études.

Mots-clefs: comédie nouvelle, Ménandre, texte, représentation, transmission.

 

The fortune of an author called Menander

Abstract

This article analyses the popularity of Menander through centuries, considering that, in an earlier stage, he was well know during the whole papyrus era, from the III century a.C. to the II century d.C. Later, after a period of silence in the Middle Ages, only some few references were made to him during the european Renaissance. Only in modern times, after an expressive part of his production having been found, new editions and studies appeared.

Keywords: new comedy, Menander, text, performance, transmission.

 

 

Após trinta anos de vida artística, em que produziu um número próximo de 105 ou 108 comédias (cf. Aulo Gélio, Noites Áticas 17. 4. 4), Menandro falecia em 292/1 a. C. Reservava-lhe o destino, nos séculos que se seguiram, um aplauso mais sonoro do que aquele que alcançara em vida (cf. Quintiliano 3. 7. 8; Marcial 5. 10. 9)[1]. A Antiguidade grega e romana havia de alimentar sobre a sua produção dramática um grande entusiasmo, que, ao cabo de um percurso incerto de êxito e esquecimento, veio a estiolar-se com os primórdios da época medieval. O facto de ter sido adoptado, na época alexandrina, como um padrão cultural[2] contribuiu decisivamente para fazer das suas criações uma referência de grande valor pedagógico[3], quer no plano básico do ensino, quer a nível das escolas de retórica. Este interesse fervilhante por Menandro deve-se em boa parte à política de preservação e recolha dos textos dos clássicos gregos e latinos empreendida pelos eruditos ao serviço da biblioteca de Alexandria, no séc. III a. C. Além do inventário de toda a literatura conhecida, organizaram-se listagens dos melhores autores de cada género, os famosos “cânones”, o que defendeu a sobrevivência das obras e dos nomes inventariados. Além dos textos completos, que se ficaram a dever em boa parte a esta política praticada no Egipto, aos papiros aí encontrados se deve também a popularidade do Menandro das sentenças. Daqui resultou a abundância de papiros e de inscrições, que, provindos já do séc. III a. C., têm para nós hoje uma expressão mais significativa sobretudo a partir do séc. I a. C.[4]. A popularidade de Menandro manteve-se ao longo dos séculos com luz intermitente e através de instrumentos vários. De acordo com uma tradição largamente difundida, numa época em que os textos das peças integrais pareciam já raros, circularam resumos das criações de Menandro feitos por Miguel Pselo (séc. XI)[5]. No Egipto, porém, a popularidade de Menandro perdurou por toda a Antiguidade, até meados do séc. VII, o que justifica a importância dos papiros mais tarde aí recolhidos. Na verdade, pode constatar-se modernamente a permanência do poeta ao longo de toda a época do papiro, ou seja, do séc. III a. C. ao II d. C.

Em finais do séc. I d. C., Plutarco (Moralia 854 a-b) faz-se eco dos louvores que lhe são dirigidos e testemunha-lhe a popularidade, pela presença que tem em cenários sociais da maior expressão cívica – “nos teatros, nos discursos, nos banquetes, em leituras públicas, em representações públicas ou privadas, no ensino e nos concursos dramáticos”. Além da reposição frequente das suas peças, a aceitação de que gozava nos banquetes, onde citações e leituras de cenas de Menandro eram muito apreciadas (cf. Moralia 712 b)[6], contribui para a mesma imagem de sucesso. Mas, como documenta ainda o Queroneu, o comediógrafo conquistou também um lugar de relevo entre as camadas mais eruditas, que encontravam nas suas peças versos apropriados à abonação de variadas questões de natureza intelectual. O mesmo Plutarco, que é dessa prática um exemplo expressivo, deixa até evidente em que áreas o velho poeta pode ser particularmente útil. Pela natureza das suas criações, a figura de Menandro é paradigmática de um certo padrão de poesia dramática, onde ofusca, na opinião dos pensadores e educadores do final do séc. I, o sucesso retumbante de Aristófanes. Plutarco, que dedicou um capítulo dos seus Moralia a uma comparação entre os dois comediógrafos[7], não hesita em condenar a grosseria e vulgaridade de Aristófanes, por contraste flagrante com a elegância, coesão e equilíbrio do estilo do poeta da Nea (853 d-e). São consideradas oportunas as reflexões que emitiu a propósito de questões de ética e de filosofia, a teoria que defende e a prática de que é exemplo em questões de retórica, além do tratamento de um tema que lhe é particularmente caro e que constitui uma espécie de espinha dorsal da sua obra (Moralia fr. 134 Loeb), o amor, onde se mostrou ‘uma verdadeira autoridade’ (Moralia 654 d). Do seu tema favorito, Menandro omitiu a vulgaridade ou os excessos, para lhe dar um tom “marcadamente filosófico”, o que o torna propício para discussões entre eruditos ou simplesmente aceitável no lar de uma família digna (Moralia fr. 134). Percebemos que neste novo universo cultural, Menandro resistia ainda em cena, mas sobretudo circulava em citações retiradas das suas peças, com os mais diversos objectivos pedagógicos, culturais e lúdicos. Nesta nova utilização têm origem as famosas sentenças[8], constituídas por versos retirados das suas peças, que serviam, pelo seu teor filosófico e reflexivo, não apenas como modelos de expressão, mas sobretudo como orientação moral para os jovens em formação. Num plano escolar mais especializado, o da formação de retóricos, nomes como Dio Crisóstomo (Discursos 18. 6-7) e Quintiliano (Ensino da Oratória 10. 1. 69-72) recomendam igualmente as virtudes do seu estudo[9]. Todo este espectro de intervenção coloca Menandro entre os autores mais célebres da Antiguidade, ao lado de Eurípides e Píndaro na opinião de Plutarco (Moralia 706 d), ou mesmo, de acordo com o gramático Aristófanes de Bizâncio (séc. II d. C.), num honroso segundo lugar, apenas precedido por Homero[10].

Sobretudo nos séc. III-II a. C., o sucesso de Menandro ecoou em Roma, pela fidelidade com que os nomes de referência da comédia latina – Plauto, Terêncio e Cecílio Estácio[11] – o tomaram por modelo. É relevante recordar que, entre a morte de Menandro e a adopção pelos comediógrafos latinos dos padrões da Nea, tinham decorrido escassos cinquenta anos. Do mesmo modo que é flagrante o ajuste a que, por diversas razões que se prendem com as características da Comédia Nova[12], esta produção grega se prestou relativamente aos interesses do público romano. A tendência para pensar que essa afinidade, entre o comediógrafo grego e os seus sucessores em Roma, era mais nítida no caso de Terêncio, o dimidiatus Menander, veio a ser corrigida pelos achados mais recentes do poeta ateniense, que acentuaram a dependência de Plauto face aos seus originais. Menandro aparece como a fonte privilegiada para o Sarsinate, pela influência determinante que exerceu sobre Bacchides, Cistellaria e Stichus (que retomam o Dis Exapaton[13], Synaristôsai e Adelphoi A’ menandrinos respectivamente), para além da eventual relação entre a Aulularia e o Apistos ateniense, ou do Poenulus e o original menandrino com o mesmo título. Consideremos, no entanto, também a tradicional dependência que Terêncio manteve com o glorioso poeta da Nea. Desta vez com maior segurança, Menandro pode ser identificado como referência para a Andria (uma contaminatio das suas Andria e Perinthia), o Heautontimoroumenos (contaminatio do Eunuchus e do Colax) e Adelphoe (inspirados nuns Adelphoe B’ menandrinos que não os que Plauto utilizou)[14].

Do mesmo modo que a época helenística grega expandia a influência de Menandro para além do mundo do teatro e o fazia penetrar em todos os domínios da actividade intelectual, outro tanto se passou em Roma: importado para a cena latina pelos criadores dramáticos, Menandro veio a interessar a classe erudita, cativando as atenções, no séc. I a. C., de nomes de referência como Cícero, César ou Varrão. Para Cícero (De Finibus 1. 4), que discute a vantagem de aceder, em versão latina, aos originais de Menandro, a propósito do caso concreto dos Synephebi de Cecílio Estácio e da Andria de Terêncio, a prioridade está em “ler”, sublinhando um outro processo de divulgar o sempre apreciado autor de Atenas[15]. César (Suetónio, Vida de Terêncio 7, p. 9 W) não tem dúvida em dar a Menandro vantagem sobre o seu imitador latino, o tal, apenas por seu mal, dimidiatus Menander. Por fim Varrão – encarregado por César de recolher a herança alexandrina (Suetónio, Júlio César 44. 4) e de organizar uma biblioteca a partir de modelos gregos –, mostrava-se um perito na criação cómica de Atenas e de Roma e podia emitir juízos comparativos baseado no conhecimento, por igual minucioso, de ambas as matérias.

Ainda em pleno florescimento da literatura latina, já no tempo de Augusto, Menandro continuava a merecer a atenção dos melhores, como Horácio, Ovídio ou Propércio. O sentido desses testemunhos tem a ver com o reconhecimento de que o agora já “clássico” Menandro continua a gozar, entre os intelectuais, de um grande prestígio, na mesma galeria onde alinha ao lado de Homero, Safo, Arquíloco, Platão Cómico, Êupolis ou Demóstenes, entre outros nomes igualmente sonantes (Horácio, Sátiras 2. 3. 11-12; Propércio 3. 21. 25-28). Pini[16] sublinha também como Menandro parece concorrer com Homero, dentro de um grupo de autores que proporcionam o tipo de ensinamento de que um orador carece, e como, expressivamente, nas listas em que são mencionados ocupam posições estratégicas, na abertura e no fecho, o que lhes confere particular visibilidade (cf., e. g., Quintiliano, Ensino da Oratória 10. 1. 70; Dionísio de Halicarnasso, Sobre a imitação 2. 204, 207; Ovídio, Amores 1. 15. 9-18, Tristes 2. 369-370; Plínio, História natural 7. 107 sq., 111; Díon de Prusa, Or. 18. 6 sqq.; Suetónio, Vespasiano 23. 1). Propércio não hesita em o classificar de cultus (3. 21. 28, Loeb), nem Ovídio, Tristes 2. 369-370, de recordar o amor como o seu tema predilecto[17]. É, como um paradigma, por ele que se afere o mérito de outros, como o de Afrânio, “do nível de um Menandro” (Horácio, Epístolas 2. 1. 57). Numa palavra, as razões que constituíam o prestígio de Menandro prosseguiam aquelas que tinham estimulado o interesse grego em torno da sua personalidade literária. Mas um aspecto parece cada vez mais sensível: o de que o acesso a Menandro se faz pela leitura, que responde agora a um outro padrão de expectativa (cf. Horácio, Sátiras 2. 3. 11-12; Propércio 3. 21. 23-28). Ovídio, Tristes 2. 369-370, recomenda-o como leitura para ambos os sexos[18]. Sintetizando com A. Pociña[19]: “Assim, mais de três séculos depois de ter deixado de ser representado nos teatros gregos, e cerca de dois após ser levado à cena em Roma sob as criações latinas a que as suas peças serviram de modelo, as comédias do maior representante da Nea eram lidas com deleite, como qualquer outro tipo de poesia destinado à leitura, por pessoas cultas de Roma, por jovens que se preparavam para ocupar os mais altos cargos na vida pública, pelos filhos das melhores famílias”.

Mas são vários os tons com que o séc. I manifesta interesse por Menandro[20]. É disso prova o empenho com que Quintiliano (1. 10. 18, 10. 1. 70) recomenda a leitura das suas peças como treino para um orador em formação; dentro desta perspectiva pedagógica, justifica-se o seu interesse particular pelo Hypobolimaeus, uma peça que tratava do tema prioritário da educação, ou, por exemplo, por agones como aquele que anima a intriga da Arbitragem. E não estava isolado Quintiliano, porquanto outros vultos de peso na época – Plínio, História natural 7. 111, 30. 7; Marcial, 5. 10, 14. 187, 14. 214 – insistiram em incluir Menandro entre os nomes mais sonantes da velha literatura grega, dentro de uma lógica semelhante à dos “cânones” na tradição alexandrina[21]. Dele se serviram, em particular Plínio, como de um manancial de pormenores da cultura grega e como testemunho de um vocabulário preciso de uso quotidiano (cf. História natural 13. 13, 18. 72, 20. 252, 23. 159, 37. 106).

Não pode, por outro lado, deixar de considerar-se que, em época romana, o grego era, para muitos leitores, uma língua estrangeira, o que exigia, para a acessibilidade dos textos, anotações e comentários à margem, que facilitassem a sua compreensão. Na mesma linha da tradição alexandrina, estas notas foram muito úteis na preservação de lições autênticas e na devolução de fragmentos. É perceptível que a decadência cultural, que se fez sentir a partir do séc. II d. C., reduziu o número daqueles que eram capazes de ler e entender os autores gregos da época clássica. Cada vez mais reduzido, no acesso, a uma camada restrita de estudiosos e eruditos, o texto dos autores helénicos foi confinado a interesses cada vez mais técnicos e específicos, de que são exemplo as perspectivas gramatical, métrica ou lexicográfica (caso do lexicógrafo Pólux, ou do coleccionador de anedotas e citações que foi Ateneu, a quem se deve a recuperação de alguns fragmentos de Menandro). Estas finalidades específicas favoreceram a prioridade de selectas antológicas sobre a leitura das obras completas. É também em ambientes eruditos que Aulo Gélio, Noites Áticas 2. 23, testemunha a possibilidade de uma leitura, a proporcionar comparações, entre a versão latina do Plocium de Cecílio Estácio e o original grego de Menandro. Também nesta passagem do séc. II para o III, Cláudio Eliano, um rhetor grego cujos escritos foram muito apreciados por moralistas posteriores (Epístolas 13-16), criava uma troca epistolográfica[22] entre Calípides e Cnémon, que se veio a mostrar, quando o Misantropo reapareceu na modernidade, inspirada nesta comédia; na referida correspondência, que não existe no contexto da peça, Eliano mostra conhecer com clareza o sentido dos conceitos e relações encarnados por Menandro nas suas duas personagens[23]; como nota Gallavotti[24], “não se trata apenas de um conhecimento directo, mas de um verdadeiro estudo e compreensão da comédia de Menandro”. Dentro da mesma linha epistolográfica, vinha já a correspondência simulada entre Menandro e Glícera, de Álcifron. Esta é uma época marcante para a recolha dos versos sentenciosos e com sabor moralizante, bem como de referências sugestivas de realia. Com o distanciamento, progressivamente mais acentuado, em relação às peças completas, foi este material fragmentário o que teve continuidade na tradição manuscrita, recolhido, em ocorrências ocasionais, como exemplo, pelos gramáticos e lexicógrafos[25]. Mas sobre o que era, nesta época, a projecção de Menandro, Cristodoro (AP II, 357-360) atesta que, no Ginásio de Zeuxipo, fundado em Bizâncio no tempo de Septímio Severo (séc. III), se tinha erigido, em honra de Cratino, uma estátua, ao lado de outra de Menandro, o melhor da Archaia lado a lado com o primeiro da Nea[26].

Uma palavra é devida à presença que a poesia dramática teve junto dos autores cristãos[27]. Apesar das críticas que veiculam a propósito do efeito negativo dos espectáculos, é inegável o conhecimento que têm da tradição teatral, ou por os frequentarem antes de convertidos, ou por os conhecerem através da leitura. Esse contacto livresco remonta, naturalmente, ao período escolar (cf. Agostinho, Confissões 1. 16. 26), apesar de poder acompanhar o já convertido, como confessa S. Jerónimo (Epístolas 22. 30), um adepto de Plauto. Segundo Schneider[28], os autores dramáticos conhecidos dos cristãos eram, entre os gregos, Eurípides e Menandro, e, entre os latinos, Séneca, Plauto e sobretudo Terêncio. De onde se depreende que, também neste caso, o acesso a Menandro se fazia por via directa, a da leitura das suas peças, e indirecta, pelos autores latinos que influenciou. Esse conhecimento justifica a naturalidade com que S. Paulo, por exemplo, cita Menandro, aproveitando-lhe os versos sentenciosos. É disso exemplo a I Cor. 15. 33 (fr. 218 K), onde adapta o pensamento expresso pelo autor pagão, Menandro – “as más companhias corrompem os bons costumes” – aos seus objectivos[29], citação notada por Fócio nos finais do séc. IX nos Amphilochia, 151. Mas há também os que, como Apolinário de Laodiceia (séc. IV), compõem, à maneira menandrina, peças com finalidades doutrinárias.

Menções relativamente isoladas, como a de Ausónio, Protrepticus ad Nepotem 45-47, mostram que o séc. IV prosseguia com a mesma reverência por Menandro, entre os autores que se podem enumerar como fundamentais da literatura grega antiga. No termo deste século, Macróbio (Comentário ao sonho de Cipião 1. 2. 8) apregoava também o agrado que a leitura de uma comédia de Menandro produzia. E até finais do séc. V, altura em que o império romano ruiu (476), a situação não se alterou[30]. É disso testemunho Sidónio Apolinar, que continua a referir o agrado que a leitura do velho comediógrafo produz. É também interessante assinalar, na perspectiva que nos transmite, o problema constante da apreciação, em paralelo, dos originais de Menandro e das comédias latinas que inspirou. Assim Terêncio, apreciado por Sidónio Apolinar, só pode ser lido e entendido por comparação com o modelo menandrino (Carmina 23. 147, Epístolas 4. 12. 1). Dentro das glórias da literatura latina, Menandro ganha, nas preferências deste erudito, um lugar semelhante ao que cabe a Virgílio (Carmina 13. 36). Em paralelo, o trabalho de compilação de textos antológicos de poetas e prosadores gregos prosseguia[31], para proliferar por todo o mundo grego até final do período bizantino; registe-se o exemplo do Florilegium de Estobeu[32] que, no séc. V, foi responsável pela salvaguarda de um número muito apreciável de fragmentos, pertencentes a diversas peças de Menandro (Escudo, Lavrador, Duplo engano, Arbitragem, Herói, Possessa, Cartaginês, Citarista, Bebedoras de cicuta, Mulher do cabelo rapado, Moça de Perinto, Siciónio), o que documenta a variedade de peças então ainda conhecidas. No mesmo séc. V, dentro da tradição retórica da epistolografia, Aristéneto é o exemplo do autor que incorpora citações constantes do escol da literatura grega antiga, onde se inclui Menandro, como o achado do Misantropo veio provar[33]. Arnott é expressivo sobre a metodologia usada: “Aristéneto insere num contexto estranho uma frase plagiada que reteve de memória por o ter impressionado”; daí o isolamento de muitas dessas citações em termos vocabulares. Apesar da atenção ainda despertada por Menandro, este é o século que assiste ao fim das representações teatrais[34].

Do que se passou com a transmissão dos clássicos entre os séc. VI-VIII, em paralelo com a decadência do saber e da formação cultural, pouco sabemos. Mas esta terá sido a fase de uma perda significativa dos originais de Menandro. São vagos os indícios, sugeridos sobretudo por ecos estilísticos, como em Procópio de Gaza (e. g., Declamações 5. 30, Epístolas 43. 3, 123), onde se pressente a citação de terminologia e o uso de motivos do “clássico” da Nea; ou em Corício de Gaza (Apologia dos mimos 32, 145, Declamações 12. 1 sqq,), discípulo de Procópio, em princípios do séc. VI, que parece ter ainda lido algumas obras completas; ou, já no séc. VII, do historiador Teofilacto Simocata (Epístolas 27, 29, 61, 77), que cita versos de Menandro[35] e testemunha uma leitura directa das suas peças[36]. Somem-se menções esporádicas, feitas particularmente pelos comentadores de Terêncio. Venâncio Fortunato e Eugráfio (finais do séc. VI), por exemplo, apenas lhe referem o nome. Com os séculos seguintes surgiu, no entanto, em Bizâncio uma época de renascimento e renovado interesse associado a nomes como o de Fócio (séc. IX), o patriarca bizantino, que foi figura capital dos estudos gregos da época e a quem devemos a devolução de fragmentos do Duplo engano, Arbitragem, Herói, Possessa, Cartaginês, Citarista, Odiento, Moça de Perinto, Siciónio; ou de Eustácio (séc. XII), bispo de Tessalonica, também ele autor de comentários sobre os autores gregos. Por outro lado a Suda, um léxico ou enciclopédia literária compilado em finais do séc. X, retoma os léxicos anteriores e integra escólios e citações de historiadores, gramáticos e biógrafos[37]. Multiplicam-se os comentários[38]: assim Dídimo de Alexandria e Soteridas (cf. Suda s. u. Soteridas; Etymologicum Gudianum 338 e 25), Timáquidas de Rodes, autor de um comentário ao Adulador (Anecdota Graeca 4. 25), Nicádio de um sobre a Possessa (Etymologicum Magnum 388, 36). É desnecessário assinalar a importância de todo este material para a recuperação de Menandro, embora as lições preservadas não garantam a genuinidade em relação à versão original, tanto mais que se tratava de o reproduzir fora do seu contexto. Grilli[39] sublinha como a própria vulgarização de alguns conceitos e citações e os recursos usados para autonomizar os versos são responsáveis por inúmeras variantes e por uma difícil opção em termos de crítica textual. Este processo conduziu à metamorfose que Liapis[40] refere como uma “transformação de versos originalmente dramáticos em monostichoi in usum scholarum de tom edificante’[41]. P. Bádenas de la Peña[42] chama a atenção para o facto de poucos códices antigos terem chegado às bibliotecas bizantinas, e, no entanto, haver menções a exemplares das comédias de Menandro como existentes na Biblioteca Patriarcal de Constantinopla, num catálogo do séc. XVI, mesmo se a informação suscita dúvidas[43]. Particularmente relevantes para a preservação de Menandro até ao Renascimento e séculos posteriores foram as recriações de Plauto e Terêncio nele inspiradas, que, essas sim, nunca deixaram de ser lidas[44].

Por razões que se desconhece, Menandro não figura na tradição medieval. Blanchard[45] sugere que o mesmo tema que o celebrizou, o amor, possa ter sido objecto de uma censura severa pela igreja e ter contribuído para essa desaparição. As menções que lhe são feitas apresentam-se obscuras; refere ainda o mesmo estudioso que Demétrio Carcôndilo, professor de grego em diversas universidades italianas entre os séc. XV e XVI, seria o testemunho desta censura e dos motivos atrás invocados. Tradição semelhante é relatada, pela mesma época, por Pietro Alcionio, também professor de grego em Florença e Roma, e repetida, já no séc. XIX, por estudiosos de Menandro como Benoit e Guizot. No entanto, a tradição dos florilégios não se quebrou na época medieval; por toda a Europa continuou pujante a recolha de excertos de autores tanto pagãos como cristãos.

A partir do Renascimento, e graças à sua projecção do passado, apoiada na popularidade que ganharam alguns autores que na Antiguidade o apreciaram, repetiram e louvaram – casos paradigmáticos podem ser os Moralia de Plutarco e a obra retórica de Hermógenes[46] –, Menandro conhece alguma revitalização. J. A. López Férez[47] recorda, a propósito do encantamento de Erasmo pelos clássicos gregos e latinos e das frequentes citações que deles faz, uma que dedica a Menandro, nas suas Anotações ao Novo Testamento: exprime o humanista de Roterdão o quanto lamenta a perda das obras de Menandro, a quem poderia ter conferido, de acordo com a fama que dele subsistia, o primeiro lugar entre os Gregos, a par do que concede a Terêncio entre os latinos. Apesar dessa perda, Erasmo, nas edições sucessivamente aumentadas dos Adagia, cita com frequência Menandro; outro tanto se passa no Moriae encomium, no De ratione studii (onde recomenda quatro poetas gregos – Aristófanes, Homero, Eurípides e Menandro –, para concluir que este último seria sem dúvida o primeiro, caso tivéssemos as suas obras), em Lingua (onde diz que, à licença de Aristófanes e à indignatio de Juvenal e Pérsio, prefere Menandro, Luciano, Horácio, além de Plauto e Terêncio), e nos Colloquia (veja-se o caso do Exorcismus siue Spectrum, onde a personagem Anselmo conta uma história que o seu interlocutor, Tomé, identifica com a comédia do Fantasma: ‘haec fabula, ut uideo, uincit Phasma Menandri’[48]).

A importância fundamental de Erasmo na cultura da época tornou-o, sem dúvida, num transmissor de relevo para o impacto que Menandro manteve, mesmo se apenas como uma referência, entre os poetas da Antiguidade.

Se os textos dramáticos do comediógrafo da Nea tinham desaparecido, a sua fama como autor de sentenças continuava, como testemunha a presença expressiva que lhe era dada nos léxicos ou enciclopédias então em voga, na mesma linha que vigorara desde a Antiguidade. É evidente que preocupações didácticas continuavam responsáveis por esta actividade de recolha e reedição; ao mesmo tempo que as inúmeras antologias disponíveis por toda a Europa funcionavam de repositórios de citações à disposição dos retóricos humanistas. Neste contexto se integra o De inuentoribus rerum de Polidoro Virgílio (c. 1470 – 1555), uma famosa enciclopédia, que teve mais de cem edições antes do séc. XVIII, onde vem a propósito uma reflexão de origine satyrae nouaeque comoediae (DIR, 1.11); aí se reconhece a decadência da comédia antiga e, por conveniência social e política, o sucesso de um novo padrão mais brando e de agrado geral, onde tem intervenção relevante o Menandro inventor: ‘Cuius Menander et Philemon autores fuere, qui omnem prioris comoediae acerbitatem mitigarunt’[49]. Pode ainda servir de exemplo a Polyanthea de Domenico Nani Mirabelli, uma espécie de enciclopédia de conceitos, discutidos e abonados com citações abundantes dos autores referenciais do mundo antigo, publicada pela primeira vez em Savona (1503) e repetidamente reeditada (e. g. em Colónia 1552)[50], de que se adivinha a circulação ampla; o número de citações retiradas de Menandro (s. u. abstinentia, amicitia, auaritia, coniuratio, curiositas, só para dar alguns exemplos) deixa clara a popularidade do seu pensamento ético, em obras que prosseguiam, no séc. XVI, com o teor de recolha, sistemática e pedagógica, que já a época bizantina tinha, como vimos, praticado. Sirva ainda de exemplo o dicionário de Iacobus Ravisius Textor (nome por que ficou conhecida a colectânea Officina partim historiis partim poeticis referta disciplinis de Jean de Tixier) que, no seu vocabulário de Epitheta (1524), s. u. Menander, recorda o poeta como legítimo detentor de epítetos laudatórios (iucundus, facundus, amabilis, doctus, blandus) que a tradição lhe atribuiu, valorizando o equilíbrio do seu estilo, a qualidade ética e sentenciosa do seu pensamento, para além da nunca desmentida preferência pelo amor como tema central das suas intrigas.

Para além deste tipo de obras de referência, o texto literário não lhe negava também uma apreciável simpatia, ainda que justificada de forma indirecta. Podem ser significativos os testemunhos da sua recepção, em França, por exemplo. Consideremos, em primeiro lugar, a observação de M. Lazard[51] sobre a forma assimétrica como os modelos greco-latinos aí foram importados no que se refere à comédia; naturalmente os latinos conheceram um grande aplauso, que foi, em contrapartida, discreto no caso de Aristófanes; quanto a Menandro refere aquela autora: “Menandro, mencionado pelos teóricos, foi mal conhecido, através dos fragmentos, escassos e dispersos, e sobretudo como modelo de Terêncio”. É sabido que, no séc. XVII, Racine traduziu alguns fragmentos de Menandro, a partir de uma edição publicada por Guillaume Morel, em 1553; no seu Préface de Bérénice mostrara-se entusiasmado pela simplicidade paradigmática do dramaturgo grego[52]. Esta informação de que fragmentos de Menandro circulassem no séc. XVI entre os intelectuais franceses vem ao encontro do comentário proferido por aquele que foi o primeiro autor e encenador de uma comédia à maneira clássica, publicada e representada em francês no séc. XVI parisiense[53], Étienne Jodelle, aluno distinto do Collège de Boncourt, em 1553 (onde foi também regente Georges Buchanan). Sobre essa experiência teatral é explícito Charles de la Motte, o editor da obra de Jodelle, em 1574: “Em 1552[54], apresentou e foi o primeiro dos franceses que exprimiu na sua língua a tragédia e a comédia em forma antiga”. No prólogo de Eugène, a única conservada das duas comédias, Jodelle afirma as suas intenções: pretende remodelar a comédia nacional, recusando as moralidades em voga entre os autores de farsa, e criar um outro modelo de comédia literária, que sem propriamente importar os temas antigos, se sirva do teatro clássico como de um padrão. Menandro é, no v. 1, referido por Jodelle a propósito do seu próprio projecto teatral: “L'invention n'est point d'un vieil Ménandre”; e porque este é o único autor nominalmente referido neste prólogo, como que representa, só por si, a comédia grega. Jodelle consagrou-se, assim, como o restaurador do teatro antigo em língua francesa, preservando, na imitação, uma saudável independência criativa. O sucesso obtido por esta iniciativa, ao que parece sonora no seu tempo, justifica que Ronsard, ao publicar, no mesmo ano, a segunda edição do Livro V das suas Odes, na Elegie à J. de la Peruse com que encerrava a obra, louvasse a bem sucedida ousadia de Jodelle. Depois deste elogio ‘a quente’, insistia, anos mais tarde (1561), no seu Discours à Jacques Grevin, em sublinhar o mesmo sucesso, de um Jodelle que, perante as autoridades máximas (“devant nos rois”), se saíra tão bem com o regresso aos modelos gregos que “Sophocle et Ménandre tant fussent-ils sçavants y eussent peu apprendre”. O próprio Ronsard se serviu do Florilégio de Estobeu, publicado em 1543 em Zurique e, mais tarde, de novo em Paris, no ano de 1552, onde pôde encontrar diversos fragmentos, eróticos, sentenciosos e morais, provindos de autores como Mimnermo, Sófocles, Filémon e Menandro[55].

Apesar, ao que parece, de muito circunscrito, o conhecimento de Menandro prosseguiu no séc. XVII. Racine, na sua comédia Les Plaideurs, inspirada em Vespas de Aristófanes, escreve uma nota prévia, dirigida “au lecteur”, onde se defende da ousadia e das críticas de que a sua criação foi objecto. Trata-se de uma polémica em torno de diferentes propostas e regras da “arte de fazer rir”. Tal receio seria sem sentido se, em vez de Aristófanes, o modelo usado fosse Menandro. É com ironia que Racine[56] protesta: “La régularité de Ménandre et de Térence me sembloit bien plus glorieuse et même plus agréable à imiter que la liberté de Plaute et d'Aristophane”. É verdade que o pouco que se sabia de Menandro dependia de fragmentos, que aliás Racine conhecia e de que foi tradutor[57]. Mas apesar de uma grande ignorância sobre a Comédia Nova em função das perdas graves entretanto sofridas, o prestígio de Menandro prosseguia como eco de uma tradição, que fazia dele, ao lado de Terêncio, um verdadeiro paradigma do género. No mesmo séc. XVII francês, La Fontaine (Oeuvres complètes, ed. H. Régnier, VIII (Paris 1892) 83) voltava a colocar Menandro ao lado de Sófocles, como modelos para comédia e tragédia respectivamente; e Boileau (Dissertation sur la Joconde, ed. Ch. Boudhors (Paris 1942) 83) afirmava ter de Menandro um conhecimento indirecto através de Terêncio. Mais próximo de Plauto, nas suas criações, Molière foi, pelos seus contemporâneos, comparado com Menandro e Terêncio[58]. Gross[59] insiste em que, para além das réplicas latinas, os contemporâneos de Racine, La Fontaine e Boileau, conheciam também Menandro através dos testemunhos indirectos da Antiguidade e regista o caso de Baillet cuja apreciação de Menandro assentava em Quintiliano: “Ménandre avoit l'imagination très féconde, une facilité admirable de s'exprimer avec grace, avec force, et avec beaucoup d'éloquence”. Menandro funcionou, na época, como o “autor de comédia conforme às regras”.

A Espanha é um exemplo expressivo da presença de Menandro, como fica patente da recolha que López Férez[60] fez de vestígios da comédia grega e latina na sua herdeira espanhola a partir do Renascimento. Assim, Luis Vives (1492-1540), no seu De tradendis disciplinis (1531), recomenda, a propósito da pureza do dialecto ático, a leitura, entre outros autores de teatro (Sófocles, Eurípides, Aristófanes), também de Menandro. E não hesita em considerar “abundantes” as referências feitas ao poeta, de que cita várias sentenças. Juan Mal-Lara (1527-1571), na sua Philosophia vulgar, recolhe citações numerosas dos autores gregos e inclui contributos de Menandro. Pedro Juan Núñez, nas Institutiones Grammaticae Linguae Graecae (Valencia, 1555), para provar que o ditongo grego –ou- se devia ler –u-, invoca a transcrição do genitivo grego na forma Menandru. Mais tarde, em 1579-80 ao que parece, o Brocense terá utilizado alguns textos de Menandro, sentenças naturalmente, durante o seu magistério salmantino. Juan Lorenzo Palmireno, responsável por uma assinalável actividade teatral, professor em Valência nos anos 60 do séc. XVI, na sua Fabella aenaria (1574), louvava as virtudes pedagógicas do teatro e, numa tentativa de chegar mais perto do seu público estudantil, propunha-se acolher modelos da contemporaneidade, “abandonando Menandro e Terêncio, para enveredar por um padrão mais popular e actual, com predomínio do castelhano”[61]. Pedro Simón Abril (1577), na obra Las seis comedias de Terencio, louva a influência construtiva que Menandro e Terêncio tiveram sobre o seu auditório; como também o mesmo Simón Abril, na Gramática griega (1586), a primeira escrita em castelhano, entre os textos que recomenda para a aprendizagem das línguas clássicas inclui os trágicos e os cómicos, “Aristófanes e, embora quase completamente perdido, Menandro”. Em Salamanca, Francisco Sánchez de las Brozas lia, em 1579-1580, alguns textos de Menandro. Pedro López de Montoya, professor de retórica e de grego na mesma Universidade, conhece também sentenças menandrinas e outro tanto acontece com Cristóbal de Villalón (1505-1581), que, a propósito da ventura humana, cita Menandro juntamente com Cícero e Platão. Juan de la Cueva (1559-1609), em Los cuatro libros de los inventores de las cosas (1608), inclui Menandro, a par de Filémon, entre os poetas da Comédia Nova que moderaram “o rigor e a aspereza” da Antiga. O Padre Juan Bonifácio (1539-1606), ao excluir Terêncio dos interesses pedagógicos do teatro escolar, recordava-o como “o Menandro latino”, insistindo na velha tradição.

No séc. XVII a mesma tradição prossseguia em Espanha. Lope de Vega, no Arte nuevo de hacer comedias en este tiempo (1609), refere Menandro como modelo de Terêncio e como responsável pela supressão do coro; recorda ainda a simpatia com que Plutarco o colocava em vantagem sobre Aristófanes. Francisco Quevedo y Villegas (1580-1645), nas suas obras Virtud militante, La constancia y paciencia del santo Job e Vida de San Pablo Apostol, faz três referências a sentenças de Menandro. Francisco de Barreda, na Invectiva a las comedias que prohibió Trajano y apología de las nuevas (1622), acusa Menandro de licenciosidade e de excesso, para além de ter sido modelo para Plauto e Terêncio. Juan Pablo Mártir Rizo, na Poética de Aristóteles traducida de latin (1623), considera Menandro modelo de Terêncio pela moderação da linguagem. Francisco Cascales (1564-1642), nas Tablas poéticas (1617), refere concretamente a Andria de Terêncio como exemplo dessa dependência, que considera displicente para o autor latino. José Pellicer de Tovar, na Idea de la comedia de Castilla (1635), louva-o entre os melhores dramaturgos da Grécia. Fr. Manuel de Guerra y Ribera, na Verdadera quinta parte de las comedias del célebre D. Pedro Calderón de la Barca (1682), recorda o Menandro criador de temas amorosos. Censura mais vibrante lhe é feita por este motivo por Juan Caramuel de Lobkowitz, como também pelo Padre José Alcázar, na sua Ortographia Castellana (1690).

Já no séc. XVIII, Ignacio de Luzán (1702-1704), na Poética, continuava a aproximar Aristófanes de Plauto e Menandro de Terêncio, considerando Menandro responsável pelo “esplendor e alinho” da Comédia Nova. Juan Pablo Forner (1756-1797), nas Exequias de la lengua castellana, inclui-o entre os melhores da tradição greco-latina. Pela sua importância, importa citar ainda, no séc. XIX, Mariano José de Larra (1809-1837), na Satírico-mania (1833), que considerava Menandro uma evolução positiva a partir do modelo mais violento de Aristófanes; e sobretudo Juan Valera (1824-1905), que lembra Menandro como modelo de Terêncio e fala da leitura dos fragmentos menandrinos. López Férez[62] chama a atenção para a frequência com que este autor menciona sentenças do poeta da Nea, famosas desde a Antiguidade, e pode testemunhar: “Nos fragmentos que ainda nos restam do poeta cómico Menandro, há tais tiradas e sentenças de um cepticismo melancólico e misantrópico, que Lord Byron as teria invejado”.  

A circulação de sentenças menandrinas, que mantiveram o nome do poeta vivo no séc. XVI, atingiu também Portugal. Disso dão prova as diversas menções que lhe são feitas, de que exemplificamos algumas. António Luís, nas duas edições do seu De pudore (de Antuérpia a de 1537, e de Lisboa a de 1540), cita, com base em Estobeu (Eclogarum physicarum et ethicarum libri II, sermo 32), a propósito do conceito de impudentia, Menander optimus. O infante D. Duarte, na Oração que disse no Real Collegio da Costa, dia de S. Jeronymo, em louvor da Filosofia (1542), entre todo um património de autores clássicos gregos (Homeroxe "Homero"xe "Plutarco", Píndaroxe "Píndaro", Heródotoxe "Heródoto" e Plutarco) e latinos (Cíceroxe "Cícero, Marco Túlio", Quintilianoxe "Quintiliano", os comediógrafos latinos, Valério Máximoxe "Valério Máximo", Virgílioxe "Virgílio" e Séneca), integra Menandro, pelo seu valor como autor de apotegmas e moralista[63]. André de Resende no Discurso pronunciado no Colégio das Artes, em Coimbra (1551), num contexto relativo à importância da justiça, refere-se a Menandro como homo peritissimus, de quem cita a propósito uma sentença: “se fores justo, terás um procedimento conforme à lei”[64]. João de Barros, na Rópica Pnéfema[65], lembra também o sentido da penitência como fomentadora da virtude que apregoa.

Só o séc. XIX, e ainda de forma tímida, conseguiu algo de mais significativo com a recuperação de oito dezenas de versos do Lavrador, publicadas em Genève, em 1898. Já antes, em 1844, se tinha feito um outro achado, de fragmentos da Arbitragem e Fantasma, num manuscrito de Leninegrado. Mas basta seguir o desafio de A. Clota[66] e folhear a edição dos fragmentos publicada por Dubner em 1856 para avaliarmos quão insignificante era o corpus menandrino em meados do séc. XIX[67].

Mas constitui caso único, no que toca à recuperação de autores antigos, a diferença abissal entre o que o mundo conheceu até esta altura e o que o séc. XX veio a conhecer, a partir de 1907, com achados significativos de papiros no Egipto: em primeiro lugar, como é bem sabido, o Papiro do Cairo (séc. V), com trechos longos da Arbitragem, Mulher do cabelo rapado e Rapariga de Samos; e, a meio do século, em 1959, o Papiro Bodmer (séc. IV), que tornou o Misantropo na primeira peça conservada praticamente na íntegra da Comédia Nova ateniense[68]. Estes continuam a ser, para além de outros achados menores, os dois marcos essenciais na recuperação moderna de Menandro.

Repetindo ainda uma vez J. García López[69], será bom recordar que “em nenhum autor antigo como em Menandro será tão grande a diferença entre o que nos havia sido transmitido até finais do séc. passado e o que temos agora”. Um acaso que, mesmo assim, tem por detrás em linha contínua, o génio do poeta. É verdade que o percurso que fez através dos séculos foi acidentado, apagando os aplausos a saudarem o homem de teatro, para fazer avultar as potencialidades pedagógicas que o seu pensamento possuía. Reduzido, durante séculos, à leitura, ou mesmo oculto por trás de uma legenda simbólica – a de “modelo primeiro da arte cómica na Grécia”, em concorrência, diferentemente valorizada, com Aristófanes –, Menandro viria a recuperar a sua verdadeira identidade, com o regresso aos palcos e à admiração do público dos séc. XX e XXI.

 

Parte final de um texto manuscrito de Menandro; onde consta o nome deste autor (Biblioteca Bodmer – Genebra)

 

 

Bibliografia

W. G. Arnott, Menander, Plautus and Terence (Oxford 1975).

P. Bádenas de la Peña, Menandro. Comédias (Madrid 1986).

A. Blanchard, “Progrès récents dans l'édition de Ménandre”, REG 94 (1981) 496-501.

A. Blanchard, “Destins de Ménandre”, Ktema 22 (1997) 213-225.

R. Cantarella, ‘Fata Menandri’, Dioniso 17. 1-2 (1954) 22-37.

R. Cantarella, ‘Aristofane di Bizancio, Menandro e la mimesi’, Rendiconti della classe di scienzemorali, storiche e filologiche dell’ Accademia dei Lincei 24 (1969) 189-194.

H. Chamard, Histoire de la Pléiade I-IV (Paris 1961-1963).

A. Clota, ‘La obra de Menandro’, Helmantica 34 (1960) 103-119.

L. R. Cresci, ‘Terminologia drammatica nella storiografia bizantina dei secoli XI-XII’, Eikasmos 18 (2007) 381-398.

A. Dain, “La survie de Ménandre”, Maia 15 (1963) 278-309.

G. E. Duckworth, The nature of Roman comedy (Princeton 1971).

E. Fantham, ‘Roman experience of Menander in the late Republic and early Empire’, TAPhA 114 (1984) 299-309.

R. C. Flickinger, ‘Terence and Menander’, CJ 26 (1930-1931) 676-694.

C. Gallavotti, ‘Echi di Alceo e di Menandro nei retori tardivi’, RFIC 93. 2 (1965) 135-149.

A. Garzya, ‘Menandro nel giudizio di tre retori del primo Imperio’, RFIC 87. 3 (1959) 237-252.

A. Grilli, ‘Sulle sententiae Menandri’, Paideia 24. 3-6 (1969) 185-194.

N. Gross, ‘Racine’s debt to Aristophanes’, Comparative Literature 17. 3 (1965) 209-224.

J.-M. Jacques, ‘Le Dis exapaton de Ménandre modèle des Bacchides de Plaute’, REA 106 (2004) 23-47.

S. Jaekel, Menandri Sententiae (Leipzig 1964).

M. Lazard, Le théâtre en France au XVIème siècle (Paris 1980).

J. A. López Férez (ed.), História de la Literatura Griega (Madrid 1988).

A. López Férez (ed.), La comedia griega y su influencia en la literatura española (Madrid 1998).

V. Liapis, ‘Notes on Menandri sententiae’, Classica et Mediaevalia 53 (2002) 197-214.

V. Liapis, ‘Further thoughts on Menandri sententiae’, Ellenika 55. 1 (2005) 125-138.

F. Perusino, ‘Menandro e il simposio: nota al POxy. 3705’, in Atti del V Seminario Internazionale di Papirologia (1995) 151-157.

R. Pfeiffer, History of Classical Scholarship from the beginnings to the end of Hellenistic age (Oxford 1968).

S. T. Pinho (ed.), Teatro neolatino em Portugal no contexto da Europa (Coimbra 2006).        [ Links ]

L. Pini, ‘Omero, Menandro e I “classici” latini negli Apophoreta di Marziale’, RFIC 134. 4 (2006) 443-478.

A. Pociña, “La recepción de Menandro em Roma”, in A. Pociña, B. Rabaza, M. F. Silva (eds.), Estúdios sobre Terencio (Granada 2006) 79-108.

Ph. Rance, ‘”Win but do not overwin” – the history of a proverb from the Sententiae Menandri, and a classical allusion in St Paul’s Epistle to the Romans’, Philologus 152. 2 (2008) 191-204.

M. H. Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica II. Cultura Romana (Lisboa 32002).

R. M. M. Sánchez-Elvira, F. García Romero (eds.), Proverbios griegos. Menandro. Sentencias (Madrid 1999).

F. H. Sandbach, Menander. A commentary (Oxford 1973).

A. Schneider, “Le théâtre vu et jugé par les premiers chrétiens”, in J. Soring, O. Poltera, N. Duplain, Le théâtre antique et sa réception (Frankfurt 1994) 81-101.

I. L. Thyresson, “Quattre lettres de Claude Elien inspirées par le Dyskolos de Ménandre”, Eranos 62. 1-2 (1964) 7-25.

R. Tosi, Dicionário de sentenças latinas e gregas (trad. brasileira, São Paulo 1996).

A. Traill, ‘Menander’s “Thais” and the Roman poets’, Phoenix 55. 3-4 (2001) 284-303.

N. G. Wilson, ‘The libraries of the Byzantine world’, GRBS 8. 1 (1967) 53-80.

 

Notas

[1]     L. Pini, ‘Omero, Menandro e I “classici” latini negli Apophoreta di Marziale’, RFIC 134. 4 (2006) 443-478.

[2]     Sobre a existência de “cânones” dos autores gregos nesta época, vide A. Garzya, ‘Menandro nel giudizio di tre retori del primo Imperio’, RFIC 87. 3 (1959) 251-252.

[3]     Cf. R. Pfeiffer, History of Classical Scholarship from the beginnings to the end of Hellenistic age (Oxford 1968) 204-208; A. Blanchard, “Destins de Ménandre”, Ktema 22 (1997) 214.

[4]     Sobre outros testemunhos de tipo arqueológico abonatórios desta mesma popularidade, vide Blanchard, “Destins de Ménandre”, 216-217.

[5]     Sobre as dúvidas suscitadas por esta tradição, de que Pselo teria feito um comentário a 24 peças de Menandro, depositadas numa biblioteca de Constantinopla, vide Blanchard, op. cit., 218 n. 47, 224 n. 83. Sobre as alusões a Menandro feitas por Miguel Pselo, cf. N. G. Wilson, Filólogos bizantinos (Madrid 1994) 229.

[6]     Vide F. Perusino, ‘Menandro e il simposio: nota al POxy. 3705’, in Atti del V Seminario Internazionale di Papirologia (1995) 151-157. Plutarco concretiza a intervenção do teatro de Menandro neste novo terreno, onde se proporciona ocasião para leituras de cenas das suas peças (Moralia 673 b) com muito agrado por parte dos convivas. Precisa até a prática de contratar, com custos elevados, um actor cómico, para se encarregar dessas leituras dramatizadas que, apesar do preço, nem sempre satisfaz o público mais exigente, enquanto os mais complacentes não deixam, mesmo assim, de o aplaudir (531 b; cf. 379 a). Sobre este assunto, cf. E. Fantham, ‘Roman experience of Menander in the late Republic and early Empire’, TAPhA 114 (1984) 299-300.

[7]     Este texto de Plutarco era louvado no Renascimento pela forma aguda como caracterizou os dois poetas, o primeiro paradigmático da Comédia Antiga e o segundo da Nea. Cf. Thomas Pope Blount, Censura celebriorum authorum siue Tractatus in quo varia virorum doctorum de clarissimis cuiusque seculi scriptoribus iudicia traduntur (Genève 1570) 21-22; A. Baillet, Journal des Savants, III (Paris 1722) 438-439.

[8]     S. Jaekel, Menandri Sententiae (Leipzig 1964).

[9]     Cf. A. Garzya, op. cit., 237-252. F. H. Sandbach, Menander. A commentary (Oxford 1973) 2, chama a atenção para o comentário, proporcionalmente amplo, que Quintiliano (Ensino da oratória 10. 1. 69-72) lhe dedica, se comparado mesmo com Homero e Eurípides.

[10]    R. Cantarella, ‘Aristofane di Bizancio, Menandro e la mimesi’, Rendiconti della classe di scienzemorali, storiche e filologiche dell’ Accademia dei Lincei 24 (1969) 189-194.

[11]    A propósito da interferência de Menandro sobre Cecílio Estácio – de difícil análise devido ao estado fragmentário em que nos chegou a produção deste comediógrafo latino –, como também sobre outros comediógrafos romanos para nós quase totalmente perdidos – como Lúcio Afrânio ou Turpílio –, vide A. Pociña, “La recepción de Menandro em Roma”, in A. Pociña, B. Rabaza, M. F. Silva (eds.), Estúdios sobre Terencio (Granada 2006) 88-94. Já Aulo Gélio, Noites Áticas 2. 23, tinha feito uma comparação entre Menandro e a peça de Cecílio Estácio intitulada o Colar.

[12]    Vide Pociña, op. cit., 81-85, e a respectiva informação bibliográfica; G. E. Duckworth, The nature of Roman comedy (Princeton 1971) 30-33.

[13]    A relação entre Bacchides e Dis Exapaton é sistematizada com clareza por A. Pociña, op. cit., 87-88; cf. ainda Duckworth, op. cit., 52-53; M. H. Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica II. Cultura Romana (Lisboa 32002) 85-87; J.-M. Jacques, ‘Le Dis exapaton de Ménandre modèle des Bacchides de Plaute’, REA 106 (2004) 23-47; Sandbach, op. cit., 4-10.

[14]    Cf. Pociña, 92-93; Duckworth, 59-60.

[15]    Cf. Fantham, op. cit., 301, sobre o testemunho de Cícero a respeito de Menandro, como, por exemplo, citações que ocorrem nos seus discursos.

[16]    Op. cit., 449-450.

[17]    É também conhecida a polémica em torno da influência que a famosa comédia de Menandro intitulada Taís, nome de uma cortesã, possa ter tido sobre figuras com o mesmo nome aludidas em Propércio 2. 6. 1-6; Juvenal, Sátiras 3. 93-96, 6. 25-26; Ovídio, Arte de amar 3. 603-605. Sobre o assunto, vide A. Traill, ‘Menander’s “Thais” and the Roman poets’, Phoenix 55. 3-4 (2001) 284-303.

[18]    A propósito da informação vaga de que dispomos sobre representações de Menandro nesta época, vide Fantham, op. cit., 303-304.

[19]    Op. cit., 99.

[20]    Sobre a tradição directa dos manuscritos de textos de Menandro que se situam entre os séc. I e V, vide R. Cantarella, ‘Fata Menandri’, Dioniso 17. 1-2 (1954) 22.

[21]    Pini, op. cit., 448, no entanto, salienta que não se trata, no caso de Marcial, “de um catálogo académico da literatura de qualidade (...), mas, dada a índole da escolha epigramática em que se insere, pretende incluir nas obras que um romano do tempo poderia considerar as mais conhecidas ou as mais familiares, de que lhe tinham falado na escola ou no convívio social, mais susceptíveis de ser oferecidas, dentro das convenções aceites”.

[22]    A literatura epistolar teve, com a Segunda Sofística, uma expansão notável como género lúdico que permitia uma interessante caracterização de grupos sociais da época. Ao mesmo tempo, esta epistolografia artificial empenhou-se em reavivar a presença dos autores da literatura grega antiga. Recorda I. L. Thyresson, “Quattre lettres de Claude Elien inspirées par le Dyskolos de Ménandre”, Eranos 62. 1-2 (1964) 8: “Nas suas cartas, Eliano procura ressuscitar o lavrador ático antigo, como o tinham representado os seus contemporâneos de então e, com esse objectivo, vai buscar a trama da carta, ou o contexto, ou mesmo apenas pormenores marginais, a modelos precisos (...) como os autores cómicos”.

[23]    Sobre este assunto, vide C. Gallavotti, ‘Echi di Alceo e di Menandro nei retori tardivi’, RFIC 93. 2 (1965) 138-139; Thyresson, op. cit., 7-25.

[24]    Op. cit., 139.

[25]    Apesar das referências genericamente elogiosas a Menandro, houve algumas vozes críticas que se fizeram ouvir, a de Pólux, por exemplo, que lhe censuraram a tendência para uma linguagem vulgar e débil, o que pôde também contribuir para alguma restrição futura no impacto do autor.

[26]    G. Mastromarco, ‘La commedia attica antica fra tradizione e innovazione’, in J. A. López Férez (ed.), La comedia griega y su influencia en la literatura española (Madrid 1998) 30.

[27]    Vide A. Schneider, “Le théâtre vu et jugé par les premiers chrétiens”, in J. Soring, O. Poltera, N. Duplain, Le théâtre antique et sa réception (Frankfurt 1994) 81-101.

[28]    Op. cit., 85.

[29]    R. Tosi, Dicionário de sentenças latinas e gregas (trad. brasileira, São Paulo 1996) 601, recorda quanto era famosa já na Antiguidade esta sentença umas vezes atribuída a Menandro, outras a Eurípides. São Jerónimo, Epístolas 22. 29, 130. 18 e Tertuliano, À esposa 2. 3. 3 repetem-na. López Férez, “Estudio sobre la influencia de la comedia griega en la literatura española”, in López Férez, op. cit., 398, recorda que o espanhol Francisco de Monzón, capelão do rei de Portugal, compôs em Lisboa, em 1544, um Espejo del principe christiano, onde defende a importância dos apotegmas; a este propósito refere a mesma citação de Menandro feita por S. Paulo. Outro tanto acontece com Pedro López de Montoya, professor em Salamanca desde 1566 (op. cit., 402-403). A popularidade da mesma sentença é testemunhada por João de Barros que, no Diálogo da Viciosa Vergonha, em 1540, a recorda. Ainda em 1599, esta sentença posta na boca de S. Paulo era recordada por Ludovici Caelii Rhodigini, Lectionum antiquarum libri triginta, 740 C. Outras sentenças de Menandro em S. Paulo são identificadas por Ph. Rance, ‘”Win but do not overwin” – the history of a proverb from the Sententiae Menandri, and a classical allusion in St Paul’s Epistle to the Romans’, Philologus 152. 2 (2008) 199-202.

[30]    Parece, de facto, que algumas peças de Menandro se preservaram até ao séc. VII. Cf. A. Dain, “La survie de Ménandre”, Maia 15 (1963) 278-309.

[31]    Desde a Antiguidade que se instalara a tradição de recolha de antologias de frases sentenciosas, consideradas de grande utilidade escolar (cf. Platão, Leis 811 a). Sobre a tradição, num plano diacrónico, das antologias de provérbios e sentenças, vide A. Andrade, O Cato Minor de Diogo Pires e a poesia didáctica do séc. XVI (tese apresentada à Univ. Aveiro, 2005) 171-191.

[32]    Para alguns estudiosos inspirado nas sentenças recolhidas por Crisipo, o filósofo estóico. Estobeu serviu de fonte privilegiada para inúmeras recolhas de sentenças realizadas ao longo da época bizantina; cf. P. Derron, Pseudo-Focilides. Sentences (Paris 1986) XVII-XVIII; R. M. M. Sánchez-Elvira, F. García Romero (eds.), Proverbios griegos. Menandro. Sentencias (Madrid 1999) 353-355.

[33]    Cf. W. Arnott, ‘Aristaenetus and Menander’s Dyskolos’, Hermes 96. 3 (1968) 384.

[34]    Cf. Blanchard, op. cit., 221.

[35]    Sobre os ecos de fórmulas ou frases menandrinas nos retóricos de Gaza, vide Gallavotti, op. cit., 139-146.

[36]    Cf. Blanchard, op. cit., 219.

[37]    Sobre a importância dos códices bizantinos para a recolha das sentenças de Menandro, vide A. Grilli, ‘Sulle sententiae Menandri’, Paideia 24. 3-6 (1969) 185-194; V. Liapis, ‘Notes on Menandri sententiae’, Classica et Mediaevalia 53 (2002) 197-214; V. Liapis, ‘Further thoughts on Menandri sententiae’, Ellenika 55. 1 (2005) 125-138.

[38]    Cf. P. Bádenas de la Peña, Menandro. Comédias (Madrid 1986) 33-34.

[39]    Op. cit., 189.

[40]    Op. cit., 199.

[41]    Dos fragmentos sentenciosos são célebres os chamados monósticos, citações de um único verso com carácter proverbial e moralista. O Dicionário de Sentenças Gregas e Latinas de R. Tosi (trad. brasil. São Paulo 1996) permite verificar algumas características destes versos: detêm um tom moralista e sentencioso que é muito próprio também de Menandro; são, muitas vezes, de tradição muito antiga e provavelmente vulgarizados no grego coloquial, de onde a linguagem cómica os importou; o teatro é responsável pela sua divulgação e banalização (o que é também o caso evidente de Eurípides); parecem, alguns deles, originais de Menandro na sua expressão essencial; proliferam, a partir daí, numa pluralidade de variantes e traduções, que perduram nas diversas línguas nossas contemporâneas, muitos deles totalmente absorvidos e irreconhecíveis quanto à sua origem. A existência de colectâneas de sentenças atribuídas a Menandro está atestada pelo menos desde o séc. I d. C., e deve ter surgido a partir de um núcleo inicial autêntico que veio sendo, até ao séc. IX, alargado com versos de outros autores. Cf. R. M. M. Sánchez-Elvira, F. García Romero (eds.), Proverbios griegos. Menandro. Sentencias (Madrid 1999) 337-495. Em artigo muito recente, Ph. Rance, “‘Win but do not overwin” – the history of a proverb from the Sententiae Menandri, and a classical allusion in St Paul’s Epistle to the Romans’, Philologus 152. 2 (2008) 194, recorda a abundância, cerca de 40, de manuscritos transmissores destas sentenças, convencionalmente atribuídas a Menandro, pelo carácter sentencioso que era tido como apanágio do seu estilo, embora dos 877 monósticos, apenas 48 sejam de facto criação do poeta, acrescidos de 20 considerados adaptações de versos seus. É interessante lembrar que alguns manuscritos que contêm os Monósticos de Menandro incluem também a Comparatio Menandri et Philistionis, um texto mais tardio em que Menandro e o mimógrafo Filístion de Niceia, do tempo de Augusto, travam um agôn fictício de sentenças.

[42]    Op. cit., 35.

[43]    E remete para a obra de G. Przychocki, De Menandri comici codice in Patriarchali Constantinopolitana olim asservato (Cracovia 1938). Sobre as bibliotecas bizantinas e o seu espólio em termos de autores antigos, vide N. G. Wilson, ‘The libraries of the Byzantine world’, GRBS 8. 1 (1967) 53-80. Este autor, na p. 62, refere-se a esta informação sobre a sobrevivência, em Bizâncio, de peças de Menandro como pouco fiável e uma invenção da época do Renascimento, para concluir que Menandro “sobreviveu provavelmente até aos séc. VI-VII, mas não mais tarde”. Sobre a extinção do género teatral, de natureza profana, na cultura bizantina da época, vide L. R. Cresci, ‘Terminologia drammatica nella storiografia bizantina dei secoli XI-XII’, Eikasmos 18 (2007) 381.

[44]    Sobre o assunto, vide Duckworth, op. cit., 396-433.

[45]    Op. cit., 218-219.

[46]    As doutrinas hermogénicas corriam desde meados do séc. XV na Retórica de Trebizonda e os textos ficaram disponíveis a partir da edição aldina dos Rhetores graeci (1508).

[47]    “Estudio sobre la influencia de la comédia griega en la literatura española”, in J. A. López Férez (ed.), La comedia griega y su influencia en la literatura española (Madrid 1998) 394.

[48]    Vide Colloquia (Torino 2002) 623-641.

[49]    Vide P. Virgílio, DIR, ed. B. Copenhaver (Cambridge (Mass), Harvard UP 2002) 104-106.

[50]    Existe dela uma reedição feita em Portugal, provavelmente impressa nos prelos de Germão Galharde (1536), com o título Polyantheum opus auctoritatibus scripturarum (A. J. Anselmo, Bibliografia das obras impressas em Portugal no séc. XVI [Lisboa 1926] nº. 610).

[51]    Le théâtre en France au XVIème siècle (Paris 1980) 160.

[52]    Cf. Blanchard, op. cit., 224 e n. 85.

[53]    Cf. H. Chamard, Histoire de la Pléiade I-IV (Paris 1961-1963) 8-28. Jodelle foi autor de duas tragédias – Cleópatre e Didon – e de duas comédias – Rencontre e Eugène – de inspiração clássica, de acordo com o testemunho de Étienne Pasquier. Apesar de Buchanan ser já autor de tragédias em latim compostas em Bordéus – duas versões de Alceste e Medeia inspiradas em Eurípides e de duas outras tragédias de assunto bíblico –, só a Medeia foi impressa em Paris, em 1544; as restantes mantiveram-se inéditas.

[54]    Data depois retocada para o ano seguinte.

[55]    Cf. Chamard, op. cit., 70, 192-193, 202.

[56]    J. Racine, Oeuvres, II, ed. Paul Mesnard (Paris 1865-1873) 141, apud N. Gross, ‘Racine’s debt to Aristophanes’, Comparative Literature 17. 3 (1965) 212.

[57]    Apud Gross, op. cit., 212; esta tradução foi publicada no Mercure de France, Jan. 11, 1913, 501-519.

[58]    M. Delcourt, La tradition des comiques anciens en France avant Molière (Paris 1934) 95, apud Gross, op. cit., 215.

[59]    Op. cit., 213.

[60]    Os elementos que aqui refiro foram recolhidos por J. A. López Férez, no seu excelente artigo “Estudio sobre la influencia de la comedia griega en la literatura española”, atrás citado, sobretudo 396-450.

[61]    Cf. V. P. García, “El teatro neo-latino humanístico y escolar en España en el siglo XVI”, in S. T. Pinho (ed.), Teatro neolatino em Portugal no contexto da Europa (Coimbra 2006) 60; S. L. Moreda, ‘Teatro, poética y retórica; La Fabella aenaria de J. L. Palmireno’, ibidem 231.

[62]    Op. cit., 440.

[63]    Vide D. António Caetano de Sousa, Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa, III, 1ª parte (Coimbra 1948) 50-67.

[64]    Cf. M. Cadafaz de Matos, Algumas obras de André de Resende I (1531-1551) (Évora 2000), 329.

[65]    Lisboa, INIC, 1983, 147.

[66]    ‘La obra de Menandro’, Helmantica 34 (1960) 105.

[67]    O mesmo estudioso lembra ainda a edição mais antiga de Meineke, de 1823, precedida de uma existente em 1703, que não iam além de títulos e palavras soltas, conservados por gramáticos, que, mesmo assim, serviram para alimentar o entusiasmo de Goethe (cf. J. P. Eckelmann, Gesprache mit Goethe in der lezten Jahren seines Lebens (Leipzig 41876), na tradução francesa de E. Delerot, I (1883) 214-215.

[68]    Sobre estes achados, vide Sandbach, op. cit., 3-4, 42-49; A. Blanchard, “Progrès récents dans l'édition de Ménandre”, REG 94 (1981) 496-501.

[69]    ‘La comedia nueva. Menandro’, in J. A. López Férez (ed.), História de la Literatura Griega (Madrid 1988) 482.