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Revista de Enfermagem Referência

versão impressa ISSN 0874-0283versão On-line ISSN 2182-2883

Rev. Enf. Ref. vol.serV no.1 Coimbra jan. 2020

 

EDITORIAL

 

Editorial

 

Educação interprofissional e formação de professores em saúde

 

A Educação Interprofissional (EIP), como criadora de espaços para a prática colaborativa, está presente em universidades de quatro continentes há mais de duas décadas e tem favorecido o agrupamento de diversos profissionais numa proposta em que todos aprendam juntos e, juntos, contribuam para melhorar as áreas em que atuam. No âmbito da saúde, em especial, apresenta conceitos robustos e pesquisas que vão ao encontro das necessidades da formação em saúde e da sociedade (Barr, 2015; D’Amour, Goulet, Labadie, Martín-Rodriguez, & Pineault, 2008; Meleis, 2015).

No trabalho em saúde fundamentado na EIP, as exigências transcendem as ações uniprofissionais e encontram-se sob a responsabilidade de equipas multiprofissionais, que valorizam o trabalho cooperativo e desenvolvem ações integradas e dirigidas à saúde dos cidadãos (Furtado, 2007).

Falar sobre EIP requer, necessariamente, enfatizar a importância do conhecimento das profissões, de um atendimento centrado no usuário nos serviços de saúde, do desenvolvimento de habilidades interprofissionais para a formação de equipas e da prestação de cuidados de saúde (D’Amour et al., 2008; Furtado, 2007). Estes princípios encontram-se alicerçados em componentes da abordagem colaborativa e da prática clínica, cujas questões mais complexas podem ser melhor trabalhadas por equipas interprofissionais.

Estamos, portanto, a explicitar a relevância das parcerias entre as equipas de saúde e o usuário num contexto colaborativo e participativo, que privilegia a tomada de decisão compartilhada em torno de questões sociais e de saúde (Furtado, 2007). Estas parcerias exigem destes profissionais um efetivo processo comunicativo, que favoreça sinergias tanto de conhecimentos como de habilidades e atitudes. Ademais, nas ações da prática, a colaboração entre os profissionais exige responsabilidade, coordenação, comunicação, cooperação, assertividade, autonomia, confiança, comprometimento e respeito mútuo.

Embora muito já tenha sido discutido sobre a EIP, é imperativo que os professores das diferentes escolas profissionais e os diversos membros das equipas de saúde se envolvam em diálogos recíprocos que abordem as barreiras fundamentais e mais prevalentes para a formação de equipas equitativas, com o objetivo de transpô-las ou, pelo menos, minimizá-las.

Segundo Barr (2015), as propostas de EIP encontram resistências por parte dos docentes, de escolas profissionais e cursos, bem como de universidades. Segundo o autor, superá-las exige novas perspetivas nos processos de ensino-aprendizagem, formação docente, suporte institucional, recursos financeiros e valorização do corpo docente.

Para Batista e Batista (2016), a possibilidade de introduzir a EIP nos currículos das instituições depende da habilidade, preparação para lidar com as adversidades e responsabilidade dos participantes. Alguns atributos são indispensáveis neste processo: experiência prévia em trabalho interprofissional, métodos interativos de aprendizagem, conhecimento de dinâmicas de grupo, confiança para trabalhar com grupos interprofissionais e uma atitude flexível.

No Brasil (Silva et al., 2019), algumas iniciativas têm propiciado o desenvolvimento de propostas e pesquisas de sucesso mediante a reorganização do modus operandi das suas equipas. Estas iniciativas encontram-se na área da Atenção Básica da Saúde Mental e em hospitais públicos, sobretudo em instituições que assumem, como finalidade e política institucional, favorecer a colaboração interprofissional.

A EIP pode representar oportunidades de formação conjunta para o desenvolvimento de aprendizagens compartilhadas, tanto para docentes como para profissionais, desde que tenham como premissa fundante a melhoria da qualidade da assistência aos usuários de serviços de saúde.

Oportuno se faz discutir este tema considerando que a mudança do perfil epidemiológico, com o aumento da expectativa de vida e das condições crónicas de saúde que requerem acompanhamento prolongado, impõe a necessidade de uma abordagem integral, que contemple as múltiplas dimensões das necessidades de saúde da população (Barr, 2015). Tal facto também denota a relevância da qualidade da comunicação e da colaboração entre os diferentes profissionais envolvidos no cuidado, uma vez que ambas são fundamentais e decisivas para a resolubilidade dos serviços e efetividade da atenção à saúde.

Embora diversas mudanças tenham sido implementadas ao longo dos anos, ainda estamos num cenário que aporta para a tendência dos profissionais de cada área trabalharem de forma isolada e independente das demais, o que explica a manutenção de uma longa e intensa formação também isolada e circunscrita à própria área de atuação.

Autores (Bridges, Davidson, Odegard, Maki, & Tomkowiak, 2011; Silva et al., 2019) defendem que oportunidades de EIP contribuem para a formação de profissionais de saúde mais preparados para uma atuação integrada em equipa, na qual a colaboração e o reconhecimento da interdependência das áreas predominam diante da competição e da fragmentação. Assim, torna-se evidente a importância do debate sobre EIP e a formação de professores, uma vez que é imprescindível haver um processo formativo integrado para a transformação da realidade apresentada nos serviços de saúde, bem como nos cenários universitários. Este argumento é reforçado pelas evidências de que a EIP favorece melhores resultados aos usuários por meio do desenvolvimento de habilidades, conhecimentos e valores necessários para o trabalho em equipa (Peduzzi et al., 2019).

A EIP é um tema relevante e emergente no campo da saúde de âmbito global (Câmara et al., 2016). Entretanto, a formação dos professores que atuam nas carreiras da área de saúde ainda se destaca por utilizar de forma, por vezes inadequada, as referências da interdisciplinaridade ou os constructos da interprofissionalidade.

Existem, mundialmente, vários projetos pedagógicos desenvolvidos que articulam a EIP aos modelos existentes, todavia mudanças são imperativas àqueles que formam profissionais de saúde (Barr, 2015; Bridges et al., 2011; Câmara et al., 2016; D’Amour et al., 2008; Meleis, 2015; Silva et al., 2019). Neste sentido, torna-se necessário um programa de qualificação docente para a EIP que permita a quebra da hegemonia e da uniprofissionalidade existentes nas escolas que oferecem formação universitária em saúde.

Também se torna necessária a sensibilização dos professores para esta exigência contemporânea, com vista ao desenvolvimento de programas educacionais que utilizem estratégias contemporâneas no ensino, consonantes com as inovações nos sistemas de saúde, a fim de garantir investimentos em tempo, energia e recursos na educação interprofissional. No entanto, se não questionarmos a hegemonia desenvolvida e criada por meio de identidades profissionais e diferenciais de poder em saúde, os objetivos da EIP e da prática colaborativa podem não ser alcançados.

 

Prof. Dr. Gilberto Tadeu Reis da Silva

Professor Titular-Livre na Universidade Federal Da Bahia

Bolsista de Produtividade em Pesquisa CNPq - 2

Professor Visitante no Exterior na Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem (UICISA.E), vinculada a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC) - Bolsa CNPq (2019-2020) processo 205736/2018-1.

 

Referências bibliográficas

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D’Amour, D., Goulet, L., Labadie, J. F., Martín-Rodriguez, L. S., & Pineault, R. (2008). A model and typology of collaboration between professionals in healthcare organizations. BMC Health Services Research, 8(1), 1-14. doi:10.1186/1472-6963-8-18

Furtado, J. P. (2007). Equipes de referência: arranjo institucional para potencializar a colaboração entre disciplinas e profissões. Interface: Comunicação, Saúde, Educação, 11(22), 239-255. doi:10.1590/S1414-32832007000200005        [ Links ]

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Interprofessional education and faculty training in health

Interprofessional education (IPE) creates spaces for collaborative practice and is available in universities across four continents for more than two decades. It is a strategy that enables several professionals to learn together and contribute to improving their areas of expertise. In the health area, in particular, it provides robust concepts and studies to meet healthcare training needs and societal needs (Barr, 2015; D’Amour, Goulet, Labadie, Martín-Rodriguez, & Pineault, 2008; Meleis, 2015).

In IPE-based health work demanding goes beyond uniprofessional actions and is under the responsibility of multiprofessional teams who value collaborative work and develop integrated actions for improving citizens’ health (Furtado, 2007).

When talking about IPE, it is necessary to emphasize the importance of the professions’ knowledgebase, a patient-centered care in health services, and the development of interprofessional skills for team training and healthcare delivery (D’Amour et al., 2008; Furtado, 2007). These principles are grounded in components of the collaborative approach and the clinical practice, whose most complex issues can be better addressed by interprofessional teams.

We are, therefore, highlighting the importance of partnerships between health teams and patients within a collaborative and participatory context, which supports shared decision-making about social and health issues (Furtado, 2007). These partnerships require an effective communication process that promotes synergies of knowledge, skills, and attitudes between these professionals. In addition, the collaboration between professionals in clinical practice requires responsibility, coordination, communication, cooperation, assertiveness, autonomy, trust, commitment, and mutual respect.

Although much has been discussed about IPE, it is imperative that the faculty of different professional schools and the members of the healthcare teams engage in reciprocal dialogs to address the most important barriers to the creation of equitable teams, with a view to overcoming or, at least, minimizing them.

According to Barr (2015), IPE proposals encounter resistance from faculty, professional schools and courses, as well as universities. According to the author, overcoming these obstacles requires new perspectives about the teaching-learning processes, faculty training, institutional support, financial resources, and faculty appreciation.

Batista and Batista (2016) believe that the possibility of introducing IPE in institutional curricula depends on the participants’ skills, preparation for coping with adversities, and responsibility. Some attributes are essential in this process: prior experience in interprofessional work, interactive learning methods, knowledge of group dynamics, confidence for working with interprofessional groups, and a flexible attitude.

In Brazil (Silva et al., 2019), some initiatives have contributed to the development of successful proposals and studies based on the reorganization of the teams’ modus operandi. These initiatives have been developed in the area of mental health in primary care and hospital settings, especially in institutions that promote interprofessional collaboration as part of their institutional purpose and policy.

IPE may represent opportunities for joint training for both faculty and professionals to share their knowledge, as long as it is based on the founding premise of improvement of the quality of care provided to the users of health services.

This is an appropriate time to discuss this issue given that the change in the epidemiological profile, namely the increase in life expectancy and chronic conditions that require long-term care, imposes the need for a comprehensive approach that takes into account the multiple dimensions of the population’s health needs (Barr, 2015). This also demonstrates the relevance of the quality of the communication and collaboration between the various professionals involved in care delivery, since both are crucial and decisive for the delivery of effective health care services.

Although several changes have been implemented over the years, we are still in a scenario that contributes to the trend of having the professionals from each area working in an isolated and independent way from the other areas, which explains the maintenance of a long and intense training that is isolated and restricted to their area of expertise.

Some authors (Bridges, Davidson, Odegard, Maki, & Tomkowiak, 2011; Silva et al., 2019) argue that opportunities for IPE are essential for training health professionals to work more effectively in teams, where the collaboration and the recognition of the interdependence of the areas predominate over competition and fragmentation. The importance of discussing IPE and faculty training is evident. An integrated formative process is essential to transform the reality of health services and university settings. This argument is reinforced by evidence that IPE improves patient outcomes through the development of skills, knowledge, and values necessary for teamwork (Peduzzi et al., 2019).

IPE is a relevant and emerging topic in the health field worldwide (Câmara et al., 2016). However, the training of faculty members working in the health area still stands out for using, sometimes inappropriately, the references of interdisciplinarity or the constructs of interprofessionality.

Several pedagogical projects have been developed worldwide that associate IPE to the existing models; however, changes to those who train health professionals are imperative (Barr, 2015; Bridges et al., 2011; Câmara et al., 2016; D’Amour et al., 2008; Meleis, 2015; Silva et al., 2019). Therefore, an IPE-based faculty development program is essential to break the hegemony and the uniprofessionality in the schools offering university-level programs in the health area.

It is also important to raise the faculty’s awareness of this contemporary demand, with a view to the development of educational programs that use contemporary strategies in the teaching process, in line with the innovations in the health systems, while ensuring investment in time, energy, and resources for IPE. However, if we do not question the hegemony created and promoted by professional identities and power differentials in health, the objectives of IPE and collaborative practice may not be achieved.

 

Prof. Dr. Gilberto Tadeu Reis da Silva

Lecturer-Full Professor of the Federal University of Bahia

Research Productivity Fellow CNPq - 2

Visiting Professor at the Health Sciences Research Unit: Nursing (UICISA.E), hosted by the Nursing School of Coimbra (ESEnfC) - CNPq Grant (2019-2020) Process no. 205736/2018-1.

 

References

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