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Revista de Enfermagem Referência

versão impressa ISSN 0874-0283

Rev. Enf. Ref. vol.serIV no.18 Coimbra set. 2018

http://dx.doi.org/10.12707/RIV18018 

ARTIGO DE INVESTIGAÇÃO

RESEARCH PAPER

 

O empoderamento das mulheres em vulnerabilidade social

Empowerment of women in situations of social vulnerability

El empoderamiento de las mujeres en vulnerabilidad social

 

Joanara Rozane da Fontoura Winters*
http://orcid.org/0000-0002-5564-1521

Ivonete Teresinha Schülter Buss Heidemann**
http://orcid.org/0000-0001-6216-1633

Ana Rosete Camargo Rodrigues Maia***
http://orcid.org/0000-0002-3353-1225

Michelle Kuntz Durand****
https://orcid.org/0000-0003-3660-6859

 

* Mestre em enfermagem, doutoranda em enfermagem do Programa de Pós Graduação – PEN- UFSC., Enfermeira, Instituto Federal de Santa Catarina, 89220-618, Santa Catarina, Brasil [joanaraw@gmail.com]. Contribuição no artigo: pesquisa bibliográfica; experimentação; recolha de dados; análise de dados e discussão, escrita do artigo. Morada para correspondência: Rua Marcílio Dia, 332 Bairro, América Joinville, 89220-618, Santa Catarina, Brasil.

** Agregação, Professora Associada, Universidade Federal de Santa Catarina, 88040-900, Santa Catarina, Brasil [ivoneteheideman@gmail.com]. Contribuição no artigo: pesquisa bibliográfica, análise de dados e discussão, escrita do artigo.

*** Agregação, Professora Associada, Universidade Federal de Santa Catarina, 88040-900, Santa Catarina, Brasil [ana.maia@ufsc.br]. Contribuição no artigo: pesquisa bibliográfica, análise de dados e discussão, escrita do artigo.

**** Agregação, Professora Colaboradora, Universidade do Estado de Santa Catarina, 88035-901, Santa Catarina, Brasil [michakd@hotmail.com]. Contribuição no artigo: pesquisa bibliográfica, análise de dados e discussão, escrita do artigo.

 

RESUMO

Enquadramento: O empoderamento conduz à liberdade do indivíduo, fazendo-o participar nas ações coletivas, transformando-as e exercendo o papel de cidadão no seu ambiente.

Objetivo: Identificar como as mulheres percebem o seu empoderamento e a sua autonomia após a participação no Programa Mulheres Mil.

Metodologia: Pesquisa qualitativa, baseada no itinerário de pesquisa de Paulo Freire. Participaram 9 mulheres inscritas no Programa Mulheres Mil.

Resultados: A metodologia problematizadora utilizada pela enfermagem é um caminho para o desenvolvimento do empoderamento das mulheres. As participantes reconheceram a sua realidade, identificando as temáticas relacionadas com a violência contra a mulher e ao processo ensino-aprendizagem, permitindo a reflexão sobre a sua perspetiva de empoderamento, autonomia e transcendência da sua condição de vulnerabilidade.

Conclusão: Projetos e programas, criados com o propósito de promover a inclusão educativa, social e económica, como no caso analisado neste estudo, envolvendo mulheres em vulnerabilidade, tornam-se importantes meios para uma melhor qualificação profissional e consequente autonomia económica destas mulheres. Destaca-se também a melhoria na qualidade de vida e a possibilidade de empoderamento das participantes.

Palavras-chave: educação; aprendizagem; autonomia pessoal; educação em saúde

 

ABSTRACT

Background: Empowerment leads to personal freedom, encouraging individuals’ participation in collective actions, transforming them, as citizens in their own environment.

Objectives: To identify women’s perceptions of their empowerment and autonomy after participation in the Thousand Women Program (Programa Mulheres Mil).

Methodology: Qualitative study based on Paulo Freire’s research itinerary. The sample was composed of 9 women participating in the Thousand Women Program.

Results: The problematization methodology used by nursing is a way of increasing women’s empowerment. The participants acknowledged their reality and identified topics related to violence against women and the teaching-learning process, reflecting on their perceptions of empowerment, autonomy, and overcoming their situation of vulnerability.

Conclusions: Projects and programs with the purpose of promoting the educational, social, and economic inclusion of women in situations of vulnerability are important for improving these women’s professional qualifications and, consequently, their economic autonomy, quality of life, and empowerment.

Keywords: education; learning; personal autonomy; health education

 

RESUMEN

Marco contextual: El empoderamiento conduce a la libertad del individuo, le hace participar en las acciones colectivas, transformarlas y ejercer el papel de ciudadano en su ambiente.

Objetivo: Identificar cómo las mujeres perciben su empoderamiento y su autonomía tras la participación en el Programa Mujeres Mil.

Metodología: Investigación cualitativa, basada en el itinerario de investigación de Paulo Freire. Participaron 9 mujeres inscritas en el Programa Mujeres Mil.

Resultados: La metodología problematizadora utilizada por la enfermería supone un camino para el desarrollo del empoderamiento de las mujeres. Las participantes reconocieron su realidad, identificaron las temáticas relacionadas con la violencia contra la mujer, el proceso de enseñanza-aprendizaje, lo que les permitió reflexionar sobre su perspectiva de empoderamiento, su autonomía y la trascendencia de su condición de vulnerabilidad.

Conclusión: Proyectos y programas creados con el propósito de promover la inclusión educativa, social y económica, como en el caso analizado en este estudio, que involucra a las mujeres en el tema de la vulnerabilidad, se convierten en importantes medios para una mejor cualificación profesional y la consecuente autonomía económica de estas mujeres. Destaca también la mejora en la calidad de vida y la posibilidad de empoderamiento de las participantes.

Palabras clave: educación; aprendizaje; autonomía personal; educación en salud

 

Introdução

O Programa Mulheres Mil (PMM) foi implementado no Brasil, em cooperação com o governo canadense, no período de 2007 a 2011. De acordo com o Guia Metodológico do Sistema de Acesso, Permanência e Êxito (Ministério da Educação, 2015, p. 5), o principal objetivo do PMM era “viabilizar o ingresso e a permanéncia com éxito da população feminina brasileira em situação de vulnerabilidade social nas instituições de educação profissional, visando sua inclusão educativa e sua promoção social e económica”. Por meio da formação e do aumento do nível deescolaridade destas mulheres, pretendeu-se proporcionar condições para uma melhoria do seu potencial de empregabilidade e da sua qualidade de vida, e da qualidade de vida da sua família e comunidade (Portaria nº 1.015, de 21 de julho de 2011).

Na teoria da transição, Meleis (2012), refere que as experiências situacionais, vivenciadas pelas pessoas em vulnerabilidade extrema, resultam num desequilíbrio psicossocial com dificuldades para o desempenho do autocuidado. A vulnerabilidade tem um caráter não probabilístico e potencia o aparecimento de doenças a todo e a cada indivíduo que vive num determinado conjunto de condições. Para atingir um processo de transição saudável, Meleis (2012) salienta ainda que a enfermagem precisa de conhecer estratégias promotoras de saúde, que fortaleçam o indivíduo e as suas famílias e resgatem o empoderamento e autonomia (Meleis, 2012).

Neste sentido, o programa brasileiro, baseado no canadense, teve as suas atividades pedagógicas e dialógicas baseadas nas ideias de Paulo Freire. Entretanto, o maior desafio metodológico do PMM foi estabelecer o diálogo entre as alunas, criar o vínculo pedagógico entre elas e adaptar a sua conceção filosófica, considerando todas as peculiaridades do local onde decorria o curso. Assim, o resultado foi indubitavelmente uma diminuição das diferenças sociais entre as mulheres envolvidas no programa (Kanaan, 2015).

Em 2003, o Governo Federal, com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, instituiu, por meio da Lei nº 10.683, de 28 de maio de 2003, a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM), que tem o como objetivo: promover a igualdade entre homens e mulheres e combater preconceitos e discriminação herdadas de uma sociedade patriarcal e excludente (Câmara dos Deputados, 2003).

A criação desse espaço e de políticas públicas para mulheres representou um avanço no reconhecimento da mulher como cidadã e um fortalecimento das conquistas e lutas igualitárias (Kanaan, 2015).

Desta forma o (PMM) foi delineado com uma conceção metodológica problematizadora, em que os indivíduos fazem parte do processo ensino-aprendizagem. Esta proposta de ensino deve basear-se na aprendizagem e na reflexão, estimulando a crítica, para que os indivíduos se tornem sujeitos ativos, capazes de modificar a sua realidade, procurando a autonomia e consequentemente o empoderamento (Silveira, Ribeiro, Oliveira, Silva, & Lima, 2017). Face ao exposto, este estudo de natureza qualitativa, baseado no referencial teórico metodológico de Paulo Freire, tem como finalidade contribuir para o conhecimento sobre o empoderamento e sobre a transformação da mulher na sociedade. O objetivo deste estudo foi identificar, por meio de metodologias problematizadoras, como as mulheres, após participarem no PMM, percebem o seu empoderamento e a sua autonomia.

 

Enquadramento

A libertação do indivíduo é possível por meio do empoderamento, encorajando à participação em espaços comunitários, potenciando o exercício da cidadania (Tello, 2017).

O termo empoderamento geralmente é traduzido da língua inglesa da palavra empowerment e apresenta dificuldade de interpretação quando traduzido para o português e espanhol. É uma palavra que pode expressar domínio, poder, conquista e posse. Mas também expressa domínio sobre alguém, o que significa controlo, poder, autoridade. Também tem conotação de emancipação, que significa tornar livre e independente (Souza et al., 2014).

Sob um olhar crítico, o empoderamento está ligado à transformação e à consciencialização de uma sociedade, o que leva à libertação. É o resultado de uma práxis de reflexão (Freire, 2011).

As conceções metodológicas do PMM, fundamentadas em conceitos da pedagogia crítica como autonomia e problematização da realidade, encorajada pela enfermagem, proporcionam o empoderamento para a superação das situações de opressão, promovendo a saúde e o bem-estar. “O indivíduo é agente central de todo o processo de transformação” (Tello, 2017, p. 101). Desta forma, o processo de transformação rompe com os paradigmas e a “liberdade melhora o potencial das pessoas para cuidar de si mesmas e para influenciar o mundo, questões centrais para o processo de desenvolvimento” (Sen, 2010, p. 33).

O Empoderamento ocorre quando um indivíduo participa do desenvolvimento do outro, quando é permitido ao sujeito o caminho da aprendizagem, da autonomia, da transformação individual e social (Tello, 2017).

Neste sentido, optou-se pelo uso da palavra empoderamento em vez do descritor poder indexado no vocabulário dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS).

 

Questão de Investigação

Como percebem as mulheres o seu empoderamento e a sua autonomia após participarem no PMM?

 

Metodologia

Trata-se de um estudo qualitativo, baseado no referencial teórico e metodológico de Paulo Freire, que compreende as seguintes etapas: investigação temática, codificação e descodificação e desvelamento crítico. O estudo foi realizado no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) com as alunas matriculadas no PMM.

O PMM foi instituído no IFSC, Campus Joinville, no ano de 2013, com o desafio de atender mulheres da região Norte e Nordeste do Estado que se encontrassem em situação de vulnerabilidade social e que preenchessem os requisitos do programa (ter de baixos rendimentos ou desempregada e ter pouca ou nenhuma escolaridade).

Foram utilizadas estratégias para conseguir a inscrição das mulheres no PMM, conforme exigência da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC) e do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Para a divulgação do programa, as investigadoras mantiveram contacto com entidades representativas da comunidade e fizeram uso de equipamentos sociais que auxiliaram no recrutamento das mulheres interessadas em participar do programa.

A amostra foi constituída por nove alunas do sexo feminino, com idade entre 20 e 60 anos, convidadas a participar nos círculos de cultura, por meio das redes sociais, no segundo semestre de 2016, e, reiterado o convite, posteriormente, por correio eletrónico. Após ouvirem explicações sobre o objetivo da pesquisa, as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A pesquisa qualitativa não estabelece número de participantes, utiliza amostras pequenas, não aleatórias, determinadas a partir da necessidade de informações (Minayo, 2017). Desta forma, justifica-se o pequeno número de participantes.

Os temas foram investigados por meio dos círculos de cultura propostos por Freire, que são encontros onde se propõe o diálogo em torno de situações da realidade social. Esses encontros ocorreram entre setembro e outubro de 2016, totalizando dois círculos.

Os círculos de cultura foram realizados no auditório do IFSC, tendo duração aproximada de 3 horas. Os círculos de cultura possibilitaram o diálogo entre as pesquisadoras e as participantes e fomentaram a reflexão durante cada fala.

No primeiro momento de investigação temática, ocorreu uma tempestade de ideias: todas as participantes queriam falar sobre as suas experiências numa dinâmica de acolhimento.

Esta discussão produziu nove temas geradores, que foram então reduzidos a cinco temas principais. Esses tópicos foram codificados, descodificados e revelados, o que permitiu às participantes perceberem um novo papel das mulheres na sociedade.

A abordagem dos temas pesquisados foi realizada com todas as mulheres participantes do estudo, como propõe o método de Paulo Freire. O referencial teórico de Freire favoreceu a abordagem crítica dos temas que surgiram nos círculos de cultura (Durand & Heidemann, 2013). O foco das reflexões ocorridas nesta etapa foi o empoderamento, o reconhecimento da mulher enquanto cidadã, a educação problematizadora e as metodologias de ensino-aprendizagem.

Com vista a registar os encontros, as falas dos participantes foram gravadas em arquivo digital e transcritas na íntegra após os círculos de cultura, conforme previamente autorizado pelas participantes, que foram identificadas pela letra M seguida de um numeral arábico.

A investigação dos temas foi realizada após aprovação pelo Comité de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) por meio do parecer CAA n. 56800516.2.0000.0121, atendendo às exigências da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa.

 

Resultados

Instituição do programa

Foram organizados dois cursos, ministrados no campus Joinville do IFSC, no período da tarde: Gestão e Manutenção do Lar e Informática Básica e Mídias Sociais. Às alunas, foi dada a opção de se matricularem num dos dois cursos.

As mulheres matriculadas no programa tinham baixo ou nenhum nível de escolaridade e idade entre 20 e 60 anos; tinham emprego de baixo rendimento ou estavam sem emprego (normalmente mulheres do lar); a sua estrutura familiar estava em situação de vulnerabilidade; as suas experiências educacionais eram negativas; moravam na periferia com difícil acesso aos transportes, saúde e educação.

Assim, o “Programa promove o crescimento humano dessas mulheres, por meio da melhoria de suas condições de vida (sociocultural e econômica), na medida em que as transformam em cidadãs, social e economicamente emancipadas” (Ministério da Educação, 2015, p. 4).

Investigação temática

O primeiro círculo de cultura foi um encontro de descontração entre as alunas e as professoras, em que cada uma pôde falar um pouco sobre si, afinal estávamos há algum tempo sem nos encontrarmos. Este momento foi muito proveitoso e carinhoso. Também foi importante, uma vez que permitiu explicar os objetivos da investigação e do encontro e investigar os temas geradores.

Neste primeiro círculo, todas as participantes falaram da sua experiência no programa e sobre a sua importância. Para que as mulheres se sentissem à vontade, após diálogo e conversas, foi dada oportunidade para que expressassem os seus sentimentos, através de desenhos, palavras ou frases. Neste momento, foram levantados 25 temas. Durante o processo reflexivo desta primeira etapa, foram destacados alguns temas relacionados com as necessidades das mulheres e que refletem a sua realidade. Estes temas foram encaminhados para a etapa de codificação e descodificação. São eles: (1) violência contra a mulher; (2) posicionamento da mulher na sociedade; (3) processo ensino-aprendizagem; (4) relação professor-aluno; (5) respeito; (6) amor; (7) transformação; (8) diálogo; (9) relações familiares.

Codificação e descodificação

Dos nove temas geradores, dois temas foram expressivamente trabalhados pelos participantes nos círculos de cultura: violência contra a mulher e processo ensino-aprendizagem.

Os círculos de cultura aconteceram de forma horizontal e dialógica, respeitando as participantes. À medida que os dois temas foram sendo codificados e descodificados, expressavam-se as situações que envolviam essas temáticas. O diálogo com as participantes permitiu a manifestação subjetiva de problemas imediatos que interferiam no seu quotidiano.

Desta forma, as participantes foram contando a sua história, até que o primeiro tema que emergiu foi a violência contra a mulher. Neste momento, pôde-se refletir a respeito do assunto e da importância da palestra com a delegada da Delegacia de Proteção da Mulher, que explicou sobre a violência, os seus tipos e como agir em caso de abuso.

Eu moro com meus filhos, um deles é dependente químico. Ele me ofendia, xingava, falava palavrão e eu ficava triste e chegava a chorar. Daí lembrei da palestra com a delegada, que falou que é crime também ataque verbal, não só o físico. Um dia ele começou a me xingar e tive coragem e falei: se continuar a me xingar eu vou ser obrigada a ir na delegacia da mulher e te denunciar, porque isso que você está fazendo é crime, não está me respeitando enquanto mulher, mãe, ser humano, vou chamar a polícia. (M1; setembro de 2016)

O diálogo sobre esta temática reforçou o entrosamento entre as mulheres, que conseguiram refletir sobre a violência, sobre o valor da mulher na sociedade e sobre o empoderamento, superando as suas fragilidades. As participantes conseguiram falar sobre os seus anseios. Muitas delas também relataram que se conseguem impor, como mostra o discurso a seguir: “Eu sou casada há 43 anos e ele foi meu primeiro namorado. Estamos juntos há 46 anos e eu faço comida quando quero. Eu não sou submissa ao meu marido. Ele é meu companheiro, é meu presente de Deus” (M3; setembro de 2016).

Ainda sobre o empoderamento, algumas mulheres falaram sobre a superação dos seus limites com o que aprenderam nos cursos de informática básica, noções de ética, valores e cidadania: “Foi através do programa que aprendi a mexer no computador, tenho Face, Zap Zap. Fiz outros cursos; não fico mais parada” (M2; setembro de 2016).

“Tive uma aula de alemão. Fiquei pensando: ‘o que vou aprender?’. Mas a professora ensinou a cultura, roupas, história . . . coisas que jamais imaginei. Isso é o diferente. Jamais achei que aprenderia“ (M1; setembro de 2016).

Os temas levantados nos círculos de cultura serviram para enriquecer o debate e a reflexão durante os círculos de cultura, o que reforçou o empoderamento.

Outro tema discutido foi o método pelo qual os professores ensinavam, pois muitas mulheres tinham pouca ou nenhuma escolaridade, mas todas demonstraram que aprenderam muito durante o curso pela forma como foi ministrado e pelas metodologias utilizadas, que despertaram o interesse das mulheres, conforme depoimento: “Foi através das aulas que eu aprendi que tomei coragem de voar e seguir meus sonhos” (M4; setembro de 2016).

As aulas eram dinâmicas em grupos: “Nós tínhamos que falar sobre o que construímos. Fiz muito curso, mas esse aqui aprendi muito. Aula diferente” (M6; outubro de 2016).

Nesta discussão, as mulheres demonstraram também que o diálogo, o amor e a relação entre professor e aluno é fundamental para que se tenha êxito no processo ensino-aprendizagem, como demonstrado a seguir: “As professoras chegavam sempre alegres, abraçavam, perguntavam se estava precisando de alguma coisa. As coordenadoras dispostas a ajudar, sempre falando uma palavra de carinho, de apoio” (M5; outubro de 2016).

Esta reflexão trouxe ao grupo a valorização da autoestima e reforçou o empoderamento das mulheres. Apesar da pouca escolaridade, as mulheres sentiam-se seguras para estudar e aprender cada vez mais, incentivadas a procurar outros cursos, no sentido de um aperfeiçoamento cada vez maior, como demonstrado nas falas a seguir: “Foi através do Programa Mulheres Mil que concluí o curso de qualificação de Gestão de Armazém. Isso me impulsionou” (M8; outubro de 2016).

“Aquela aula de maquiagem foi muito mais do que ensinar maquiagem; foi nos ensinar o que é SER mulher. Senti realmente Mulher. Foi muito importante” (M2; setembro de 2016).

Percebe-se que durante os círculos de cultura as mulheres entenderam o quanto são importantes, o empoderamento e o papel da mulher na sociedade e que só através do diálogo e de metodologias inovadoras se consegue ultrapassar a barreira do ensino e da educação. É o que se depreende da fala a seguir: “Foi depois da palestra da Doutora que eu tive coragem e fui denunciar o meu marido. Ele não me batia, mas ficava-me vigiando o tempo todo. Tomei coragem” (M9; outubro de 2016).

Desvelamento crítico

A abordagem crítica ocorreu aquando do processo de ação-reflexão-ação preconizado por Freire. No decorrer dos círculos de cultura, após a codificação e descodificação dos temas violência contra a mulher e processo ensino-aprendizagem, refletimos sobre o empoderamento, que foi fortemente desvelado. Ao trabalharmos os temas emergentes, percebemos a importância do destaque e desvelamento do tema empoderamento, o qual ainda transita timidamente entre as falas das participantes.

Nesta etapa da retomada abordagem dos temas, realizou-se uma retrospetiva de forma reflexiva e dialógica em que se problematizou a importância da participação das mulheres nos diferentes espaços quotidianos. Esta abordagem, somada a verdadeiros empoderamentos sociais e políticos, permitiu, às participantes, a tomada de consciência e posição crítica perante as descobertas, o que pode ser claramente percebido no diálogo a seguir: “Eu tinha muita dificuldade de aprender. Não queria fazer o curso. Entendia tudo porque as aulas não era como era na escola. Era diferente A professora ensinava diferente, então conseguia e isso fez com que eu quisesse aprender mais” (M2; setembro de 2016).

 

Discussão

No Brasil, o conceito de vulnerabilidade foi amplamente discutido e estendido a três diferentes e complementares situações: individual, programática e social. Assim, vê-se que a vulnerabilidade se relaciona com desigualdades sociais, iniquidades em saúde e barreiras de acesso a serviços e práticas de saúde, causando fragilidades familiares e individuais em razão da violação de direitos, carências ou ausência de suporte (Chaves & Ratto, 2018).

Neste estudo, percebe-se nas mulheres do PMM a presença da vulnerabilidade feminina percorrendo todos os locais pelos quais ela transita, fomentando assim a implementação do PMM. A proposta de procurar novas estratégias de empoderamento feminino ultrapassa os objetivos do programa. A mudança de paradigmas e a possibilidade de novas rotinas, mesmo quando as participantes se dirigiam às dependências do campus para participar nas aulas, foram propostas como enfrentamento e quebra de rotinas, permitindo maior autonomia e envolvimento social.

O movimento que vai da dimensão individual para a partilha parte do encontro e do reconhecimento recíproco entre sujeitos, possibilita o sentimento de pertencer à rede e, ao mesmo tempo, gera disponibilidade para compartilhar fragilidades, assim como fortalecer e aproximar potencialidades (Albuquerque, Moura, Queiroz, Leite, & Silva, 2017).

Os encontros serviram de partilha acerca das vivências das participantes, emergindo como tema gerador a violência contra a mulher, vivenciada principalmente nos espaços domiciliares. Esta temática deve ser prioritariamente trabalhada pela enfermagem por meio de estratégias que incitem ao envolvimento da comunidade, promovendo o empoderamento, coesão social, a solidariedade e a diminuição das desigualdades sociais (Popay et al., 2015).

Nas duas últimas décadas, constatou-se, de forma crescente, que a violência contra a mulher pode contribuir para um maior risco de danos relacionados com a saúde física e mental. Neste sentido, a violência doméstica tem sido reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e por alguns governos como um problema legítimo de direitos humanos (Bozzo, Matos, Beraldi, & Souza, 2017).

No Brasil, segundo a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República:

O total de atendimentos da Central de atendimento à Mulher do 1º semestre de 2016, 12,23% (67.962) correspondeu a relatos de violência. Dentre os relatos, 51,06% corresponderam à violência física; 31,10%, violência psicológica; 6,51%, violência moral; 1,93%, violência patrimonial; 4,30%, violência sexual; 4,86%, cárcere privado; e 0,24%, tráfico de pessoas. (Câmara dos Deputados, 2003, 2015, p. 5).

A violência está associada a várias causas e não tem relação com raça, credo ou aspetos socioculturais e económicos. Refere-se a poder e tem o intuito de ofender, dominar, desvalorizar a mulher e torná-la inferiorizada perante a sociedade. Este conjunto de ações proporciona a vulnerabilidade das mulheres (Costa, Lopes, & Soares, 2015).

Neste sentido, na relação da mulher com o parceiro, mulheres em situação de viloléncia encontram-se em situação crítica e de insegurança, muitas vezes em situação de isolamento social, sem trabalho, subjulgadas a dominação do seu companheiro. As mulheres têm direito de trabalhar, de se alimentar, de descansar, de se relacionar e de gozar da sua liberdade (Albuquerque et al., 2017).

Assim, reforça-se que as relações de género estão intimamente ligadas a relações de poder. A absorção do empoderamento e, portanto, do poder, é diferente para mulheres e homens, o que também sugere que, por este motivo, os significantes de empoderamento e poder sejam diferentes para os géneros (Campos, Silva, Miranda, & Cappelle, 2017).

Neste estudo, percebe-se a utilização de metodologias inovadoras como ferramentas de empoderamento e de reflexão entre as participantes. A educação problematizadora propõe-se a mobilizar a construção de conhecimentos a partir de experiências significativas.

A aprendizagem significativa estabelece-se a partir das experiências dos educandos. O estudante constrói o seu pensamento crítico-reflexivo durante as imersões nos diferentes cenários. Este processo é essencial para a autonomização dos estudantes para a resolução dos problemas (Winters, Prado, Waterkemper, & Kempfer, 2017).

Na metodologia inovadora, o mediador tem o papel de facilitador da aprendizagem, na qual o diálogo predomina. O mediador é o agente transformador que tem um papel libertador, e o educando é o protagonista no processo de aprendizagem, que procura o conhecimento. Desta forma, neste processo de ensino-aprendizagem, o ser humano é sujeito da sua própria aprendizagem, procurando o empoderamento e a autonomia.

As metodologias inovadoras e problematizadoras visam contribuir para a formação cidadã em comportamento sustentável, saúde, direito da mulher, inclusão digital, cooperativismo, proteção ambiental, relacionamento e cultura. Por meio destas metodologias, no PMM ocorre “o crescimento humano dessas mulheres, por meio da melhoria de suas condições de vida (sociocultural e econômica), na medida em que as transformam em cidadãs, social e economicamente emancipadas” (Ministério da Educação, 2015, p. 4).

O empoderamento não é algo que ocorre naturalmente como ocorrem os processos de desenvolvimento biológico, é uma construção, uma conquista, à medida que as mulheres se tornam mais autónomas, reforçam o seu poder e transformam a sua realidade meio da aprendizagem (Kanaan, 2015).

O empoderamento também pode ser o resultado da autonomia e da atuação na tomada de decisões, na transformação da realidade e na melhoria do bem-estar social (Marinho & Gonçalves, 2016).

Como limitações do estudo salienta-se: o pouco tempo de contacto com as mulheres, sendo que a pesquisa com itinerário de pesquisa de Paulo Freire para a sua efetivação requer uma relação estreita entre os envolvidos, com vínculo, justamente para que haja um aprofundamento das discussões.

 

Conclusão

A utilização de círculos de cultura, ancorados no pensamento teórico-filosófico-político de Paulo Freire, abriu a oportunidade de inclusão social e educativa para as mulheres participantes; proporcionou um espaço de acolhimento e diálogo horizontal sem posição definida de saber e de poder, o que lhes incutiu um sentimento de confiança, acolhimento e autoestima pessoal; permitiu refletir criticamente sobre a vida, e tomar consciência de sua existência, reelaborando o conhecimento da sua realidade.

Esta abordagem de inclusão proporcionou às mulheres participantes dos círculos uma aprendizagem reflexiva que as tornou capazes de viver a vida e enfrentar as limitações e adversidades emergentes no seu quotidiano familiar e social. O empoderamento destas mulheres conferiu-lhes poder e saber na abordagem de questões que as oprimiam, como as diferentes formas de violência (doméstica, de género, exclusão pela condição económica e baixa escolaridade), criando novas oportunidades por meio do desenvolvimento da consciência crítica em permanente processo reflexivo.

Este desvelar da realidade tornou importante a participação destas mulheres, na medida em que houve um entendimento e reconhecimento da sua força e energia através da reflexão, do diálogo horizontal, da amorosidade entre facilitador e participantes e da utilização de tecnologias inovadoras de cuidado e respeito para com o outro, de acolher, de dar posição de poder, de escuta sensível e de dar esperança. O uso de métodos inovadores e tecnologias de cuidado pode ser considerado uma pedagogia do ser e da esperança, da emancipação e da transformação de todas as formas de opressão e de poder, um caminho de libertação e construção de seres, ou mulheres cidadãs.

Como contribuição, salientamos a relevância da investigação participativa como ferramenta de propulsão para reflexões e intervenções sobre a realidade das mulheres. Neste aspeto, a enfermagem destaca-se como estratégia potencial de interlocução entre comunidades vulneráveis e a assistência em saúde. A enfermagem, por meio do diálogo nos Círculos de Cultura e com interação sociocultural, possibilitou o empoderamento e consequente fortalecimento das participantes envolvidas.

Enfatiza-se que devem ser desenvolvidas oportunidades de acolhimento de grupos vulneráveis em espaços formais de educação e ensino. Estes espaços devem promover a troca de saberes e informações de empoderamento de mulheres, estimulando assim a sua participação social, e libertação de todas as formas de opressão e exclusão, garantindo um sentido de esperança para si, para a sua família e comunidade.

 

Referências bibliográficas

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Recebido para publicação em: 03.04.18

Aceite para publicação em: 05.07.18

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