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Revista de Enfermagem Referência

versão impressa ISSN 0874-0283

Rev. Enf. Ref. vol.serIV no.9 Coimbra maio 2016

http://dx.doi.org/10.12707/RIV15067 

ARTIGO DE INVESTIGAÇÃO

 

Crianças como cuidadores: uma investigação sobre a perspetiva dos enfermeiros da região Autónoma da Madeira

Children as caregivers: a research study on the perspective of nurses from the autonomous Region of Madeira

Niños como cuidadores: una investigación sobre la perspectiva de los enfermeros en la Región Autónoma de Madeira

 

Carla Andreia Pinto*; Ana Sofia Filipe Marote**; Pedro Miguel Nunes Pedrosa***; Maria do Céu Barbieri Figueiredo****

* RN., Enfermeira, Clinique Saint Louis, Chambourcy, 78300, França [carla.pinto.enf@gmail.com]. Contribuição no artigo: revisão da literatura; desenho do estudo; desenho do questionário; recolha de dados; análise dos dados e discussão; escrita do artigo. Morada para Correspondência: 13 Grande Rue 1 er Etage, Chambourcy, 78300, França.

** RN., Enfermeira, Cirurugia Vascular, Mid Essex Hospital Services, NHS Trust Broomfield Hospital, CM1 7ET Essex, Inglaterra [anasofiamarote@gmail.com]. Contribuição no artigo: revisão da literatura; desenho do estudo; desenho do questionário; recolha de dados; análise dos dados e discussão; escrita do artigo.

*** RN., Enfermeiro, Medicina 1C, Centro Hospitalar Lisboa Norte, EPE - Hospital de Santa Maria, 1649-035, Lisboa, Portugal [pedrosapedrosa27@hotmail.com]. Contribuição no artigo: revisão da literatura; desenho do estudo; desenho do questionário; análise dos dados e discussão; escrita do artigo.

**** Ph.D., Professora Doutora, Escola Superior de Enfermagem do Porto, 4200-072, Porto. Portugal [ceu@esenf.pt]. Contribuição no artigo: revisão da literatura; desenho do estudo; desenho do questionário; análise dos dados e discussão.

 

RESUMO

Enquadramento: Não há registos, em Portugal, sobre crianças como cuidadoras. A literatura internacional realça que esta é uma área importante de intervenção dos profissionais de saúde.

Objetivos: Analisar a perspetiva dos enfermeiros dos cuidados de saúde primários da Madeira sobre a problemática das crianças como cuidadoras e conhecer as áreas de intervenção de enfermagem junto destas.

Metodologia: Estudo quantitativo, descritivo, com aplicação de um questionário a uma amostra de 157 enfermeiros da Região Autónoma da Madeira

Resultados: Dos enfermeiros, 23% refere que já contactou com crianças cuidadoras, crianças que cuidam dos avós (29%), dos pais com doença psiquiátrica (25%) e dos pais com doença crónica (21%). Foram identificadas como áreas de intervenção de Enfermagem o ensino, treino de competências, suporte individual e aconselhamento.

Conclusão: O envelhecimento e as doenças psiquiátricas aumentam a probabilidade de uma criança assumir o papel de cuidadora. Propomos a replicação desta investigação em Portugal continental assim como de estudos de natureza qualitativa, explorando o papel da pessoa dependente e da criança cuidadora.

Palavras-chave: criança; cuidadores; enfermeiros; papel do profissional de enfermagem

 

ABSTRACT

Background: In Portugal, there are no records of children as caregivers. The international literature highlights that this is an important area of intervention for health professionals.

Objectives: To analyze the primary care nurses' perspective about young caregivers in the Autonomous Region of Madeira and identify areas of intervention.

Methodology: A quantitative and descriptive study was conducted based on a questionnaire applied to a sample of 157 nurses of the Autonomous Region of Madeira.

Results: Among the participating nurses, 23% had already contacted with young caregivers, 29% with young caregivers caring for their grandparents, 25% with young caregivers caring for parents with mental disorders, and 21% with young caregivers caring for parents with chronic diseases. The following areas of nursing intervention were identified, education, skills training, individual support and counselling.

Conclusion: The aging of the population and the high prevalence of mental disorders increase the probability of children assuming the role of caregivers. We recommend that this study be replicated in mainland Portugal. Qualitative studies should also be conducted on the role of the dependent person and the young caregiver.

Keywords: child; caregivers; nurses; role of the nursing professional

 

RESUMEN

Marco contextual: En Portugal no hay registros sobre los niños como cuidadores. La literatura internacional destaca que esta es un área importante de intervención de los profesionales de la salud.

Objetivos: Analizar la perspectiva de los enfermeros de atención primaria de Madeira (Portugal) sobre la problemática de los niños como cuidadores y conocer las áreas de intervención de la enfermería.

Metodología: Se trata de un estudio cuantitativo de perfil descriptivo para el cual se autoadministró un cuestionario a una muestra ocasional de 157 enfermeros de Madeira.

Resultados: El 23 % de los enfermeros indica que ya tuvo contacto con niños cuidadores. Las situaciones identificadas fueron: niños que cuidan de los abuelos (29 %); niños que cuidan de los padres con enfermedad psiquiátrica (25 %), y niños que cuidan de los padres con enfermedad crónica (21 %). Las áreas de intervención de la enfermería identificadas fueron: enseñanza, práctica de competencias, apoyo individual y asesor.

Conclusión: El envejecimiento y las enfermedades psiquiátricas aumentan la probabilidad de que los niños asuman el papel de cuidadores. Se propone realizar esta misma investigación en Portugal Continental, así como estudios cualitativos para explorar el papel de la persona dependiente y del niño cuidador.

Palabras clave: niños; cuidadores; percepción; enfermeras; papel del profesional de enfermería

 

Introdução

Estima-se que a população que necessitará de cuidados de saúde, nomeadamente da prestação de cuidados, será superior à população ativa (Siskowski, 2006). Com o aumento do número de famílias monoparentais e famílias nucleares, quando um dos membros adoece e há necessidade de assegurar o papel de provedor, a evidência aponta que as crianças assumem o papel de prestadoras de cuidados (Marote, Pinto, Vieira, Barbieri-Figueiredo, & Pedrosa, 2012).

A importância do apoio social para lidar com doenças crónicas no seio da família tem sido, há muito, objeto de investigação e discussão científica. Em contrapartida, a forma como ocorre a reestruturação dos papéis familiares tem sido descurada, razão pela qual este tema tem despoletado uma maior atenção científica em enfermagem (Metzing, Schnepp, Hübner, & Bücher (2006).

Designa-se por crianças prestadoras de cuidados, crianças que fornecem assistência substancial, de forma regular, a familiares ou membros que coabitem na mesma casa e que necessitem de ajuda devido a doença crónica, física ou mental, debilidade associada à idade ou outras condições. Estas crianças assumem uma determinada responsabilidade, muitas vezes apoiando nas atividades de vida diárias, que, pelo menos nas sociedades ocidentais, não são normalmente destinadas a crianças. Geralmente são crianças e adolescente até aos 18 anos de idade (Becker & Becker, 2008; Marote et al., 2012; Siskowski, 2006; Warren, 2007).

Este tipo de cuidados pode incluir uma ou mais das seguintes áreas: cuidados pessoais (banho, alimentar, vestir/despir…), gestão de medicação, gestão do domicílio, supervisão, acompanhamento aos serviços de saúde e suporte emocional. As crianças podem prestar cuidados direta ou indiretamente e o fato de assumirem as responsabilidades de saúde de um adulto por si só já engloba o âmbito do cuidar (Siskowski, 2006; Robson, Ansell, Huber, Gould, & van Blerk, 2006; Obadina, 2010). Torna-se importante referir que o assumir deste papel está intimamente relacionado com o contexto demográfico e sociocultural das populações (Becker, 2007; Obadina, 2010).

Vários estudos apuraram o número de crianças prestadoras de cuidados, mas a maioria concluiu que sabemos muito pouco acerca da real dimensão sobre as crianças como prestadoras de cuidados (Aldridge & Becker, 1994; Gays, 2000). Como resultado da quebra da rede familiar e do reduzido número de filhos na família, as crianças podem ser a única pessoa disponível para a prestação de cuidados.

É notório que cada vez mais a população Portuguesa retarda o ciclo de vida quanto à formação da família. As perspetivas de emprego e de casamento são adiadas e por consequência é retardado o início do ciclo parental, sendo que, em 2005, a idade média do nascimento do primeiro filho era de 30 anos. Se a este facto aliarmos o aumento de uma população mais envelhecida (em Portugal em 2050 a população idosa poderá atingir os 32%), em que se desenvolvem patologias crónicas com um certo nível de dependência cada vez mais cedo, ou seja, entre os 40 e 50 anos, grande parte dos filhos destas pessoas tem grande probabilidade de vivenciarem o papel de crianças prestadoras de cuidados (Instituto Nacional de Estatística, 2011).

A família demonstra claramente muita dificuldade em aceitar pessoas fora do contexto familiar para prestar cuidados e alguns dos recetores de cuidados estão relutantes em envolver os vizinhos ou amigos. Isto deve-se ao facto destes preferirem que a realidade vivida fique entre a família. Mesmo assim, a longo prazo, os adultos permitem esse apoio, ao contrário das crianças que não estão tão dispostos a aceitar ajuda de vizinhos ou mesmo de apoio social (Aldrige & Becker, 1994).

Esta investigação surge na sequência de uma revisão integrativa da literatura (Marote et al., 2012) em que verificamos a crescente evidência internacional sobre esta temática e a sua ausência a nível nacional, pelo que este estudo na Região Autónoma da Madeira pode abrir uma janela a esta realidade esquecida e oculta em Portugal. Desta forma, o estudo realizado tem como objetivos: analisar a perspetiva dos enfermeiros dos cuidados de saúde primários da Região Autónoma da Madeira (RAM) sobre a problemática das crianças como cuidadoras e conhecer as áreas de intervenções identificadas por esses enfermeiros aquando do contacto com estas crianças.

 

Enquadramento

O conhecimento sobre o papel das crianças cuidadoras é extremamente limitado. No entanto, no Reino Unido, em 2001, identificaram-se 175 000 crianças cuidadoras (Obadina, 2010). Todavia, estima-se que nesta zona existam cerca de 700 000 crianças cuidadoras, 8% do total de crianças (Marote et al., 2012; Howard, 2010). Já na Austrália foram identificadas 169 900 crianças cuidadoras (3,6%), nos Estados Unidos da América (EUA) 1,3 a 1,4 milhões de crianças cuidadoras (3,2%) entre os 8 e os 18 anos (Obadina, 2010) e na Alemanha estima-se que hajam mais de 200 000 crianças cuidadoras (Metzing-Blau & Schnepp, 2008). Se transpusermos esta realidade para os dados portugueses teremos cerca de 66 000 crianças e jovens cuidadores em Portugal (3% do total de crianças).

Para além da escassa referência desta realidade, nas sociedades atuais existem determinados fatores que favorecem que a criança assuma o cuidado de um adulto. São exemplos disso, a elevada prevalência de famílias monoparentais, o aumento da esperança média de vida, a ausência de outra pessoa para assumir o papel de cuidador (Siskowski, 2006), a dificuldade em aceitar pessoas de fora do contexto familiar para prestar cuidados (Aldridge & Becker, 1994), os escassos recursos materiais e financeiros, a natureza e extensão da doença/deficiência, o aumento da idade média da mãe aquando do primeiro filho, o conceito de família e os valores familiares, as expectativas/crenças, a estrutura e dinâmica de relacionamento familiar (Warren, 2007; Becker, 2007; Metzing-Blau et al., 2006).

As crianças cuidadoras são difíceis de identificar devido ao seu silêncio. A evidência aponta para a falta de suporte e ajuda às crianças cuidadoras por parte da família, amigos, vizinhos e profissionais de saúde (Schlarmann, Metzing-Blau, & Schnepp, 2011).

O conhecimento dos profissionais de saúde sobre as crianças cuidadoras tem aumentado. No entanto, continua sem visibilidade uma vez que as necessidades destas crianças continuam a não ser identificadas e satisfeitas (Obadina, 2010; Schlarmann et al., 2011). Esta negligência pode estar ligada às limitações de tempo, de recursos, à falta de conhecimento sobre a existência desta realidade, bem como à subestimação ou menosprezo do seu papel como cuidadoras (Adridge & Becker, 1994; Obadina, 2010; Schlarmann et al., 2011; Marote et al., 2012).

Pese embora estas dificuldades, os profissionais de enfermagem devem atentar a esta realidade uma vez que a aquisição do papel de prestador de cuidados conduz à adição de um papel aos papéis normais do indivíduo. Assim, quando as expectativas comportamentais se alteram significativamente, implica que o prestador de cuidados tenha de reorganizar a sua rotina diária (Schumacher & Meleis, 2007). Segundo os mesmos autores, a aquisição do papel de prestador de cuidados é um tipo específico de transição de papéis na família que ocorre em resposta a alterações na saúde, no papel desempenhado nos relacionamentos, nas expectativas ou nas competências, que causam diminuição no autocuidado do elemento da família afetado, necessitando de um cuidado acrescido por parte dos outros

 

Questão de Investigação

Formularam-se como questões de investigação para este estudo: Qual a perspetiva dos enfermeiros dos cuidados de saúde primários da RAM sobre a temática crianças como cuidadoras? Que necessidades foram identificadas nas crianças cuidadoras e suas famílias? Foram desenvolvidas intervenções de enfermagem junto destas crianças?

 

Metodologia

Realizou-se um estudo quantitativo de tipo descritivo, com uma amostra ocasional de 157 enfermeiros dos cuidados de saúde primários a exercer a sua atividade nos 47 centros de saúde da RAM.

Os dados foram colhidos através de um questionário elaborado pelos autores, com base numa revisão da literatura (Marote et al., 2012). O questionário de auto preenchimento, com nove questões de escolha múltipla/fechada, solicitava justificação em todas as respostas visando obter a perspetiva dos enfermeiros sobre a realidade das crianças como cuidadoras e a caracterização das crianças cuidadoras assim como as intervenções dos enfermeiros perante estas crianças. O questionário foi submetido a um teste piloto, com enfermeiros com as mesmas características da amostra, enfermeiros que exerciam as suas funções em centros de saúde do Porto, pertencentes a Administração Regional de Saúde do Norte.

Levaram-se em conta os aspetos ético-legais, tendo sido para o efeito contactada a Comissão de Ética do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM) que aprovou e validou o projeto a 2 de dezembro de 2011.

A recolha dos dados decorreu entre abril e julho de 2012. Os critérios de inclusão no estudo foram: ser enfermeiro a exercer em cuidados de saúde primários da RAM e estar disponível para participar.

Dois investigadores deslocaram-se à RAM e apresentaram o estudo junto dos potenciais participantes. Os questionários foram distribuídos em todos os 47 centros de saúde. Posteriormente recolheram-se os 157 questionários preenchidos, assim como o respetivo consentimento informado.

Os dados recolhidos foram lançados numa base de dados no programa informático Microsoft Excel. Os dados quantitativos foram analisados através da verificação das frequências, expressas em percentagem (Minayo, 2014). Na análise dos dados qualitativos organizaram-se as respostas agrupando-as por semelhanças e padrões.

 

Resultados

Participaram na pesquisa 157 enfermeiros dos 47 centros de saúde da RAM, num total de 420 profissionais de enfermagem, pelo que obtivemos resposta de cerca de 37% dos enfermeiros dos cuidados de saúde primários. Dos enfermeiros inquiridos, 140 são do sexo feminino (89%) e 17 do sexo masculino (11%). A média de idade é de 36 anos, sendo a idade mínima 22 anos e a máxima 64 anos. O tempo de exercício profissional, em centro de saúde, é, em média, de 10 anos.

Quando questionados se consideram que uma criança poderia assumir o papel de cuidadora, dos 157 enfermeiros inquiridos 34 (22%) consideram que uma criança pode assumir o papel de cuidadora enquanto 117 (74%) opinam que uma criança não pode desempenhar estas funções e 6 (4%) enfermeiros não responderam.

Como se verifica na Tabela 1, são várias as razões apontadas pelos 34 enfermeiros que consideram que a criança pode ser cuidadora: 27 (79%) justificam a sua resposta realçando que a idade é um fator muito importante no assumir do papel de cuidador, 12 enfermeiros (35%) justificam com a maturidade da criança, suficiente para desempenhar as funções de cuidador, e seis (18%) alegam que este assumir de papel depende da natureza dos cuidados, número idêntico (seis enfermeiros) dos que justificam o assumir quando a criança é o último recurso. Finalmente três enfermeiros (9%) justificam o assumir do papel de cuidador caso a criança apresente capacidade física e emocional para desempenhar tal papel e o mesmo número argumenta que a criança pode assumir esse papel se for supervisionado por adultos, enquanto um enfermeiro (3%) argumenta que a criança ou adolescente pode ser cuidadora se já tiver uma experiência de vida compatível com o cuidar de outra pessoa. Dos enfermeiros que responderam afirmativamente, três (9%) dos enfermeiros não justificaram a sua resposta.

 

 

As razões invocadas pelos 117 enfermeiros que consideram que as crianças não podem assumir o papel de cuidadores, são sobreponíveis, embora pela negativa. Assim 39 enfermeiros (33%), argumentaram que a criança é imatura e com baixa responsabilidade para cuidar de outra pessoa, 29 (25%) justificaram com o baixo desenvolvimento físico, intelectual e emocional de uma criança e 13 enfermeiros (12%) defendem que esta função é da responsabilidade de adultos. A idade, falta de competência e, também, o facto de considerarem que a criança precisa de vigilância e viver a sua infância, foram os argumentos referidos por sete enfermeiros (6%) a cada item. Seis dos enfermeiros (5%) alegaram que é contra os direitos da criança e três enfermeiros (3%) justifica que as crianças têm falta de conhecimento e experiência de cuidar. O facto de não fazer parte da cultura europeia foi argumentada por um enfermeiro (1%) assim como o papel das crianças cuidadoras sendo uma tarefa pesada para as crianças, como mostra a Tabela 2. Onze enfermeiros (9%) não responderam.

Como se pode verificar na Tabela 3, 115 enfermeiros (73%) nunca contactaram, na sua prática, com uma criança a cuidar. Por outro lado, 25 enfermeiros (16%) afirmaram que na sua prática já contactaram com uma criança cuidadora e 11 enfermeiros (7%) referiram que não contactaram com uma criança a prestar cuidados mas tiveram conhecimento da situação por outro enfermeiro.

Na Tabela 4 verificamos que dos enfermeiros que já contactaram com crianças como cuidadoras, ou tiveram conhecimento da situação através de outro, oito (22,5%) referiram que as crianças participavam nos cuidados a avós dependentes, sete (19%) referiram que a criança participava nos cuidados a pais com doença psiquiátrica, enquanto seis (17%) enfermeiros depararam-se com a situação de crianças a cuidar de pais com doença crónica não especificada. Sete dos enfermeiros (19%) não responderam e oito (22,5%) destes descreveram situações de cuidar que não se enquadram na definição de criança como cuidadora, nomeadamente cuidar de irmãos mais novos.

A Tabela 5 apresenta as necessidades em cuidados de enfermagem que os enfermeiros que contactaram com crianças como cuidadoras identificaram. Assim, oito enfermeiros (53%) identificaram necessidades de intervenção no âmbito do ensino e treino de competências, sete (47%) enfermeiros consideraram a necessidade de suporte individual e aconselhamento, cinco (33%) enfermeiros a necessidade de contacto social e recreação, quatro enfermeiros (27%) identificaram a necessidade de informação (Ex: condições dos seus pais, serviços, etc.), três (20%) enfermeiros a necessidade de assistência prática e um enfermeiro (7%) considerou a necessidade de apoio dos familiares. Um dos enfermeiros (7%) não teve contacto direto com a criança, enquanto um outro opinou que nenhuma das opções de resposta é uma das necessidades das crianças como cuidadora.

 

Discussão

Neste estudo cerca de 22% dos enfermeiros reconhecem que uma criança pode assumir o papel de cuidador. Dos 74% dos enfermeiros que acham que a criança não deve assumir o papel de cuidador, 33% argumentam que a criança é imatura e não têm responsabilidade para cuidar de outrem, 25% consideram que a criança apresenta baixo desenvolvimento físico, intelectual e emocional e 12% acham que é uma responsabilidade de adultos e não de crianças. Estes resultados vão ao encontro de resultados de outros estudos que realçam que os profissionais de saúde têm negligenciado esta realidade possivelmente pela limitação de tempo, de recursos, falta de conhecimento sobre a existência desta realidade, bem como à subestimação ou menosprezo do papel das crianças como cuidadoras (Marote et al., 2012; Obadina, 2010; Aldridge & Becker, 1994).

No estudo apresentado verificou-se que 23% dos enfermeiros afirmaram que na sua prática já contactaram com uma criança a prestar cuidados ou teve conhecimento da situação por outro enfermeiro. Este número é um resultado díspar face a resultados de investigações realizadas nos EUA, Reino Unido e Austrália (Becker & Becker, 2008; Obadina, 2010; Metzing-Blau et al., 2006). Esta discrepância de valores, como sublinha esta investigação, tem por base o conhecimento extremamente limitado desta temática. Não obstante, acredita-se que na RAM o número de crianças cuidadoras seja maior do que aquelas reconhecidas (Howard, 2010; Metzing-Blau et al., 2006).

De entre os enfermeiros que verificaram que a criança é o cuidador ou tiveram conhecimento através de outro profissional, 22,5% participam nos cuidados a avós dependentes por limitações associadas à idade, 19% são casos relacionados com pais com doença psiquiátrica e 17% são relacionados com cuidados a pais com doença crónica não especificada. As características da pessoa dependente presentes nesta análise são corroboradas pela literatura (Warren, 2007; Robson et al., 2006). Há que salientar ainda que 22,5% das respostas dos participantes que afirmaram já ter contactado com esta situação não se enquadram na definição de crianças como cuidadoras, uma vez que cuidar de irmãos mais novos saudáveis faz parte do ciclo natural de vida e as situações de mães adolescentes referem-se ao foco de enfermagem de parentalidade. Este número realça, mais uma vez, o desconhecimento e falta de atenção para esta realidade.

Quanto às necessidades das crianças cuidadoras identificadas pelos enfermeiros que contactaram com a realidade, 53% destacaram a necessidade de ensino e treino de competências, 47% dos enfermeiros a necessidade de suporte individual e aconselhamento, 33% dos enfermeiros reconheceram a necessidade de contacto social e recreação, 27% identificaram a necessidade de informação (ex.: condições dos seus pais, serviços, entre outros), 20% sinalizaram a necessidade de assistência prática e 7% dos enfermeiros consideraram que a criança cuidadora necessita de apoio dos familiares. Mais uma vez, estes dados vão ao encontro da evidência científica que sumariza a necessidades das crianças cuidadoras em três vertentes: apoio psicológico, educação com formação prática e informação e sistemas sociais de apoio (Becker & Becker, 2008; Marote et al., 2012; Obadina, 2010; Metzing-Blau et al., 2006). O tipo de tarefas e responsabilidades desempenhadas pelas crianças como cuidadoras da Ilha da Madeira são semelhantes às dos adultos cuidadores, como atestam os estudos sobre esta temática (Warren, 2007; Becker, 2007; Obadina, 2010).

Como limitação deste estudo sublinha-se a não familiaridade com o conceito de criança como cuidadora, pese embora este estivesse explícito no questionário.

 

Conclusão

Este estudo veio aflorar uma realidade ainda por explorar e pouco conhecida e debatida na comunidade de enfermagem. Embora as opiniões dos enfermeiros sejam distintas, verifica-se que a criança como cuidadora é uma realidade do nosso país, à qual a comunidade de enfermagem não pode estar alheia. Neste estudo a maioria destas crianças cuida de avós ou pais com doenças psiquiátricas. Os enfermeiros que estiveram em contacto com esta realidade depararam-se com um conjunto de necessidades por parte destas crianças que incluem ensino e treino de competências, suporte individual, contacto social, informação, assistência prática e apoio de familiares.

Parece evidente que as crianças cuidadoras em todo o mundo podem ter mais em comum do que aquilo que as separa geograficamente e culturalmente uma vez que as suas tarefas e responsabilidades são muito similares. Cabe-nos a nós enfermeiros, olhar para estas crianças, como alvo dos nossos cuidados, sendo estas um elemento singular, com necessidades específicas, mas inserido numa família e numa situação social própria.

Os enfermeiros têm grandes responsabilidades em garantir o bem-estar psicossocial destas crianças, pelo que devemos continuar a apostar na investigação e determinar a melhor maneira de intervir e ajudar estas crianças a ter um desenvolvimento biopsicossocial saudável. O conhecimento mais aprofundado, acerca das atividades desempenhadas pelas crianças cuidadoras, permitirá uma abordagem proactiva da problemática, favorecendo, no futuro, intervenções preventivas e de cuidados individualizados. Neste sentido, para além da pertinência da replicação desta investigação em Portugal continental sugerimos ainda estudos de natureza qualitativa, em que seria interessante explorar o papel da pessoa dependente e da cuidadora, identificando os fatores facilitadores e inibidores desta relação terapêutica.

 

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Recebido para publicação em: 26.10.15

Aceite para publicação em: 28.03.16

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