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Revista de Enfermagem Referência

versão impressa ISSN 0874-0283

Rev. Enf. Ref. vol.serIV no.2 Coimbra jun. 2014

http://dx.doi.org/10.12707/RIII12148 

ARTIGO DE INVESTIGAÇÃO

 

Perceção do adolescente com paralisia cerebral acerca da qualidade da vinculação

Perception of the adolescent with cerebral palsy about the quality of attachment

La percepción de los adolescentes con parálisis cerebral sobre la calidad del apego

 

Maria do Carmo Sousa*; Beatriz Araújo**; Margarida Vieira***

* Doutoranda em Enfermagem na Universidade Católica Portuguesa, Instituto de Ciências da Saúde/Porto; Escola Superior de Enfermagem de Vila Real-UTAD, 5000-232, Vila Real, Portugal [carmosousa@utad.pt].

** Doutoramento em Ciências de Enfermagem; Professor Associado convidado; Universidade Católica Portuguesa, Instituto de Ciências da Saúde, 4200-072, Porto, Portugal [baraujo@porto.ucp.pt]. Morada para correspondência: Travessa do Carregal, n.º 7, Palmeira, 4700-687, Braga, Portugal.

*** Doutoramento em Filosofia, especialidade de Filosofia Contemporânea; Professor Associado; Universidade Católica Portuguesa, Instituto de Ciências da Saúde, 4200-072, Porto, Portugal [mmvieira@porto.ucp.pt].

 

Resumo

Enquadramento: A paralisia cerebral é uma síndrome que afeta o adolescente e família podendo alterar padrões de relacionamento e a perceção sobre a vinculação com pais e amigos.

Objetivos: Identificar as diferenças na perceção da qualidade da vinculação de adolescentes, com e sem paralisia cerebral, aos pais e amigos, relacionadas com a deficiência.

Metodologia: Estudo descritivo/correlacional, com uma amostra aleatória constituída por 66 adolescentes do norte de Portugal (33 saudáveis a estudar numa escola publica e 33 com paralisia cerebral a frequentar um Centro de Paralisia Cerebral) com capacidades intelectuais compatíveis com a compreensão dos instrumentos de recolha de dados.

Na colheita de dados utilizamos o Inventory of Parents and Peer Attachement.

Resultados: Mostram que não existem diferenças estatisticamente significativas entre os grupos na vinculação global. A única diferença estatisticamente significativa verificou-se na dimensão alienação, referente aos amigos. Os scores nas dimensões confiança e comunicação são elevados e na alienação, baixos, concluindo-se que os adolescentes dos dois grupos percecionam a sua vinculação como de alta segurança.

Conclusão: Estes resultados poderão ser relevantes no planeamento das intervenções de enfermagem, junto dos adolescentes com paralisia cerebral, porquanto permitem um melhor conhecimento das características do seu desenvolvimento psicoafetivo.

Palavras-chave: adolescente; paralisia cerebral; vinculação.

 

Abstract

Background: Cerebral palsy is a syndrome affecting the adolescent and the family, which can change relationship patterns and the perception of the attachment to parents and peers.

Objectives: To identify the disability-related differences in the perception of adolescents with and without cerebral palsy of the quality of attachment to parents and peers.

Methodology: Descriptive/correlational study, with a random sample composed of 66 adolescents from Northern Portugal (33 healthy adolescents studying at a public school and 33 adolescents with cerebral palsy attending a Centre for Cerebral Palsy), who were intellectually capable of understanding the data collection instruments.

Data were collected using the Inventory of Parent and Peer Attachment.

Results: No statistically significant differences were found between groups in the overall attachment. The only statistically significant difference was found in the alienation dimension, referring to peers. The scores obtained in the trust and communication dimensions were high, while those found in the alienation dimension were low, which allowed concluding that adolescents in both groups perceived their attachment as being of high security.

Conclusion: These results may be relevant to plan nursing interventions among adolescents with cerebral palsy as they provide a better understanding of the characteristics of their psycho-affective development.

Keywords: adolescent; cerebral palsy; attachment.

 

Resumen

Marco contextual: La parálisis cerebral es un síndrome que afecta al adolescente y a la familia, y que puede cambiar los patrones de relación y la percepción sobre el apego hacia los padres y amigos.

Objetivos: Identificar las diferencias en la percepción de la calidad del apego de los adolescentes, con y sin parálisis cerebral, hacia los padres y los amigos, en relación con la discapacidad.

Metodología: Estudio descriptivo/correlacional con una muestra aleatoria de 66 adolescentes del norte de Portugal (33 sanos que estudian en una escuela pública y 33 con parálisis cerebral que van a un centro de parálisis cerebral) con capacidades intelectuales compatibles con el entendimiento de los instrumentos de recolección de datos.

En la recolección de datos usamos el Inventory of Parents and Peer Attachement.

Resultados: Los resultados muestran que no existen diferencias estadísticamente significativas entre los grupos en las dimensiones del apego. La única diferencia estadísticamente significativa se encontró en la dimensión de la alienación, referente a los amigos. Las puntuaciones obtenidas en las dimensiones de la confianza y la comunicación son altas y, en la alienación, bajas. La conclusión es que los adolescentes de ambos grupos consideran su apego como de alta seguridad.

Conclusión: Estos resultados pueden ser relevantes en la planificación de las intervenciones de enfermería en los adolescentes con parálisis cerebral, ya que permiten una mejor comprensión de las características de su desarrollo psicoafectivo.

Palabras clave: adolescente; parálisis cerebral; vinculación.

 

Introdução

A investigação relacionada com o impacto do adolescente com paralisia cerebral na família é limitada.

A adolescência de um filho com paralisia cerebral é um período de particular stress, pelos medos e receios relacionados com a independência, a sexualidade e as decisões acerca do seu futuro. É nesta fase que os amigos têm um papel relevante, dado poderem servir de apoio e incentivo para o desempenho das tarefas desenvolvimentais e conseguir o bem-estar e o equilíbrio socioemocional do adolescente com paralisia cerebral.

A família utiliza recursos descritos como facilitadores dos processos de adaptação, como sejam a capacidade para desenvolver e manter uma rede social e o padrão comunicacional, a coesão, a flexibilidade, entre outros fatores. Quando aquelas relações afetivas são percecionadas como inseguras podem associar-se a sofrimento, angústia, ansiedade e a problemas desenvolvimentais ao longo da vida. A paralisia cerebral pode alterar os padrões de relacionamento e a perceção sobre a vinculação do adolescente com pais e amigos.

A família constitui o primeiro contexto de relação que o indivíduo conhece e as interações aí estabelecidas são o pilar fundamental para as que irá construir no futuro. Paterson, Pryor, e Field (1995) e Buist, Dekovic, Meeus, e Aken (2004) consideram que as relações entre os adolescentes e os pais continuam a ter uma função adaptativa, pois fornecem uma base segura, da qual o adolescente pode conhecer e explorar novos ambientes. Em todo este processo, a qualidade da vinculação às figuras parentais é importante, pois favorece o conhecimento progressivo do mundo físico e social e promove o desenvolvimento do adolescente (Geada, 1990). Paralelamente ao afastamento afetivo da família, as relações com os pares assumem uma importância vital e passam a ser concebidas e valorizadas pelo adolescente como um contexto de apoio e conforto em momentos de stress (Soares, 1996).

As relações afetivas constituem-se em pilares fundamentais para o desenvolvimento saudável e para a passagem bem-sucedida à vida adulta, quer dos adolescentes normais, quer dos que apresentam condições incapacitantes (Geada, 1990; Soares, 1996). Conscientes de que a qualidade das relações afetivas com a família e com os amigos, na adolescência, é crucial para o desenvolvimento emocional e cognitivo do adolescente e para a vivência e compreensão de todas as relações ao longo da vida, importa conhecer fatores que de alguma forma possam comprometer essa qualidade. Assim, foi propósito deste estudo descrever a influência da paralisia cerebral na perceção que o adolescente tem dos pais e amigos como fonte segura, psicológica e emocional e identificar as diferenças existentes na perceção da vinculação aos pais e amigos nos dois grupos de adolescentes considerados.

 

Enquadramento

A qualidade da vinculação afetiva a figuras importantes para o adolescente – mãe, pai e amigos – vai interferir nas características da personalidade e na capacidade de aprendizagem e adaptação do adolescente ao meio físico e social (Geada, 1990; Neves, Soares, & Silva, 1999; Machado & Oliveira, 2007; Mikulincer & Shaver, 2007).

As vinculações da infância fundamentalmente estabelecidas no contexto das relações pais-filhos modificam-se à medida que a criança cresce (Bowlby, 2004, 2006). No entanto, Geada (1990) e Soares (1996, 2007) referem que, se a vinculação na adolescência for efetiva e segura, o jovem apresenta-se, nas situações de interação, seguro e confiante, mas se aquela for deficiente ou insegura, os sentimentos presentes serão de ansiedade e medo.

Da qualidade da vinculação estão igualmente dependentes a autoconfiança, a autoestima (Greenberg, Seigal, & Leich, 1983; Buist et al., 2004), a ansiedade (Soares, 1996), a competência social e as capacidades de coping (Paterson et al., 1995).

Fleming (1997) explica que a vinculação não só é importante como necessária e que o sucesso dos processos de autonomia está associado à perceção de níveis elevados de afeto e proximidade emocional com os pais, de satisfação, intimidade e companheirismo.

A vinculação constitui um elemento importante das relações do adolescente não só com os pais, mas com outras figuras significativas. Os pais, de acordo com Paterson et al. (1995) e Soares (1996, 2007), passam a funcionar como figuras de vinculação na reserva. Os adolescentes recorrem a eles sempre que são confrontados com situações difíceis e de stress (Fleming, 1997).

Na presença de doença crónica ou deficiência, a vida afetiva do adolescente pode desorganizar-se, principalmente quando pela sua angústia, solicitude excessiva, superproteção ou proibições repetidas, a família reforça as limitações existentes.

A paralisia cerebral, conjunto de síndromes persistentes, complexos e multiplamente debilitantes (Andrada, 1996 e Liptak et al., 2001) pode interferir no normal desenvolvimento e bem-estar psicológico e emocional do adolescente, bem como no equilíbrio e motivação para interações com a família e os amigos. O adolescente vê-se diferente, tem um desenvolvimento físico restrito, que o impede de participar em algumas atividades com a família e os amigos. Para os pais é a perda de um sonho, do filho ideal, o que pode conduzir à negação, à culpa, à tristeza ou à superproteção. Os irmãos podem sentir-se desapoiados, ter ciúmes, rivalizar com o irmão deficiente ou superprotegê-lo.

Tudo o que foi dito levou-nos a estudar as possíveis ligações entre a paralisia cerebral e as relações afetivas do adolescente, pois partimos do princípio que a paralisia cerebral tem influência na perceção que este tem sobre a sua vinculação aos pais e amigos. A literatura consultada (Geada, 1990; Buist et al., 2004; Arslan, 2008, 2009) aponta para a importância destas figuras no normal desenvolvimento psicoafectivo e social do adolescente.

 

Metodologia

A opção metodológica que orientou este estudo foi uma abordagem quantitativa, descritivo-correlacional. Equacionamos as seguintes hipóteses:

H1 - Os adolescentes com paralisia cerebral percecionam a sua relação afetiva com a mãe como mais segura do que os adolescentes do grupo de controlo.

H2 - Os adolescentes com paralisia cerebral perce­cionam a sua relação afetiva com o pai como mais segura do que os adolescentes do grupo de controlo.

H3 - Os adolescentes com paralisia cerebral percecionam a sua relação afetiva com os amigos como menos segura do que os adolescentes do grupo de controlo.

 

Amostra

Neste estudo, recorremos a duas amostras independentes, o grupo de estudo com 33 adolescentes com paralisia cerebral e o de controlo constituído por 33 adolescentes saudáveis.

Procurando que a compreensão em relação aos testes utilizados fosse idêntica em ambos os grupos, para constituir o grupo dos adolescentes com paralisia cerebral, foram escolhidos apenas os que só apresentavam atingimento motor, ou seja, não tinham qualquer alteração ao nível cognitivo e psicológico.

Os grupos eram maioritariamente constituídos por adolescentes do sexo feminino, 18 (54,6%) no grupo de estudo e 19 (57,6%) no de controlo. As idades estavam compreendidas entre os 12 e os 15 anos, com uma média de 13,3 anos e um desvio padrão de 1,23 no grupo de estudo e uma média de 13,3 com um desvio padrão de 1,29 no grupo de controlo. O grupo mais representativo é o dos 12 anos, com 13 elementos (39,4%), quer no grupo de estudo quer no de controlo.

No que diz respeito à escolaridade, os dois grupos comportavam-se de formas distintas como se observa na Tabela 1

 

  

 

Ainda, referente à escolaridade, podemos dizer que no grupo de estudo a maior incidência de adolescentes frequentam o 7º ano [10 (30,4%)] e no grupo de controlo frequentam o 10º ano [8 (24,2%)]. Quanto à família, a maioria dos adolescentes, quer do grupo de estudo [30 (90,9%)] quer do grupo de controlo pertencem a famílias nucleares [32 (98,0%)]. Destas, 27 (81,8%) no grupo de estudo e 17 (51,5%) no grupo de controlo têm como elementos os pais e os filhos.

No grupo de controlo, o número de agregados familiares com figuras periféricas é considerável [15 (45,5%)], no entanto só em três agregados a permanência dessas figuras (avós) é constante. Nos restantes, essa permanência corresponde ao ano letivo.

A maioria dos adolescentes, quer do grupo de estudo [19 (57,6%)], quer do grupo de controlo [19 (57,6%)], pertence à classe social III e provêm do meio urbano, 23 adolescentes (69,7%) em qualquer dos grupos.

Em síntese, a análise comparativa dos grupos permitiu constatar a sua semelhança nas variáveis sexo, idade e proveniência. As diferenças estatisticamente significativas dizem respeito ao tamanho (p=0,033) e composição (p=0,009) dos agregados familiares, à existência de incidentes de saúde nos períodos pré e neonatal (p=0,012) e à existência de alterações do crescimento e desenvolvimento (p <0,001).

Os participantes do grupo de estudo frequentavam um centro de paralisia cerebral e os do de controlo foram escolhidos aleatoriamente (a escola foi sorteada de entre as escolas públicas; os estudantes foram captados através da técnica de amostragem aleatória simples. A cada um foi atribuído um número de ordem. A totalidade dos números foi introduzida num recipiente, do qual foram sendo retirados números até perfazer o total de estudantes desejado para o grupo de controlo).

 

Instrumentos de recolha de dados

Para a caracterização da amostra, usamos uma Ficha de Registo de dados e para a colheita de dados o Inventory of Parents and Peer Attachment (IPPA) da autoria de Armsden e Greenberg (1987). O IPPA, com 75 itens, é um instrumento de autorrelato que permite avaliar a perceção do adolescente acerca da sua vinculação aos pais e amigos, já utilizado na população portuguesa (Geada, 1990, 1997), tendo revelado boas qualidades psicométricas (Paterson et al., 1995; Neves, Soares, & Silva, 1999; Machado & Oliveira, 2007; Mikulincer & Shaver, 2007). Este inventário introduz aspetos afetivos/cognitivos e comportamentais das relações de vinculação (Buist, Dekovic, Meeus, & Aken, 2004) e tem como quadro conceptual a teoria da vinculação desenvolvida por Bowlby. É constituído por três escalas que avaliam as perceções dos adolescentes acerca das dimensões afetivo/cognitivas nas relações com os pais e os amigos íntimos. Avalia a ligação global e as três dimensões, confiança, comunicação e alienação ou isolamento (Buist et al., 2004). A escala: confiança avalia o grau de compreensão e respeito mútuos na relação de apego; comunicação avalia a extensão e qualidade da comunicação verbal; e alienação avalia os sentimentos de raiva e alienação interpessoal.

Os scores variam entre 0 e 100, permitem saber se o nível de ligação é alto, médio ou baixo e classificar os indivíduos nos grupos que percecionam a relação como de alta segurança, baixa segurança ou ambivalente.

 

Procedimentos estatísticos

No tratamento e análise dos dados recorremos a medidas estatísticas descritivas (frequências absolutas e relativas; medidas de tendência central e de dispersão) e inferenciais (teste de diferenças entre médias, utilizando o teste de Mann-Whitney, dado que a amostra do estudo não segue uma distribuição normal). Como valores de significância p<0,05 (diferença significativa), p<0,01 (diferença muito significativa) e p<0,001 (diferença altamente significativa). Os dados foram tratados no programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), na versão 20.0.

 

Procedimentos formais e éticos

Para a recolha de dados obtivemos autorização das direções das duas instituições. Aos pais dos adolescentes, após informação relativamente aos objetivos do estudo, bem como ao compromisso de confidencialidade da identidade dos seus filhos, foi solicitado o consentimento informado assinado.

Os pais acompanharam os filhos tendo sido, no entanto, proporcionada privacidade aos adolescentes no momento da colheita de dados.

 

Resultados

Para a análise da relação entre a ligação global dos adolescentes à mãe, ao pai e aos amigos nos grupos de controlo e de estudo, procedemos à comparação das respetivas médias nas subescalas do IPPA (teste de Mann-Whitney para amostras independentes). Na Tabela 2, apresentamos os valores (mínimo e máximo médias, desvios-padrão e diferenças) das subescalas do IPPA em função desses dois grupos.

A análise da Tabela 2 permite-nos verificar que qualquer dos grupos se sente mais ligado à mãe, a seguir aos amigos e por último ao pai. O comportamento médio dos grupos é o descrito, mas o valor do desvio padrão, os valores mínimo e máximo mostram que existem desvios acentuados em relação à média. Os scores são considerados altos e não existem diferenças estatisticamente significativas entre os grupos.

Seguidamente, verificamos a relação entre a subescala confiança dos adolescentes, na mãe, no pai e nos amigos nos grupos de controlo e de estudo, procedemos à comparação das respetivas médias nas subescalas do IPPA (teste de Mann-Whitney para amostras independentes). Na Tabela 3 apresentamos os valores (mínimo e máximo médias, desvios-padrão e diferenças) da subescala confiança do IPPA, em função dos dois grupos.

Quanto à confiança (Tabela 3), vemos que a mãe é a pessoa em quem os adolescentes do grupo de estudo mais confiam, seguida dos amigos e do pai. No grupo de controlo, em primeiro lugar estão os amigos, seguidos do pai e por último da mãe. Os scores obtidos são considerados altos. É no grupo de estudo que os adolescentes apresentam valores médios mais elevados de confiança na mãe e no pai e mais baixos de confiança nos amigos. A dispersão dos valores em torno da média é muito grande, como se pode ver pelos valores do desvio padrão. As diferenças entre os grupos não se revelaram estatisticamente significativas.

Para verificarmos a relação entre a subescala comunicação dos adolescentes, com a mãe, o pai e os amigos nos grupos (controlo e estudo), recorremos à comparação das respetivas médias nas subescalas do IPPA (teste de Mann-Whitney para amostras independentes). Na Tabela 4, apresentamos os valores (mínimo e máximo médias, desvios-padrão e diferenças) da subescala comunicação do IPPA, em função dos dois grupos. Assim, e relativamente à comunicação (Tabela 4), tanto os adolescentes do grupo de estudo como os do controlo colocam em primeiro lugar os amigos, a seguir a mãe e por último o pai. Os scores são considerados altos. A dispersão dos valores em torno da média é muito elevada. As diferenças entre os grupos não são estatisticamente significativas.

Para analisarmos a relação entre a subescala alienação ou isolamento dos adolescentes, da mãe, do pai e dos amigos nos grupos (controlo e estudo), procedemos à comparação das respetivas médias na subescala do IPPA (teste de Mann-Whitney para amostras independentes). Na Tabela 4, apresentamos os valores (mínimo e máximo médias, desvios-padrão e diferenças) da subescala alienação ou isolamento do IPPA, em função daqueles grupos.

Quanto à alienação ou isolamento (Tabela 5), no grupo de estudo o valor médio mais elevado refere-se aos amigos, a seguir ao pai e por último à mãe e no grupo de controlo é o pai que tem o valor mais elevado, seguido da mãe e por último dos amigos. Todos os scores são considerados baixos, com exceção do referente aos amigos no grupo de estudo, que é médio. A dispersão dos valores em torno da média é elevada. Entre os grupos, só são estatisticamente significativas as diferenças observadas na dimensão alienação relativa aos amigos (U =389,5; p=0,046).

No que diz respeito às hipóteses, nenhuma se confirmou pois não foram estatisticamente significativas as diferenças observadas entre os grupos na vinculação global. É no entanto de realçar o facto de, na dimensão alienação ou isolamento relacionada com os amigos, as diferenças entre os grupos serem significativas. Tal resultado não é no entanto suficiente para aceitar a hipótese H3, pois os resultados da alienação global nos dois grupos não são estatisticamente diferentes.

Em síntese e como os scores obtidos nas dimensões confiança e comunicação são altos e os obtidos na alienação ou isolamento são baixos, consideramos que os adolescentes de ambos os grupos consideram a sua relação de alta segurança.

 

Discussão

Os resultados permitem-nos concluir que em qualquer dos grupos os adolescentes se sentem mais ligados à mãe, a seguir aos amigos e por último ao pai. Ou seja, uma boa vinculação à figura materna parece facilitar a constituição de laços afetivos de vinculação com outros significativos, qualificados como fontes de apoio ou porto de abrigo, sendo que uma vinculação segura ao pai poderá estar associada com a exploração de um grupo e ao desenvolvimento de situações de interação com estranhos, provedoras de estimulação e prazer (Calado, 2008).

Os scores apresentados são elevados e, se considerarmos o tipo de relação que os adolescentes percecionam ter com as figuras de vinculação, pensamos poder concluir que esta ligação é marcada por experiências positivas de confiança na acessibilidade das figuras de vinculação.

Referimos que a vinculação com a mãe é percecionada pelos adolescentes como mais segura e afetiva e de apoio emocional, e a quem estão mais ligados (Larose & Boivin, 1998). Mas, ao analisarmos as dimensões confiança, comunicação e alienação ou isolamento, vemos que os valores mais elevados na dimensão comunicação em qualquer dos grupos são para os amigos, passando-se o mesmo na dimensão confiança no grupo de controlo. Estes resultados poderão dever-se ao facto de no decurso da adolescência, pais e filhos estarem progressivamente menos tempo juntos, pois é com os amigos que o adolescente desenvolve mais atividades (Geada, 1997; Paterson et al., 1995).

Quanto às relações com os amigos, elas são importantes, compatíveis e complementares das estabelecidas com os pais. Se o adolescente tem boas relações com os amigos, também as tem com os pais, pois os conflitos só surgem quando uma das partes é dominante.

A inexistência de diferenças estatisticamente significativas entre os grupos, relativamente à perceção da vinculação aos pais e amigos, pode dever-se ao facto dos adolescentes do grupo de estudo apresentarem só alterações a nível sensorial e a nível do desenvolvimento motor e serem incluídos no grupo dos adolescentes com paralisia cerebral ligeira. Percebe-se que os adolescentes quer do grupo de estudo quer do grupo de controlo percecionam a vinculação aos pais e amigos como fonte segura, psicológica e emocional. Pelo tipo de relação percecionado, atrevemo-nos a concluir que para eles os amigos são uma fonte de apoio e têm um papel relevante no modo como se processa a transferência de apegos do sistema familiar para outro centrado no grupo, o que possibilitará aos nossos adolescentes um desenvolvimento saudável e uma elevada qualidade na transição para a vida adulta. Pensamos poder concluir que esta ligação é marcada por experiências positivas de confiança na acessibilidade das figuras de vinculação.

Soares (1996) refere-se à importância do envolvimento com as figuras de vinculação, dizendo que ele contribui para que a vinculação seja frequentemente mais positiva, para a integração coerente das experiências a nível emocional, e para a criação de oportunidades de relacionamentos profundos e gratificantes.

 

Conclusão

A paralisia cerebral, ao atingir um membro da família, atinge-a na totalidade. Pois, daí podem decorrer inúmeros problemas e mudanças no dia-a-dia da vida familiar. A adolescência de um filho com paralisia cerebral constitui um período de particular stress, pelos medos e receios relacionados com a independência, a sexualidade e as decisões acerca do seu futuro. Sendo que, nesta fase, os amigos têm um papel relevante porque podem servir de apoio e incentivo para o desempenho, o mais normal possível, das tarefas desenvolvimentais e conseguir o bem-estar e o equilíbrio socioemocional do adolescente com paralisia cerebral.

Os resultados da nossa pesquisa evidenciam scores elevados nas perceções dos adolescentes, dos grupos de estudo e de controlo, relativamente às dimensões afetivo/cognitivas nas relações com os pais e os amigos íntimos, ou seja na sua vinculação.

Quando avaliado o grau de compreensão e respeito mútuos na relação de apego, a extensão e qualidade da comunicação verbal, tanto os adolescentes com paralisia cerebral como os do grupo de controlo percecionam a sua relação afetiva com os pais e amigos como de alta segurança, ou seja, como uma fonte segura psicológica e emocional. A reforçar esta constatação, os sentimentos de raiva e alienação interpessoal revelam valores baixos, o que reforça o entendimento, pelos adolescentes, de uma vinculação segura.

Em síntese, com este estudo, foi possível identificar as diferenças na perceção da vinculação aos pais e amigos nos dois grupos de adolescentes considerados e, desta forma, contribuir para um melhor conhecimento das relações psicoafectivas dos adolescentes, em particular dos adolescentes com paralisia cerebral, e da sua relevância no estabelecimento de programas de intervenção com equipas multidisciplinares, em cujo planeamento e execução tomem parte tanto eles como os seus pais, com vista a um maior equilíbrio familiar e bem-estar dos adolescentes.

Perante os resultados obtidos, parece-nos pertinente sugerir investigações futuras a fim de ser avaliado com maior precisão o impacto da paralisia cerebral nas relações afetivas, onde se propõe: (i) como variável independente a idade; (ii) a inclusão de amostras com indivíduos da adolescência inicial (puberdade) e da média, pois alguns estudos apontam para uma maior ligação aos amigos durante a adolescência média; e (iii) a utilização de metodologias qualitativas para esclarecer diferenças nas relações, que os métodos quantitativos não permitem.

 

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Recebido para publicação em: 29.10.12

Aceite para publicação em: 12.04.14

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