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Revista de Enfermagem Referência

versión impresa ISSN 0874-0283

Rev. Enf. Ref. vol.serIII no.11 Coimbra dic. 2013

http://dx.doi.org/10.12707/RIII1304 

ARTIGO DE INVESTIGAÇÃO

 

A supervisão de estágios em enfermagem: entre a escola e o hospital

Internship supervision in nursing: between the school and hospital

Supervisión de prácticas en enfermería: entre la escuela y el hospital

 

Ana Paula Macedo*

* Doutora em Educação, área de conhecimento de Organização e Administração Escolar, pelo Instituto de Educação da Universidade do Minho. Professora Coordenadora da Escola Superior de Enfermagem - Universidade do Minho, 4704-553, Braga, Portugal [amacedo@ese.uminho.pt]. Morada: Largo do Paço, 4704-553, Braga, Portugal.

 

Resumo

O estudo, de pendor qualitativo e interpretativo, debruça-se sobre as orientações e as práticas de supervisão de estágios em Enfermagem como analisador dos fenómenos de Articulação interorganizacional Escola de Enfermagem e Hospital. É assim objetivo do artigo dar a conhecer aos intervenientes da supervisão de estágios, em particular aos supervisores e alunos estagiários, as lógicas implícitas e explícitas entre as duas organizações a partir de um modelo teórico de análise à Articulação interorganizacional construído. No quadro teórico-conceptual destaca-se a segunda vertente do estudo que consistiu na construção de um arquétipo de Configurações da articulação Escola de Enfermagem e Hospital em contexto de supervisão de estágio. A tipologia construída, e que agora se apresenta, permitiu realizar a leitura dos discursos e das práticas de supervisão em contexto de supervisão de estágio. A partir dos resultados e discussão deste exercício teórico-metodológico é possível concluir que o estudo de caso revelou diferentes configurações de articulação, de intensidade e frequência por vezes inconstantes e variáveis, que refletem os desafios que se colocam no presente e que se anteveem para um futuro próximo, relativos à supervisão em Enfermagem no contexto de trabalho hospitalar.

Palavras-chave: supervisão de enfermagem; organização e administração; escolas de enfermagem; hospitais de ensino

 

Abstract

This qualitative and interpretive study focuses on guidelines and the supervision of clinical nursing practice as a means of analyzing the phenomenon of organizational articulation between the School of Nursing and the Hospital. Thus, the objective of the article is to understand supervision interventions during placements, in particular in relation to supervisors and placement students, and the implicit and explicit logic between the two organizations on the basis of the theoretical analytical of interorganizational articulation model constructed. The second approach consisted of the construction of an archetypal articulation of relationships between the School of Nursing and the Hospital in the context of supervision during clinical placements, It was from this constructed typology that it was possible to carry out a reading of the discourses and practices of supervision during clinical placements. On the basis of this theoretical-methodological case study it was possible to identify different configurations of articulation, with occurred with varying intensity and frequency, and which reflect the present and future challenges related to supervision in nursing in the hospital context.

Keywords: nursing, supervisory; organization and administration; schools, nursing; hospitals, teaching

 

Resumen

El estudio, de tendencia cualitativa e interpretativa, se centra en las directrices y las prácticas de supervisión de los periodos de prácticas en Enfermería, como analizador de los fenómenos de articulación interorganizativa entre la escuela de enfermería y el hospital. El objetivo del artículo es dar a conocer a aquellos implicados en la supervisión de las prácticas, en particular a los supervisores y a los alumnos en prácticas, las lógicas implícitas y explícitas entre las dos organizaciones a partir de un modelo teórico de análisis de la articulación interorganizativa construido. En el marco teórico-conceptual destaca la segunda vertiente del estudio, que consistió en la construcción de un arquetipo de configuraciones de la articulación entre la escuela de enfermería y el hospital en el contexto de la supervisión de las prácticas. La tipología construida, y que aquí se presenta, permitió realizar la lectura de los discursos y las prácticas de supervisión durante la supervisión del periodo de prácticas. A partir de los resultados y de la discusión de este ejercicio teórico-metodológico se puede concluir que este estudio de caso mostró diferentes configuraciones de articulación, de intensidad y frecuencia a veces inconstantes y variables que reflejan los desafíos que se exponen en el presente y que se prevén para un futuro próximo relacionados con la supervisión en enfermería en el contexto del trabajo hospitalario.

Palabras clave: supervisión de enfermería; organización y administración; escuelas de enfermería; hospitales universitarios

 

Introdução

A reflexão sobre a problemática da supervisão de estágios, em Portugal, não constitui uma questão nova no âmbito da Enfermagem. No entanto, a temática como campo investigatigação, de interesse organizacional, aparece-nos com um novo foco de interesse e plenamente atual. Aliás, nos últimos tempos, as organizações de saúde têm procurado implementar medidas de supervisão, incitadas pelos critérios de qualidade e também por outros organismos. A Ordem dos Enfermeiros, por exemplo, tem considerado prioritária a implementação de um modelo assente no reconhecimento e certificação de competências, de suporte à atribuição de títulos profissionais, onde explicitam propostas relativas ao processo de tutoria e ao processo de supervisão clínica (Lei nº 111/2009 de 16 de setembro; Regulamento nº167/2011 de 8 de março).

A investigação debruça-se sobre as orientações e as práticas de supervisão de estágios em Enfermagem como analisadores dos fenómenos de Articulação interorganizacional Escola de Enfermagem e Hospital (Macedo, 2012), originando que o seu percurso fosse de entrelace entre algumas mudanças na supervisão de estágios, com algumas mudanças sociais e políticas. O presente trabalho teve a pretensão de perceber como se intersetam as duas organizações num contexto de supervisão de estágio, cujo resultado nos diz mais acerca de cada uma das organizações.

De forma sucinta, apresentamos alguns dos objetivos primordiais que nos propusemos perseguir neste trabalho, estando contudo abertos a outros, emergentes dos contextos onde a investigação iria ocorrer: i) caracterizar a articulação entre a organização Escola de Enfermagem e a Organização Hospital; ii) compreender as lógicas de supervisão de estágios de Enfermagem, implícitas e explícitas entre as duas organizações; iii) contribuir para esclarecer alguns aspetos relativos ao contexto de trabalho hospitalar como local de formação e educação dos alunos estagiários de Enfermagem.

Ao longo de um percurso de investigação considerável, pudemos compreender o valor deste ensino na educação e formação dos alunos estagiários de Enfermagem dentro de um contexto real de trabalho e, por outro lado, paradoxalmente, os constrangimentos que essa educação e formação implicam para o desenvolvimento de uma Enfermagem inovadora e emancipadora. O estágio assume assim um papel de mediador ou revelador das relações interorganizacionais, das contradições, dos conflitos, das relações de poder, das mudanças dos contextos de trabalho, das questões políticas, das perspetivas de gestão e dos contornos específicos desses espaços organizacionais onde se dão a educação e a formação dos alunos estagiários de Enfermagem. Tendo em conta esta moldura, apresentamos o presente trabalho de investigação, levando em consideração, entre outros fatores, as políticas educativas do ensino da Enfermagem e supervisão de estágios, e a nossa própria experiência profissional neste domínio.

 

Enquadramento/Fundamentação Teórica

O desenvolvimento do quadro conceptual não resultou exclusivamente de um processo de dedução teórica mas sim de um diálogo permanente entre a conceptualização teórica e os dados da investigação empírica, o que permitiu identificar pontos a reavaliar ou a abandonar no terreno. O valor heurístico deste percurso propiciou a (re)construção de um modelo teórico de análise à Articulação interorganizacional Escola de Enfermagem e Hospital, onde se elegeram duas vertentes para a sua compreensão. A primeira vertente expôs uma proposta de modelo teórico para a compreensão da supervisão de estágios em contexto de trabalho hospitalar, cruzando-se com uma pluralidade de dimensões, ora organizacionais (Ellström, 1983), ora de supervisão (Alarcão e Tavares, 2003), permitindo uma leitura transversal dos dados que contextualizaram toda a problemática. Esta leitura, fundamental num primeiro momento da investigação, capaz de conferir sentido aos processos e às práticas observadas, não era no entanto, suficientemente abrangente face ao nosso objeto de estudo. Assim, mesmo sabendo que os modelos teóricos nem sempre cobrem suficientemente as características do real, isto é, por muito abrangente que seja o quadro conceptual construído, há sempre áreas que permanecem “invisíveis” ao olhar a partir dele. Procurámos então uma estratégia epistemológica capaz de aumentar o foco de análise do real, ampliando-nos à compreensão das evidências, dando-nos conta de outros pormenores e outras especificidades relacionadas com o objeto de estudo. Foi o que aconteceu num segundo momento desta investigação, e esta é a segunda vertente do estudo. Com base na proposta de Tyler (1991) construímos um arquétipo de Configurações da articulação Escola de Enfermagem e Hospital em contexto de supervisão de estágio no plano das orientações para a ação organizacional (Lima,1998; Lima 2003)/sistema de pensamento e ideias (Brunsson, 2006). A partir da tipologia construída foi-nos possível realizar uma outra leitura dos discursos das práticas de supervisão e da articulação interorganizacional Escola e Hospital, em contexto de estágio.

 

No plano das orientações para a ação organizacional/sistema de pensamento e ideias

No primeiro plano analítico das orientações para a ação e de sistema de pensamento e ideias integrámos elementos contextuais que, ao serem confrontados com os cenários passíveis de serem observados no domínio da empírico nos permitiram esboçar a seguinte tipologia de Configurações de Articulação Escola de Enfermagem e Hospital em contexto de supervisão de Estágio e com a possibilidade de ser associada à tipologia organizacional de Ellström (1983): Articulação eficiente – imposta; Articulação de Interdependência e Colaboração – integrativa/adaptativa; Articulação Conflitual – Estratégica; Articulação Débil - Simbólica. A Articulação eficiente – imposta trata-se de uma configuração que conduz a uma conceção de articulação interorganizacional entendida como uma tecnologia racional para a tomada de decisões. A articulação vincula-se a partir do momento que são definidas as estruturas adequadas para assumirem as funções administrativas e poderem tomar as decisões, com base em objetivos definidos a priori. As organizações que se articulam orientam-se por normativos claros e documentos que esclarecem com rigor as sequências de um programa de ação e os modos de funcionamento e de comportamento dos atores, bem como os resultados esperados. No que diz respeito à Articulação de Interdependência e Colaboração – Integrativa/Adaptativa esta afasta-se da configuração anteriormente descrita, já que a dimensão formal, racional e estrutural desta, presente na planificação de um programa, é agora substituída por um contexto informal dirigido à valorização individual e grupal dos membros de cada uma das organizações. A relação interorganizacional forte é um dos grandes objetivos, por isso investe-se em programas, processos de integração e adaptação, de interdependência e de colaboração, garantindo desta forma a confiança e a satisfação dos vários elementos. O que se designa por “cultura organizacional” agrupa um conjunto de condições que tornam a articulação fortemente socializadora e produtora de identidades profissionais. Outro tipo de articulação - Articulação Conflitual – Estratégica -, caracteriza-se pela existência da luta de interesses que os vários grupos desencadeiam entre si, em ordem à obtenção dos seus objetivos setoriais, socorrendo-se, para isso, de diversidades estratégicas de influência e de mecanismos de afirmação do seu poder em função de processos negociais, donde surgem vitoriosos os grupos ou as coligações dominantes. A atividade política é uma dimensão essencial na articulação entre as organizações, como tal o conflito não é representado necessariamente como um problema, uma vez que, mais importante que a regulação dos conflitos são as estratégias e as táticas do confronto. Por último, a Articulação Débil – Simbólica é caracterizada por frouxa ou loosely coupled (Weick, 1976). As estruturas e os órgãos de cada uma das organizações não têm uma união forte, uma coordenação eficiente e racional. O investimento participativo dos gestores dessas estruturas é débil, eles podem criar momentos formais sem grande intenção de que os seus efeitos interfiram na ação real. Os acontecimentos interorganizacionais surgem relativamente desconectados, embora muitas vezes publicitados como sendo pensados em conjunto. Neste tipo de articulação o simbolismo assume uma importante questão para manter «a união do sistema».

Assim, as categorias enunciadas, representadas no Quadro 1, foram ajustadas aos dois eixos conceptuais deste nosso ensaio teórico-metodológico, também apresentados por Tyler (1991). No primeiro eixo, o Enfoque Estruturalista e/ou a Teoria da Organização Formal. No segundo eixo, o Enfoque Interpretativo e/ou o modelo de Ajuste Articulado de Modo Impreciso ou Sistema Debilmente Articulado (Weick, 1976). Se, no primeiro caso, nos remete para um tipo ideal de «organização ação», no segundo caso, para um tipo ideal de «organização política» (Brunsson, 2006).

Foi a partir da tipologia construída que foi possível realizar a leitura dos discursos e das práticas de supervisão em contexto de supervisão de estágio, no plano da ação/sistema da ação. O quadro de referência delineado toca na questão fundamental da sistematização da realidade em nossa mente: “No fundo, é uma das medidas da nossa capacidade de compreensão do que se passa na realidade, embora seja sempre um gesto reconstrutivo da realidade” (Demo, 2004, p. 26).

O primeiro «tipo ideal» de «organização ação» assume posições teóricas com características burocrático-racionais e de sistema social, cujo princípio de recrutamento e de trabalho constante de uma organização para a ação é o acordo e a hierarquia.

Ainda nas palavras de Brunsson (2006), na organização para a ação são formuladas regras concretas e firmes para os comportamentos dos seus membros. As ideias e os valores predominantes são partilhados por todos os membros dessa mesma organização, bem como do seu ambiente. Neste sentido, uma «poderosa» ideologia não necessita de uma tomada de decisões, pelo que todo o processo é irracional. Isto significa que estamos perante uma ideologia organizacional capaz de limitar qualquer iniciativa dos intervenientes, mas também capaz de transformar esses mesmos intervenientes em especialistas dentro da organização. Uma outra característica é que a organização para ação é sobretudo direcionada para soluções e não para problemas, daí a abolição de todo o tipo de conflito, pretendendo-se antes de mais o consenso partilhado e o culto de uma enorme confiança entre os membros da organização: “A confiança que tantas vezes anexa a esta ideologia é excessiva em relação ao que poderá parecer mais razoável” (Brunsson, 2006, p. 41).

Relativamente ao segundo «tipo ideal», a «organização política» remete-nos para uma outra face da organização cuja base de legitimidade é a reflexão de normas inconsistentes. As estruturas e os processos estão, assim, orientados para o ambiente. As conceções teóricas pelas quais os seus argumentos se baseiam não são convencionais e realçam as dimensões ambíguas e certas dimensões políticas das organizações. Quase sempre estão presentes ideologias para discussão, capazes de promoverem a crítica e o conflito. Ao contrário do primeiro tipo ideal, a tomada de decisão é racional. Por seu lado, a «hipocrisia» é um comportamento fundamental na organização política. Em síntese, a «organização política» apresenta uma grande abertura às exigências externas. Ela está dependente da forma como reflete sobre essas exigências, embora seja igualmente importante controlar o modo como essa reflexão é realizada. Neste sentido, esta perspetiva (neo)institucional permite-nos uma interpretação crítica da articulação interorganizacional Escola de Enfermagem e Hospital.

Assim, a confrontação com os vários tipos de análise tem como objetivo identificar as articulações Escola e Hospital que temos posto em questão desde as suas origens. As perguntas orientadoras delineadas para este estudo são as seguintes: Será que a articulação entre Escola de Enfermagem e Hospital ao ser reveladora das semelhanças/diferenças entre as duas organizações favorece a supervisão de estágios?; Será que a articulação entre Escola de Enfermagem e Hospital favorece a integração dos alunos estagiários de Enfermagem no contexto de trabalho hospitalar?

 

Metodologia

A metodologia de suporte ao estudo da articulação entre Escola de Enfermagem e Hospital em contexto de supervisão de estágio, enquanto objeto de investigação empírica, aproxima-se da investigação tipo etnográfico ou, para sermos mais sistemáticos, de um paradigma de investigação naturalista, cujo método é um «estudo de caso» (Yin, 2005).

O exercício de articulação entre a Escola de Enfermagem e o Hospital exige uma reflexão da nossa parte estimulada pelo estudo da supervisão de estágios, permitindo-nos esboçar, dentro de alguns limites, algumas semelhanças e diferenças entre as duas organizações. Uma análise a priori às duas organizações parece apontar para uma evidência espontânea que as reaproxima em dois domínios, o dos cuidados e o da educação.

A abordagem de interesse heurístico, que nos propomos fazer neste artigo, evidencia articulações relativas entre dois contextos organizacionais que se combinam num momento concreto – o estágio. Esta opção para a vertente da pesquisa de terreno, parte do nosso processo de familiarização com o contexto social que pretendíamos estudar. Assim as características do estudo implicavam a presença prolongada do investigador no terreno, face à multiplicidade de dimensões do social que aí se observam, o confronto sistemático entre, por um lado, a visão do mundo e da sociedade, dos atores sociais locais, obtida através de vários tipos de depoimentos verbais e, por outro, os dados obtidos por observação direta e participante. Para este artigo recorremos, apenas, aos atores intervenientes no momento do estágio, de um curso de licenciatura em Enfermagem, sendo a amostra designada de «oportunidade» (Wragg,1987) - oito alunos estagiários, cinco enfermeiros e a supervisora (docente da escola), privilegiando duas modalidades de entrevista – a entrevista semidiretiva e a entrevista diretiva.

A entrevista semidiretiva baseou-se na utilização de um guião, permitindo aos entrevistados exprimirem-se, seguindo o curso do seu pensamento. Isto é, situámo-nos no entremeio, ao respondermos a duas imposições que podiam parecer opostas. Por um lado, procurávamos que o próprio entrevistado estruturasse o seu pensamento em torno do objeto perspetivado, atitude parcialmente «não diretiva». Por outro lado, pretendíamos que o entrevistado não fosse naturalmente desviado para outras considerações desligadas do objeto de estudo, facilitando assim o aprofundamento de aspetos que ele próprio não teria explicitado (Albarello et al., 1997).

A entrevista diretiva ou estruturada, também utilizada, distinguiu-se da anterior. Foi realizada com base num questionário, cujas questões eram padronizadas e a respetiva ordem preestabelecida. Consoante as situações, os inquiridos foram convidados a selecionar a resposta mais adequada; selecionar um número determinado de respostas do leque contemplado e ordená-las por ordem de prioridades; indicar a resposta que consideravam mais adequada; responder com uma certa brevidade e escolher cenários com um número limitado de opções. Para cada questão com um número amplo de alternativas de resposta inserimos a opção «outra(s)», deixando espaço no questionário para que fossem discriminadas. No final do questionário inserimos uma questão aberta, cujo espaço destinado à resposta raramente foi aproveitado para elucidar o investigador e nos casos em que se verificou uma resposta, esta apresentava-se sucinta e eclética.

Nesta investigação a análise de documentos mostrou-se assim adequada por se tratar de um estudo em que era pertinente analisar algumas características organizacionais, quer da Escola de Enfermagem, quer do Hospital, como entidades sociais em desenvolvimento num determinado contexto. Neste sentido justifica-se este método de pesquisa, por ser necessário explicar as razões e as bases legais e éticas que têm motivado e delineado as políticas e as práticas ao longo de um período significativo. Conhecer e analisar o processo de mudança, a sua aplicação, a sua aceitação ou recusa, a sua intensidade ou a sua velocidade, interessou-nos enquanto clarificador do estatuto que reconhecemos, no estudo, ao processo socio-histórico.

A riqueza e a pertinência da informação recolhida nos dois contextos do estudo, na Escola, - deduzida a partir dos Planos de Estudo e Regulamentos de Curso e da consulta de Dossiers Pedagógicos de estágios, dos livros de Atas das reuniões, Relatórios Anuais de Avaliação, Jornais da Escola, dados sobre a população escolar, dados relativos à gestão quotidiana da escola; documentos políticos/estratégicos; relatórios anuais por Curso/ano -, e no Hospital, - deduzida a partir dos Boletins Informativos do Conselho de Administração, das Ordens de Serviço, dos Relatórios de Atividade, dos Planos de «Formação em Serviço» e dos Planos de Formação do Departamento de Formação e Investigação, dos Documentos no âmbito do Processo de Acreditação (pelo King’s Fund Healt Quality Service), das Normas de Atuação Profissional e Critérios de Avaliação do Desempenho, do Manual de Conteúdo Funcional das Carreiras Profissionais e do Manual Internacional Normas 1-55 -, convenceram-nos da sua possibilidade quando complementada com os «informantes privilegiados» que fizeram parte dos dois contextos em épocas distintas.

A leitura dos dados desta última fase da investigação foi realizada a partir de duas grelhas de análise que emergiram do quadro teórico-conceptual do estudo, arquitetadas para os dados serem lidos em dois momentos singulares. Um momento, para a leitura transversal dos dados que contextualizaram toda a problemática da supervisão de estágios, compreendendo assim, os fenómenos de articulação interorganizacional entre uma Escola de Enfermagem e um Hospital, a partir dos modelos de supervisão de estágios em Enfermagem e, um outro momento, para a leitura dos discursos e das práticas de supervisão em contexto de estágio, a partir de um arquétipo de Configurações da articulação Escola de Enfermagem e Hospital construídas. As grelhas de análise tornaram, assim, mais fácil o processo de tratamento da informação recolhida, e mesmo a aplicação da técnica de análise de conteúdo.

No que respeita concretamente à questão da validade interna, ela foi solucionada de certo modo através de diferentes estratégias, mobilizadas durante as diversas fases de investigação, recorrendo, nomeadamente, à triangulações ao nível das fontes múltiplas dos dados e dos métodos, à participação de diferentes atores na interpretação dos dados e à revelação dos pressupostos do investigador. Tratou-se de um processo claramente evolutivo, aberto, exploratório, pois pôde-se enriquecer progressivamente em função dos progressos da compreensão das particularidades do campo.

Convirá explicitar ainda neste ponto que, a identificação da unidade de cuidados, assim como a dos atores intervenientes no estudo, não foi revelada, por nossa opção, porque considerámos que os atores estariam mais dispostos a revelarem os seus pensamentos e menos constrangidos a descreverem os episódios que eventualmente dariam uma imagem desfavorável de si. Queremos com isto dizer que respeitámos as normas no âmbito da ética relativa à investigação com sujeitos humanos – “(...) o consentimento informado e a proteção dos sujeitos contra qualquer espécie de danos” (Bogdan e Biklen, 1994, p. 75).

 

Resultados

Iniciamos então a nossa análise dos discursos dos alunos estagiários. Relativamente à articulação desejável para a supervisão do estágio balanceiam entre Configurações de Articulação eficiente – imposta; Articulação de Interdependência e Colaboração – integrativa/adaptativa. Vejamos alguns depoimentos, nos quais é possível identificar as expectativas destes atores em relação às áreas em que a intervenção dos responsáveis pelos estágios poderia ser incrementada. Relativamente à primeira, Articulação eficiente – imposta, as falas dos alunos estagiários enfatizam uma conceção de articulação interorganizacional entendida como uma tecnologia racional para a tomada de decisões, concretizada num acompanhamento sistematizado, coerente com os objetivos, antecipadamente identificados e centrada nos resultados de aprendizagens:

“Para mim o acompanhamento dos estagiários desde o início do estágio e uma preocupação maior com os resultados de aprendizagem é o mais importante. Porque penso que acima de tudo o ensino clínico deve ser considerado como uma oportunidade de aprendizagem e considero fundamental o acompanhamento permanente dos estagiários” (Est.1).

Já o entrevistado seguinte remete-nos essencialmente para uma conceção de Articulação de Interdependência e Colaboração – integrativa/adaptativa. Conseguir uma articulação em «sintonia» e incentivar a «parceria» são alguns objetivos, por isso estes atores reforçam a ideia de uniformização das políticas de supervisão para as duas organizações. A supervisão desejável deveria investir em atividades ou programas em que os alunos estagiários pudessem participar para se sentirem mais próximos da organização hospitalar e das suas práticas:

“Considero que a relação Escola e Hospital podia ser mais estreita e não se cingir apenas ao momento de estágio, pelo menos no que diz respeito aos alunos. Poderiam ser desenvolvidas ao longo do ano atividades em parceria com o Hospital em que os alunos pudessem participar para se sentirem mais próximos da Instituição” (Est.3).

As incongruências de articulação refletem-se nas estratégias de supervisão e são relatadas pelo grupo de alunos no Estágio no serviço de Medicina. São alguns exemplos: sensibilidades diferentes aos processos de integração e formas de acompanhamento, divergências nas formas de orientação, tempo de permanência na orientação.

A Articulação débil – simbólica entre a Escola e o Hospital aparece-nos caracterizada de diferentes modos pelos atores intervenientes no contexto da supervisão de estágios. No entanto, há algumas ideias que tendem a prevalecer em todos os depoimentos. Os acontecimentos interorganizacionais surgem relativamente desconectados, embora muitas vezes publicitados como sendo pensados em conjunto. O investimento participativo dos gestores dessas estruturas é débil e eles podem criar momentos formais sem grande intenção de que os seus efeitos interfiram na ação real. A articulação é ainda marcada por um certo grau de ambiguidade, o que contribui para o desenvolvimento de perceções e lógicas divergentes e para as desconexões entre ideias e ações, intenções e concretizações. Alguns dos relatos de enfermeiros e da supervisora permitiram-nos identificar Configurações de Articulação Escola de Enfermagem e Hospital, que na nossa opinião não passam de cambiantes da Articulação débil. Passemos à exposição desses relatos derivantes de uma Configuração de Articulação débil – simbólica e à sua caracterização.

A Articulação «assim está bem» trata-se de uma articulação cómoda, sem qualquer responsabilidade por parte da organização que recebe os alunos estagiários, neste caso o Hospital. Os atores da organização hospitalar estão pouco implicados ou nada envolvidos em todo o processo de supervisão de estágio:

“Considero que assim está bem, há uma integração gradual da prática de cuidados. Penso que se a Escola não estivesse presente a comunicação entre instituições Escola - Hospital estaria mais dificultada, penso que assim como está, está bem. (...) A minha participação na preparação dos ensinos clínicos não a considero necessária, porque é função da entidade de ensino” (Enf.1).

A Articulação «unidirecional» é uma articulação dos responsáveis pela gestão das organizações. Caracteriza-se por possuir um protocolo de articulação unidirecional, não sujeita a um sistema participativo dos vários intervenientes do estágio. Esta perspetiva exclusiva dos órgãos de gestão, quer da Escola, quer do Hospital, concretiza-se em momentos cruciais, o da formalização dos pedidos de estágios e o da reunião de preparação e avaliação dos estágios:

“O Protocolo de colaboração entre a Escola e os serviços é unidirecional, em que se faz essencialmente através da formalização dos pedidos dos campos de estágio. A preparação dos estágios realiza-se entre professores e enfermeiros chefes, sendo que os estudantes são socializados de uma forma passiva (Enf.2).

A Articulação «passa ao lado» é traduzida por um desconhecimento total, por parte dos atores, acerca do protocolo de articulação Escola e Hospital. Acerca da supervisão de estágios apenas existem comentários vagos, pouco precisos, sem objetivos e estratégias suficientemente definidas e operacionalizáveis, capazes de vincular as práticas:

“Como profissionais a Articulação Escola e Hospital passa-nos um pouco ao lado. Sei que os pedidos de estágio são dirigidos ao topo, ao nível da gestão. O Enfermeiro Chefe pronuncia-se, mas nós não sabemos de mais nada” (Enf.3).

A Articulação «Utilitarista» implica que uma organização se sirva da outra e o estágio adquire o estatuto de articulador utilitário entre as duas organizações – Escola de Enfermagem e Hospital. Há uma colaboração mínima interorganizacional, pouco compensatória a nível pessoal e profissional dos atores intervenientes do estágio, que se limitam a seguir e a utilizar os instrumentos de avaliação que a Escola recomenda:

”Considero que este Hospital tem um contacto mais próximo com a Escola, precisamente na área dos ensinos clínicos que tem um caráter essencialmente utilitário” (Enf.4).

O relato da supervisora permite-nos identificar uma outra Configuração de Articulação entre a Escola de Enfermagem e o Hospital – a Articulação «Tentativa». Em certos momentos há um certo voluntarismo por parte de alguns atores em colaborarem, na tentativa de ambas as partes – Escola de Enfermagem e Hospital -, se articularem. Essa coordenação de esforços diz apenas respeito à dimensão pedagógica da supervisão de estágios:

“Há uma tentativa de ambas as partes em se articularem, quando há uma coordenação de esforços em refletir sobre a teoria e a prática. O projeto entre Escola e Hospital deverá ser facilitador das aprendizagens dos alunos” (Sup.).

 

Discussão

A triangulação de dados sobre os discursos e as práticas de supervisão de estágios, ao longo de um período considerável, muito próxima dos atores, permitiu-nos obter uma imagem da realidade social, política e cultural da articulação interorganizacional Escola de Enfermagem e Hospital. Como considerações mais significativas deste processo de investigação empírica, destacamos as seguintes: i) A supervisão de estágio constituiu-se no elemento articulador entre as duas organizações, capaz de desvendar pistas interpretativas acerca de um referencial de ordem de valores, apresentados pelos alunos estagiários através das suas perceções, interpretações e identificações em relação à supervisão no contexto de trabalho hospitalar e à profissão, e ainda, em relação ao protocolo de articulação Escola de Enfermagem e Hospital; ii) As quatro Configurações da Articulação propostas para a caracterização da Articulação entre a Escola de Enfermagem e o Hospital podem em determinados momentos estar representadas, diferentemente por diversos atores intervenientes no Estágio de Medicina, mas há evidências de que neste contexto de supervisão a Configuração da Articulação Conflitual/Estratégica surge, globalmente, marginal face às questões organizacionais por nós analisadas; iii) A análise da informação recolhida a partir dos atores concretiza, em nosso entender, uma Configuração de Articulação Débil/Simbólica entre a Escola de Enfermagem e o Hospital; iv) As falas dos atores são reveladoras de algumas incongruências entre uma e outra organização e dentro da mesma organização: práticas de cuidados distintos, orientações conflituantes, condicionantes de vária ordem (espaço, tempo, ignorância); irregularidades (falhas de comunicação). Estas desconexões podem ser geradoras de “infidelidades normativas”, ou constituírem-se em si de “infidelidades normativas” (Lima, 1998); v) A opinião de uma maioria de profissionais de Enfermagem considera que o Protocolo de Articulação deveria incluir outros atores e um trabalho conjunto - a «formação de tutores e auxiliares de ensino», a «criação de novos cursos na Escola com a vertente específica supervisão de estágios», o «incentivo a atividades em parceria», a «organização de ações de formação em conjunto», a «definição em conjunto de políticas de supervisão»; vi) Os discursos, contraditórios à lógica da participação e da intervenção dos atores, ofereceram-nos indicadores próximos do pragmatismo e do cumprimento dos requisitos de eficácia que caracterizam estas perspetivas. Alguns dos relatos permitiram-nos identificar outras Configurações de Articulação Escola de Enfermagem e Hospital, que na nossa opinião não passam de derivantes da Articulação débil; vii) Na interpretação dos contextos organizacionais, a visão comum que suporíamos encontrar era a de que o pensamento e as ideias controlassem as ações. Mas nem sempre foi isto que aconteceu, ou seja, tendo em conta a nossa interpretação das ações implementadas pelas duas organizações verificámos que algumas ações controlavam as ideias. As falas, nestes casos, tomavam o formato de explicações que tinham «como finalidade última a legitimação»; viii) Noutras situações, os discursos apareciam adaptados a algumas normas, enquanto as ações adaptadas a outras. No nosso entender, este quadro permite que a hipocrisia organizacional se manifeste como dimensão necessária e benéfica na perspetiva do desenvolvimento das organizações; ix) O Protocolo de Articulação entre a Escola de Enfermagem e o Hospital apresenta-se-nos, assim, como um artefacto que contribui para engrandecer o conjunto dos elementos de formalização estrutural destas duas organizações, cumprindo uma dupla função: por um lado, dar resposta às exigências e expectativas sociais, políticas, administrativas e legais e, por outro lado, legitimar, quer a razão de ser deste cumprimento legal, quer a imagem de competência e de qualidade das duas organizações.

 

Conclusão

Neste trabalho, concluímos que o estágio foi revelador de articulações e de desarticulações, capaz de nos traçar um mapa de configurações a partir de vários intervenientes: alunos estagiários, enfermeiros, supervisora e investigadora. A complexidade deste estudo residiu precisamente na leitura de configurações de articulação a partir dos atores intervenientes, que julgámos ter extravasado a argumentação teórica avançada em torno das relações interorganizacionais Escola de Enfermagem e Hospital.

Os discursos dos atores apontam com maior evidência, para uma aproximação da organização hospitalar a um modelo «racional-burocrático» com dimensões de cariz gerencialista e empresarial e que, implicitamente, os valores da eficácia, da eficiência e da produtividade se tornam mais evidentes, relativamente à Escola de Enfermagem. Esta particularidade é às vezes referida como se estivéssemos na presença de um status antropológico diferente atribuído às duas organizações em causa. Para a Escola de Enfermagem a obrigação de resultados tem o significado de uma luta contra o insucesso, para o Hospital ela tem o significado de uma luta contra o desperdício. No entanto, face à pluralidade e ao eventual antagonismo entre os pontos de vista dos atores envolvidos e entre as orientações, e as ações praticadas, dificilmente poderíamos considerar como modelo único a ser analisado.

O Hospital constitui-se num lugar de formação, mas é com algumas resistências que se constroem experiências valorativas para os alunos estagiários. A implementação de medidas administrativas que aludem a uma presença insinuada de uma Articulação eficiente entre a Escola de Enfermagem e Hospital, concretizada a partir de um Protocolo de Articulação entre a Escola de Enfermagem e o Hospital, parece distorcer e tornar ambíguo o que se pretende com a anunciação de um novo paradigma e os pressupostos teóricos que o sustentam. Se, por um lado, os autores que estudámos, parecem desejar que os alunos estagiários detenham competências de independência e interdependência e sejam supervisores responsáveis e empenhados, capazes de serem autores de si próprios, por outro lado, esse desejo difunde-se quando os atores intervenientes no estágio ficam cingidos a uma estrutura racional burocrática, onde a administração institucionalizada prepondera sobre a preocupação e a própria realização do ensino.

O que nós retemos finalmente do estudo da articulação entre a Escola e o Hospital é o papel decisivo dos atores coletivos, profissionais (professores e enfermeiros) e agentes beneficiários (alunos e doentes) que necessitam de cuidados, no funcionamento futuro destas grandes organizações. E para terminarmos, resta-nos dizer que a ligação afetiva e profissional a estas duas organizações foi simultaneamente um fator de estímulo e de responsabilização que influenciou todo o processo da pesquisa. O modo como encarámos o problema, a forma como captámos e demos corpo a representações e visões da articulação interorganizacional, através da supervisão de estágios, permitiu-nos fotografar essa realidade.

 

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Recebido para publicação em: 10.01.13

Aceite para publicação em: 17.09.13

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