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Economia Global e Gestão

versão impressa ISSN 0873-7444

Economia Global e Gestão v.15 n.2 Lisboa set. 2010

 

O risco sistémico

 

Mário Murteira

Doutor em Economia (Universidade Técnica de Lisboa). Prof. Catedrático Jubilado de Economia do ISCTE-IUL. Antigo Presidente da Escola de Gestão do ISCTE-IUL. Director da revista Economia Global e Gestão.PhD in Economics (Lisbon Technical University). Emeritus Professor of Economics of ISCTE-IUL Lisbon University Institute. Former President of ISCTE-Business School. Director of Global Economics and Management Review. mlsm@iscte.pt

 

Resumo

Num contexto de «risco sistémico» generalizado, são necessários agentes ágeis, capazes de uma actuação eficaz no mercado global. É preciso prever, prevenir ou superar, quanto possível, os factos nocivos de maior ou menor envergadura que se associam aos diferentes tipos de risco, no referente à segurança das pessoas, à degradação ambiental, à saúde pública ou ao rendimento individual. Encontramos aqui a necessidade de certo tipo de regulação de múltiplas dimensões.

Palavras-chave : Risco Sistémico, Globalização Financeira, Regulação.

 

The systemic risk

Abstract

In a context of widespread «systemic risk», agile agents capable of acting effectively in the global market are required. We must anticipate, prevent or overcome, as possible, the adverse events of varying magnitude that are associated with different types of risk, in what concerns people’s safety, environmental degradation, public health or individual income. Here we find the need for some kind of regulation of multiple dimensions.

Key words: Systemic Risk, Financial Globalization, Regulatory

 

I

Todos sabemos que o mundo tem mudado muito, e cada vez mais depressa, em particular desde as últimas décadas do século passado. A tão falada «globalização» cuja última vaga, iniciada por volta dos anos 1970, torna o mundo cada vez interdependente, aliada ao acelerado desenvolvimento científico e tecnológico, tem contribuído não só para «mudar o mundo», mas sobretudo mudar a nossa maneira de vê-lo. E também de vivê-lo, mesmo sem darmos por isso.

Tudo contribuindo, e de diversas formas, para a coexistência e convivência, em certo ponto do tempo, de pessoas e de sociedades de grande diversidade de culturas, conhecimentos, modos de vida e ideologias ou «visões do mundo». Numa interpretação optimista, a de Alain Touraine1, o mundo ocidental após a conquista da democracia política, terá conquistado a democracia social (social-democracia, Welfare State, etc.), dirigindo-se agora para a democracia cultural.

Na verdade, o mundo tornou-se mais interdependente ou «integrado» mas também mais marcadamente heterogéneo e desigual. E o confronto intercultural é uma das suas facetas. Basta notar que não existe paradigma único para o «desenvolvimento humano» e que o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) regularmente calculado pela ONU desde 1990 é apenas uma noção expedita e simplista para comparações ou rankings internacionais2.

Recusar a percepção desta evolução relativamente recente, como se não houvesse nada de novo, na trajectória multimilenária da humanidade, é manifestar uma estranha forma de cegueira, que consiste em julgar o presente inelutável prisioneiro do passado. Como se, ao conduzir um veículo, apenas bastasse olhar o retrovisor para conhecer o caminho. E assim sofrer o «choque do futuro», para recordar o título dum livro de Alvin Toffler que foi muito famoso há cerca de quarenta anos.

Ora, há razões para afirmar, como vários autores, e de diferentes maneiras, o têm feito, que o actual «presente» está de algum modo mais próximo do «futuro» do que do passado3 ou que o sistema económico e social em que a humanidade encontrou e encontra grandes processos de transformação, o capitalismo, se encontra perto do «fim», sem todavia se saber o que porventura virá a seguir4.

Pois não estamos seguros de que «futuros» se avizinham, apenas podemos imaginar cenários alternativos em função de diferentes conjuntos de hipóteses. Ilya Prigogine, Prémio Nobel da Química em 1977, na sua investigação da termodinâmica, abriu novas perspectivas sobre a problemática do caos sistémico e desvendou possíveis direcções da evolução do cosmos5.

Acresce que a tendência para a extensão da duração média da vida humana, ou prolongamento da esperança de vida à nascença, origina uma coexistência de níveis etários muito distintos, que por seu turno se projectam em «visões do mundo» também muito diferenciadas. Os mais idosos transportam, na sua experiência, realidades profundamente distintas das conhecidas hoje pelos mais jovens. Uma das consequências disto reside na dificuldade crescente de comunicação entre gerações jovens e maduras. As primeiras são menos influenciadas pelas segundas, no seio familiar, e mais condicionadas pelas novas tecnologias da informação e comunicação. Acentuam-se, pois, factores de descontinuidade na transição de gerações.

Este salto geracional é particularmente vincado nos casos em que as sociedades sofreram bruscas e profundas transformações, como foi o caso das «democracias populares» depois do colapso da URSS e do regime ditatorial em Portugal, regime que resistira durante quase meio século aos chamados ventos da História, até à revolução de 1974.

A diferenciação de raiz etária adiciona-se à resultante do lastro que a História e a Geografia depositaram em cada «local» do planeta. Onde, em suma, a identidade que culmina uma específica e longa crónica no espaço-tempo que, eventualmente, poderá ter estado à margem dos mais recentes factores de mudança, é confrontada com outra vivência de um tempo novo. Pense-se, por exemplo, na tendência de concentração de populações nos meios urbanos, com correspondente despovoamento das regiões interiores. Estas envelhecem em vários sentidos, podendo constituir verdadeiras reservas de «espécies» humanas esquecidas num passado cada vez mais remoto. Como a «reserva de selvagens» imaginada por Aldous Huxley na sua famosa anti-utopia Admirável Mundo Novo.

Como então proceder para, quanto possível, guiar um veículo a grande e crescente velocidade (digamos, com todo o respeito, o veiculo chamado História) por caminhos desconhecidos e povoados de ameaças e riscos ignorados? Confiar em algo como a «vontade de Deus» ou a «fatalidade histórica»?

Ou deambular entre acaso e necessidade nas peripécias, curvas e contracurvas do enevoado caminho por onde seguimos, com ambição e esperança, mas também crescente receio?

É assim importante, a propósito de tão imensas e inquietantes questões, reflectir um pouco sobre o que significam tais mudanças. Mesmo sem dispor de apurados instrumentos analíticos para fazê-lo.

 

II

Em grande parte, o panorama descrito é consequência do desenvolvimento recente das novas tecnologias de informação e comunicação. Qualquer indivíduo, esteja onde estiver, se tiver acesso à Internet (o que ainda não é possível por todo lado, não por razões técnicas, mas políticas, como é conhecido), pode ter igualmente acesso a fontes ilimitadas de informação e possibilidades também ilimitadas de comunicação em rede. Diz-se que vivemos no ciberespaço.

O que significa, também, desenvolver uma nova capacidade não só de conhecer, mas de gerir. Gerir pessoas, relações sociais, capitais e organizações. E gerir, além do mais, a nossa percepção do mundo circundante através dos chamados meios de comunicação social, aquilo que no português falado no Brasil, comodamente se designa por midia. Meios que, aliás, não tornam o contexto envolvente necessariamente mais «transparente», mas antes e sobretudo mais «presente», também, mais manipulado, no nosso quotidiano.

Além de tudo isto, e em consequência da evolução própria da economia norte-americana, a colossal globalização financeira das últimas décadas veio dar o predomínio a novas formas de acumulação de capital financeiro, sem contrapartida na economia real. Fazem-se e desfazem-se grande «bolhas» no mercado global de capitais.

Diz-se e escreve-se muitas vezes, confundindo desejos com realidades, que vivemos ou caminhamos, para a «economia baseada no conhecimento», ou até para a «sociedade do conhecimento». Na realidade, estamos cada vez mais dependentes de frágeis economias baseadas na especulação financeira. E esta, por seu turno, gera além do mais um conhecimento adequado ao prosseguimento dessa especulação.

Mas tomamos também consciência de um mundo inseguro, de destino incerto, e palco de múltiplos riscos. Terrorismo, pandemias, degradação ambiental, crises financeiras, são exemplos disso6.

Dir-se-ia que navegamos à vista, num mar recheado de ameaças, mais terríveis do que o Gigante Adamastor que assustou os intrépidos navegadores portugueses no Séc. XV.

No aspecto financeiro, tem-se dito que a recente grande crise mundial é sistémica e não poderá ser resolvida por apressados regressos ao business as usual, para benefício dos grandes manipuladores de dinheiro que ainda dominam a economia mundial.

Assim, se fosse possível medir, além da esperança média de vida (ou duração provável da vida humana), qualquer coisa como a «intensidade de vida» nos tempos que correm, tempos de «lufa-lufa», como analisa o sociólogo Machado Pais em livro recente editado pela Imprensa de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, registaríamos grandes crescimentos em ambas.

Temos, com efeito, muito «mais vida», em média, em cada percurso pessoal, o que não implica necessariamente «melhor vida», que requer, entre outras coisas, tempo livre. Livre, claro, para fazermos o que gostamos de fazer e não aquilo que, de uma forma ou outra, nos «mandam» fazer… ou simplesmente fazemos para sobreviver.

Para todos os indivíduos, organizações e Estados, que tentam navegar neste universo tenso, incerto e movediço, é assim fundamental a avaliação dos riscos que correm e encontrar a melhor forma de superá-los. Sem com isso imitar os ratos que, ao menor ruído, fogem e procuram refúgio no buraco mais próximo. Ou sendo vítimas de outros «ratos» que procuram assustar-nos para tirarem algum benefício disso.

Pois, nesta matéria, não faltam os conselheiros que nos apontam os caminhos óptimos para proteger as nossas poupanças ou, de preferência, para multiplicá-las se fizermos apostas apropriadas nos múltiplos e até engenhosos mercados de capitais que nos rodeiam.

Entre eles, encontram-se as chamadas agências de rating que avaliam os actores que se movimentam nos mercados mundiais e nos dizem que confiança podemos depositar neles, para de uma forma ou outra, aplicar os nossos capitais. Podemos gratuitamente receber todos os dias, mesmo não figurando entre os ricos deste planeta, pela Internet, conselhos sobre aplicações de dinheiro no mundo inteiro que permitirão ganhos impressionantes… se feitas já, bem entendido. Time is money, como se sabe.

De facto, como se dizia em português popular e ingénuo, a ocasião faz o ladrão.

Claro que em ambiente de desconfiança mútua, há países que merecem maior confiança do que outros. Os que não são bem vistos pelas agências de rating, - até os ingleses, grandes pioneiros do capitalismo industrial, além dos gregos, espanhóis e portugueses - são hoje vistos com desconfiança, no grande casino que se tornou a economia mundial.

A delicada questão que se coloca nesta matéria, é a de saber que interesses movem essas tais agências, até porque influenciam em boa medida os riscos em causa, quando pretendem avaliar e classificar «objectivamente» as economias em análise.

Segundo afirmou recentemente Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, não é aceitável que as agências de rating hoje dominantes, ou seja, a Standard & Poor’s, a Moody’s e a Fitch sejam todas do mesmo país, isto é, os EUA. Daí a intenção de criar, no âmbito da União Europeia, um sistema próprio de regulação financeira, incluindo um regulador europeu para aquelas agências.

Mas os tempos necessários para as decisões com consequências práticas, no seio da UE, são lentos e requerem laboriosas negociações. Ao invés, nos mercados financeiros, os tempos são voláteis e difíceis de prever, mesmo ou sobretudo, quando a tempestade se aproxima.

Na realidade, o caminho para a construção de uma nova ordem económica mundial mais estável, justa e equilibrada está longe do seu termo, e novas crises sistémicas serão provavelmente necessárias para acelerar essa construção.

 

III

Este quadro de «risco sistémico» generalizado, sumariamente descrito, apela para agentes ágeis, capazes de actuação eficaz no mercado global: trata-se de prever, prevenir ou superar, quanto possível, os factos nocivos, de maior ou menor envergadura, que se associam aos diferentes tipos de risco, seja no referente à segurança das pessoas, à degradação ambiental, à saúde pública ou ao rendimento individual.

Afinal, encontramos aqui um vector claramente indicativo da necessidade de certo tipo de regulação, de múltiplas dimensões.

Nesta perspectiva, ao contrário do que é mais comum nas análises normativas sobre «futuros desejáveis», orientadas para certo modelo mais ou menos utópico, trata-se duma postura defensiva, visando obstar aos «futuros indesejáveis».

Em tempos passados não muito distantes (digamos, simplificando muito, desde o Séc. XVIII), a humanidade foi sobretudo desafiada pelos «amanhãs que cantam», estes embora sempre correndo na frente, fugindo aos perseguidores de sonhos.

Neste Séc. XXI, ainda recentemente inaugurado, as mudanças requeridas decorrem sobretudo duma atitude defensiva perante futuros, agora realmente possíveis, mas tão negros como o petróleo derramado pela BP na sua desastrosa exploração no Golfo do México.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1) TOURAINE, A. (2005), Um Novo Paradigma para Compreender o Mundo Actual. Piaget, Lisboa.         [ Links ]

2) Cf. Relatórios anuais World Human Development Report da ONU.

3) HANDY, C. (1990), The Age of Unreason. Harvard Business School Press, Boston, Massachussets.

4) SCHOUTEN, P. (2008), «Theory Talks». N.º 13,Wallerstein, Immanuel on World-Systems, the Imminent End of Capitalism.

5) STIG, C. (1977), Award Ceremony Speech, The Nobel Prize in Chemestry.

6) GOLDIN, I. (2010), «Everybody’s business: strenghtning international cooperation in a more interdependent world». Excerpt from the Report of the Global Redesign Initiative, World Economic Forum.