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Sociologia, Problemas e Práticas

versão impressa ISSN 0873-6529

Sociologia, Problemas e Práticas  n.62 Oeiras abr. 2010

 

Género e música electrónica de dança: experiências, percursos e “retratos” de mulheres clubbers

 

João Teixeira Lopes*, Pedro dos Santos Bóia**, Lígia Ferro*** e Paula Guerra****

* Docente do Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (DSFLUP) e investigador do Instituto de Sociologia (ISFLUP). E-mail: jmteixeiralopes@mail.telepac.pt; jmteixeiralopes@gmail.com

** Bolseiro de doutoramento da FCT e investigador do ISFLUP. E-mail: pedroboia@sapo.pt

*** Investigadora do CIES/ISCTE-IUL e do ISFLUP. E-mailligia.ferro@iscte.pt

**** Docente do DSFLUP e investigadora do ISFLUP. E-mailpguerra@letras.up.pt

 

Resumo

O objectivo principal do presente trabalho consiste em apreender a construção de identidades de género no domínio das (sub)culturas juvenis ligadas à participação nas festas de música electrónica, nomeadamente o drum’n’bass, o trance e o techno, tornando possível a apreensão sociológica das complexas intersecções que se estabelecem entre as variáveis género, classe social e a estrutura interna das (sub)culturas club. O processo de estruturação interna das (sub)culturas é equacionado, pois, de forma relacional e com base numa abordagem etnográfica multidimensional, com recurso a entrevistas biográficas e à construção de retratos sociológicos, de forma a detectar transferências e dissonâncias entre a socialização pré-clubbing e a aquisição de novas (?) disposições nos contextos das festas.

Palavras-chave: género, subcultura, música electrónica.

 

Gender and electronic dance music: experiences, histories and “portraits” of female clubbers

Abstract

The main objective of this work is to understand the construction of gender identities in the field of youth (sub)cultures linked to the participation in electronic music festivals, in particular, drum’n’bass, techno and trance, in order to understand the complex intersections between gender and social class and the internal structure of club (sub)cultures. The internal structuring process is therefore considered in a relational and multidimensional approach, using ethnographical approaches, biographic interviews and sociological portraits in order to detect transfers and discrepancies between pre-clubbing socialising and the acquisition of new (?) dispositions in the parties’ contexts.

Key-words: gender, subculture, electronic music.

 

Genre et électro dance: expériences, itinéraires et “portraits” de femmes clubbers

Résumé

L’objectif principal du présent travail consiste à appréhender la construction d’identités de genre dans le domaine des (sub)cultures juvéniles liées à la participation dans les fêtes de musique électronique, notamment la drum’n’bass, la trance et la techno, en rendant possible l’appréhension sociologique des complexes intersections qui s’établissent entre les variables genre et classe sociale et la structure interne des (sub)cultures club. Le processus de structuration interne des (sub)cultures est construit, donc, de forme relationnelle et sur base d’un abordage ethnographique multidimensionnel, ayant recours à des entrevues biographiques et à la construction de portraits sociologiques, de manière à détecter des transferts et des dissonances entre la socialisation pré-clubbing et l’acquisition de nouvelles (?) dispositions dans les contextes des fêtes.

Mots-clés: genre, subculture, musique électronique.

 

Género y música electrónica de danza: experiencias, trayectos y “retratos” de mujeres clubbers

Resumen

El objetivo principal del presente trabajo consiste en aprehender la construcción de identidades de género en el dominio de las (sub)culturas juveniles ligadas a la participación en las fiestas de música electrónica, denominadas el drum’n’bass, el trance y el techno, tornando posible la aprehensión sociológica de las complejas intersecciones que se establecen entre las variables género, clase social y la estructura interna de las (sub)culturas club. El proceso de estructuración interna de las (sub)culturas es reflejado, pues, de forma relacional y con base en un abordaje etnográfico multidimensional, con recurso a entrevistas biográficas y a la construcción de retratos sociológicos, a manera de detectar transferencias y disonancias entre la socialización pre-clubbing y la adquisición de nuevas (?) disposiciones en los contextos de las fiestas.

Palabras-llave: género, subcultura, música electrónica.

 

 

Considerações iniciais: a “fala” do clubbing

O objectivo principal do presente trabalho consiste em colocar à discussão uma abordagem analítica com potencial heurístico para compreender os processos de construção identitária de género no domínio das (sub)culturas juvenis ligadas à participação nas festas de música electrónica.[1] Como se torna inexequível abranger todos os subgéneros que medram neste efervescente mundo da música electrónica, optámos por testar a nossa proposta de modelo apenas em alguns desses subgéneros musicais, nomeadamente o drum’n’bass, o trance e o techno. A sua escolha pretende realçar a importância do estudo das feminilidades e relações de género em fracções subculturais preferencialmente underground e relativamente desconhecidas. Logo aqui o house (mais comercial e hegemónico) ficou de parte. O drum’n’bass, por seu lado, tornou-se como que uma escolha óbvia, devido à sua importância na região do Porto: apesar de ser uma fracção subcultural underground, tem uma grande incidência nesta área metropolitana (em sentido lato), proliferando as festas e consolidando públicos frequentes há quase uma década. O techno e o trance, apesar de menos visíveis territorialmente, têm vindo a ganhar, igualmente, um importante destaque em agendas e espaços culturais “alternativos”. De qualquer forma, convém referir que a constante emergência de subgéneros (e de subsubgéneros) nos levou a ter a conta a fluidez de fronteiras e as demarcações, por vezes difusas e instáveis, entre os diferentes “mundos” ou “cenas”. Além do mais, como adiante se verá, muitas das mulheres observadas apresentam trajectos erráticos e algo nómadas. Desta forma, ainda que em “segundo plano”, o próprio house acabará por ser analisado, embora sem a mesma densidade e a um nível mais indirecto.

Em termos metodológicos, a pesquisa sustenta-se na etnografia, embora sem a componente da observação participante, dada a duração limitada do projecto (um ano). Desta forma, seguindo os princípios de um trabalho de campo territorialmente delimitado e obedecendo ao cariz relacional do próprio objecto de estudo, bem como ao papel activo do investigador no terreno, adoptamos um procedimento abdutivo. Se é verdade que a função de comando da teoria, quando utilizada em moldes que a sua metáfora “militar” sustenta, pode contribuir para uma negação da própria realidade, não é menos verdadeiro, assim o defendemos, que a exposição passiva aos princípios da grounded theory transporta riscos de alguma ingenuidade empirista e, pior ainda, de um certo resvalar neo-romântico para os imprevistos da pesquisa, sendo que esses imprevistos apenas podem ser entendidos como tal dentro de um quadro de inteligibilidade previamente construído. Em suma: renunciamos a arquitecturas teóricas impossíveis de falsificação, na terminologia popperiana, bem como a corpus blindados de conceitos (substantivos e adjectivos) e de hipóteses teóricas. Antes os entendemos como matrizes de enquadramento, suficientemente plásticas para exercitarem o perpétuo movimento entre dedução e indução, bem como a constante reconstrução da teoria (Burawoy, 2005).

Por outro lado, a abertura ao eclectismo que o trabalho etnográfico exige levou-nos a aplicar uma panóplia de procedimentos técnicos: incursões e viagens nas festas dos vários subgéneros, com o accionamento de observação directa metódica não interferente, observação directa metódica e sistemática, conversas informais (sem deixar de se ter em conta os documentos produzidos pelas organizações que nutrem tais eventos) e, principalmente, entrevistas a mulheres clubbers (múltiplas sessões, entrevistas das mais abertas e quase informais às semidirectivas, focalizadas quer nos percursos das mulheres pré e extra-clubbing, quer nas suas experiências e trajectórias no clubbing). Foram realizadas vinte e uma sessões de entrevista a dezasseis (16) mulheres clubbers, perfazendo um total de 32h51m de entrevistas gravadas (excluindo entrevistas exploratórias).

O aprofundamento da análise de algumas das entrevistas incitou-nos à construção de retratos sociológicos, inspirados em Bernard Lahire (2002), baseados em registos de cariz biográfico, dando conta, em simultâneo, quer das grandes regularidades sociológicas presentes nos percursos e opções dos entrevistados, quer das contratendências, contradições e excepções correlativas à “regra sociológica”. Como fazê-lo? Por um lado, reconstruindo as disposições sociais a partir da realidade empírica (sem as deduzir automaticamente das posições sociais), detectando a variação ou a não variação dos comportamentos e atitudes tendo em conta os contextos sociais, dos mais estruturais aos cenários de interacção, o que permite não só compreender as propriedades sociais dos contextos (contextos em si, práticas e relações que neles se estabelecem) como, sempre que possível, estabelecer a génese das orientações para a acção através da reconstituição da singularidade dos percursos.

As festas de música electrónica formam os cenários de interacção onde tais processos de relações de género e de construção identitária se manifestam. A pesquisa ancora-se em contextos festivos localizados principalmente na Área Metropolitana do Porto, com excepção do subgénero do trance: pelas características voláteis das suas festas, o horizonte geográfico dilata-se um pouco, abrangendo alguns pontos fora do Grande Porto, embora sempre localizados no Norte e, com menos incidência, na Região Centro.

Finalmente, o trabalho etnográfico obriga-nos a uma particular atenção aos contributos das teorias auxiliares de pesquisa (Blalock, 1970), uma vez que ganham relevo as questões resultantes das relações sociais de observação e da intersubjectividade socializada consubstancial ao interhabitus de observadores e observados (Pinto, 2000).

Apesar das suas limitações a este nível, teria sido útil, com outra temporalidade na duração da pesquisa, o recurso a metodologias e técnicas quantitativas que permitissem obter dados extensivos, em particular sobre as classes sociais de pertença e de origem das frequentadoras de cada fracção subcultural. Tal contribuiria para se confirmarem (ou não) regularidades (e a partir daí isomorfismos ou “homologias”) nas características sociais dos frequentadores de cada fracção (sub)cultural.

Para além destas preocupações epistemológicas, com pertinentes declinações heurísticas, foi nossa intenção dar azo à “imaginação sociológica”, através da construção de um modelo que pudesse, eventualmente, ser usado em contextos de pesquisa diversos. Assim, a moldura conceptual apresentada resulta particularmente de uma revisão da literatura produzida em torno de conceitos como “subculturas”, “pós-subculturas” e “culturas club”, dando uma atenção primordial ao lugar que as identidades e relações de género adquirem neste pano de fundo teórico-empírico. Apesar de não serem aí apresentados explicitamente os dados que têm resultado do trabalho de campo, a verdade é que eles são omnipresentes na produção e discussão do modelo proposto, fazendo jus ao “vaivém” teoria-empiria. Este processo dialéctico é imprescindível em qualquer estudo social, mas adquire ainda maior pertinência no caso das investigações qualitativas, onde as observações e as conceptualizações possuem uma relação mais íntima.

Assim, desejamos tornar possível a apreensão sociológica das complexas intersecções que se estabelecem entre as variáveis género, etnicidade e classe social, e a estrutura interna das (sub)culturas club. O processo de estruturação interna das (sub)culturas é equacionado de forma relacional: para destrinçá-lo há que ter em conta os papéis subculturais desempenhados (nas esferas da produção e do consumo), os mecanismos de segmentação interna e as estruturas de acumulação de capital subcultural. Consideraremos, ainda, a influência de outras esferas mais abrangentes na estruturação das identidades e relações de género no clubbing e, consequentemente, na configuração das (sub)culturas em questão (destacamos as esferas da família, da escola, do trabalho e do lazer). Apesar de se tratar de um quadro que está a ser aplicado ao mundo das festas de música electrónica em contextos sociais específicos, esperamos que possa ser, também, um ponto de partida para analisar as identidades e as relações de género em outras (sub)culturas.

Pretende-se, pois, compreender a experiência das mulheres no clubbing, focando as implicações desta prática social em termos de vivências do controlo social, de autonomia, da sexualidade, do uso de drogas e do risco (especialmente situações de risco relacionadas com “violência”, sexualidade e consumo de drogas).

Todavia, sublinhamos que o risco é pensado como um factor que pode funcionar tanto negativa como positivamente em termos das vivências das mulheres clubbers. Rejeitamos, a priori, qualquer tentação moralista, no que ao risco diz respeito. As festas de música electrónica são relatadas, frequentemente, como espaços de liberdade, de aventura, de prazer. No clubbing, mulheres e homens podem reproduzir as relações sociais “regulares” de poder entre géneros. Da mesma maneira, homens e mulheres podem encontrar nas festas espaços alternativos de construção identitária e de relacionamento inter e intragéneros, estribados em pressupostos “marginais” de acumulação de capital social.

Num ou noutro cenário, não prescindimos do intuito de resgatar uma fala do clubbing que, sendo internamente organizada por vivências e quotidianos que se cristalizam, situacionalmente, em representações traduzidas por expressões, signos e códigos, podem, pela análise propriamente sociológica, desocultar significados, estabelecer novas relações e tornar visível o que (apesar dos avanços registados na dilatação das lógicas da razão crítica universal e abstracta, de raiz iluminista, pelo cruzamento com as políticas da diferença) permanece, tantas vezes, no domínio do não-dito, do interdito ou do insignificante.

Sistematizando, procurámos relacionar os seguintes eixos de análise (ver figura 1).

 

Figura 1 Modelo para a análise das construções identitárias de género nas (sub)culturas club

 

Eixo de análise 1: estudo das construções de género implicadas nas estruturas internas das (fracções das) (sub)culturas club e transpostas em papéis e expectativas inerentes, de um modo implícito ou explícito, às próprias (sub)culturas. Tal será concretizado através da análise dos discursos e das “descrições” feitas pelas entrevistadas, complementadas pelos dados recolhidos através das incursões etnográficas.

Eixo de análise 2: observação dos processos através dos quais as identidades e disposições de género pré-clubbing “de longo curso” (em intersecção com as outras variáveis estruturais, como a classe e a etnicidade), interiorizadas por cada uma das mulheres clubbers entrevistadas, mediam a interiorização e efectivação (“performativa”) das identidades e disposições de género subculturais e respectivos papéis. É essencial considerar-se aqui a socialização de género das mulheres, no âmbito das suas trajectórias pré-clubbing, nomeadamente na relação com as esferas da família, escola e trabalho. Para tal, procura-se captar, através das entrevistas semidirectivas em profundidade, as narrativas das mulheres sobre si mesmas (consciência discursiva), cruzadas com elementos biográficos relevantes.

É de salientar a importância heurística da teoria disposicional (Lahire, 2001; 2004; 2005; 2006), na qual são relevantes as noções de pluralidade disposicional e de transferibilidade das disposições de género entre contextos de acção (vigília versus sonolência das disposições). Na verdade, importa estar atento à possibilidade de surgimento de “homologias” e continuidades, bem como de rupturas e descontinuidades entre elementos identitários e disposições de género — pré e extra-(sub)culturais versus (sub)culturais —, bem como de dilemas disposicionais e identitários.

Eixo de análise 3: descortinar qual a significância que têm nas vidas das mulheres os modos específicos da sua participação nas (sub)culturas club. Recorrendo novamente à teoria da prática, importa saber se existirão disposições significativas ao nível do género, forjadas pela socialização club-(sub)cultural das mulheres, que são activadas (e por isso consequentes) em contextos de acção no plano extra-clubbing. Até que ponto constituirão, de facto, as fracções do clubbing, nos contextos observados, um espaço privilegiado de experimentação de novas feminilidades e de resistência e/ou desafio face às feminilidades tradicionais, como sugere Pini (2001)? Em que medida tais contextos e práticas culturais se constituem como espaços e formas de “empoderamento” ou des-“empoderamento” das mulheres?

No presente artigo, sem descurarmos a íntima conexão entre as três dimensões, desenvolveremos mais detalhadamente o terceiro eixo a partir dos percursos de mulheres clubbers resgatados nos e pelos “retratos” (sociológicos) de dez das entrevistadas (três frequentadoras da fracção techno, três da fracção drum’n’bass e quatro da fracção trance — quadro 1). As reflexões que em seguida se apresentam resultam ainda das incursões etnográficas aos quadros de interacção (“cenas”) dos três subgéneros apontados.

 

Quadro 1 Retratos sociológicos

 

 

Hibridismo e pendularidade entre fracções e “cenas” club-(sub)culturais: um traço pós-subcultural com marcas estruturais? Algumas reflexões

Como contraponto e tensão face às “homologias”, é de salientar a existência de um certo grau de fluidez e de hibridismo, traço pós-subcultural que se concretiza através de migrações e de movimentos pendulares entre fracções club-(sub)culturais e respectivas “cenas” por parte dos frequentadores.

As observações apontam para a existência de movimentos migratórios de frequentadores do trance para o drum’n’bass (Júlia), bem como do house para o trance (Clara e Teresa) ou para o drum’n’bass. Nestes casos, poderão verificar-se processos de ressocialização e integração mais ou menos intensos dos novos frequentadores (fazendo com que a sua proveniência deixe de ser reconhecida — ou, pelo menos, tão reconhecível — nos contextos relativos à fracção club-(sub)cultural de destino). Pelo contrário, certos movimentos migratórios caracterizar-se-ão pela ausência de integração, sendo determinados frequentadores vistos como forasteiros ou mesmo “intrusos”. De igual modo, podem também ser marcados por um baixo grau de integração (ou uma integração relativa com vicissitudes), em que se conserva um certo hibridismo (por exemplo, o reconhecimento, por parte dos frequentadores mais legítimos, dos “’rastas’ que vêm do trance”, em virtude de estes manterem determinados modos de apresentação, modos de estar e práticas, característicos da fracção clubbing de onde são provenientes).[2] Este hibridismo nas pertenças club-(sub)culturais (decididamente com intensidades variáveis relativamente a cada fracção em jogo) constitui, certamente, um contraponto pós-moderno e pós-subcultural face às “homologias”, mas tal não significa um apagamento de marcas e diferenças sociais, em que são relevantes as variáveis clássicas.

Uma outra dimensão prende-se com os esquemas de percepção e avaliação, uma vez que as clubbers, quer referindo-se aos membros das outras fracções quando se situam nos respectivos contextos, quer quando são imigrantes nos contextos relativos a outras fracções, produzem classificações e julgamentos sociais. Estes processos de categorização e de julgamento geram-se no âmbito intergrupal (“gunas”, “mitras” “betinhos”, “meninos de estudo”, “rastas”, “tias”), mas também intragrupal, dadas as segmentações internas. Por exemplo, nas categorizações internas do trance, surgiu a diferenciação entre o freak e o beto-freak (DJ Trancer), ou seja, entre aqueles cujo estilo é mais, poderíamos dizer, “autêntico” (no sentido de o seu vestuário não implicar gastos financeiros consideráveis e de tal facto se enquadrar na ideologia — oficial, pelo menos — de recusa do consumismo), e os que, pelo contrário, usam vestuário também associado à fracção e à “cena”, mas de marcas específicas e comprado em lojas especializadas e substancialmente mais caro, o que se associa a uma vertente de comercialismo e de exploração comercial por parte do segmento da produção desta fracção club-(sub)cultural. O estilo beto-freak associa-se ao que Teresa (trance) denomina “um fashion”, que considera estar a emergir progressivamente no trance (num sentido parecido com o que o termo adquire relativamente ao house) e que os frequentadores mais “autênticos” lamentam, fenómeno que ela considera igualmente “preocupante”. Estas segmentações internas — e o(s) respectivo(s) (tipos de) capital subcultural em jogo — não são alheias à interferência de factores estruturais e a diferenças na posse de capitais ao nível extra-(sub)cultural, maxime o económico. Tais elementos extra-(sub)culturais produzem, pois, disparidades nos modos de relação com a club-(sub)cultura e a sua apropriação e reconstrução. Existem diferenciações no modo como o clubbing é vivenciado nas várias fracções club-(sub)culturais e respectivos contextos e “cenas”. Dissemelhanças que são percepcionadas e reconhecidas (sendo assim também construídas) pelos próprios clubbers quando se observam mutuamente, o que lhes permite reconhecer e classificar imediatamente, por empatia, a que fracção club-(sub)cultural pertencem.

Todos estes processos de categorização e de julgamento associam-se a marcas sociais nas interacções concretas, apesar de um primeiro olhar superficial e distraído sobre a pista de dança, a pouca luz existente e a massa de corpos em movimento darem a impressão indistinta de homogeneidade, uma espécie de “corpo sem órgãos”, onde aparentemente se verificaria uma dissolução de diferenças sociais.

No entanto, tais processos de categorização e julgamento e respectivas marcas sociais nas interacções têm implicações que transcendem as meras vivências mais directamente club-(sub)culturais. Tal é revelado pelo facto de, por exemplo, o uso dos termos “guna”, “mitra” e “tia” não ser exclusivo de uma classificação no interior das fracções club-(sub)culturais. Pelo contrário, uma generalização do uso de tais termos antecede e transcende, mesmo, o seu emprego club-(sub)cultural. O uso da categoria “guna” é corrente em certos contextos, pelo menos na região do Grande Porto, denominando jovens provenientes de bairros sociais aos quais é associado um determinado estilo de apresentação de si. O mesmo poderá dizer-se, mutatis mutandis, do emprego da expressão “tias da Foz” ou “meninos de estudo” por frequentadoras de techno.

No interior das “cenas” e contextos do clubbing existem, pois, lógicas e processos de inclusão (por exemplo, as possibilidades de absorção, em maior ou menor grau, dos trancers pelas “cenas” drum’n’bass) e de exclusão (dos “gunas” nas “cenas” do drum’n’bass e do trance). Todos estes fenómenos reproduzem, em certa medida, lógicas e processos extra-subculturais mais amplos (associados à topografia das zonas da cidade, aos bairros sociais, aos problemas de desemprego, exclusão, tráfico de droga e criminalidade, bem como à decorrente produção de representações sociais).

Assim, podemos considerar, de certo modo, a existência de algumas “homologias” entre processos de inclusão/exclusão club-(sub)culturais, por um lado, e processos de segmentação e de exclusão social que transcendem as próprias “cenas” e contextos do clubbing, por outro. Existem igualmente situações em que a/o clubber que, mais ou menos frequentemente, vai a festas de outra fracção club-(sub)cultural não manifesta qualquer intenção de mudar para essa mesma fracção: é isso o que provavelmente acontece com a maioria dos amantes do techno que vão a festas de drum’n’bass ou de trance. Sendo vistos como intrusos ou, pelo menos, como membros não legítimos, eles próprios não se assumem identitariamente como trancers ou D’n’B’ers. Constatam-se aqui, certamente, diferenciações nos modos como o clubbing é vivenciado, associadas a diferentes modos de festejar (Pinto, 2000), sendo estes, sem dúvida, determinados quer pelas diferenças de género, quer por segmentações associadas à classe e ao meio social, podendo verificar-se processos de intersecção de intensidade variável entre ambas as variáveis.

Para além disso, no entanto, a multiplicidade de vivências deriva igualmente de plurais motivações por parte dos frequentadores. Em primeiro lugar, uma razão bastante prática seria a possibilidade de acederem mais frequentemente a festas de música electrónica devido à relativa escassez de festas de techno. Segundo os discursos das frequentadoras do trance e do drum’n’bass,[3] as motivações dos “gunas” — igualmente práticas, diga-se — que os levam a ir a estas festas são essencialmente três: (1) vender substâncias (ou seja, são dealers “profissionais”), (2) roubar e (3) causar episódios de violência. As duas primeiras razões seriam claramente económicas, ou seja, a motivação da ida é “para o negócio” — empregando a expressão usada por Rosa, uma das frequentadoras das festas techno entrevistadas, que chegou ela própria a ir a festas (associadas a diferentes fracções) com essa finalidade. Razões, enfim, que superam claramente uma abordagem pós-moderna fundada no gosto…[4] Quer pela mão dos consumidores, quer dos traficantes e vendedores, os movimentos migratórios e pendulares podem causar a introdução de novas drogas nas “cenas” e contextos relativos a uma dada fracção club-(sub)cultural — diferentes das que inicialmente seriam características de tais fracções, aos níveis psicocultural e simbólico. Inês e Clara queixam-se do facto de terem surgido drogas mais “químicas” nas festas de trance, facto que associam ao maior comercialismo, à massificação das festas e à consequente entrada de novos tipos de frequentadores, entre os quais os “gunas” que vêm do techno (ou “mitras”, como lhes chamam no trance). Violeta (drum’n’bass) e Clara (trance) lamentam que os tempos sejam outros e que já não se sintam confiantes como há alguns anos, de maneira a pousarem despreocupadamente os seus pertences, durante as festas, sem receio de serem furtadas. Para Teresa (techno), o presenciamento de um episódio de esfaqueamento numa festa, bem como o aumento de situações de roubo e os receios de violação, constituíram factores determinantes do seu progressivo afastamento das festas. Entretanto, Vanessa (techno) conta como, na eventualidade de surgirem conflitos, os “gunas” intimidavam os demais reivindicando ostensivamente a pertença a um determinado bairro, usando em seu proveito os estereótipos e representações negativas que sabiam que os outros tinham a seu respeito.[5] Finalmente, o discurso de DJ Isabel sugere que o processo relativamente recente de emergência e afirmação de um novo subgénero musical e respectiva “cena” club-(sub)cultural (o techno-minimal) constituiria um processo de distinção social com implicações ao nível de segmentações sociais no plano extra-clubbing, quando afirma que o techno-minimal é frequentado por pessoas que gostam de techno e que frequentam tais festas, embora sem se identificarem com a atmosfera de violência e de elevados consumos de substâncias atribuída à presença dominante dos “gunas”.

 

Género, classe e risco no clubbing

A intersecção entre origens e pertenças sociais pré e extra-clubbing, fracções/“cenas”/contextos do clubbing e pertenças de género contribui para uma abordagem multifacetada das experiências femininas no clubbing. Apalpões (Júlia, drum’n’bass), roubos e violência parecem ser factores que potenciam o afastamento das festas (traduzido no espaçamento temporal das incursões) por parte de algumas das mulheres entrevistadas (nomeadamente, do trance e do drum’n’bass).

Será que tal significa que, por exemplo, a “liberdade e a igualdade entre homem e mulher” no trance — elemento tão enfatizado nos discursos de Teresa e de Clara — poderá estar a ser posta em causa em virtude de um aumento da violência naqueles contextos? Será que essas transformações (ligadas à massificação, ao comercialismo) estão em vias de produzir um retorno às feminilidades tradicionais e ao afastamento das mulheres das festas como sugere Romo (2004)? De facto, várias entrevistadas apontaram factores associados às transformações acima referidas como razões para frequentarem menos assiduamente as festas, ou então, para serem muito mais selectivas, optando por eventos mais pequenos, menos publicitados e de acesso mais restrito. No entanto, dada a segmentação entre as/os frequentadoras/es mais antigas/os e com mais idade (em cujo grupo se incluem praticamente todas as entrevistadas) e as/os de faixa etária inferior sugerida na generalidade dos discursos recolhidos, nada nos garante que o mesmo aconteça no caso das mulheres clubbers deste último segmento.[6]

Todavia — e talvez algo surpreendentemente — dentro dos contextos techno encontramos, a este nível, uma afirmação respeitante ao desenvolvimento de estratégias accionadas que lhes permitem lidar com determinados problemas. Assim, para evitarem quer o controlo social que seria exercido no interior das festas pelos namorados, companheiros e maridos, quer o surgimento de episódios de violência — cuja causa atribuem essencialmente aos homens —, estas frequentadoras organizavam-se entre si, formando um grupo de oito mulheres, de forma a irem em conjunto aos eventos. Tal funcionava como um mecanismo de salvaguarda da sua liberdade e autonomia, face a mecanismos de controlo social em que se verificava a reprodução dos papéis tradicionais, quando homens (namorados, companheiros, maridos) lhes procuravam impor limites face a quantidades de drogas consumidas e horários de saída. Eis aqui marcas de género — claramente resultantes da sua intersecção com implicações de classe e de meio social — que a pista de dança não consegue apagar. Adicionalmente, como vimos, as mulheres do techno têm, por vezes, papéis activos quer no “negócio” (a venderem substâncias, como Maria e Rosa; a roubarem), quer em episódios de violência (tanto quando fazem “filmes” [Vanessa] de ciúmes, como quando se associam a roubos). Nestes casos, haveria mais ou menos explicitamente uma protecção masculina no seio do grupo “do bairro”, visível, por exemplo, quando uma “amiga” de Vanessa dizia à vítima (que tentava reagir), em tom de ameaça, a sua proveniência territorial, estratégia usada como forma de intimidação e de dissuasão de qualquer reacção por parte dos alvos que assaltava, quando ia às festas “p’ra se fazer à vida”. Note-se como em tais estratégias existe uma manipulação de papéis e expectativas de género particularmente notória quando, nos grupos que nas festas “se fazem à videira”, como diz Rosa, constituídos por vários homens e uma ou duas mulheres, estas simulam que a vítima as “apalpou” como mecanismo de distracção para se gerar a confusão e propiciar os roubos.

Ao que parece, os frequentadores associados ao techno que vão a festas de trance e de drum’n’bass são sobretudo homens (tal é claro nos discursos de todas as frequentadoras destas duas fracções entrevistadas). Não deixa de ser interessante verificar que, aparentemente, as mulheres do techno vão muito menos do que os homens a festas das outras fracções do clubbing aqui estudadas — excepção feita à circulação entre pistas de grandes discotecas ou festivais onde se realizam, simultaneamente, eventos de vários géneros.

Apesar das dimensões acima referidas, em que se verifica uma afirmação da autonomia e, inclusivamente, a assunção de posturas activas no desempenho de papéis tradicionalmente “masculinos” por parte de mulheres clubbers da fracção techno (e house),[7] constata-se a existência, nessa mesma fracção, de discursos,[8] inclusivamente referentes a experiências pessoais, que apontam para situações de elevado risco e de perigo (relativamente às drogas e à sexualidade): “minar” as bebidas, aproximações e investidas de homens (os próprios seguranças e donos de estabelecimentos) em torno de uma mulher que dança, predadorismo e explícita violência sexual (nomeadamente consubstanciada através de tentativas de violação). A constatação feita por Ana (techno) de que geralmente “o pecado” vem dos “grandes, daqueles que têm o poder” mostra como estes fenómenos não estão isentos de implicações extra-clubbing e de convertibilidade entre capitais (subcultural, económico e social, podendo a distinção entre subcultural e extra-subcultural fazer mais ou menos sentido conforme as situações).

O “cordão humano” (se bem que sem objectivos de socorro humanitário!) formado pelos seguranças em torno de Rosa (techno), quando esta dançava freneticamente, absorvida pela música e pelo efeito das “rodas”, impedindo a passagem aos seus amigos que a procuravam resgatar, mostra como a dimensão espacial é central às estratégias dos poderosos. Quando, noutro episódio, dois seguranças a seguiram à casa de banho, tentando violá-la, o aproveitamento oportuno do momento certo para a fuga — a entrada de duas raparigas — revela, por seu lado, a importância da dimensão temporal para os mais fracos. Os contributos de Certeau são aqui fortemente heurísticos.

Certas situações, como a “minagem”, acontecem tanto a homens como a mulheres, constituindo, mais do que risco, um real perigo com o qual todos os frequentadores se deparam (especialmente se são iniciados), apesar de o fenómeno adquirir contornos próprios conforme os géneros. Torna-se igualmente interessante constatar que Maria “genderiza” comportamentos (aproveitar-se da fragilidade do outro, o predadorismo sexual, a “minagem”, roubar, ser violento) como “masculinos”, ao referir-se a mulheres que exteriorizam essas práticas classificando-as de “piores que os homens”. Cumulativamente, estas condutas são atribuídas aos “gunas”, consequência, afinal, da massificação das próprias “cenas”. Assim, surge uma distinção de classe face à proveniência desqualificada e desqualificante de tais elementos perturbadores. É ainda especialmente relevante, na tripla intersecção entre género, classe e segmentação do clubbing underground em fracções, constatar que são as mulheres do techno (de origens operária e popular e com habitus de classe bem vincados, com excepção de Ana) as únicas que relatam situações em que foram vítimas de predadorismo sexual e tentativa de violação. Apesar de “minar” as águas parecer constituir-se como um fenómeno transversal aos contextos de todas as fracções club-(sub)culturais estudadas (sendo, sem dúvida, potencialmente comprometedor de eventuais possibilidades de “empoderamento”), a referência a tal prática surgiu com muito mais frequência e intensidade nos discursos das frequentadoras de techno do que nos restantes. Tenderão estas mulheres (considerando-se os contextos clubbing em que se movem) a ser socialmente mais vulneráveis a tais perigos?

Por outro lado, determinadas vicissitudes do eventual “empoderamento” das mulheres especialmente proporcionado pela participação no clubbing são transversais a todas as fracções club-(sub)culturais: é o caso, especificamente, da tendência que se verifica, com mais ou menos intensidade, de serem subsidiárias e dependentes face aos homens na obtenção de drogas. Possuir drogas e dá-las a outros/as funciona, claramente, nos cenários em estudo, como uma forma de capital subcultural. Sendo as economias de distribuição e uso de drogas das fracções club-(sub)culturais analisadas fortemente marcadas pelas possibilidades de obtenção gratuita de drogas pelas mulheres, tal parece potenciar consideravelmente as possibilidades de risco, já que, como diz o ditado, “a cavalo dado não se olha o dente”. A propósito destas complexas articulações entre risco, capital subcultural, género e drogas, emergem elementos que evidenciam quer o facto de que os homens poderão oferecer drogas como estratégia de “engate” e com expectativas de obterem o retorno em termos de gratificação sexual, quer circunstâncias em que as mulheres manipulam e jogam com tais expectativas (eventualmente induzindo-os em erro), com vista a maximizarem a obtenção gratuita das substâncias. Não são de negligenciar marcas estruturais que transcendem o clubbing, em virtude da existência, no âmbito dos processos descritos, de mecanismos de convertibilidade dos capitais extra-subculturais em capital subcultural (nomeadamente através da conversão do capital económico em drogas/capital subcultural). Paradoxalmente, no âmbito de todos estes processos, surge, inesperadamente, o “empreendedorismo” de Maria e Rosa (techno), em que são marcantes as contradições de uma curiosa mistura entre dependência (face aos homens) e empreendedorismo (em que a dependência se assume enquanto condição desse mesmo empreendedorismo). O facto de estas situações terem surgido no techno (entre frequentadoras oriundas de meios populares), enquanto que, nem no trance nem no drum’n’bass (ao que tudo indica fracções muito frequentadas pelas classes médias) foram feitas quaisquer referências a mulheres vendedoras de substâncias (inclusivamente quando o entrevistador abordava directamente a questão), não deixa de ser interessante.[9] Talvez entre os factores explicativos da pouca participação das mulheres na venda de substâncias (será o techno excepcional a este respeito?) esteja a possibilidade de tal prática ser particularmente mal vista se for levada a cabo por um elemento feminino, como sugere DJ Trancer (trance) — inclusivamente, haveria dois pesos e duas medidas (duplo padrão de avaliação) no julgamento de homens e mulheres, deparando-se estas com uma desqualificação social ao serem equiparadas aos “mitras” (“mas tu agora és mitra?”).

Finalmente, um elemento infra-estrutural da economia de uso e distribuição de drogas em todas as fracções de clubbing aqui estudadas (nomeadamente o facto de serem os homens os detentores das drogas e a tendência das mulheres para serem “colas”) tem implicações nos níveis de risco experimentados pelas mulheres (“colas”) em função da sua pertença social. No “retrato” de Violeta, a falta de capital económico contribui para uma maior predisposição para ser-se “cola”, assumindo comportamentos de maior risco (aceitam gratuitamente as substâncias, dado que é o único modo de as poderem consumir, dada a falta de recursos financeiros, não se preocupando com a origem das mesmas).

 

Masculinidades e relações de género

Importa ainda tecer alguns comentários a propósito da questão das masculinidades e relações de género nas fracções club-(sub)culturais estudadas.[10] Apesar de a pesquisa ter como objecto de estudo as experiências das mulheres, o género é eminentemente relacional (interssexual), levando a uma abordagem das representações femininas das masculinidades, o que constitui, aliás, uma aliciante dimensão para um aprofundamento futuro.

Parece ser claro que se configura uma relativa oposição entre as masculinidades que são porventura dominantes, por um lado, no techno e, por outro, no trance. As masculinidades mais polarizadas ou “duras” do techno (frequentadores potencialmente agressivos e eventualmente impositores de um controlo masculino sobre as mulheres, sem que se negligencie o controlo por vezes cerrado por parte das próprias mulheres, para além dos eventuais “filmes” de ciúmes deles e delas) estão em consonância/“homologia”com o estilo relativamente andrógino — em direcção ao “masculino” — do próprio techno. Como descrevem Rosa e Vanessa, as mulheres vestem despreocupadamente uma t-shirt, calças de ganga, sapatilhas, sem usarem qualquer maquilhagem. Por outro lado, a forma de masculinidade e os estilos estão em consonância com as próprias características da música, mais “dura” e “agressiva”, na qual predomina o aspecto rítmico, com batidas muito fortes e rápidas (ou rapidíssimas), hiperminimalista e em que a dimensão melódica está praticamente (ou mesmo) ausente (a que se junta o elevadíssimo volume sonoro).

A agressividade e os episódios de violência (cuja responsabilidade é atribuída, nos discursos, principalmente — mas não exclusivamente, note-se — aos homens) seriam potenciados pelo uso das “rodas” (ecstasy) — cujos efeitos consistem em maximizar a energia dos movimentos. A dança no techno faz-se, aliás, com movimentos bastante energéticos. Quanto aos efeitos do ecstasy, para além de poderem gerar a “onda do amor”, Maria refere que podem potenciar a violência, já que “aquele que é violento e que só vê violência […] acho que ainda fica pior, mais possuído”. Note-se que as festas de techno são frequentemente marcadas por episódios de violência, possivelmente ligados, em parte, ao narcotráfico. Curiosamente, no entanto, esta acentuação de uma masculinidade das classes populares, misturar-se-ia com uma suavização dos seus traços: “os olhares de Topo Giggio” de quando ficam “mais meiguinhos”, “muito apaixonados” — “como elas”, aliás —, que Rosa atribui aos efeitos das “rodas”, pois “no estado normal, de certezinha que eles não são assim…”[11] Enquanto este aspecto confirmaria a sugestão de McRobbie (1991; 1994; 2004) segundo a qual o ecstasy suaviza as referidas masculinidades, o anterior levanta interpelações não negligenciáveis, levando a um questionamento da aplicabilidade e da universalização não problematizada dessa interpretação.[12] Adicionalmente, o facto de nas festas de techno (ao contrário, porventura, dos contextos a que McRobbie se refere) a regra ser a mistura de ecstasy com álcool e outras drogas (em grandes quantidades) levanta questões adicionais sobre os efeitos daí decorrentes. Refiram-se, como marcas das relações de género presentes na fracção e “cena” techno, o controlo social e a postura possessiva (exercidos com especial força pelos homens, mas também com franca vitalidade pelas mulheres — descrições dos seus “filmes de ciúmes” e os episódios de lutas entre si).

No extremo oposto encontramos as masculinidades do trance, onde se parecem esbater, até certo ponto, diferenças/desigualdades de género. Teresa e Clara são bastante assertivas na sua afirmação de que as festas de trance constituem um lugar de “igualdade e liberdade” para as mulheres. Tal estaria em “homologia” — mais uma vez — com o estilo, também andrógino ou “unissexo”, mas desta vez em direcção ao feminino (em certos aspectos como o uso de túnicas, por exemplo). Um frequentador do techno (homem) caracterizava precisamente as festas de techno como sendo cenários de violência (onde se juntam, segundo ele, os “maiores bandidos” do país), afirmando, depois, que “os do trance não fazem mal a ninguém”. A postura dos trancers (pelo menos a sua ideologia e discurso “oficiais”) de recusa da violência associa-se a todo um conjunto de outros elementos ideológicos e respectivas formas de estar, tais como a espiritualidade, a igualdade, o respeito pelo outro, bem como a preocupação ecológica e a recusa dos valores consumistas, elementos esses claramente orientados para constelações pós-materialistas. Como se pôde verificar nos casos das trancers entrevistadas, existe claramente — mais do que uma significância específica da participação club-(sub)cultural nas suas vidas — um conjunto de consequências concretas dos elementos identitários e disposicionais gerados no seio desta fracção (sub)cultural que se concretizam nos planos extra-(sub)culturais (vida familiar e profissional) e respectivos contextos. Estes elementos ideológicos não se reportam explícita e directamente a disposições relevantes ao nível do género, mas poderão ser indirecta e implicitamente consequentes a esse nível, gerando um certo “apagamento”, ou pelo menos esbatimento, de determinadas desigualdades de género. Clara, por exemplo, refere certos comportamentos masculinos de participação na divisão de tarefas, inclusivamente na prestação de cuidados aos filhos, como sendo mais predominantes nos casais de trancers do que na sociedade entendida globalmente. Enquanto decorria a entrevista com uma outra trancer (Filipa), em sua casa, o companheiro, a certa altura, trouxe-nos, simpaticamente, um lanche com chá, compota, manteiga e pão. As masculinidades do trance, no âmbito de uma problematização que relacione o fenómeno com as actuais questões associadas ao género, parecem adquirir uma significância — sendo este conceito, aliás, central à análise aqui levada a cabo — como novas masculinidades. Será então o trance um “espaço privilegiado de experimentação de novas”… masculinidades?[13]

As masculinidades do drum’n’bass, poder-se-ia dizer, ficam no meio-termo entre as outras duas fracções, parecendo haver, relativamente ao segmento dos frequentadores mais antigos, uma espécie de “cavalheirismo” e uma certa “apreciação” da presença das mulheres (Júlia) nas festas.

Duas dimensões que se intersectam nos processos de construção social do género e das relações de género nas club-(sub)culturas são, por um lado, as próprias características de cada uma das fracções/“cenas” (e respectivas formas de socialização) e, por outro, as pertenças estruturais pré e extra-clubbing dos frequentadores (identidades e mecanismos disposicionais pré-clubbing marcados pelo género e pela classe/meio social). Ao nível das origens e trajectórias pré e extra-clubbing, as diferenças sociais entre os frequentadores estruturam díspares percepções de como vivem e concebem os géneros e suas relações. No entanto, o próprio processo de integração, participação e socialização club-(sub)cultural poderá gerar novas disposições ou modificar as preexistentes.

 

Uma “magia” com marcas sociais

É extremamente interessante o surgimento do termo “magia” nos discursos das frequentadoras de techno/house.[14] A “magia” de que nos falam reporta-se, sem dúvida, aos “outros lugares” (elsewheres) e a uma “libertação” — relativa e temporária — face ao quotidiano, com claros contornos pós-modernos. De facto, quando Rosa e as suas amigas conseguem, com um certo deslumbramento, entrar nas zonas VIP das festas de house, gera-se a percepção de determinadas “possibilidades de movimento para além dos constrangimentos, fronteiras e regulações implicadas na existência quotidiana” (Pini, 2001). Por outro lado, é também de notar que aquela “magia” adquire implicações que constituem um interessante contraponto ao uso do conceito por Pini,[15] quando esta autora sugere que, nos contextos clubbing e na pista de dança, as mulheres efectuam uma “resolução mágica” das contradições de género marcantes das sociedades ocidentais contemporâneas. Ou seja, especificamente na zona VIP do house (não no centro da pista de dança, note-se) haveria — até certo ponto —uma “resolução mágica” — temporária, repetimos, e parcial — não apenas de contradições de género, mas certamente de contradições ou diferenças de classe (com o esbatimento de diferenças e de fronteiras, subversão e mesmo inversão social, quando “peixeiras viram jet-sets” e vice-versa), sendo aqui evidente a intersecção entre género e classe.[16] No entanto, mesmo assim, tal só funcionava em certos aspectos e até certo ponto. “Magia” não significa aqui uma espécie de vazio social, um apagamento de marcas sociais em termos de implicações estruturais, pois persistem diversos aspectos em que as diferenças (nas posições) não se desvanecem, antes se reproduzem. Os processos de conversão dos capitais económico, cultural, social e simbólico em capital subcultural não deixariam de inscrever certas marcas nas interacções… Quando confrontadas com os sedutores “convites” feitos pelas “tias da Foz” (para as acompanharem aos seus apartamentos onde “não lhes faltaria nada”), através dos quais a posse de capitais (económico, social, simbólico e cultural, convertidos em capital subcultural) seria mais ou menos ostentada, provavelmente Rosa e as amigas não perderiam jamais a noção de que, no fundo, elas continuavam a ser as “gunas” (diferentes dos “betinhos”, dos “meninos de estudo” e das “tias da Foz” cuja presença identificavam) — e de que a todo o momento (se é que não no exacto momento em que tinham entrado na zona VIP) poderiam ser reconhecidas e, consequentemente, classificadas como tal. É improvável que determinadas subtilezas em termos de diferenças nos modos de apresentação e de verbalização, por exemplo, desaparecessem, mesmo nas situações em que “umas que até eram umas grandes peixeiras […] entravam nas festas e pareciam uma grandes jet-sets, as jet-sets viravam peixeiras”, traindo através da hexis a distância face às performances corporais legítimas.

Concluindo, existem aspectos no fenómeno clubbing em que se verifica uma certa dissolução de diferenças, um pouco como defendem as abordagens em que se propõe a noção de “corpo sem órgãos”, nomeadamente na própria pista, quando uma massa de pessoas, viradas para o DJ, dança agitadamente. Tais dimensões são interessantes e sociologicamente relevantes, mas uma abordagem que a elas se cinja deixa escapar uma significativa parte da realidade. A desorganização e a abstracção das pessoas enquanto dançam (losing it) (Pini, 2001) não serão assim tão absolutas, mesmo se, em certos momentos, os clubbers se abstraem e, ensimesmados, se deixam absorver pela música, perdendo-se na dança. Não é concebível, pois, a ideia de um vazio social e de total apagamento de marcas sociais. Mesmo se em certos momentos isso (quase?) acontece, tal não esgota todas as dimensões que o fenómeno clubbing tem na pista e na “cena”. Aliás, mesmo ao colocarmos o enfoque analítico sobre a pista em si — que seria o locus, por excelência, da desorganização —, ou seja, sobre os momentos de dança e de relação com a música, as abordagens pós-modernas deixam escapar, como pudemos ver nos casos de Júlia (drum’n’bass) e de Filipa (trance) que, apesar da confusão e desordem, nem todos mantêm as mesmas posturas expressivas: a prática de ballet e de dança contemporânea ao longo da socialização pré-clubbing (Filipa, Júlia) — um capital cultural corporalizado que se manifesta mesmo inconscientemente — gera distinções até no meio da pista, impedindo-nos de esquecer que a ordem social existe mesmo quando os frequentadores “se abandonam” e se deixam transportar pela música e pelo movimento.

É adequado referir novamente Hollands, quando afirma que, se os pós-modernos não encontram desigualdades ou estratificação nas culturas juvenis, tal se deve, pelo menos em parte, ao facto de não as procurarem (citado por Carrington e Wilson, 2004: 77).

Deste modo, constituiu nossa intenção, no âmbito desta investigação, não construir um quadro teórico fechado, mas antes afiliado e aberto à complexidade, às contradições e ao hibridismo da própria realidade.

 

Reflexões finais

Paira, finalmente, a questão de saber em que medida determinadas diferenças nos modos de participação das mulheres no clubbing, tal como surgem nos estudos de Hutton e de Pini, por um lado, e como emergem ao longo deste estudo, por outro, derivam apenas das especificidades das realidades estudadas ou também de diferenças entre as respectivas abordagens teórico-metodológicas. Parece-nos que aqueles estudos correm o risco de uma certa margem de idealização do potencial “empoderador” da participação das mulheres, uma vez que negligenciam determinados fenómenos “mundanos” das vivências comprometidas no clubbing.

Procurámos manter uma postura de neutralidade axiológica em relação às diferentes formas de feminilidade em presença (identidades tradicionais, modernas e emancipatórias/feministas, pós-feministas…). Não nos parece, por isso, que estejamos em presença de trajectórias lineares, em que possamos falar de um absoluto “empoderamento” ou de total sujeição a uma dominação. Não foi sem surpresa, por exemplo, a descoberta de que certas feminilidades tradicionais podem suscitar um “empoderamento” no clubbing: no caso de Helena e Cátia (drum’n’bass) — e apesar de integradas num grupo ligado à produção e, por isso, de frequentadores “legítimos” e detentores de capital subcultural e de hipness em elevado grau (os namorados são DJ’s) — os seus traços identitários de feminilidade tradicional parecem elevar-lhes o estatuto no seio do grupo e no modo como se representam. Torna-se ainda importante proceder a um questionamento sobre as feminilidades dominantes em cada contexto de acção, em cada instância de socialização (família, amigos, trabalho, escola, media) e em cada trajectória individual, tendo em conta que existe, de forma tensa, construção, coerção e reprodução social em vários sentidos contraditórios (jogando a favor ou contra as várias feminilidades concorrentes, como os “retratos” evidenciam). É essencial, assim, não simplesmente teorizar de forma abstracta e, desse modo, supor a presença de determinadas feminilidades, nem tomar como adquirido o potencial “empoderador” de um ou outro tipo específico de feminilidade, mas especificar empiricamente, de um modo localizado e individualizado, quais as feminilidades em jogo que marcam o percurso e as experiências das mulheres estudadas, detectando aí de que modo existe ou não “empoderamento” ou “desempoderamento”.

Não deixa de ser relevante explorar as múltiplas dimensões do fenómeno, evitando cegueiras (parciais) associadas a determinados pontos de vista soberanos implicitamente assumidos a priori, já que, por definição, tendem a esquecer-se de interpelar as próprias “paixões” que lhes dão fundamento. Recusando a imposição de quadros teóricos totalizantes, torna-se prudente, por isso, não deixar de reconhecer as contradições, os paradoxos, as várias espadas de dois gumes e a pluralidade de “zonas cinzentas”, todas elas intrínsecas à realidade social.

Urge, então, estar atento aos riscos de universalização subreptícia de um determinado conceito de mulher clubber e da respectiva experiência e agência femininas, independentemente de diferenças e segmentações sociais, não só entre fracções club-(sub)culturais, como também em facticidades anteriores e exteriores aos contextos do clubbing (e em “homologia” com a própria segmentação do clubbing). O que aqui tentámos operacionalizar, nomeadamente a segmentação precisa de fracções club-(sub)culturais, a consideração da variável classe e meio social, a par da intersecção entre género, classe e segmentos do clubbing, permitiu apreender diferentes práticas de mulheres clubbers, impedindo a ocorrência da generalização implícita e insinuante de um determinado tipo de experiência feminina. Será que no clubbing de Manchester, por exemplo, não existirão clivagens importantes aos níveis do género e da classe/meio social (e respectiva intersecção) entre as fracções club-(sub)culturais que são aí mais relevantes? No entanto, prudência oblige, convém alertar que, mesmo assim, neste estudo, a maior parte dos dados derivam do olhar das mulheres (pertencendo, na sua maioria, ao segmento dos frequentadores mais antigos e com maior idade). Deste modo, faltaria entrevistar homens,[17] dado o cariz eminentemente relacional das construções de género, bem como as frequentadoras (e frequentadores) do segmento da faixa etária inferior. Em contrapartida, tal significaria alargar demasiado o âmbito do estudo, tendo em conta as suas opções e consequentes limites, já devidamente explicitados.

A elaboração de “retratos”, reveladora da complexidade e multiplicidade de situações associadas à pluralidade de disposições e de elementos identitários, bem como de desvios face às regularidades sociológicas, estimula uma reflexão a propósito do uso das variáveis “classe social” e “meio social” em pesquisas qualitativas. Todo o trabalho empírico realizado leva a crer que o uso de “classe social” pode ser complementado com o de “meio social”, exprimindo este, pela sua intencional latitude, um conjunto de princípios de socialização multiformes e multilocalizados (com impacto na fabricação de estilos e modos de vida territorialmente enraizados), actuando, tantas vezes, de forma difusa. No decorrer das análises apresentadas empregamos (frequentemente de forma combinada) ambos os conceitos.

Resta uma última reflexão de natureza epistemológica e com implicações ao nível das relações sociais de observação. Tenderão as mulheres entrevistadas a assumir um discurso “politicamente correcto” porque derivado da intenção de corresponderem a determinadas representações de feminilidade dominante como sendo aquelas que guiavam o próprio entrevistador? Serão, nesse caso, as experiências de mulheres aqui captadas e reconstruídas permeadas por um enviesamento na direcção da vitimização da mulher e marcadas por uma ênfase exagerada na atribuição aos homens de certos comportamentos?[18] Em caso afirmativo, é possível que a própria rede de problematizações de partida tenha sido em parte responsável ou pelo menos pactuante com este eventual viés, ao assumir o risco como uma das questões centrais. Adicionalmente, o recurso aos (escassos) contributos existentes para a análise da participação e das experiências das mulheres no clubbing, nomeadamente os estudos de Thornton (1996), Pini (2001) e Hutton (2006), realçam essa dimensão: para lá da conceptualização positiva do risco proposta por Hutton, questões como o controlo da mulher sobre a sua sexualidade (articulado com o consumo de drogas e de álcool), bem como o “engate” e o predadorismo sexual (em que os homens são sempre referidos como os molestadores ou agressores) assumem particular relevância. Os autores do presente estudo consideraram que tais questões — no âmbito de uma abordagem em que a problemática do risco é fulcral — reflectiriam os interesses de uma perspectiva feminina e, por isso, atribuíram-lhes um lugar importante na sua análise. No entanto, certamente que as experiências de mulheres e os processos de construção das feminilidades aqui apresentadas estarão longe de esgotar a panóplia de vivências em jogo nas “cenas” e contextos de clubbing estudados.

 

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Notas

[1] A pesquisa foi financiada pela FCT — Fundação para a Ciência e a Tecnologia do Ministério da Ciência e da Tecnologia, no contexto de um protocolo estabelecido entre esta instituição e a CIG — Comissão para a Igualdade de Género, e foi coordenada por João Teixeira Lopes.

[2] Estes imigrantes podem eventualmente exercer uma acção transformadora sobre os contextos e “cenas” de destino (Violeta atribui aos “rastas” do trance a responsabilidade da introdução de novas drogas nas festas de drum’n’bass, se bem que tal seja uma afirmação que é objecto de controvérsia entre os clubbers).

[3] Refira-se que também frequentadoras das festas de techno descreveram situações de roubo e violência.

[4] E que são elementos caracterizadores de determinados modos de relação, de apropriação e de reconstrução das “cenas” em contextos localizados.

[5] Apesar de referir que o faziam relativamente aos frequentadores que vinham “da aldeia”, é possível que esse recurso de intimidação possa também ser activado relativamente a outros tipos de frequentadores, nomeadamente os “betinhos” e os “meninos de estudo”.

[6] DJ Trancer afirma: “Cada vez há mais raparigas novas a irem p’ra festas. E quando falo novas, falo de raparigas de 13, 14 anos”. Júlia (drum’n’bass) considera igualmente que há cada vez mais mulheres nas festas (do segmento mais jovem). Este é um tema que mereceria ser estudado.

[7] Apesar de os dados não serem completamente claros nem consensuais a este respeito, fica a sensação de que a maioria das situações de risco associadas à sexualidade e às drogas aconteceriam nas pistas relativas às festas de house (recordem-se as situações de hibridismo e a pendularidade entre pistas).

[8]  Nas frequentadoras do D’n’B e do trance, certos problemas, como apalpões, violência, roubos, foram exclusivamente atribuídos não aos membros legítimos da respectiva fracção club-(sub)cultural, mas antes aos “gunas” ou “mitras” associados ao techno.

[9] Apenas surgiu a referência de Violeta a uma trancer que vendia substâncias, embora o fizesse ao serviço de um homem.

[10] Note-se que este estudo teve como objectivo apreender as experiências das mulheres e os seus olhares sobre elas próprias, as outras mulheres e os homens clubbers. Como tal, há que ter em conta que as seguintes reflexões referentes às masculinidades usaram, como matéria-prima substancial — se bem que não exclusiva — os discursos produzidos pelas próprias mulheres clubbers.

[11] Note-se aqui que, implicitamente, essa alteração da masculinidade acontece em direcção ao “feminino”.

[12] Não é certo, aliás, que tal interpretação tenha resultado de um trabalho empírico sistemático.

[13] Recorde-se que DJ Trancer atribui um presumível crescendo na presença de posturas de “engate” molestadoras e quase predatórias por parte dos homens nas festas de trance (que levam a um incómodo físico e social de si e das suas amigas) à maior presença de “mitras” nas festas (bem como a uma eventual alteração comportamental no segmento etário inferior).

[14] A participação destas mulheres no clubbing é marcada por um certo hibridismo, nomeadamente entre o techno e o house.No entanto, há nelas uma coincidência entre a pertença de classe e o gosto musical, com excepção de Maria, que musicalmente aprecia mais o house.

[15] Esta autora não deixa de salientar que o próprio estado de “liberdade” e de “pura expressão de si” que é atribuído aos efeitos das drogas não consiste numa “perda” ou num “desfazer” do eu. Pelo contrário, a produção de tais “estados de êxtase” envolve processos de manutenção, regulação e monitorização (Pini, 2001: 173-187).

[16] O emprego do termo “peixeira”merece alguns comentários relativos à sua significância. Ao referir as “peixeiras que se viravam jet-sets” Rosa está, sem dúvida a referir-se a ela própria e a Ana, que a acompanhava nas suas incursões nestas zonas VIP. O termo “peixeira” é correntemente usado num sentido não literal, como desqualificação social, representando alguém como tendo certos modos de estar e comportamentos (falar alto e “muito”, discutir, gesticular, etc. — um habitus e uma hexis, sem dúvida) associados aos meios populares (de onde provêm também os “gunas”). No caso de Rosa, ela é-o, desde logo literalmente (profissionalmente é vendedora de peixe).Ana não o é literalmente, mas essa imagem como desqualificação social já lhe foi aplicada, durante a sua fase de “vida betinha”, pelo ex-marido (de classe média) — como ela própria afirma — por “[…] ter saído de uma zona que era bairrista… — tipo o meu ex-marido chamar-me peixeira… ‘tás a ver? [risos]”. Note-se que Ana reconhece-se a si própria e às amigas como encaixando na etiqueta “guna”, heteronomamente atribuída a habitantes do bairro.

[17] Em conversa com um frequentador (homem) de festas de techno, que vive no mesmo bairro das mulheres entrevistadas, este afirmou que, em termos de quantidade no consumos de “rodas” e outras substâncias, as mulheres são, nessas festas, “muito piores que os homens”, ficando “todas comidas” devido ao seu descontrolo. Esta afirmação é metodologicamente perturbadora, pois contradiz a ideia transmitida pelas mulheres de festas de techno entrevistadas de que os homens consomem em maiores quantidades.

[18] É de realçar que o entrevistador procurou precaver-se face a este risco, formulando determinadas questões de modo aberto (referindo quer homens quer mulheres) ou, após registar o discurso das entrevistadas, questionando-as sobre se teriam igualmente determinados comportamentos associados a um papel activo em situações de predadorismo sexual.

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