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Jornal Português de Gastrenterologia

versão impressa ISSN 0872-8178

J Port Gastrenterol. v.17 n.5 Lisboa set. 2010

 

Clube Português do Pâncreas – 31 anos de actividade

 

Maria Teresa Antunes

Presidente do Clube Português do Pâncreas; E-mail: teresa.antunes@cppancreas.com

 

O Clube Portugês do Pâncreas (CPP) é uma Associação de médicos interessados na patologia pancreática. Fundado há 31 anos (1979), tem-se mantido em actividade, sobretudo pela vontade dos seus membros em promover e difundir o avanço do conhecimento nesta área.

Vem de longe a curiosidade por este órgão. A primeira observação do pâncreas foi provavelmente feita em animais, havendo uma referência no Talmude da Babilónia ao “dedo do fígado”. No século III A.C., Herophilus, Erasistratos e Eudemus, naturais de Alexandria, fazem as primeiras descrições anatómicas do órgão, de que temos memória. E descreviam-no como um órgão estranho, sem cartilagem ou osso, pelo que foi designado por Ruphus de Efeso (100 A.C.) por “pâncreas” (do Grego pan: todo + kreas: carne). Já no século XVI André Vesalius refere-se ao pâncreas no 5º livro da sua obra (De humani corporis fabrica) e descreve-o como “um órgão glandular que cresce no omentum” e continua “protege o estômago actuando como um colchão onde este descansa”.

Desde então, passo a passo, o conhecimento foi avançando e a pancreatologia tem-se mantido em permanente crescimento. É já no século XX que se assiste à diferenciação da função endócrina e exócrina e que, em 1902, William Bayliss e Ernest Starling demonstram que a secreção pancreática depende sobretudo da acção de um mediador químico, o que os leva a introduzir o termo “hormona” e a nomear a Secretina.

A investigação básica e clínica têm sido a fonte que constantemente enriquece este conhecimento, alimentando a nossa visão sobre a patologia pancreática e sua terapêutica.

No entanto, o pâncreas continua a ser considerado, em alguns aspectos, um órgão escondido. As doenças pancreáticas são frequentemente difíceis de diagnosticar ou tratar e o resultado das terapêuticas que adoptamos é por vezes decepcionante.

A mortalidade da pancreatite aguda ainda é elevada, o diagnóstico da pancreatite crónica, nas fases precoces constitui ainda um desafio e o carcinoma do pâncreas mantem, na maioria dos casos, um comportamento biológico agressivo e incontrolável.

Estas dificuldades foram o incentivo para a formação das várias Associações interessadas nesta Patologia que se foram desenvolvendo em todo o mundo. Em 1979 nasceu o Clube Português do Pâncreas, tendo como Presidente o Professor Orlando Bordalo. A capacidade dinamizadora do seu fundador foi determinante para o crescimento do Clube, para o relacionamento com os parceiros de outras latitudes, tendo tido um papel fundamental na fundação da International Association of Pancreatology, entidade que agrega hoje as mais significativas Associações para o estudo do Pâncreas e difunde regularmente grande parte da produção científica nesta área através da revista “Pancreatology”.

O carácter multidisciplinar da patologia pancreática levou à convergência de especialistas de diferentes áreas no CPP, o que desde logo se tornou uma mais valia. O CPP tem por objectivo fomentar o conhecimento do pâncreas, normal e patológico, exócrino e endócrino, encorajando a investigação básica e clínica.

É nesta linha e com estes objectivos que se foi mantendo a actividade do Clube. O apoio e actualização dos médicos que diariamente estão em contacto com a população nas suas funções de Médico de Família, foi sempre uma preocupação do CPP. Nesse sentido esforçamo-nos por realizar, com alguma regularidade, reuniões em diferentes zonas do país, orientadas para a revisão de grandes temas e discutindo aspectos clínicos do dia-a dia. A contribuição para a formação dos internos tambem está presente nos nossos objectivos. A realização de Reuniões e Cursos em que se abordam quer temas fundamentais para a consolidação dos conhecimentos bem como outros que, pela sua actualidade e controvérsia merecem atenção, tem sido uma das actividades preferenciais do Clube. Assim nos propomos continuar.

Nesse sentido é com o maior prazer que podemos anunciar, desde já, a criação do Prémio Clube Português do Pâncreas a atribuir durante a Semana de Gastrenterologia, já em 2011, à melhor comunicação apresentada nesta área.

Em 2005, decorreu em Lisboa a 4ª Reunião das Sociedades de Pancreatologia dos Países Mediterrânicos, com organização do CPP. A Epidemiologia da Pancreatite Aguda nos países da área mediterrânica foi um dos temas aborda dos. Na referida reunião foram apresentados os resultados de um estudo retrospectivo, multicêntrico, elaborado sob a égide do CPP efectuado com o objectivo de avaliar uma grande amostra de doentes internados em hospitais portugueses com o diagnóstico de Pancreatite Aguda. Foram avaliados 1547 doentes, internados em 13 hospitais (Continente e Açores) durante o biénio 2003-2004. Os resultados obtidos não apresentaram grandes diferenças em relação aos reportados na mesma reunião por representantes de outros países da área mediterrânica. No entanto, a análise dos resultados enfatizou a importância da standardização de procedimentos na prevenção e prática clínica nas diferentes zonas do país.

Temos em preparação um novo estudo multicêntrico cujo objectivo é avaliar a realidade da Pancreatite Crónica em Portugal.

Para além das actividades científicas, não podemos deixar de referir um outro aspecto dos nossos objectivos. A divulgação da patologia pancreáticas junto da população, tornou-se uma prioridade. Levar ao grande público alguns aspectos destas doenças, identificar factores de risco e alertar para alguma sintomatologia, pensamos ser um contributo para a prevenção e diagnóstico mais precoce.

Tudo isto não faria sentido sem os nossos doentes. É sobretudo para eles que existimos. Para que possam ter acesso aos melhores procedimentos, à terapêutica mais precisa e actualizada usufruindo assim dos respectivos benefícios.