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Sociologia

versão impressa ISSN 0872-3419

Sociologia  no.tematico6 Porto dez. 2016

http://dx.doi.org/10.24747/0872-3419/soctema8 

ARTIGOS

 

Quantas vidas cabem numa vida? Da autobiografia de 52 trabalhadores ao caso de um funcionário administrativo

How many lives fit in a life? From 52 workers' autobiography to the case of an administrative officer

Combien de vies a une vie? De l'autobiographie des 52 employés au cas d'un agent administratif

¿Cuántas vidas caben en una vida? De la autobiografía de 52 trabajadores al caso de un oficial administrativo

Pedro Abrantes

Departamento de Ciências Sociais e de Gestão, Universidade Aberta. Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL), Instituto Universitário de Lisboa (Lisboa- Portugal). Endereço de correspondência: DCSG, Universidade Aberta, Palácio Ceia, Rua da Escola Politécnica, nº 141-147, 1269-001 Lisboa, Portugal. E-mail: Pedro.abrantes@uab.pt

 


RESUMO

O artigo centra-se na tensão entre unidade e pluralidade dos percursos de vida. Como os indivíduos representam a sua vida? Até que ponto a desdobram em etapas e dimensões? Explora-se a utilidade de estudos recentes da socialização e do curso de vida. Apresenta-se um dispositivo de análise de autobiografias. Analisa-se em profundidade uma autobiografia e discutem-se padrões observados em 52. Concluímos que a classe trabalhadora, em Portugal, caracteriza-se por um desdobramento mitigado da vida em etapas e dimensões da vida, destacando-se a dicotomia entre vida laboral e familiar, ainda que se observem múltiplas interseções, tensões e ambiguidades, associadas à precariedade das condições de vida.

Palavras-chave: biografia; socialização; curso de vida


ABSTRACT

This article is focused on the tension between unity and plurality of life pathways. How do agents conceive their lives? Do they split them in different stages and dimensions? The usefulness of recent studies on socialization and on life course are explored. An analytical framework to analyse autobiographies is sketched. An autobiography is analysed and patterns in 52 are discussed. According to this analysis, the working class in Portugal is characterized by a mitigated split of life stages and dimensions, stressing the dichotomy between work and family life, but there are multiple intersections, tensions and ambiguities, associated with poor and unstable life conditions.

Keywords: biography; socialization; life course.


RÉSUMÉ

L'article met l'accent sur la tension entre l'unité et la pluralité des parcours de vie. Comme les personnes représentent-elles leur vie? Jusqu'à quel point la scindent-elles par étapes et dimensions? Nous exploitons l'utilité des études récentes de la socialisation et du cours de la vie. Nous présentons un dispositif d'analyse d'autobiographies. Nous analysons plus en profondeur une autobiographie et examinons les caractéristiques observées chez 52 employés. Nous concluons que, au Portugal, la classe ouvrière est caractérisée par un dédoublement mitigé de la vie en étapes et dimensions de la vie, en particulier la dichotomie entre la vie professionnelle et familiale, bien que l'on observe de multiples intersections, tensions et ambiguïtés, associées à la précarité des conditions de vie.

Mots-clés: biographies; socialisation; parcours de vie.


RESUMEN

El artículo se centra en la tensión entre la unidad y pluralidad de los recorridos vitales. ¿Cómo representan los individuos su vida? ¿Hasta qué punto se desdoblan en etapas y dimensiones? Se explora la utilidad de los estudios recientes de la socialización y el recorrido vital. Se presenta un dispositivo de análisis de autobiografías. Se analiza en profundidad una autobiografía y se discuten los patrones observados en las 52 autobiografías. Concluimos que la clase obrera en Portugal se caracteriza por un desdoblamiento mitigado de la vida en etapas y dimensiones vitales, y se hace patente la dicotomía entre la vida laboral y familiar. Además, se observan múltiples intersecciones, tensiones y ambigüedades, asociadas a la precariedad de las condiciones de vida.

Palabras clave: biografias; socialización; curso de vida.


 

Qualquer pessoa percorre um caminho do berço até à campa. É uma ideia antiga e recorrente, nas artes, na filosofia e no senso comum, assumida em muitos estudos sociológicos que analisam a trajetória dos indivíduos ao longo da vida. A perspetiva do curso de vida permite aprofundar a análise destas sequências de eventos nas vidas pessoais, identificando padrões e singularidades, relacionando-os com a agência, as redes, as estruturas e as mudanças sociais (Elder, Johnson e Crosnoe, 2002; Nico, 2011). Contudo, nas sociedades contemporâneas, a pluralidade de etapas, dimensões e instituições em que decorre a vida tem colocado em questão se a existência de um indivíduo não será melhor representada por uma multiplicidade de percursos, no sentido de uma descontinuidade de posições, práticas e representações, assumidas em distintos contextos de vida. Não é por acaso que tanto falamos numa trajetória de vida (englobando todas as dimensões) como falamos da vida familiar, da vida profissional, da vida estudantil, da vida associativa e por aí adiante (e das dificuldades em conciliá-las).
O presente artigo pretende contribuir para o conhecimento sobre o modo como os indivíduos, a partir de posições estruturais, formas culturais e quadros de interação específicos, refletem sobre si próprios e concebem a sua existência, nesta tensão entre unidade e pluralidade. Começa por uma breve discussão teórica sobre o tema. Num segundo momento, apresentam-se os protocolos metodológicos que presidiram à recolha e análise de 52 autobiografias. Num terceiro momento, apresentamos alguns padrões observados no conjunto destas narrativas autobiográficas. No quarto momento, aprofundamos a análise de um destes documentos. Terminamos com algumas notas conclusivas.

1. Unidade e pluralidade do eu

A tensão entre unidade e pluralidade do self tem atravessado o pensamento sociológico, desde as suas origens. Basta recordar o debate entre, por um lado, aqueles que, na linha de Karl Marx, têm defendido uma primazia das condições de existência e das relações sociais de produção sobre os diversos âmbitos da vida dos indivíduos e, por outro lado, aqueles que, na esteira de Max Weber ou Georg Simmel, têm argumentado que as sociedades modernas são compostas por múltiplas dimensões (ou regiões, campos ou mundos, conforme os autores), nas quais os indivíduos ocupam distintas posições e desempenham diferentes papéis (Velho, 1994; Dahrendorf, 2012; Baert e Silva, 2014).
Entretanto, a tensão entre unidade e diversidade começou-se igualmente a colocar numa perspetiva de “ciclo de vida”. Tornou-se comum distinguir a socialização primária, na infância, geradora de uma visão mais duradoura e unitária do mundo, de uma socialização secundária, associada à especialização em diferentes instituições, na idade adulta (Berger e Luckmann, 1998 (1966)). Reconhecendo-se o enfoque da Sociologia na vida adulta, têm surgido, entretanto, linhas de investigação sobre a infância, a juventude ou a velhice, centradas na autonomia destes períodos da vida, e que permitem questionar as visões mais lineares sobre a socialização e a formação do eu (Abrantes, 2011).
Por seu lado, a teoria sociológica foi marcada, nas últimas décadas, por importantes esforços de unificação. A centralidade dos conceitos de agência, reflexividade e identidade pressupõem que os atores têm uma consciência que influencia a sua ação (Giddens, 1994; Beck e Beck-Gernsheim, 2003; Archer, 2007). Nesta perspetiva, o indivíduo desenvolve um trabalho permanente sobre si próprio, de construção de um eu e de uma biografia que o distingue dos demais. Alguns estudos têm observado, aliás, a estabilidade das representações do eu – produto da “socialização autobiográfica” – mesmo no decurso de processos profundos de transformação social (Hoerning e Alheit, 1995; Kupferberg, 1998).
Por seu lado, a tese da pluralidade dos registos de vida tem também sido explorada. Contrapondo-se a uma visão unificada do habitus, Bernard Lahire (2002a; 2002b) tem investigado como os múltiplos contextos que marcam a socialização dos indivíduos são produtores de disposições, práticas e valores específicos, dando origem a “atores plurais”. Segundo o autor, a transferência e articulação entre estes diferentes patrimónios disposicionais não está garantida, tornando-se um desafio permanente para os próprios atores e um objeto de estudo para os sociólogos.
Centrando-se nas identidades profissionais e procurando uma síntese entre unidade e diversidade, Dubar (2005) reconhece a importância da socialização biográfica, mas refere a existência simultânea de um processo relacional de atribuição da identidade, no qual os indivíduos vão sendo colocados em posições (variáveis) no quadro de relações sociais concretas, podendo este provocar tensões na representação que o indivíduo constrói de si mesmo e do seu percurso vital.
Trata-se, portanto, de um debate longo e central, na disciplina, mas que permanece em aberto e no qual os desenvolvimentos teóricos nem sempre têm sido acompanhados por investigações empíricas com semelhante nível de sofisticação e abrangência. Os próprios avanços recentes nas neurociências acerca da formação de uma “consciência autobiográfica” têm evidenciado uma tensão entre unidade e pluralidade do eu, em termos distintos, mas que serão importantes de ponderar (Eagleman, 2012).

2. Um modelo de análise das narrativas autobiográficas construídas em processos de formação e certificação

As narrativas autobiográficas construídas em processos de reconhecimento, validação e certificação de competências (RVCC), ao longo da última década, em Portugal, constituem um material valioso para explorar esta questão. Os participantes neste programa elaboraram a sua história de vida, enquanto parte de um “portefólio reflexivo de aprendizagens” que é defendido publicamente ante um júri, em muitos casos, a par da frequência de módulos complementares de formação. Dado que centenas de milhares de pessoas participaram neste processo, foi possível selecionar um conjunto alargado de trabalhos – neste projeto, recolhemos e analisámos 52, produzidos em 2009 e 2010 – que asseguram uma grande diversidade de perfis sociológicos, em termos de idade, género, local de residência e ocupação profissional, dentro de uma designação genérica de “classe trabalhadora”.1
O facto de serem os próprios agentes a organizar a estrutura da narrativa, escolhendo as experiências a relatar, bem como o modo de encadeamento (as ligações e também as separações), permite uma aproximação à forma como as pessoas interiorizam as experiências sociais, (re)constroem os seus percursos de vida e os mobilizam na vida presente. Importa analisar, portanto, não apenas quais os contextos de vida privilegiados na narrativa autobiográfica, mas também quais os nexos estabelecidos entre eles, incluindo se o percurso individual é concebido de forma integrada, eventualmente segundo um princípio cronológico ou se, pelo contrário, é organizado em diferentes etapas e campos da vida social.
Uma crítica que se tem colocado a este procedimento metodológico é que o enquadramento num programa de educação de adultos poderá distorcer as narrativas autobiográficas. Na verdade, é uma ilusão a possibilidade de captar um discurso autobiográfico “puro”. Qualquer investigador em ciências sociais tem que considerar o complexo contexto de relações que dá origem aos discursos. A narrativa autobiográfica é sempre uma produção sociocultural e, mais especificamente, um modo de “apresentação do eu” perante um outro significativo (que pode ser o próprio indivíduo, no caso por exemplo dos diários pessoais), num determinado cenário e momento da vida. No caso dos discursos recolhidos “em primeiro mão”, isto implica analisar a fundo as relações sociais de investigação (Pinto, 2007).
Neste caso, é importante contextualizar estas narrativas no quadro de um programa público com referenciais próprios, gerador de relações concretas com outros agentes (formadores, colegas, etc.) e, ainda, tendo em conta as condições e motivações de cada um dos seus autores. Este programa, no seu todo, surgiu em 2001 e foi-se afirmando como um espaço simbólico fortemente mediatizado de redenção de indivíduos socialmente desfavorecidos, através da qualificação dos saberes e virtudes resultantes das experiências de vida. Mas suscitou também uma inversão simbólica, através de um discurso com grande visibilidade mediática, segundo o qual se permitiria, através deste sistema, validar e certificar qualquer indivíduo e trajetória de vida, o que contribuiu para a desvalorização dos processos, saberes e certificados.
Os referenciais (DGVP, 2006a e 2006b) que orientam este processo assumem que a elaboração das autobiografias é um trabalho autónomo e original dos participantes sobre a própria vida. Os contactos com orientadores dos quatro centros em que foram recolhidas as autobiografias confirmam que os referenciais foram entendidos apenas como guias de apoio. Acresce que, dado o número elevado de adultos que acompanhavam, o seu apoio ao desenvolvimento dos trabalhos foi, na verdade, bem menor do que o pretendido. Se é verdade que o enquadramento num programa público poderá ter induzido uma relativa contenção na narrativa de experiências pessoais, segundo um princípio moderno de que o privado não deve ser exposto em público (Arfuch, 2010), bem como uma sobrevalorização de competências exemplificadas nos referenciais, não devemos negligenciar que um dos quatro “domínios de referência para a ação” previstos nestes documentos é, precisamente, o “contexto privado”, a par do “contexto profissional”, do “contexto institucional” e do “contexto macro-estrutural” (DGVP, 2006a). Além disso, o arquivo e a divulgação pública das autobiografias, sem autorização dos autores, foi expressamente proibida.
Uma primeira análise das 52 autobiografias permite-nos constatar a sua heterogeneidade, não apenas de dimensão (entre 30 e 250 páginas), mas também de estrutura e conteúdos. Mesmo comparando as autobiografias realizadas dentro de cada um dos quatro centros, não se encontram padrões claros. E embora em algumas passagens seja visível a procura por evidenciar competências referidas nos referenciais, nenhuma narrativa é organizada com base nas áreas, nos domínios de referência ou nas unidades de competência enunciados nesses guiões institucionais.
A análise destas 52 autobiografias, num total de mais de 4000 páginas (incluindo texto e imagens) implicou vários procedimentos técnicos. Especificamente para o tema do presente artigo, o protocolo mais fértil foi a identificação de sequências de temas. Foram classificadas as unidades temáticas de cada narrativa, respeitando as titulações criadas pelos próprios autores, mas também as quebras narrativas. Essas unidades foram dispostas em linha, identificando-se uma cor quando se reportam a uma dimensão específica da vida (laboral, familiar, educativa, militar, comunitária, de lazer), uma letra maiúscula quando referem uma etapa da vida (infância, adolescência, juventude, idade adulta, velhice) e uma letra minúscula quando focam um evento biográfico particular (nascimento, 1ª comunhão, juramento da bandeira, casamento, divórcio, etc.). Isto permitiu uma análise de sequências, fundamental na abordagem do curso de vida.

3. Mais do que uma vida, menos do que várias

Tal como enunciado no ponto anterior, na análise de conteúdo destas 52 autobiografias começámos por decompô-las em unidades temáticas, em alguns casos, separadas por níveis de titulação, noutros casos apenas por quebras narrativas. Isto permitiu-nos catalogar 818 unidades temáticas, consoante a etapa, a dimensão da vida e/ou o acontecimento a que se reportam.
A análise de conteúdo destas unidades temáticas permite observar que o “trabalho/emprego” e a “vida familiar/doméstica” constituem as dimensões privilegiadas nestas narrativas autobiográficas (Quadro 1). Tal prevalência dificilmente surpreenderá um sociólogo, conhecedor da centralidade destas dimensões nas sociedades contemporâneas, bem como das limitações que continuam a caracterizar a classe trabalhadora portuguesa, no âmbito do lazer e da participação cívica.

 

 

Mais de um terço das unidades temáticas (36,4%) reportam-se a experiências que combinam mais de uma dimensão da vida, o que explica que a soma das percentagens no quadro 1 seja superior a 100. Mesmo nos casos em que as autobiografias são organizadas por capítulos que remetem para diferentes dimensões da vida, a análise de conteúdo permite observar que estas se imiscuem frequentemente em cada capítulo. O caso mais frequente é o das unidades narrativas que articulam vivências laborais e familiares (6,2%), mas as combinações são variadas, destacando-se igualmente as experiências em que a vida familiar surge entrelaçada com o “lazer e vida pessoal” (5,7%) ou a “cidadania e espaço público” (5,4%). A vida familiar surge então como uma dimensão central também pela sua permeabilidade e articulação com as restantes dimensões.
Quando analisamos estas unidades temáticas de forma sequencial, constatamos que existe um padrão dominante. Em 29 casos, a narrativa concilia uma primeira parte, relativa à infância e à juventude, em que se procura respeitar a ordem cronológica dos eventos, combinando as várias dimensões da vida, com uma segunda parte, cobrindo em traços gerais a idade adulta, que se desdobra em diferentes capítulos ou secções, relativos a distintas dimensões da vida. Na maioria destes casos, o que ocorre é que a partir da descrição detalhada do primeiro emprego – que frequentemente não é a primeira experiência de trabalho, mas que tende a ocorrer entre os 12 e os 21 anos – segue-se a narrativa da trajetória laboral até ao presente. Mas isto implica que, adiante, a narrativa “regresse” ao passado para descrever a transição para a conjugalidade, a parentalidade e a mobilidade habitacional, geralmente iniciadas entre os 15 e os 25 anos. Em vários casos, abrem-se ainda capítulos subsequentes, mais curtos e com menor disciplina cronológica, dedicados a: (1) experiências de participação cívica, comunitária e política; (2) práticas de lazer e ocupação dos tempos livres, com destaque para o desporto e o turismo; (3) experiências formativas; e/ou (4) eventos com grande carga dramática, como períodos de doença ou “turning points” no percurso de vida.
Embora este modelo de autobiografia seja comum em ambos os sexos, há diferenças significativas. No caso dos homens, a segmentação da vida em dimensões surge mais vincada (menos unidades temáticas “multidimensionais”), sendo que o final do serviço militar marca simbolicamente o momento de passagem da narrativa cronológica para uma narrativa segmentada, na qual o percurso laboral tem geralmente prioridade face aos restantes. Já no caso das mulheres, a transição entre os dois registos é mais difusa e variável, observando-se uma maior tendência para um entrelaçamento das dimensões da vida, mesmo quando a narrativa é formalmente estruturada em capítulos que se reportam a cada uma das dimensões. Além disso, os capítulos dedicados especificamente às práticas de lazer e à participação política-cívica são mais frequentes e mais extensos entre os homens, estando ausentes nas narrativas de muitas mulheres, possivelmente devido a vidas laborais e familiares mais sobrecarregadas e que as excluem de uma presença continuada noutros domínios (Torres, 2009).
Existe, contudo, um conjunto de autobiografias que não se organizam segundo esse registo “a dois tempos”. Entre os 52 documentos analisados, 16 procuram respeitar a ordem cronológica dos eventos, do início ao final do documento. Alguns destes assumem a trajetória laboral, desde a adolescência, como o fio condutor da narrativa, sendo que as experiências noutras dimensões da vida vão surgindo a miúde. Mas, noutros casos, as experiências nas diferentes dimensões da vida vão-se integrando ou intercalando, segundo uma ordem cronológica.
Por seu lado, existem ainda 7 autobiografias cuja estrutura não segue qualquer destes padrões, seja por estabelecer uma organização por dimensões da vida, logo desde a infância até ao momento atual, seja por desdobrar-se em duas narrativas (uma cronológica; outra dividida por dimensões), mas ambas desde o nascimento até ao presente. Um aspecto intrigante é que fatores como o sexo, a idade ou o centro em que realizaram o processo não parecem influenciar a opção por qualquer dos “modelos” de autobiografia atrás descritos.
Reportando-nos ao debate teórico que enquadra o artigo, podemos dizer que o modo como os indivíduos concebem a sua vida oscila efetivamente entre, por um lado, uma unidade assente na ordem cronológica que baseia a narrativa no estabelecimento (explícito ou implícito) de cadeias de causalidade temporal, e, por outro, uma segmentação da vida em múltiplas trajetórias, nomeadamente, no campo laboral, no campo familiar e, em alguns casos, também no campo do lazer e da vida cívica/comunitária. A tensão entre ambos os princípios, observada no plano teórico, subjaz, portanto, à própria consciência autobiográfica dos indivíduos, gera contradições nas narrativas e é (parcialmente) resolvida, de formas diversas, consoante os indivíduos. A tendência dominante parece ser a conciliação entre a unidade na apresentação da vida, durante a infância/adolescência, e a pluralidade de registos, na etapa adulta. Tal distinção coincide, efetivamente, com as noções de socialização primária e secundária que têm sido adotadas nas ciências sociais (Berger e Luckmann, 1998 (1966)).
Em qualquer caso, a análise das narrativas autobiográficas mostra que tal conceção da vida “a dois tempos”, não deixa de ser problemática. Por um lado, a suposta unidade da vida infantil e adolescente é colocada em causa, nomeadamente pela (des)articulação das experiências escolares, familiares e juvenis. Por outro lado, a diferenciação observada na etapa adulta é contrariada, seja porque o que ocorre numa dimensão da vida tem causas e/ou consequências noutras dimensões (por exemplo, o desemprego provoca mudanças familiares), seja porque há efetivamente acontecimentos e processos que envolvem as várias dimensões da vida.
Poder-se-á dizer, na esteira de Lahire (2002a), que a construção de uma narrativa linear, coerente e unificada sobre a própria vida implica um trabalho dos sujeitos de articulação das vivências e disposições produzidas em diferentes contextos, ainda que se possa igualmente argumentar que a divisão da vida em dimensões implica igualmente um trabalho reflexivo dos sujeitos sobre a diversidade das próprias memórias.
Em seguida, discutimos em detalhe uma autobiografia, não apenas no sentido de exemplificar a análise realizada, mas também de explorar com maior profundidade estas tensões entre unidade e pluralidade da vida. Escolhemos o caso do Sérgio (nome fictício), uma vez que constitui um “caso típico”, considerando os padrões identificados na secção anterior e não foi incluído entre os dez casos explorados em Abrantes (2013). Além disso, trata-se de um empregado executante, da área administrativa, originário numa família camponesa. Integra, portanto, um grupo socioprofissional muito representado nos processos de reconhecimento de competências, que conheceu um crescimento acentuado na sociedade portuguesa, ao longo das últimas décadas, e sobre o qual a Sociologia tem investigado pouco. Se é certo que a modernidade e, em particular, a expansão dos padrões de escolaridade estão associados a um incremento das profissões ligadas ao conhecimento e à informação, não é menos verdade que, sobretudo em países semi-periféricos, observou- se um crescimento rápido de atividades ligadas aos serviços, tanto no âmbito do Estado como no setor privado, de cariz rotineiro e/ou interpessoal, caracterizadas por baixos níveis salariais, parco reconhecimento social e escassa autonomia profissional. No caso português, os empregados executantes passaram de 15% em 1960 a quase um terço da população ativa, absorvendo uma fração significativa da população de origem camponesa (Mauritti e Nunes, 2013).

4. A autobiografia do Sérgio

Ao analisar a autobiografia do Sérgio, escrita entre 2009 e 2010, começamos por constatar que se trata de um trabalho de 85 páginas (21.101 palavras) e que, para além de uma introdução e uma conclusão, está organizado em sete capítulos, ainda que o último não esteja identificado como tal:

INTRODUÇÃO ................................................................. Erro! Marcador não definido.
CAPITULO I - A MINHA INFÂNCIA/ADOLESCÊNCIAErro! Marcador não definido.
CAPÍTULO II - PERCURSO MILITAR ........................... Erro! Marcador não definido.
CAPÍTULO III - VIDA PROFISSIONAL ........................ Erro! Marcador não definido.
CAPÍTULO IV - VIDA PESSOAL .................................................................................. 43
CAPÍTULO V - VIDA SOCIAL ...................................................................................... 70
CAPÍTULO VI - OS MEUS TEMPOS LIVRES .............. Erro! Marcador não definido.
PROJECTO FUTURO ...................................................................................................... 82
CONCLUSÃO .................................................................................................................. 84

Este índice permite observar que Sérgio representa a sua vida como dividida em sete componentes principais, sendo que a primeira constitui uma etapa da vida (infância/adolescência), a seguinte diz respeito a uma experiência institucional (percurso militar), as quatro seguintes referem-se a diferentes dimensões de vida (profissional, pessoal, social, de lazer), e a última recupera um princípio cronológico para projetar o futuro individual. Pela posição e dimensão dos capítulos não será difícil de aferir que a “vida profissional” e a “vida pessoal” assumem um carácter central na sua narrativa, sendo que cada uma delas ocupa cerca de um terço do documento.
O primeiro capítulo começa pela afirmação: “Nasci a (dia) de (mês) de 1953, no seio de uma família humilde, honesta e trabalhadora, numa aldeia chamada (nome da povoação), do concelho de Celorico da Beira e distrito da Guarda, onde fui registado com o nome de (nome completo)” (p. 3). Nas 52 autobiografias analisadas, foi comum esta referência ao nascimento como momento fundador do eu, incluindo, em alguns casos, descrições detalhadas do parto que enaltecem características permanentes da personalidade (resiliência, alegria, teimosia, etc.). É também comum esta enunciação de características dos pais, sugerindo traços incorporados na génese do habitus.
Em seguida, a autobiografia de Sérgio foca-se em algumas experiências de infância, cuja forte carga emotiva parece ser o denominador comum: um acidente doméstico que quase lhe retirava a vida, aos 5/6 anos, tendo sido salvo pelo irmão e a tia; os rituais festivos de matança do porco, em que as crianças participavam e utilizavam as entranhas do animal para jogar à bola; a frequência do ensino primário e o exame de admissão ao liceu; os dois colégios católicos onde frequentou os primeiros anos do ensino liceal; a experiência de praticar futebol federado, pertencer a um clube e ser campeão distrital. No final deste capítulo reflete sobre os modos de vida na Beira Alta, nos anos 60, particularidades culturais, a emigração de muitos dos seus conterrâneos nesse período e a dura adaptação a outros países.
O segundo capítulo aborda a experiência militar. Salienta a dureza das rotinas e a rigidez das normas, assim como a distância da família, como indutores de estranheza, sofrimento e formação de disposições. Esta experiência é narrada com detalhe na grande maioria das autobiografias masculinas, sendo particularmente longa e dramática nos casos de participação na guerra colonial. Neste caso, apesar de ter ocorrido no período revolucionário e de ter durado apenas sete meses (ao final dos quais obteve uma “baixa médica por incapacidade”), é significativo que dê origem a um capítulo específico, o que sugere uma “ruptura biográfica”. É revelador também que não surja qualquer referência à revolução – quando esta é abordada com grande detalhe e dramatismo noutras autobiografias – mas sim a uma socialização em valores considerados centrais para as etapas subsequentes de vida (p. 13):

“Aprendi a ser disciplinado e disciplinador, a cumprir rigorosamente os horários, a ter mais respeito pelo próximo e ter um maior espírito de colaboração e inter-ajuda entre os meus colegas (...) são valores que ainda hoje procuro aplicar no meu dia-a-dia”.

No terceiro capítulo, Sérgio descreve a sua trajetória laboral, seguindo uma lógica cronológica, a partir do estágio realizado num Tribunal Judicial (TJ), de 1976 a 1979, até ao presente (2010). Os principais marcos que pautam esta narrativa, acompanhados de uma descrição de cada função e alguns aspetos peculiares da experiência no seu exercício, são: a tomada de posse como escriturário oficial de um tribunal na Beira Baixa; o destacamento para o Tribunal Criminal de Lisboa; a promoção para Escrivão Adjunto do TJ de um subúrbio de Lisboa; a transferência para um Juízo Cível da Comarca de Lisboa; o Curso de Formação para Acesso à Categoria de Escrivão de Direito; a nomeação para Escrivão de Direito do TJ do mesmo subúrbio da capital; o curso de admissão e a prova de acesso à categoria de secretário de justiça; a nomeação para Secretário de Justiça do TJ de uma comarca na Beira Baixa; a transferência para o tribunal de outra localidade na mesma região.
O eixo temporal constitui, portanto, a principal referência estruturante deste capítulo, o que é exacerbado, neste caso, por tratar-se de uma carreira altamente institucionalizada no seio da administração pública. Noutros casos, o percurso laboral é mais incerto e acidentado, com integração em diversas atividades, períodos de desemprego e regressos a funções anteriormente desempenhadas, convergência com atividades familiares e de tempos livres. Todavia, inclusive neste caso se observam transgressões ao princípio cronológico, como é o caso da descrição das mudanças em consequência da introdução dos computadores, narrada logo no início da carreira – para explicitar as práticas laborais antes do processo de informatização – mas que o próprio assume que só ocorreram nos anos 1990. Além disso, se a lógica cronológica orienta a primeira metade deste capítulo, a segunda metade é povoada de reflexões sobre as características, competências e dificuldades do seu trabalho quotidiano nos tribunais, exemplificadas por episódios vividos, dramáticos ou cómicos, mas que não são situados no tempo.
Se a narrativa havia acompanhado o percurso até ao tempo presente, o quarto capítulo, dedicado à “vida pessoal”, introduz um regresso ao passado. Começa por assinalar o dia e local do casamento civil, em 1981, acrescentando o divórcio em 2004, sem dia, nem local. Em seguida, descreve o casamento como um momento de adaptação a um “novo estilo de vida”, de dificuldades económicas, mas também de perda identitária (p.44):

“Após o casamento senti algumas mudanças relevantes como algum afastamento no relacionamento com a família e amigos, já que após o casamento fui morar para um local diferente, passei a trabalhar também em diferente local, com novos amigos, novos colegas de trabalho a que tive de me habituar, bem como uma certa perda de individualidade”.
Segue-se a descrição do nascimento da filha em 1982 – “parto natural”, “hospital particular”, “alegria enorme” – e, mais adiante, o nascimento do filho, em 1984 – “parto natural”, “hospital particular”, “já com melhores condições de vida”. Há algumas referências a uma “mobilidade habitacional ascendente” (Nico, 2011), mas difusas. Neste ponto, nota-se alguma ambivalência na descrição da vida familiar, ao assinalar-se a construção de “um projeto de vida baseado no respeito mútuo, na responsabilização individual e na divisão e partilha de tarefas” (p. 45-46), tendo melhorado progressivamente as condições de vida, mas também que surgiram “divergências, por praticar desporto, ir à pesca com amigos e vizinhos, o que a desagradava” (p. 46), conduzindo ao divórcio, ao fim de 24 anos. Segue-se uma reflexão sobre a afirmação dos direitos das mulheres ao longo das últimas décadas e a conciliação entre família e trabalho, provavelmente induzida pelo próprio referencial do programa, mas que conclui com uma nota de ressentimento (p. 47):

“Esta mudança depende também da atitude das mulheres e da sua disponibilidade para deixar partilhar um espaço que em grande parte tem sido do domínio do poder feminino, assim como os homens partilharam com elas o poder do espaço público e político”.

Nas derradeiras páginas deste capítulo, Sérgio descreve o processo, posterior ao divórcio, de compra de casa e os seus diversos equipamentos. Narra ainda algumas experiências de reclamação junto de empresas, práticas de proteção ambiental, usos quotidianos das tecnologias da informação e da comunicação, bem como modos de gestão dos recursos. A micro-economia, a cidadania, o ambiente ou as TIC constituem áreas de demonstração de competências previstas no referencial (DGVP, 2006a), mas que são opcionais e que se poderiam evidenciar em diversos contextos de vida, sendo significativo que, tal como em muitas outras autobiografias, seja o contexto doméstico (e familiar) aquele em que estas surgem desenvolvidas.
No caso do Sérgio, outros dois aspetos suscitam reflexão. Por um lado, apresenta-se um capítulo que ocupa cerca de um terço da narrativa e que se intitula “vida pessoal”, mas que começa apenas aos 28 anos com o casamento, descrito precisamente como um momento de perda de individualidade e espaço pessoal, prolongando-se após o divórcio com a vida doméstica e, aparentemente, solitária. Por outro lado, a relação com os filhos surge apenas associada ao seu nascimento, enquanto as vivências domésticas surgem apenas associadas à vida após o divórcio. Insinuam-se, assim, experiências (e bloqueios) emocionais que têm um enquadramento na cultura contemporânea e, em particular, nos diferentes papéis – e respetivas competências – que se vão assumindo (ou não) em diferentes momentos da vida (Velho, 1994).
Outro aspeto que importa explorar é a relação entre vida familiar e profissional. Ao contrário de outras autobiografias, nas quais se desempenharam atividades laborais com parentes ou em que, pelo contrário, a vida familiar é apresentada como fator de exclusão de ocupações, neste caso, projeta-se um “quadro” de divisão clara entre experiências em ambos os campos, para o qual terá contribuído a estabilidade dentro de uma carreira profissional, com funções e rotinas bem definidas, tanto do próprio como da esposa (também integrada no sistema judicial).
Ao sobrepor os relatos das trajetórias laboral e familiar, observamos que o destacamento (por opção própria) para um tribunal em Lisboa ocorre no mesmo ano do casamento, enquanto a nomeação para uma comarca na Beira Baixa, mais próxima da sua região de origem, ocorre no ano anterior ao divórcio. O que é notável é que Sérgio não estabelece qualquer relação entre os acontecimentos em ambas as dimensões, preservando no seu discurso as fronteiras entre sistemas e lógicas de ação distintas. A mudança de categoria profissional e a mobilidade para um local de trabalho a cerca de 150 km é explicada da seguinte forma (p. 26):

“em XX.XX.2003 por aviso publicado (edição do Diário da República) fui aprovado na prova de acesso à categoria de secretário de justiça com a classificação de 11,20 valores e graduado em 234º. Lugar de entre 467 candidatos admitidos (anexo doc. 27). Em XX.XX.2003 por aviso publicado no (edição do Diário da República) fui nomeado Secretário de Justiça para o Tribunal Judicial da Comarca de (localidade) (anexo doc.28), cuja aceitação ocorreu em XX.XX.2003 (anexo doc.29)”.

Já o divórcio, no ano seguinte, merece o seguinte reparo (p. 46):

“Sempre nos apoiámos mutuamente sem nunca perdermos a liberdade individual, expressa muitas vezes em divergências, por praticar desporto, ir à pesca com amigos e vizinhos o que a desagradava. Em 2004 por divergências e desentendimentos ocorridos no seio do casal decidimos por fim a 24 anos de casamento, encontrando-me divorciado desde então até há presente data”.

Este é, aliás, um aspecto que nos permite argumentar que a diferenciação entre dimensões da vida será acentuada, em termos culturais e ideológicos, no contexto de ocupações laborais estáveis, reguladas e institucionalizadas, nomeadamente na administração pública, mas que se apresenta mais problemática em narrativas autobiográficas, por exemplo, de operários, vendedores, camponeses ou mesmo de trabalhadores dos serviços com trajetórias marcadas pela precariedade.
O quinto capítulo intitula-se “vida social”, o que sugere que as outras “vidas” não são entendidas como tal, uma noção mitigada do “social” bastante difundida na nossa sociedade. Trata-se de um capítulo curto e centrado no tema dos hábitos de vida saudáveis (também mencionado como área de competências-chave), que neste caso são abordados através das práticas desportivas e de alimentação. Refira-se, de resto, que o desporto surge como uma dimensão específica das autobiografias de muitos destes trabalhadores, sobretudo do sexo masculino, o que mereceria um olhar mais atento, considerando o enfoque sociológico tradicional nas dimensões do trabalho, da família e da educação. Veja- se a seguinte descrição (p. 71):

“Vou ao Ginásio às Terças-Feiras das 18:00 às 19:00 horas, período durante o qual utilizo quase todos os equipamentos disponíveis. Pratico Futsal às Quartas-Feiras das 18:00 às 19:00 horas, faço natação às Quintas-Feiras das 19:00 às 20:00 horas. Faço pesca desportiva (habitualmente ao Sábado) pelo menos duas vezes por mês nas épocas da Primavera e do Inverno, podendo alargar-se a três ou quatro vezes sobretudo na época do Verão”.

Justifica estas práticas do seguinte modo: “O desporto oferece-nos uma vida saudável, proporciona-nos momentos de calma e tranquilidade, ajuda-nos a aliviar o stress, a combater o colesterol e a obesidade” (p. 72). Em seguida, narra detalhadamente a sua experiência de aumento de peso na juventude, quando abandonou a prática do futebol federado, assim como o regime de dieta e atividade física que seguiu para recuperar o peso e que, aparentemente, manteve nos últimos 30 anos. Conta também como a experiência de ter sido treinador dos escalões jovens de futebol, durante dois anos (não é claro em que período da vida), foi marcante na formação do seu carácter. Remata com as práticas de sociabilidade (p. 75):

“Participo sempre que posso e tenho disponibilidades de carácter profissional em almoços de convívio, jantares de confraternização, petiscos com amigos, família e vizinhos, eventos, concertos, etc.”

Exceto esta última referência à disponibilidade laboral, é curioso que este capítulo é praticamente “auto-suficiente”, não havendo qualquer relação com a vida profissional ou familiar, apesar de o capítulo anterior mencionar as tensões familiares que tais práticas terão gerado. É também significativo que, exceto o último parágrafo, aquilo que designa como “vida social” acaba por centrar-se numa dimensão mais pessoal da relação do indivíduo com o seu próprio corpo, contexto que Lahire (2002b) já havia identificado enquanto dimensão específica da socialização dos indivíduos nas sociedades contemporâneas.
O sexto capítulo é denominado “os meus tempos livres”, incluindo uma pequena secção sobre a prática da pesca desportiva, nos últimos 18 anos, e uma secção maior sobre as viagens. Esta última começa pela primeira vez que viu o mar, aos 12 anos, passa por um reconhecimento de que, durante muitos anos, se limitava a ir à praia, por dificuldades financeiras e por lhe parecer “um desperdício gastar dinheiro para conhecer outros lugares” (p. 76), até esta prática se ter tornado “um vício”, nos últimos anos (p. 76):

“Já tive oportunidade de viajar e passar férias em vários pontos de Norte a Sul do país, incluindo as ilhas (Madeira e Açores) e pelo estrangeiro, Brasil, Espanha (Tenerife, Palma de Maiorca, Madrid e Barcelona), França (Paris, Bordéus, Lyon e Marselha), Tunísia e República Dominicana”.

Associa estas experiências a uma mudança disposicional, ao longo da vida adulta, nomeadamente ao desenvolvimento de uma sensibilidade à diversidade cultural, de conhecimentos geográficos, linguísticos e gastronómicos alargados, bem como ao gosto e domínio de tecnologias como a máquina fotográfica e a câmara vídeo. Trata-se de disposições que, aparentemente, são desenvolvidas apenas na dimensão do lazer, não sendo transpostas para os planos laboral e familiar. Conclui com a afirmação de que é também nas férias que se dedica à leitura, referindo best-sellers de autores como Dan Brown, José Rodrigues dos Santos ou Miguel Sousa Tavares.
Esta recente valorização do turismo, presente em muitas autobiografias analisadas, associa-se a uma melhoria das condições de existência, a partir dos anos 90, mas também à expansão de uma indústria global que promove a “busca da autenticidade” através de pacotes de viagem e estadia a preços acessíveis (Joaquim, 2015). O que não deixa de ser notável é a distinção entre dois pequenos capítulos, um centrado no desporto e na alimentação, intitulado “a vida social”, outro centrado nas viagens e com uma referência curta à pesca, designado “os meus tempos livres”, ambos separados de um capítulo anterior sobre a vida familiar e doméstica na etapa adulta, denominado “vida pessoal”. Tal como noutras autobiografias, surgem assim modos heterodoxos de desdobramento dos percursos de vida que, frequentemente, não coincidem com as próprias categorias (infância, juventude, idade adulta, velhice; ou família, educação, trabalho, lazer, política) que a sociologia tem utilizado para cartografar a vida social, mas que sugerem quadros clivados de socialização e que variam entre indivíduos.
Finalmente, o documento fecha com o “projeto futuro”. Este capítulo é comum em muitas destas autobiografias e, até certo ponto, foi induzido pelo programa de reconhecimento de competências, com o intuito de que a auto-análise retrospetiva sustentasse movimentos individuais de valorização e/ou reinserção social. Neste caso, Sérgio apresenta o seu projeto de mobilidade social, através da realização dos exames para prosseguimento de estudos superiores, na área do direito, de forma a capitalizar a sua longa experiência neste campo e, por seu lado, obter habilitações para “trabalhar como jurista ou exercer advocacia” (p. 82). Esclarece que, embora prefira a Universidade de Coimbra, planeia concorrer à Universidade de Lisboa e explica a decisão da seguinte forma: “julgo ser o local com melhores acessibilidades” (p. 82). Porém, Sérgio vive e trabalha numa pequena cidade da Beira Baixa, objetivamente mais próxima de Coimbra do que a Lisboa. Por seu lado, a possibilidade de estudar na cidade onde viveu e onde, aparentemente, continuam a residir a ex-esposa e os filhos, não merece comentário. Tal constatação pode refletir a orientação cultural moderna para uma separação entre vidas pública e privada (Arfuch, 2010), devendo a segunda ser resguardada no espaço público, mas pode ser uma marca mais profunda da referida pluralidade do ator (Lahire, 2002a) e de como as vivências e preferências produzidas em certos contextos de vida tendem a ser omitidas, suspensas ou mesmo recalcadas, quando o indivíduo se encontra noutros contextos.

Notas conclusivas

As autobiografias realizadas no âmbito de um programa de reconhecimento de competências apontam para a existência de uma tensão entre um princípio narrativo integrado e cronológico, por um lado, e uma diferenciação das experiências e trajetórias, em diferentes domínios da vida, dos quais se destacam a vida profissional e a vida familiar, sendo que outras dimensões, como é o caso da cidadania, o lazer ou a relação com o corpo emergem ainda em várias narrativas, sobretudo escritas no masculino, com importâncias variáveis. Esta tendência sugere, então, uma relativa autonomia das experiências, lógicas e papéis assumidos em cada uma destas dimensões, sobretudo na idade adulta, ainda que a interseção entre as vivências nos diversos domínios seja recorrente nas autobiografias. Além disso, muitas das narrativas diferenciam claramente as vivências infantis das vivências adultas, assim como as disposições, valores e papéis associados a cada uma delas. Emerge, portanto, uma consciência autobiográfica que oscila entre a unidade e a pluralidade da vida.
De referir que esta relativa pluralidade da vida tem causas e consequências sociais profundas. Constitui, em simultâneo, uma libertação e uma fragilidade, fonte de realizações e ansiedades. Por um lado, atenua o determinismo familiar e de classe, democratizando as escolhas individuais: a busca de um emprego segundo a vocação, o casamento por amor, os passatempos como “escape” de vidas profissionais e familiares duras, a participação cívica como movimento de transformação social... Por outro lado, este desdobramento implica que os indivíduos, caracterizados por recursos muito assimétricos, se afirmem, em paralelo (e frequentemente por si próprios), em cada dimensão e conciliem, a cada momento, as disposições e exigências de cada uma delas.
Esta questão parece particularmente sensível na classe trabalhadora, por suscitar um conjunto de expetativas de democratização nem sempre cumpridas, o enfraquecimento de solidariedades de classe e a desresponsabilização das entidades patronais pelas dimensões familiares, cívicas e culturais da vida, num quadro de condições laborais e existenciais que permanece muito precário e desigual.
Esta pesquisa não deixa de se revestir de um carácter exploratório que importa aprofundar. A dualidade entre os registos da infância, por um lado, e vida adulta, por outro, abre portas a um aprofundamento da investigação sobre socialização primária e secundária, em diálogo com os estudos da psicologia e das neurociências. A comparação com as narrativas autobiográficas produzidas noutras épocas históricas, classes sociais e quadros culturais constitui outro filão que se afigura fértil. A transição para a velhice seria também importante de ser examinada. A combinação da análise de autobiografias com protocolos de interpelação dos indivíduos e objetivação dos seus percursos de vida, desenvolvidos no âmbito da perspetiva do curso de vida, poderá igualmente produzir importantes revelações.

 

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Artigo recebido em 25 de março de 2016. Aceite para publicação em 16 agosto de 2016

 

Notas

1 Estas narrativas autobiográficas foram recolhidas e analisadas, segundo diferentes prismas, ao longo do meu projeto de pós-doutoramento (2010-2013), desenvolvido no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL) e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Para uma visão geral do projeto e dos seus principais resultados, assim como uma discussão do conceito de “classe trabalhadora”, leia-se Abrantes (2013). Neste artigo, tratarei de aprofundar apenas a questão apresentada na introdução.

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