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Sociologia

versão impressa ISSN 0872-3419

Sociologia vol.29  Porto jun. 2015

 

ARTIGOS

Das tensões entre desmistificar e reconhecer os discursos ao repensar o “social”: manifesto por uma sociologia ecléctica

From tensions between demystifying and recognizing discourses to rethinking the“social”: manifesto for an eclectic sociology

Des tensions entre démystifier et reconnaitre les discours à la nécessité de repenser le“social”: manifeste pour une sociologie éclectique

De las tensiones entre desmitificar y reconocer los discursos al repensar el “social”:manifiesto por una sociología ecléctica

Pedro dos Santos Boia 47

Universidade do Porto e Universidade de Exeter


 

RESUMO

Esta reflexão deriva de uma prática sociológica e etnográfica em que o investigador tem um duplo estatuto como sujeito e objecto de conhecimento. Discutem-se tensões e dilemas entre a ethos que desmistifica e a que reconhece os discursos dos actores sociais, entre outros aspectos da prática de investigação. A importância dos usos do corpo, das técnicas instrumentais e da materialidade dos instrumentos musicais incita- nos a considerar dimensões da realidade tradicionalmente excluídas da sociologia, a repensar o “social” e o âmbito da própria sociologia. Desafiando fronteiras entre “escolas” no campo académico, proponho um manifesto por uma sociologia tão ecléctica e híbrida quão exigido pelas especificidades de cada realidade.

Palavras-chave: teoria e prática sociológica; epistemologia; metodologia qualitativa.


ABSTRACT

This reflection derives from a sociological and ethnographic practice in which the researcher has a double status as subject and object of knowledge. Tensions and dilemmas between an ethos that demystifies and one that recognizes the social actors' discourses, among other aspects of research practice, are discussed. The importance of the body, playing techniques and the materiality of musical instruments leads us to consider realms of reality traditionally excluded from sociology, to rethink the “social” and the scope of sociology itself. Challenging borders between “schools” within the academic field, I propose a manifesto for a sociology as eclectic and hybrid as demanded by the specificities of each reality.

Keywords: sociological theory and practice; epistemology; qualitative methodology.


RÉSUMÉ

Cette réflexion résulte d'une pratique sociologique et ethnographique dans laquelle le chercheur a un double statut comme sujet et objet de connaissance. Des tensions et les dilemmes entre l´ethos qui démystifie et celle qui reconnait les discours des acteurs sociaux sont discutés, ainsi comme d'autres aspects de la pratique de recherche. L'importance du corps, des techniques instrumentales et de la matérialité des instruments musicales nous incite à considérer des dimensions de la réalité traditionnellement exclues de la sociologie, à repenser le “social” et le contour de la sociologie elle-même. En défiant des frontières conventionnelles entre “écoles” au sein du champ académique, je propose un manifeste pour une sociologie si éclectique et si hybride que nécessaire, selon soit-il demandé par les spécificités de chaque réalité.

Mots-clés: théorie et pratique sociologique; épistémologie, méthodologie qualitative.


RESUMEN

Esta reflexión resulta de una práctica sociológica y etnográfica donde el investigador tiene una doble condición como sujeto y objeto de conocimiento. Se discuten las tensiones y dilemas entre un ethos que reconoce y otro que desmitifica los discursos de los actores sociales, entre otros aspectos de la práctica de investigación. La importancia del cuerpo, de las técnicas instrumentales y de la materialidad de los instrumentos musicales nos incita a considerar dimensiones de la realidad tradicionalmente excluidas de la sociología, a re-pensar lo “social” y el ámbito de la propia sociología. Desafiando fronteras convencionales entre “escuelas” en el interior del campo académico, propongo un manifiesto para una sociología tan ecléctica e híbrida cuanto necesario, conforme sea exigido por las particularidades empíricas de cada realidad.

Palabras clave: teoría y práctica sociológica; epistemología; metodología cualitativa.


Introdução: reflexões induzidas por um duplo estatuto do investigador

Este artigo propõe uma reflexão sobre a teoria e a prática sociológicas motivada pelo duplo estatuto do autor como sociólogo e músico, discutindo diversas correntes da sociologia, desde as suas referências fundacionais até perspectivas mais recentes. Fazendo parte do seu próprio objecto de pesquisa, o autor tem estudado etnograficamente os modos como um instrumento específico (viola d'arco) é visto e usado pelos músicos. Devo salientar que este não é um texto empiricamente orientado ou destinado a reportar resultados de pesquisa. Antes, tem um carácter epistemológico, teórico e metodológico de âmbito global. Assim, apenas me referirei a exemplos empíricos específicos quando estritamente necessário.
Inicialmente enquadrado pelo construtivismo social e pela intenção de seguir os discursos dos actores sociais (aqui, músicos), cedo se tornou evidente que a clássica desmistificação sociológica fazia também parte da minha abordagem. As tensões e dilemas entre reconhecer versus desmistificar (e potencialmente desqualificar) discursos dos actores sociais observados suscitaram uma reflexão constante e o desenvolvimento de estratégias adequadas. As práticas e as materialidades implicadas no acto de tocar um instrumento musical (tecnologias e propriedades sonoras dos instrumentos e da música, usos do corpo e “modos de fazer” corporalizados, etc.) fizeram-me questionar a suficiência de seguir e analisar somente representações e discursos. Progressivamente, apercebi-me da necessidade de considerar partes da realidade tradicionalmente excluídas da abordagem sociológica, porque consideradas “extra-sociais”.
Globalmente, este artigo focaliza-se em dois aspectos: (i) as tensões e dilemas entre seguir e desmistificar os discursos1 e (ii) a necessidade de discutir a relação da sociologia com o “extra-social” e consequentemente de repensar o próprio “social”, a regra durkheimiana de que a sociologia se deve restringir a explicar o social pelo social e, no fundo, o âmbito da própria sociologia. As reflexões finais proporão uma sociologia ecléctica e híbrida, sendo ainda relevantes como notas pragmáticas de uma sociologia da sociologia e da prática científica e académica.

1. Seguir/reconhecer versus desmistificar/desqualificar os discursos

Na sua concepção clássica, de certo modo classificável como moderna, a sociologia é concebida como revelação e desmistificação, como um olhar que permite ver para além das aparências, pretendendo clarificar e compreender mecanismos e processos considerados invisíveis aos olhos dos próprios actores sociais (ou por eles escondidos) e, por isso, de certa forma objectivos. A conhecida expressão de Berger “‘ver através' ou ‘por detrás' das fachadas das estruturas sociais”, reflectindo uma visão da sociologia como uma “forma de consciência” (Berger, 1963: 10-11)2, é altamente representativa deste modo de entender a prática sociológica.
Sob a égide do positivismo, Durkheim, visto unanimemente como um dos fundadores da sociologia, definiu, n'As Regras do Método Sociológico, os “factos sociais” como “coisas” independentes das suas manifestações individuais (e daí colectivas), exteriores aos indivíduos e exercendo uma coerção sobre eles (Durkheim, 1998 (1894)) – caps. 1 e 2: 29-68). Posteriormente, Bachelard (1986 (1938)) serviria de referência para a emergência de uma sociologia racionalista, particularmente a noção de que uma “ruptura epistemológica” com o “senso comum” é condição necessária para a produção de conhecimento científico válido3. A ideia de que tal nos obriga a cultivar distância em relação ao objecto de estudo e àqueles que estudamos fundamenta a noção de “objectivação”, cara a Bourdieu4.
A “objectivação” opõe-se ao “senso comum”, sendo os discursos dos actores sociais alvo de desconfiança – para Bourdieu o que as pessoas dizem é visto como mera doxa5, uma falsa consciência ou conhecimento que, resultando dos seus interesses, “crença” no “jogo” (illusio)6 ou de “razões práticas” (Bourdieu, 1994), não é, pois, fiável. Os discursos são vistos como um reflexo da presumida incapacidade reflexiva7 dos actores sociais para compreenderem as implicações objectivas do mundo social que os rodeia e que condiciona ou determina as suas acções8.
Facilmente se detecta aqui a tendência para desqualificar os discursos dos actores sociais. Depois de comentar o conceito de “ideal-tipo” de Weber (a quem, no entanto, devemos a tradição da sociologia compreensiva contrastante com o positivismo seguido por Durkheim9), Aron despoja as pessoas da capacidade de percepcionar a verdadeira significância da sua condição ao escrever que a sociologia é mais capaz do que os próprios actores de aceder ao verdadeiro significado das suas vivências10, o que para muitos é uma afirmação altamente problemática e controversa.
Contrastando com estas tradições, há uma tendência oposta na sociologia, representada por várias correntes que apontam para o reconhecimento dos discursos dos actores sociais – desde o método “interpretativo” para compreender a acção não- racional de Weber (1978), passando pela fenomenologia social de Schutz (1967 (1932)) (com a sua insistência na subjetividade e nas “realidades múltiplas” – Schutz, 1945), pelo interaccionismo social de Goffman e de Becker11, ou pela etnometodologia de Garfinkel. Esta última procura compreender como o sentido é activamente produzido e elaborado discursivamente pelos actores sociais em situações específicas, estudando pois os “etno-métodos” que as pessoas comuns usam no quotidiano para esse efeito12 e dando particular importância à linguagem13. Longe de desqualificarem os discursos dos actores, estas correntes vêem-nos antes como recursos heurísticos válidos e essenciais para se compreender a realidade social.
O pós-modernismo de Lyotard, Baudrillard, Jameson, Deleuze e Guattari, Foucault e Derrida, entre outros, procedeu a uma crítica e desconstrução do pensamento fundacional e totalizante, das grandes narrativas e das pretensões objectivistas e imperialistas da ciência moderna14. Refira-se a perspectiva pós-moderna e pós-colonialista, interessada em recuperar e dar voz a epistemologias indígenas e minoritárias (Denzin, Lincoln e Smith, 2008), e a proposta de uma segunda ruptura epistemológica (após uma primeira ruptura bachelardiana) e regresso ao senso comum (Santos, 1989)15, que enfatiza o potencial emancipatório do conhecimento, deixando este último de ser visto como tendo uma função de regulação associada à ambição de neutralidade e descomprometimento (Habermas, 1971 (1968); Santos, 1995).
Perante estes dois modos contrastantes de conceber a prática sociológica, é fundamental questionarmo-nos sobre o estatuto epistemológico que, como cientistas sociais, atribuímos aos discursos, às explicações e aos relatos (accounts) dos actores sociais. Deveremos restringir-nos a considerá-los mera doxa, como propõe Bourdieu? – o que inevitavelmente os desqualifica por lhes negar a capacidade de serem uma fonte de conhecimento válido. Ou poderão eles merecer um estatuto epistemológico superior?
A arte é um caso particularmente interessante devido às fricções entre os discursos artístico e científico (Monteiro, 1996). Tradicionalmente, a sociologia abordou a arte desqualificando dimensões importantes das práticas artísticas e da própria experiência estética, ao conceber o “artístico” como uma espécie de marioneta determinada por forças “sociais” como as relações de poder, o capital, ou o interesse (concebendo o social e o artístico, respectivamente, como variáveis independente e dependente) (Hennion, 1993). Como alternativa à “sociologização da música como máscara em jogos de identidade social” (Hennion, 1993: 21), Hennion propõe uma sociologia da mediação que “re-habite” a música com os seus discursos e artefactos (partituras, instrumentos, gravações,…). É essencial evitar quer uma reificação quer uma desqualificação sistemática dos discursos dos públicos amadores de música, por exemplo, em resultado de uma ethos unívoca e rigidamente definida a priori que obrigaria a escolher entre “estetização” e “sociologização” (Hennion, 1993: 21). Antes, é preciso capturar empírica e analiticamente todos os mediadores que, em acção e em situações específicas, produzem arte16.
“Temos de seguir os próprios actores” era, de acordo com Latour, um autêntico “slogan da ANT” (actor-network-theory) (Latour, 2005: 12) – no entanto, há que seguir não só os discursos mas também as práticas dos actores e a relação destes com as materialidades do mundo “natural”, dos artefactos e dos seus próprios corpos; e fazê-lo poderá justificar tanto o reconhecimento como, eventualmente, uma desqualificação de discursos em função de um certo critério de objectividade.

2. O que permite ou induz o sociólogo a legitimar ou desqualificar os discursos?

Se, reconhecendo aquilo que os discursos dos actores sociais que estudamos nos podem ensinar, pretendemos ir para além da sua desqualificação sistemática (respeitando assim as epistemologias desses actores e grupos sociais), será que a única alternativa é aceitar, legitimar, reproduzir acriticamente ou até reificar esses mesmos discursos como acontece em algum jornalismo (algo a que a rejeição absoluta de quaisquer possibilidades de “objectivação” pode levar)?
Uma resposta torna necessário ir-se para além dos discursos, concebidos como fenómenos representacionais, cognitivos e linguísticos. Questiono aqui tanto o construtivismo social extremo, como a ideia – a que um pós-modernismo radical pode levar – de que tudo o que há é apenas diferentes discursos/ficções igualmente válidos a todos os níveis17. Pelo contrário, há algo de certo modo objectivo na realidade social e no mundo. Todos os discursos são obviamente válidos em si mesmos como interpretações e vivências específicas da realidade (configurando universos de sentido múltiplos e sendo uma forma de acção social), mas nem sempre equivalentes se avaliados em função de um certo critério da objectividade (não o único, mas um dos possíveis).
O que justifica – ou poderá induzir a – legitimar certos discursos e a desmistificar (e potencialmente desqualificar) outros em função de uma definição pragmática de “objectividade”? Uma das respostas possíveis: distinguindo entre discursos que, de acordo com a observação empírica e a análise, reflectem directamente certos aspectos relativamente objectivos da realidade, ou “como as coisas são realmente ou aconteceram de facto” (ex. estar num certo sítio num certo momento, tocar um instrumento usando certos modos de fazer) e aqueles que dão pistas ilusórias quando pretendemos aceder a tais dimensões. Esta questão será aprofundada em seguida.

3. Da triangulação à inclusão do “extra-social” e ao repensar do “social”

A vivência etnográfica e a investigação da performance musical gerou em mim consciência da necessidade de especificar empiricamente dimensões da realidade tradicionalmente excluídas da sociologia porque vistas como “extra-sociais”. A impossibilidade de as subestimar ou negligenciar, dado serem inerentes e constitutivas das práticas e fenómenos tidos como “musicais”, estimula-nos a repensar o “social”/“extra-social” e a reflectir sobre o que é a própria sociologia.

3.1. A especificação empírica das práticas e a triangulação

Voltando à questão de o que permite legitimar ou desmistificar discursos em função do critério da objectividade saliento, em primeiro lugar, a importância de recorrermos a técnicas de observação que permitam capturar empiricamente as vivências e as práticas no sentido mais mundano do termo e as materialidades em acção em tempo real (DeNora, 2000 e 2011)18, bem como à triangulação rigorosa durante a observação e análise de dados empíricos possibilitada pela combinação entre diferentes técnicas de investigação19. Estes procedimentos poderão levar o investigador a atribuir diferentes estatutos epistemológicos a discursos concorrentes.
Apesar de os diferentes discursos poderem não ser equivalentes em função do critério da objectividade, tal não significa que os que parecem menos “verdadeiros” ou fiáveis em relação ao que nos podem ensinar sobre eventos de certo modo objectivos devam ser simplesmente desclassificados e descartados como doxa ou restringidos no seu interesse a mero tópico de investigação em si mesmo (o discurso como mero discurso) – embora não reflictam directamente “as coisas tal como realmente são ou se passa(ra)m”20, por assim dizer, podem ser indirectamente reveladores a esse nível depois de serem analisados em contraste com outros dados e sujeitos a triangulação. Na vida social, os sujeitos produzem discursos contrastantes que podem competir entre si, por vezes desconstruindo ou até desqualificando, intencional e explicitamente, discursos de outros actores em virtude de lutas pela imposição de versões legítimas da realidade ou da busca de reconhecimento. Apesar do “ruído” que geram, estes processos podem ser um recurso que ajuda o sociólogo a proceder à triangulação e à “objectivação”.
Consideremos discursos alternativos sobre o que um instrumento musical, neste caso a viola d'arco, consegue ou não consegue fazer – especificamente passagens em staccato21, comummente vistas como “difíceis” de executar e um sinal de domínio virtuosístico, pelos instrumentistas, da “técnica” dos instrumentos de arco modernos. Ao longo da minha vivência etnográfica recolhi evidência empírica de que certos músicos afirmam que, na situação de concerto, é virtualmente impossível executar tais passagens com sucesso neste Instrumento22, em virtude das suas supostas propriedades físico- acústicas (vistas como “limitações” – “resposta sonora lenta”, “peso do arco”). No
entanto, outro discurso sugere (e as respectivas práticas demonstram) que tal técnica pode ser executada com sucesso.
Eis uma possível controvérsia entre dois discursos alternativos e concorrentes a propósito das capacidades atribuídas a um instrumento. O que fazer agora? A necessidade de ir além do nível discursivo é óbvia – uma percepção facilitada quando se verifica o critério etnometodológico da “adequação única” ( unique adequacy) (Garfinkel, 2002) (quando o investigador detém o conhecimento especializado que lhe permite aceder mais profundamente a certas dimensões do seu objecto de estudo23).
A observação em tempo real dos usos do instrumento em situações específicas – do que diferentes instrumentistas fazem o instrumento fazer – invalida o primeiro dos discursos referidos acima e valida o segundo em função de um certo critério de objectividade. As práticas fundamentam os discursos: se um número considerável de instrumentistas é bem-sucedido a executar passagens staccato na viola d'arco, tal permite desqualificar o discurso que aponta esta presumida “limitação” ao instrumento como uma universalização e naturalização indevidas, resultantes de uma atribuição causal enviesada para aquilo que é visto como sendo (ou dependendo só) (d)as propriedades materiais e sonoras do instrumento em si.
Em função do critério de objectividade, um destes discursos pode ser visto como “certo” e o outro como “errado” – mas tal é válido apenas em certa medida, saliento! Os discursos são qualitativamente irredutíveis ao seu grau de correspondência a tal critério – cada modo de ver e experienciar a vida social e o mundo é único, devendo ser reconhecido e respeitado como tal. Nada de errado em descrever uma determinada experiência e visão de um instrumento musical decorrentes de se ter aprendido a tocá-lo de uma certa maneira em vez de outra – seria simplista reduzir o interesse sociológico de tal discurso à sua (des)classificação como mera doxa, “crença” ou conhecimento “errado”.
Discursos aparentemente enganadores a certos níveis não devem ser subestimados também porque, para além de reflectirem e construírem experiências da realidade múltiplas e qualitativamente irredutíveis e de orientarem a própria acção social (sendo, pois, parte da realidade), podem – ao objectificarem-se – construir a realidade, até em termos materiais24. Representações, suposições e discursos sobre as possibilidades e as limitações de um instrumento musical ou outro artefacto poderão ainda funcionar como “profecias auto-concretizadas” (self-fulfilling prophecies) (Merton, 1968: 473-493), ao orientarem as acções dos instrumentistas e os modos como usam e exploram os seus instrumentos de uma maneira que acaba por produzir de facto as suposições iniciais25. Tais representações e mecanismos cognitivos, combinados com disposições e habitus previamente internalizados (matrizes geradoras de julgamentos e de acções, de “modos de fazer” e de sentir corporalizados) (Bourdieu, 2002 e 1990) são, pois, activos, ao se materializarem nos modos de tocar um instrumento, moldando como este e a música soam em performance.
A atribuição de diferentes estatutos a discursos concorrentes não é um processo simples mas antes cheio de tensões e dilemas, entre os quais a ponderação dos riscos de imposição da autoridade (e subjectividade?) do investigador sobre as epistemologias dos sujeitos observados, potencialmente indevida se fundada em suposições ilegítimas sobre presumíveis “factos” tomados como “objectivos” versus a reificação, a reprodução e a legitimação acríticas de tais discursos. As duas ethoi de seguir/legitimar versus objectivar/desmistificar os discursos (classificáveis como pós-moderna e moderna, respectivamente) devem, pois, coexistir numa tensão saudável e ser activadas conforme os dados empíricos e a análise tornem relevante. Tais tensões e dilemas são algo de positivo e as necessárias decisões exigem uma enorme responsabilidade da parte do sociólogo – a ausência de tais questionamentos durante a prática sociológica podem indiciar inconsciência ou até despreocupação, o que é infinitamente pior.

3.2. A necessidade de abordar o “extra-social” e repensar o “social”

Acima tinha salientado a importância de combinar diferentes técnicas de pesquisa de modo a possibilitar a triangulação e a consequente atribuição de diferentes estatutos epistemológicos aos discursos. Esta discussão leva-nos agora à segunda parte de uma possível resposta sobre o que poderá permitir ou induzir o sociólogo a legitimar ou, pelo contrário, desmistificar (e eventualmente desqualificar) discursos: a consideração de partes da realidade convencionalmente vistas como “extra-sociais” – uma questão com a qual a sociologia deve lidar.
Em articulação com a observação empírica das práticas (relações entre humanos e entre estes e artefactos), representações e discursos não são necessariamente válidos só como meros “tópicos” de investigação, mas também como “recursos” explicativos26, heurísticos para acedermos a dimensões relativamente objectivas do mundo e da acção.

Isso acontece porque os discursos implicam e remetem-nos para práticas e materialidades com as quais estão dialecticamente imbricados. Tal torna-se óbvio aquando do estudo de actividades tais como a performance musical, em que a materialidade dos corpos, artefactos e sons, e a dimensão corporalizada e sensorial das práticas – referidas pelos discursos – são por demais evidentes. Essa tomada de consciência é facilitada quando existe um duplo estatuto do investigador e uma trajectória etnográfica de participação-observação.
Há, pois, que estudar práticas quotidianas concretas27, inclusivamente na sua dimensão não intelectualizada e mais tácita. A internalização e incorporação de disposições (Bourdieu, 2003 e 1990), o corpo e o chamado embodiment (Turner, 2008; Johnson, 2006; Shilling, 1993, 2005, 2007)28, as noções de “ corporeal realism” e de “pedagogias do corpo” (Shilling, 2005 e 2007), ou a fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty (1962), adquirem relevância.
Há que ultrapassar o viés cognitivista da academia (Eyerman e Jamieson, 1998; DeNora, 2005: 154-156), abordando-se sociologicamente os chamados “crafts”, modos de fazer e conhecimentos práticos situados para lá das representações e discursos29. Os estudos sobre o conhecimento corporalizado como pianista de jazz de Sudnow (1978) e a etnografia ou “sociologia carnal” de Wacquant como boxer (2004) devem ser mencionados. Urge desenvolver uma etnografia viva, que transcenda uma experiência exclusivamente cognitivista, mas que se alargue à experiência sensorial da corporalidade, às acções práticas e performativas sobre o mundo e às materialidades30.
Salientei atrás como o estudo da performance musical exige técnicas de investigação que permitam aceder a níveis da realidade situadas além do nível discursivo. Subjacente a essa questão, como procurarei clarificar, está a própria conceptualização do “social” e a delimitação da fronteira entre o que – na linha das regras do método sociológico de Durkheim – é considerado “social” e o “extra-social”. Apesar de a tradição sociológica dominante ter excluído este último, a sociologia pode e deve abordá-lo, questionando tal dualismo.
Para capturarmos empiricamente a materialidade da música e dimensões desta que tendem a escapar da análise sociológica (Boia, 2008, 2010) há que considerar, como propõem Witkin e DeNora (1997), a “agência” dos próprios materiais estéticos que emerge no seio de determinadas ecologias estéticas (DeNora, 2000, 2011 e 2013). Só assim se torna possível ultrapassar uma abordagem semiótica da arte que a vê meramente como texto e tornar o “ strong program” da cultural sociology (Alexander e Smith, 2001) “ainda mais forte” (Acord, 2009: 23431). Como salientam Hennion, Maisonneuve e Gomart na linha da chamada ANT (actor-network-theory), é necessário ir-se além do construtivismo social, pois este não reconhece a capacidade de acção (“agência”) dos objectos (Hennion, Maisonneuve e Gomart, 2000: 247).
No âmbito dos science and technology studies, Pickering (1995) enfatiza a necessidade de se ultrapassar um “idioma representacional” (ou semiótico) e desenvolver um “idioma performativo”. Propondo que se leve a agência material “a sério” (Pickering, 1995: 10, 12), a sua perspectiva estimula-nos a procurar capturar analiticamente dimensões da “agência” material relativamente menos mediadas social e culturalmente32. As materialidades não são completamente flexíveis como gelatina, infinitamente moldáveis e à mercê de variáveis “sociais”, como meras folhas em branco nas quais o “social” se pode inscrever sem constrangimentos e com total liberdade através de processos de construção social todo-poderosos33.
Questionando a separação e exclusão mútuas entre as esferas do humano e da natureza e as fronteiras entre as respectivas áreas do conhecimento científico (tal como Latour, 1993), Pickering advoga uma simetria pós-humanista que considere tanto a “agência” humana como a material (1995), pois, tal como nós modelamos as máquinas, somos também modelados por elas34. Tanto a sua perspectiva como a da actor-network-theory (ANT), afirma, “insistem no carácter entrelaçado e na inter-definição recíproca das agências material e humana” (Pickering, 1995: 25-26). Torna-se importante especificar a “dança da agência” entre o humano e o não-humano que se desenrola ao longo do tempo (descritível, do ponto de vista do ser humano, como uma dialéctica de “resistência e acomodação”) (Pickering, 1995: 25-26). Pickering sugere uma “historicidade e devir de parelhas de máquinas-humanos”, falando-se “não puramente de conjuntos de máquinas ou humanos mas de ser e devir cyborg35” (Pickering, 2003:100-10136). Pickering dá uma pista sobre o potencial desta abordagem no âmbito da sociologia da música, ao comentar brevemente o uso da guitarra eléctrica pelos Pink Floyd ou por Hendrix (Pickering, 2003: 108) – podemos, portanto, falar de parelhas e híbridos cyborg de instrumentos e instrumentistas (Boia, 2014).
Subjacente está a ambição de se ir para além de uma sociologia humanista na qual os seres humanos são os “únicos agentes genuínos na história” (Pickering, 2013:25) e que, sob influência do dualismo Cartesiano (englobando o dualismo pessoas- coisas) e da tradição durkheimiana, concebe tudo o que não é humano (máquinas, animais, mundo natural) como “previsível, passivo, à espera da imposição da nossa vontade” (Pickering, 2013: 25). Pickering rejeita a ideia do excepcionalismo humano que vê os “seres humanos activos e autónomos como se fossem mestres de um universo passivo” (Pickering, 2013: 25), propondo antes uma sociologia “descentrada” (Pickering, 2005), que considere simetricamente diferentes tipos de entidades e “agências”.
Compreendemos agora como a desqualificação dos discursos (e dos próprios actores sociais) pela sociologia moderna derivava parcialmente do facto de excluir ou subestimar a dimensão material da realidade, já que, considerando-a “não-social”, a via como estando situada fora do âmbito da disciplina37. Refiro-me especificamente à negligência ou à desqualificação de referências feitas pelas pessoas a objectos ou processos “não-sociais”.
Essa espécie de cegueira ou rejeição de dimensões da realidade vistas como “extra-sociais” deriva obviamente da concepção durkheimiana do “social”. Durkheim conceptualiza o “social” como uma “coisa” (ontologicamente real e autónoma), ou seja, como constituindo uma parte da realidade a par de outras, tais como as que compõem o mundo “natural” (Durkheim, 1998 (1894))38. Esta noção foi fundamental para a afirmação e institucionalização da sociologia, já que a proclamação da existência de uma realidade (“social”) distinta das outras permitiu justificar a existência de uma disciplina dedicada exclusivamente ao seu estudo (Latour, 2005). Tendo-se tornando dominante, tal concepção obscureceu completamente a visão alternativa de Tarde (contemporâneo de Durkheim), para quem o “social” era o processo de associação entre elementos heterogéneos (de ambos os mundos natural e material), através do qual a realidade é construída (Tarde, 1999 (1895) e 2000 (1899); cf. Latour, 2005). Esta última perspectiva foi recentemente apropriada e reabilitada por Latour, sendo um contributo importante para se ultrapassar o dualismo moderno entre “Sociedade” e “Natureza”39 e trazer a materialidade dos objectos e o mundo físico para a análise sociológica. A superação da mútua exclusão entre humanos (des-corporalizados) e coisas (actores não- humanos) – se bem que esta tenha sido sempre ilusória pois “we have never been modern”, como argumenta Latour (1993) – é pós-moderna, já que implica (tal como o cyborg) a dissolução de fronteiras entre categorias bem definidas e estanques40.
Quais as consequências de tudo isto? A etnografia da performance musical e os contributos dos science studies aqui discutidos desafiam-nos a repensar as noções, as fronteiras e o dualismo entre “social” e “extra-social”, e mesmo a reequacionar o que é, pode, ou deve ser, a própria sociologia. Tudo isto nos leva, enfim, a reflectir sobre a necessidade de a sociologia abordar complexas relações de multi-causalidade entre diferentes tipos de variáveis e “agências” (incluindo as físicas, biológicas, etc.) e, no limite, a questionar a própria regra fundamental do método sociológico durkheimiana de nos restringirmos a explicar o “social” exclusivamente pelo “social”.
Tal pode ser visto como abalando os próprios fundamentos da sociologia, mas não creio que seja o caso. Proponho um alargamento da conceptualização tradicional do “social” de modo a considerar-se as multi-causalidades entre ingredientes heterogéneos – todos necessariamente sociais (como será discutido adiante). É possível e necessário compatibilizar aspectos das noções do “social” subjacentes às duas perspectivas atrás discutidas, resolvendo-se choques epistemológicos. A sociologia está hoje suficientemente institucionalizada para que nos permitamos proceder a esse alargamento sem recear que isso afecte a credibilidade da disciplina – pelo contrário, tal abre as portas a um maravilhoso novo mundo de complexidade, permitindo-lhe aproximar-se e melhor capturar os seus objectos, sem que deixe de ser sociologia.
É essencial, no entanto, salvaguardarmo-nos do tom exageradamente crítico que por vezes parece sugerir que toda a tradição dominante da sociologia não passou de um mero caminho errado e que o “social”, tal como é definido por Durkheim, é algo que não existe (detectável em Latour, 200341), ou da eventual tendência de se negligenciar as representações e a cognição social (o que pode desembocar numa espécie de Cartesianismo invertido em virtude da reificação do corpo, da materialidade e respectivas performances). Ingredientes correspondentes a um “social” durkheimiano (representações colectivas, processos cognitivos, convenções, regras, modos de fazer institucionalizados, coerção, etc.), bem como a intencionalidade humana, para além de serem inerentes aos processos de objectificação que (re)constroem o mundo material, são uma parte da realidade que existe de facto e, como tal, tem de ser considerada. Apesar de imateriais, fenómenos convencionalmente vistos como “sociais” são, tal como os fenómenos da natureza, “coisas reais” como afirma Durkheim (1998: 23), havendo, pois, que resistir a uma visão predominantemente materialista. Tal seria reduzir a complexidade do real no sentido oposto àquele que é criticado…
Devemos também precaver-nos do risco de cairmos num realismo ingénuo ou numa visão a-sociológica que cometa o erro de reificar discursos sobre a materialidade, aceitando-os como reflexo puro e objectivo da própria materialidade (Collins e Yearley, 1992). É importante transcender representações e discursos, mas reconhecendo que a forma como experienciamos a “agência” material como seres humanos é necessariamente mediada e constituída por factores socioculturais. O que os actores sociais referem como sendo pura “agência” dos materiais é, de facto e em grande medida, um co-produto híbrido da materialidade, cultura e sociedade. Lentes socioculturais, processos cognitivos e linguagem produzem tais mediações da experiência, bem como a sua racionalização e “accountability”. A linguagem permite “fazer coisas com as palavras”42, mas há que ter em conta que as suas potenciais
consequências necessitam de ser efectivadas em situações de interacção específicas (frequentemente em relação a propriedades materiais de artefactos), como mostra Streeck (1981 e 1996)43.
A socialização e a internalização de disposições são também fundamentais em tais processos de mediação. Repensando a incorporação e a noção de habitus, Nunes mapeia pesquisas recentes que, evidenciando as intersecções (e hibridismo) entre o biológico e o social, apontam em direcção a novos e excitantes modos de abordar tais processos (Nunes, 2007: 171-178). Há que ter em atenção que a noção de habitus (Bourdieu, 2002 (1972) e 1990 (1980)), ou de conjuntos de disposições plurais não necessariamente coerentes entre si e activadas ou não em/por contextos de acção específicos (Lahire, 1998), – permitindo superar o dualismo entre o subjectivo e o objectivo – são úteis para compreender as relações complexas entre as “agências” humana e material. Sendo a internalização um conceito pivot que media entre a dimensão sociocultural e a materialidade, a sua consideração é obrigatória para não se cair num realismo exagerado que poderia “essencializar” “agências”, ao vê-las como exclusivamente materiais quando na verdade são híbridas.
Como propõe Barad (2003 e 2007), cuja perspectiva denomina de “agential realismpromissora para a superação do dualismo entre realismo e construtivismo – a distinção entre epistemologia e ontologia deve ser dissolvida ou pelo menos fortemente esbatida44. Modos de ver e sentir o mundo, por um lado, e a materialidade do mundo, por outro, não são dimensões separadas, mas antes se constituem mutuamente, pois, mais do que inter-agirem entre si, “ intra-agem” uma na (ou, por assim dizer, dentro da) outra45. Tal como a ideia de Latour de que a realidade é “co-produzida” por ingredientes heterogéneos, sendo “Natureza” e “Sociedade” meros “colectores” conceptuais, também o “agential realism” de Barad nos leva a questionar a distinção entre o que normalmente se denomina de “social” e de “extra-social” – estes são igualmente “colectores”, já que as ordens de fenómenos a que se reportam estão na realidade dialecticamente imbricadas (Boia, 2010) e “emaranhadas” (“entangledBarad, 2007).
As materialidades, os artefactos e a natureza são inerentemente sociais não só porque são moldados pela acção humana, mas também porque, nos modos como emergem perceptual e fisicamente para nós seres humanos, são social e culturalmente mediados, sendo constituídos por modos de ver e de agir colectivamente produzidos – as “agências” que daí emergem são, pois, híbridas. Finalmente, o “descentramento” da sociologia deve ser apenas relativo – mantendo-se o foco sobre a condição humana, como escreve Gurvitch (apud Nunes, 1991: 21), sob a pena de passar a não existir qualquer distinção entre, por exemplo, a física e a sociologia.
Postas estas reservas, e como afirma Pais na sua perspicaz reflexão crítica sobre As Regras do Método Sociológico de Durkheim versus o que denomina de métodos “desregrados”, há que reconhecer que os métodos não são apenas “uma gazua para arrombar portas escancaradas” mas “estão também orientados para as descobertas, para os enigmas do desconhecido, para a resolução dos paradoxos” (Pais, 1995: 261).

4. A primazia da realidade: manifesto por uma sociologia ecléctica e híbrida

Ao longo deste artigo discuti diferentes tradições, abordagens e concepções da sociologia, propondo uma reflexão sobre a epistemologia e a prática sociológicas em função de tensões e dilemas que experienciei no âmbito da minha própria trajectória. As reflexões finais que se seguem, pretendendo ser um manifesto por uma sociologia ecléctica e híbrida, são também notas pragmáticas para uma sociologia da sociologia.
É vital que nos mantenhamos abertos ao uso reflexivo de recursos provenientes de uma multiplicidade de tradições sociológicas, bem como à prática de alternar entre ethoi e posturas moderna e pós-moderna, que tanto seguem como desmistificam discursos, de acordo com o que cada objecto de estudo e processo de investigação exigem a cada momento (dependendo ainda do estatuto e papel do investigador). Deve haver uma permanente selecção activa determinada pelas especificidades empíricas de cada objecto de estudo, em vez de uma aplicação automática e linear de quadros teóricos fechados e definidos rigidamente a priori em virtude de pertenças a "tradições", "escolas" e outras segmentações dos campos científico e académico.
Ortodoxias a este nível (explícitas ou implícitas) – traindo a complexidade da realidade – poderão derivar mais de “razões práticas” subjacentes a lutas entre diferentes “tradições” e “escolas” em competição (de imperialismos teóricos, manutenção de afiliações institucionais, gestão de estratégias de carreira ou mesmo, até, da permanente necessidade de reconhecimento de académicos já estabelecidos) do que da ambição de compreender a realidade tão exaustivamente quanto possível. Tais riscos são reais em qualquer das “tradições” ou “escolas” discutidos neste texto ou noutras, podendo verificar-se quer em correntes já institucionalizadas quer nas emergentes.
Abordagens presas a uma conceptualização demasiado restrita do “social” e aos dualismos e fronteiras da modernidade (“Sociedade”/”Natureza”; “social”/ “extra- social”) correm o risco de se restringirem à produção de análises de certo modo redutoras, porque estritamente humanistas e representacionais. Por outro lado, não há necessariamente razões para desqualificar tradições sociológicas estabelecidas considerando-as meros caminhos errados, desperdiçando as suas virtualidades e potencial heurístico que tanto nos ensinaram ao longo de um século46. Uma lógica de síntese deve, por vezes, predominar sobre a lógica kuhniana de sucessão entre paradigmas científicos e dualismos subjacentes às lutas entre teses e antíteses que, sendo parte essencial da vitalidade do campo científico e académico, também encerram perigos. Sem esquecermos que o processo de conhecimento é sempre uma construção (racionalistas e pós-modernos estão de acordo neste ponto), é importante aproximarmos o objecto de estudo do objecto real, reduzindo-se o carácter construído da perspectiva sociológica de modo a não deixar escapar o mundo que estudamos.
Devemos “escutar” permanentemente a realidade, activando os recursos teórico- metodológicos que esta parece “pedir” a cada momento de modo a ser compreendida o mais profundamente possível. A complexidade da realidade exige um hibridismo ecléctico, forçando-nos a questionar suposições e fronteiras convencionais. E a complexidade particular das práticas musicais e científicas dão à sociologia da música e aos estudos sobre ciência e tecnologia um impacto que transcende claramente estes subcampos disciplinares, alargando-se à sociologia e às ciências sociais como um todo.

 

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Artigo recebido a 11 de janeiro de 2013. Publicação aprovada a 15 de outubro de 2014.

 

Notas

1 “Discurso” implica bem mais do que aquilo que as pessoas dizem. Marvasti explica que a linguagem e o discurso não só descrevem mas também produzem a realidade, sendo em si mesmos um tipo de a cção social. Os discursos têm também funções retóricas, podendo ser usados para promover um dos lados de um conflito (Marvasti, 2004:107-108). Marvasti propõe a definição de “discurso” como “ a way of writing or speaking that constructs a particular type of knowledge with practical and rhetorical implications” (Marvasti, 2004: 108). Um discurso, pois, constrói uma “versão particular da realidade” (Marvasti, 2004:109). Refira-se ainda a conotação pós-moderna deste conceito, a propósito da qual Jorgensen escreve: “ The notion of discourse draws on postmodern ideas in education and the social sciences about the frames of reference in which individuals and institutions construct realities that encompass ways of conceptualizing and talking about ideas and the variety of practices that exemplify, flow from, and reinforce them.” (Jorgensen, 2002: 56).

2 To ask sociological questions, presupposes that one is interested in looking some distance beyond the commonly accepted or officially defined goals of human actions ” (Berger, 1963: 10).

3 Esta é uma ideia presente em Durkheim, se bem que ainda num âmbito positivista (cf. 1998: 55-68).

4 “Objectivação”, no sentido que Bourdieu dá ao termo (cf. Bourdieu, Chamboredon e Passeron, 1968; Bourdieu, 2003; Hamel, 2008), consiste num distanciamento face às ideias e à linguagem do senso comum (Hamel, 2008 – parág. 4) de modo a revelar que o que as pessoas tomam como adquirido é, na realidade, socialmente produzido. Em linha com a ideia da necessidade de uma ruptura epistemológica bachelardiana, a prática da “objectivação” pretende produzir “conhecimento objectivo sobre os princípios de categorização, classificação e de acção que determinam o modo como o ‘mundo social' se apresenta como natural” aos seus membros (Hamel, 2008 – parág. 3).

5 “(...) l'expérience doxique dans laquelle on accorde au monde une croyance plus profonde que toutes les croyances (au sens ordinaire) puisqu'elle ne se pense pas en tant que croyance” (Bourdieu, 1994:156).

6L'illusio , c'est le fait d'être prise au jeu, d'être pris par le jeu, de le croire que le jeu en vaut la chandelle, ou, pour dire les choses simplement, que ça vaut la peine de jouer ” (Bourdieu, 1994: 151).

7 Tenha-se em atenção o princípio da não-consciência das práticas postulado por Bourdieu (2002 (1972), 1990 (1980)). Lahire tem, a este respeito, uma posição diferente de Bourdieu ao reconhecer capacidade reflexiva aos actores (cf. Caetano, 2012).

8Lahire argumenta que “objectivação” não é o mesmo que, nem implica necessariamente, desqualificação. Tal mal-entendido (como o próprio Bourdieu refere, segundo Lahire) deriva do uso errado da “objectivação” como “arma crítica” (Lahire, 2005: 128-137). No entanto, é inegável que a desconfiança face aos discursos nativos implicada na “objectivação” gera uma forte predisposição à desqualificação.

9 No entanto, a ideia da neutralidade axiológica ou ética (Weber, 1949) está, de certo modo, em linha com esta ethos sociológica.

10 “(…) the purpose of sociology is to make intelligible what was not so – to reveal the meaning of what was lived without its meaning being perceived by those who lived it ” (Aron, 1999: 245).

11 A postura patente na seguinte afirmação de Becker é, como ele próprio assume, diametralmente oposta à abordagem racionalista de Bourdieu: “ To quote my mentor Hughes (…), he often said that sociologists did not know anything that nobody knew. Whatever sociologists knew about social life, they had learned from someone who was part of and fully engaged in that area of life ” (Becker e Pessin, 2006: 285).

12 “Etno-métodos”, ou seja, “everyday activities as members' methods for making those same activities (...) ‘accountable'” (Garfinkel, 1967: vii).

13 A noção de “prática interpretativa constitutiva da realidade” (reality-constitutive interpretive practice) (Holstein e Gubrium, 1994) é relevante para a questão das “realidades múltiplas” (Schutz, 1945), em contraponto com a ideia de que há uma única realidade objectiva.

14 Por exemplo, cf. Lyotard, 1979.

15 Refira-se a validação do senso comum subjacente ao trabalho de Bruner no âmbito da psicologia e das ciências da educação (Bruner, 1993, 1997).

16 Mediadores “não são intermediários passivos, mas produtores activos” (Hennion, 1997: 416) – cf. definição do conceito por Latour (1999: 307).

17 Implicando, pois, a rejeição de qualquer possibilidade de objectividade.

18 Tais técnicas (observação directa, recolha etnográfica de dados sobre experiências e práticas concretas, etc.) permitem aceder a níveis que transcendem representações e discursos.

19 A importância da triangulação é salientada em vários manuais de investigação (cf. a distinção entre diferentes tipos de triangulação proposta por Denzin, 1978; cf. também Denzin e Lincoln, 1994; Konecki, 2008). Segundo Stake, “ Triangulation has been generally considered a process of using multiple perceptions to clarify meaning, verifying the repeatability of an observation or interpretation ” (Stake, 2005: 454). A triangulação metodológica deve também ser exercida sobre dados relativos a práticas e não só sobre discursos, podendo consistir na comparação entre o que diferentes pessoas dizem, mas igualmente entre o que dizem e o que efectivamente fazem.

20 Esta ideia tornar-se-á mais clara no decorrer deste texto.

21 Trata-se de uma sucessão rápida de notas curtas e separadas entre si, executadas ao longo de uma só arcada.

22 A letra em maiúscula sublinhada na palavra “Instrumento” significa que este discurso se refere a ele em termos substantivos, ou seja, definindo um presumível resultado (“não ser possível executar staccato”) como inerente às propriedades físico-acústicas da Viola d'arco (ou seja, todas as violas) e não como resultante de violas d'arco tocadas com certos “modos de fazer”. Pelo facto de universalizar e reificar indevidamente um certa visão e identidade do instrumento (conforme evidenciado pela triangulação), tal discurso poderá ser, até certo ponto, considerado – se avaliado em função de um determinado critério como doxa (no sentido bourdieusiano do termo). Este é especialmente o caso se esse discurso for usado conscientemente como recurso para a manutenção de reputações profissionais (por “razões práticas”, como diria Bourdieu).

23 Lahire critica o uso exagerado dos conceitos de “campo” e de “interesse” por parte dos sociólogos, salientando que é importante que se passe mais tempo a aprender mais sobre as actividades dos agentes sociais estudados (Lahire, 2005: 128-137).

24 “(…) objectification (…) is the concrete embodiment of an idea” (Tilley, 2006: 60); “the qualities of artefacts may objectify the persons who have made and used them” (Tilley, 2006: 62). A propósito de como representações e perfis dos instrumentistas moldam o design e as características físicas e sonoras de um instrumento musical veja-se Boia (2010).

25 Estes aspectos, no entanto, mereceriam um estudo empírico mais aprofundado.

26 Cf. a distinção entre “tópico” e “recurso” em DeNora e Mehan (1993).

27 Sobre as práticas artísticas cf. o volume organizado por Zembylas (2014). Sobre as práticas quotidianas e a “vida de laboratório” no âmbito dos science studies cf. v.g. o estudo clássico de Latour e Woolgar (1979).

28 Turner define embodiment escrevendo: “it is important not to reify ‘the body', but to treat embodiment as a process, namely the social processes of embodiment”. Primeiro, embodiment é o conjunto de práticas de corporalização e de incorporação, ou seja, resulta da aprendizagem de técnicas corporais (caminhar, sentar, dançar, comer, etc.) que “produzem e dão a ‘um corpo' um lugar na vida quotidiana”. Segundo, “embodiment requires the production of a sensuous and practical presence in the life-world. Embodiment is the lived experience of the sensual or subjective body (…) involves the sensual, live body and its effects on social relations. It is the active shaping of the lived world by embodied practices”. A natureza social e colectiva do embodiment é o terceiro aspecto referido por Turner: “embodiment is a collective project because it takes place in a life-world that is already social. Embodiment is not an isolated project of the individual; it is located within a social world of interconnected social actors” (Turner, 2008: 245). Finalmente, como “processo de fazer e tornar-se um corpo” (“making and becoming”), o embodiment está relacionado com a construção de identidades, pois é igualmente um “projecto de fazer um self” (Turner, 2008: 245). Por sua vez, Johnson relaciona embodiment com a produção de sentido do seguinte modo: “ An embodied view of meaning looks for the origins and structures of meaning in the organic activities of embodied, social creatures in interaction with their changing environments— environments that are at once physical, social, and cultural. It sees meaning and all our higher functioning as growing out of and shaped by our abilities to perceive things, manipulate objects, move our bodies in space, interac t with other people, and evaluate our situation ” (Johnson, 2006: 8).

29 Cf. o estudo sobre a craftmanship de Sennett (2008), Stoller (1997) a propósito de uma prática académica sensual e corporalizada, e a proposta de uma etnografia sensorial por Pink (2009).

30 O chamado dualismo Cartesiano entre corpo e mente foi até há pouco tempo dominante na cultura Ocidental. Se bem que as suas origens remontem pelo menos à filosofia de Platão, seria o famoso cogito ergo sum (“penso logo existo”) postulado por Descartes (2008 (1637)) – em que o pensamento e não o corpo ou a experiência sensorial é visto por este filósofo como prova da sua existência – a simbolizar a oposição mente-corpo. Nas últimas décadas, as ciências cognitivas têm vindo a mostrar que, na verdade, o modo como o ser humano pensa é parcialmente determinado pelas características do seu corpo, tendo isso levado a um questionamento de tal dualismo. Cf. v.g. Damásio (1999) (igualmente relevante para a dissolução do dualismo razão-emoção).

31 O “strong program” da cultural sociology tenciona explorar o sentido inerente ao campo cultural em vez de o conceber como sendo meramente produzido por variáveis exógenas (Alexander e Smith, 2001). No entanto, a restrição a uma abordagem semiótica é uma forte limitação desta perspectiva – como Acord escreve: “ The strong program sees culture as a text that actively shapes its world, for instance through the codes in play in cultural objects themselves. (…) cultural objects are far more salient than recognized in more human-centered sociology. Actors' grounded and relational interactions with cultural materials play a crucial role in how they are read and mobilized in meaning making. Seen in this way, members of social worlds may use objects to tinker with culture and objects may use culture to tinker with actors ” (Acord, 2009: 234).

32 As consequências não intencionais da acção humana sobre o mundo natural (ex. o “efeito estufa”) mostram que a “agência” material pode reagir às acções humanas com autonomia face à intencionalidade humana e, de certo modo, nos seus próprios termos e de maneiras imprevisíveis, ou seja, “it bites back ” (Tenner, 1996; cf. Pickering, 1995).

33 Cf. a discussão sobre a noção de “affordance” (inicialmente formulada por Gibson) em Boia (2010).

34 “(…) just as the becoming of machines depends upon us, so our becoming – of our goals and intentions, social roles and relations, disciplines and subject positions – depends upon machines ” (Pickering, 2003: 100).

35 Um cyborg é um híbrido de humano e de tecnologia (v.g. um indivíduo com um pacemaker), cada um destes elementos adaptando-se ao outro como sistemas abertos (cf. Gray, 1995).

36 Cf. também Barad (2003).

37 Latour escreve: “ When a famous soprano says, ‘It is my voice who tells me when to stop and when to begin', how quickly should the sociologist jump to the conclusion that the singer offers here a ‘typical case' of ‘false consciousness', artists being always too ready to take what is of their own making as the fetish that makes them do things? ” (Latour, 2005: 48).

38 Leia-se o início do capítulo 1 de As Regras do Método Sociológico, onde Durkheim explica o que é um “facto social” – é aí claro o seu esforço em distinguir fenómenos sociais de fenómenos biológicos e psicológicos. Note-se que, no prefácio à segunda edição, Durkheim salienta ainda que “a vida social (é) inteiramente feita de representações” (Durkheim, 1998: 11), o que ajuda a explicar a restrição da sociologia a um “idioma representacional”.

39 Latour argumenta que a realidade é co-produzida por ingredientes heterogéneos, sendo “Natureza” e “Sociedade” meros conceitos ou “colectores” ( collectors) que realizam discursivamente uma dada “montagem” (assemblage) do real (Latour, 2005).

40 A propósito do carácter construído e da artificialidade das fronteiras entre diferentes ciências – aqui sociais – considere-se a noção de “fenómeno social total” de Mauss e a ideia postulada por este e por Gurvitch de que a realidade social é una e indivisível, contraposta à ilusão de que cada ciência social estudaria uma parte da realidade social (cf. Nunes, 1991, especialmente as pp. 21-22; Silva e Pinto, 1986:16-19). Esta questão relaciona-se com a distinção entre objecto real e objecto do conhecimento (Althusser e Blibar, apud Bessa, 1986: 82; Silva e Pinto, 1986). Os autores dos science studies aqui discutidos advogam uma ideia com consequências de certo modo idênticas, mas abrangendo tanto as ciências sociais como as ciências naturais e as tecnologias. Dir-se-ia que advogam a existência não do fenómeno social total mas antes do fenómeno total.

41 Criticando o construtivismo social, Latour (2003) argumenta que na “construção social” apenas o processo (de associação entre elementos heterogéneos) deve ser entendido como “social”, não sendo o “social” um certo tipo de material constitutivo da realidade. Latour parece assim sugerir que o “social”, entendido como um certo tipo “coisa” (stuff), não existe.

42Doing things with words” (Austin, 1962); cf. também Searle (1969) a propósito dos “speech acts”.

43 Cf. DeNora, 2000: 37-39.

44 Barad propõe a noção de “onto-epistem-ologia”, definindo-a como “the study of practices of ‘knowing in being” (Barad, 2003: 829). Esta proposta leva-nos a relativizar a possibilidade de objectividade e respectivo critério discutidos atrás – devemos adoptar, pois, uma noção pragmática e relativa de objectividade.

45 “The notion of intra-action is a key element of my agential realist framework. The neologism ‘intra-action' signifies the mutual constitution of entangled agencies. That is, in contrast to the usual ‘interaction', which assumes that there are separate individual agencies that precede their interaction, the notion of intra-action recognizes that distinct agencies do not precede, but rather emerge through, their intra-action. It is important to note that the ‘distinct' agencies are only distinct in a relational, not an absolute, sense, that is, agencies are only distinct in relation to their mutual entanglement; they don't exist as individual elements” (Barad, 2007: 33).

46 Na expressão anglo-saxónica, “don't throw the baby out with the bath water”.

47 Pedro dos Santos Boia Doutorado em Sociologia pela Universidade de Exeter (Exeter, Reino Unido) (com o apoio de uma Bolsa de Doutoramento FCT/QREN-POPH/UE). Investigador Integrado no Instituto de Sociologia da Universidade do Porto (IS-UP) (Porto, Portugal) e membro do SocArts Research Group do Departamento de Sociologia, Filosofia e Antropologia (SPA) da Universidade de Exeter (Exeter, Reino Unido). Endereço de correspondência: Instituto de Sociologia da Universidade do Porto (IS-UP), Via Panorâmica, s/n, 4150-564, Porto – Portugal. E-mail: psantosboia@gmail.com

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