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Nascer e Crescer

versão impressa ISSN 0872-0754

Nascer e Crescer vol.24 no.3 Porto set. 2015

 

ARTIGOS ORIGINAIS | ORIGINAL ARTICLES

 

Contracepção em adolescentes nos últimos 15 anos: perspectiva de um Centro de Atendimento a Jovens

 

Contraception in adolescents over the last 15 years: perspective of a Youth Service Center

 

 

Teresa Teixeira da SilvaI; Tânia LimaI; Bruna VieiraI; Cidália CondeI; Mónica FernandesI; Joana SantosI; Marcília TeixeiraI; Teresa OliveiraI

I Serviço de Ginecologia/Obstetrícia Centro Materno Infantil Norte. 4050-145 Porto, Portugal. E-mail: mteresateixeirasilva@gmail.com; tanialima_med@hotmail.com; bruna_didia@hotmail.com; cidaliaconde@hotmail.com; fernandes.cmonica@gmail.com; marcilia.aires.teixeira@gmail.com; teresa_log@sapo.pt

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Introdução: O aconselhamento contraceptivo é um elemento chave na estratégia da prevenção da gravidez e das infecções sexualmente transmissíveis nos adolescentes.

Objectivo: Avaliar o comportamento das adolescentes que recorreram a um Centro de Atendimento a Jovens (CAJ) nos últimos 15 anos relativamente à sua saúde sexual e reprodutiva e escolha contraceptiva.

Materiais e Métodos: Estudo retrospectivo de adolescentes do sexo feminino com idade inferior a 18 anos, que recorreram pela primeira vez ao CAJ nos anos de 1997, 2002, 2007 e 2012 (grupos 1,2,3 e 4, respectivamente). Os dados foram analisados utilizando os programas SPSS 21.0 e Microsoft Excel 2007.

Resultados: A maioria das adolescentes era sexualmente activa (61,5% em 1997 vs 76,5% em 2012, p=0,01) e verificou-se um aumento, ao longo dos anos, das adolescentes que rea lizavam contracepção hormonal regular previamente à consulta (8,4% em 1997 vs 21,4% em 2012, p<0,001). Nas adolescentes que não realizavam Contracepção Hormonal (CH) e recorreram à consulta para a iniciar, verificaram-se os seguintes resultados: 1997 98,6% iniciaram Contracepção Oral Combinada (COC); 2002 – 100% iniciaram CH [99,1% COC; 0,9% implante sub-cutâneo]; 2007 90,9% iniciaram CH [83% COC; 16,4%  implante subcutâneo; 0,6% adesivo transdérmico]; 2012 97% iniciaram CH [85,9% COC; 14,1% implante subcutâneo].

Conclusão: Ao longo dos anos estudados, verificou-se um aumento do número de jovens que já utilizavam um contracep tivo hormonal à data da primeira consulta. A COC continua a ser o método contraceptivo de eleição nas adolescentes, embora se observe uma crescente adesão ao implante subcutâneo.

Palavras-chave: adolescência, contracepção, contracepção oral combinada, implante subcutâneo, sexualidade


ABSTRACT

Introduction: Contraceptive counselling is essential in the prevention of pregnancy and sexually transmitted infections in adolescents.

Objectives: Evaluate the behaviour of adolescents who recurred to our Youth Assistence Center (YAC) in the past 15 years, regarding their sexual and reproductive health and contraceptive choice.

Material and Methods: Retrospective study of female adolescents under 18 years, who recurred for the first time to YAC in 1997, 2002, 2007 and 2012 (group 1,2,3 and 4, respectively). Data were analysed using SPSS 21.0 and Microsoft Excel 2007.

Results: Most adolescents were sexually active (61.5% in 1997 vs 76.5% in 2012, p = 0.01) and there was an increase, over the years, of adolescents who had already started regular hormonal contraception (8.4% in 1997 vs 21.4% in 2012, p <0.001). In adolescents who did not use Hormonal Contraception (HC) and recurred to YAC for its beginning, we found the following results: 1997 98.6% started a Combined Oral Contraceptive (COC), 2002 100% initiated HC [99, 1% COC, 0.9% subcutaneous implant], 2007 90.9% initiated HC [83% COC, 16.4% subcutaneous implant, 0.6% patch] and 2012 97% initiated HC [85.9% COC, 14.1% subcutaneous implant].

Conclusion: Over the studied period, there was an increased number of adolescents who were using a hormonal contraceptive at first appointment. The COC remains the contraceptive method of choice in adolescents, although there is a growing adherence to the subcutaneous implant.

Keywords: adolescents, contraception, combined oral contraception, subcutaneous implant, sexuality


 

 

INTRODUÇÃO

A sexualidade, os comportamentos sexuais e os relacionamentos sexuais são uma importante e necessária parte do desenvolvimento humano. É durante a adolescência que ocorre uma progressiva conquista da autonomia, elaboração de projectos, afirmação pessoal e social e procura de uma independência que conduz à vida adulta. É também nesta fase que se evidenciam os comportamentos socioafectivos e sexuais.

Actualmente, os profissionais de saúde discutem a sexualidade dos adolescentes, em especial as infecções sexualmente transmissíveis e a gravidez indesejada, como “riscos” reconhecidos nesta população. O comportamento sexual responsável (início das relações sexuais de forma consciente e informada, aumento do uso de preservativo e contracepção eficaz) é uma importante questão de saúde pública.1-3 Por outro lado, a maioria das gravidezes na adolescência não são planeadas e as consequências de uma gravidez precoce e não desejada são várias. As grávidas adolescentes têm maior probabilidade de iniciar a vigilância da gravidez tardiamente e têm taxas mais elevadas de outcomes peri-natais desfavoráveis.2

Desta forma, o aconselhamento contraceptivo é um elemento chave na estratégia da prevenção da gravidez e das infecções sexualmente transmissíveis nos adolescentes.1

É, então, de extrema importância a existência de espaços dedicados a jovens que sejam confidenciais, de fácil acesso e youth-friendly, para que estes se sintam confortáveis para partilhar dúvidas e obter informações sobre sexualidade e para que a escolha e o uso de contraceptivos sejam consistentes e eficazes.4-6

Seguindo este princípio, foi criado em 1994, no nosso Hospital, um Centro de Atendimento a Jovens (CAJ) até aos 25 anos de idade: o Espaço Jovem. O nosso Centro obedece ao cumprimento da Lei nº 3/84 sobre educação sexual e planeamento familiar, posteriormente regulamentada pela portaria nº 52/85.

O objectivo deste estudo foi avaliar o comportamento das adolescentes que recorreram ao Espaço Jovem em relação à saúde sexual e à escolha contraceptiva nos últimos 15 anos.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Estudo retrospectivo descritivo com avaliação da informação dos processos clínicos das primeiras consultas efectuadas no Espaço Jovem nos anos de 1997, 2002, 2007 e 2012. Foram incluídas as adolescentes do sexo feminino com idade inferior a 18 anos, sendo considerados critérios de exclusão: sexo masculino e processos clínicos incompletos. Foram analisadas características demográficas (actividade profissional, nacionalidade, proveniência e antecedentes obstétricos), os métodos contraceptivos utilizados e os escolhidos pelas adolescentes na primeira consulta, motivos de atendimento e idade da coitarca. A análise estatística foi efectuada com os programas SPSS 21.0 e Microsoft Excel 2007. Na análise estatística dos dados foram calculadas as médias e as proporções das diferentes variáveis e, na comparação de variáveis categoriais, utilizado o teste de qui-quadrado. Foi utilizado um nível de significância de p=0,05.

 

RESULTADOS

O total de primeiras consultas nos anos avaliados foi de 3571. Após aplicação dos critérios de exclusão foram incluídos 822 (23%) processos. A amostra foi distribuída por quatro grupos, de acordo com o ano da primeira consulta: grupo 1 (ano 1997), n =151; grupo 2 (ano 2002), n=152; grupo 3 (ano 2007), n= 315 e grupo 4 (ano 2012), n=204.

Foram avaliadas as características demográficas e antecedentes ginecológicos e obstétricos da amostra, conforme descrito na Tabela 1. A maioria das utentes eram estudantes, com uma proporção relativamente constante ao longo dos anos. Observou-se, no decorrer dos períodos estudados, um aumento significativo quer do número de jovens oriundas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) que recorreram ao Espaço Jovem, quer da referenciação das jovens ao CAJ por instituições – lares de acolhimento.

 

 

Os motivos de atendimento mais frequentes nos quatro anos estudados foram: início de contracepção hormonal, informação sobre contracepção e sexualidade e suspeita de gravidez (Gráfico 1).

 

 

A percentagem das adolescentes que não utilizavam método contraceptivo versus a percentagem das que já utilizavam método contraceptivo hormonal à data da primeira consulta foi em 1997 44,8% vs 13,2%, 2002 49,6% vs 17,1%, 2007 40,9% vs 17,5% e 2012 41,6% vs 21,6%, (p=0,004). As restantes utilizavam contracepção não hormonal. Os métodos contraceptivos hormonais usados pelas adolescentes estão descritos na Tabela 2. Nas adolescentes que não realizavam Contracepção Hormonal (CH) e recorreram à consulta para a iniciar, verificou-se que 98,6% iniciou CH no grupo 1, 100% no grupo 2, 90,9% no grupo 3 e 97% no grupo 4. Os métodos contraceptivos hormonais escolhidos estão apresentados na Tabela 3.

 

 

 

 

No nosso estudo, a maioria das adolescentes já era sexualmente activa à data da primeira consulta: 61,5% vs 38,5% sem actividade sexual em 1997, 76,2% vs 23,8% em 2002, 74,7% vs

25,3% em 2007 e 76,5% vs 23,5% em 2012, respectivamente (p=0,01). A percentagem das adolescentes que já tinha iniciado vida sexual e contracepção hormonal regular à data da primeira consulta foi: grupo 1 – 8,4%; grupo 2 – 14,3%; grupo 3 – 18,1%; grupo 4 – 21,5% (p <0,001). Nas adolescentes que não tinham iniciado actividade sexual e que recorreram à consulta para contracepção hormonal, tendo efectivamente iniciado,   obtiveram-se os seguintes resultados: grupo 1 – 36,5%; grupo 2 – 71,4%; grupo 3 – 52,1%; grupo 4 – 62,5%.

 

DISCUSSÃO

Ao longo destes 15 anos verificou-se um aumento da pro cura da consulta do Espaço Jovem por jovens provenientes de lares de acolhimento e dos PALOP.

Embora a idade da coitarca tenha vindo a diminuir, sendo este dado discrepante em relação a outros dados portugueses, que apontam para idade superior à data da primeira relação sexual, também se verifica que mais adolescentes já utilizam um método contraceptivo hormonal à data da primeira consulta, embora longe da percentagem desejada.7 Por outro lado, cada vez mais adolescentes sem vida sexual iniciada recorrem ao nosso atendimento para obterem informação sobre as infecções sexualmente transmissíveis e iniciarem contracepção hormonal, sendo este o principal motivo de consulta, o que demonstra que as jovens estão cada vez mais conscienciosas dos riscos que podem correr se não optarem por uma contracepção segura e eficaz. Também constatamos que, em cada um dos grupos, nem todas as jovens sem vida sexual que recorriam ao nosso Centro para iniciar CH o fizeram. Apesar de não ter sido obti da informação suficiente quanto ao facto de não terem iniciado CH, podemos inferir que tal não sucedeu por falta de indicação médica.

Apesar da contracepção oral combinada ser o método preferencial, constatou-se uma maior adesão ao implante subcutâneo, provavelmente por ser um método de longa duração e sem necessidade de toma diária, evitando os frequentes “esquecimentos”. A combinação do preservativo masculino com um método contraceptivo hormonal (“dupla protecção”) é o método de eleição para os jovens. O nosso estudo foi inconclusivo em relação ao uso do método de barreira ou de “dupla protecção”, essencialmente por falta de informação nos processos clínicos sobre o seu uso sistemático. No entanto, é prática no nosso centro de atendimento motivar a utilização do método de barreira masculino, promovendo a protecção das IST e au mentando a taxa de eficácia contraceptiva nos casos de “dupla protecção”.

As maiores limitações deste trabalho são: o facto de se tratar de uma amostra de conveniência, podendo esta população não ser representativa das adolescentes com menos de 18 anos, e a falta de informação clínica em alguns processos, limitando a análise completa dos dados. No entanto, é um estudo relevante, por ter uma amostra numerosa, por se basear numa população que recorre a um Centro de Atendimento a Jovens de forma voluntária, e por avaliar comportamentos sexuais e escolhas contraceptivas em adolescentes.

 

CONCLUSÃO

A promoção de uma sexualidade responsável é fundamental para o bem-estar físico, psíquico e social dos adolescentes. Face aos resultados obtidos, será mandatório criar e dinamizar Centros de Atendimento a Jovens de forma a incentivar e refor çar práticas e comportamentos saudáveis em saúde sexual e reprodutiva nos adolescentes, acompanhando a evolução em contracepção e as necessidades específicas deste grupo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

1.      Healthy People 2020. Family Planning. Disponível em: http://www.healthypeople.gov/2020/topicsobjectives2020/overview.aspx?topicid=13.hhhhh        [ Links ]

2.      Finer LB, Henshaw SK. Disparities in rates of unintended pregnancy in the United States, 1994 and 2001. Perspect Sex Reprod Health 2006; 38:90.         [ Links ]

3.      Healthy People 2020. Sexually Transmitted Diseases. Disponível em: http://www.healthypeople.gov/2020/topicsobjectives2020/overview.aspx?topicid=37        [ Links ]

4.      Forcier M, Garofalo R., et al. Adolescent sexuality. May, 2013. Disponível em http://www.uptodate.com.         [ Links ]

5.      Chacko MR, et al. Contraception: Overview of issues specific to adolescents. May, 2013. Disponível em: http://www.uptodate.com.         [ Links ]

6.      World Health Organization. Sexually Transmited Infections Issues in Adolescent Health and Development. Genève 2004. Disponível   em:  http://whqlibdoc.who.int/publications/2004/9241591420_eng.pdf        [ Links ]

7.      Matos MG, Ramiro L, Reis M e Equipa Aventura Social. Sexualidade dos Jovens   Portugueses.   Online Study of Young People’s Sexuality (OSYS) Dados de 2011. Lisboa, 2011. Disponível em: http://aventurasocial.com/arquivo/1368456942_Relatorio_OSYS%20RGB_K.pdf        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Teresa Teixeira da Silva
Rua Calouste Gulbenkian, 225, 6 H2
4050 – 145 Porto.
E-mail: mteresateixeirasilva@gmail.com
Telefone: 962 872 360

Recebido a 29.07.2014 | Aceite a 13.06.2015

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