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Arquivos de Medicina

versão On-line ISSN 2183-2447

Arq Med vol.28 no.3 Porto jun. 2014

 

CARTA AO EDITOR

Biópsia pleural cega no diagnóstico de tuberculose pleural

João Filipe Cruz1, Artur Vale2, Aurora Carvalho3,4, Raquel Duarte3,4,5,6

 

1 Serviço de Pneumologia, Hospital de Braga

2 Serviço de Pneumologia, Centro Hospitalar Trás-Os-Montes e Alto Douro

3 Centro de Diagnóstico Pneumológico de Vila Nova de Gaia

4 Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho

5 Departamento de Epidemiologia Clínica, Medicina Preventiva e Saúde Pública, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

6 Instituto de Saúde Pública Da Universidade do Porto

 

Correspondência

 

Caro editor,

O diagnóstico definitivo de tuberculose pleural (TP) depende da demonstração do bacilo Mycobacterium tuberculosis em amostras de expetoração, líquido pleural ou biópsia pleural (BP).1 No entanto, a TP é muitas vezes um diagnóstico não confirmado, baseado em critérios bioquímicos ou histológicos.1,2

O objetivo deste estudo foi analisar a contribuição da BP cega no diagnóstico de TP. Doentes submetidos a BP cega no Hospital de Braga, entre 2006 e 2011, foram identificados a partir de uma base de dados de registos de biópsias pleurais. Características do líquido pleural e resultados das BP foram analisados retrospetivamente através da revisão de processos clínicos. Doentes com derrame pleural exsudativo submetidos a BP cega foram incluídos no estudo. Casos com análise bioquímica, citológica ou microbiológica incompleta do líquido pleural foram excluídos. Culturas da BP não foram incluídas na análise por dados insuficientes. A presença de adenosina desaminase (ADA) >70 U/L e ratio linfócitos/neutrófilos >0,75 foi usado como critério bioquímico para o diagnóstico de TP e a presença de granulomas na BP como critério histológico. A confirmação do diagnóstico de TP foi considerado por isolamento de Mycobacterium tuberculosis em culturas de líquido pleural ou amostras respiratórias.

Foram realizadas um total de 272 BP em 240 doentes, com idade média de 67 anos, 65% do sexo masculino. Sessenta e nove casos foram excluídos. O diagnóstico de TP foi estabelecido em 39/203 casos (19.2%). Vinte e dois casos preenchiam os critérios bioquímicos para TP e, destes, somente um teve outro diagnóstico: um caso de linfoma. Nos restantes 181 casos sem critérios bioquímicos, o diagnóstico de TP foi estabelecido em 18 doentes. A BP cega identificou granulomas em 23 casos, todos com diagnóstico confirmado de TP. A sensibilidade, especificidade, valor preditivo positivo e negativo dos critérios bioquímicos para o diagnóstico de TP foi, respectivamente, 53.8%, 99.4%, 95.5% e 90.1% e a combinação da BP cega com os critérios bioquímicos foi, respectivamente, 76.9%, 99.4%, 96.7% e 94.8%.

Nesta amostra, a realização da BP cega associada à análise do líquido pleural obteve uma boa rentabilidade diagnóstica, sendo que a adição da BP à análise do líquido pleural aumentou a sensibilidade e o valor preditivo negativo. Num estudo prospetivo e diretamente comparativo entre diferentes métodos de diagnóstico, Diacon et al3 demonstrou que a combinação da ADA no líquido pleural, percentagem de linfócitos e BP cega tem uma elevada rentabilidade no diagnóstico de TP, com especificidade similar e ainda melhor sensibilidade do que neste estudo, embora tenham usado um diferente valor de ADA (>50 U/L).

Em conclusão, embora os resultados deste estudo sejam similares a outros previamente descritos, continuam a suportar a realização da BP cega na avaliação inicial de derrames pleurais exsudativos devido à sua elevada rentabilidade diagnóstica usando uma técnica minimamente invasiva.

 

 

Referências

1. Gopi A, Madhavan SM, Sharma SK, Sahn SA. Diagnosis and treatment of tuberculous pleural effusion in 2006. Chest 2007; 131:880-89.         [ Links ]

2. Light RW. Update on tuberculous pleural effusion. Respirology 2010; 15:451-58.         [ Links ]

3. Diacon AH, Van de Wal BW, Wyser C, Smedema JP, Bezuidenhout J, Bolliger CT, Walzl G. Diagnostic tools in tuberculous pleurisy: a direct comparative study. Eur Respir J 2003; 22:589-91.         [ Links ]

 

Correspondencia:

João Filipe Cruz

Serviço de Pneumologia, Hospital de Braga, Sete Fontes -São Victor, 4710-243 Braga. E-mail: joaoffcruz@gmail.com

 

Data de recepção / reception date: 03/03/2014

Data de aprovação / approval date: 03/05/2014

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