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Revista de Ciências Agrárias

Print version ISSN 0871-018X

Rev. de Ciências Agrárias vol.42 no.1 Lisboa Mar. 2019

http://dx.doi.org/10.19084/RCA18283 

ARTIGO

Calagem e textura do substrato afetam o desenvolvimento de Campomanesia adamantium (Cambess.) O. Berg

Liming and substrate texture affect the development of Campomanesia adamantium (Cambess.) O. Berg

Rogerio Macedo Melo1, Maria do Carmo Vieira1, Thiago de Oliveira Carnevali2,*, Willian Vieira Gonçalves1, Elissandra Pacito Torales1, Sara Emilia Lima Tolouei1 e Cleberton Correia Santos1

1Universidade Federal da Grande Dourados, Rodovia Dourados - Itahum, Km 12 CEP 79804-970 Dourados/Mato Grosso do Sul/Brasil

2Universidade Federal do Pará, Rua Coronel José Porfírio 2515, São Sebastião, CEP 68372-040 Altamira/Pará/Brasil

(*E-mail: carnevali@ufpa.br)


RESUMO.

Campomanesia adamantium é uma frutífera nativa do Cerrado que apresenta propriedades medicinais e alimentícias. Porém, os tratos culturais para a espécie ainda não estão bem definidos, tal como a prática da calagem em diferentes composições de substrato. Assim, objetivou-se avaliar o efeito das doses de calcário em diferentes texturas de substrato no crescimento inicial e no teor de nutrientes de plantas de C. adamantium. Foram estudadas cinco doses de calcário (0; 1; 2; 3 e 5 t ha-1) em substrato a base de Latossolo Vermelho distroférrico (LVd) e LVd+areia (1:1, v/v), arranjados em esquema fatorial 5x2, no delineamento de blocos casualizados, com quatro repetições. No substrato LVd, o maior desenvolvimento em altura (9,83 cm por planta); diâmetro do caule (2,13 mm por planta); índice SPAD (38,37) e teores de nutrientes N (23,57 g kg-1); K (11,81 g kg-1), na parte aérea e N (22,26 g kg-1); P (6,66 g kg-1); K (7,91 g kg-1); Ca (6,56 g kg-1); e Mg (1,82 g kg-1) na raiz, foram sob uso de 5 t ha-1 de calcário. No entanto, o maior desenvolvimento e teor de nutrientes utilizando o substrato LVd+areia ocorreu sob ausência de calcário. Esse comportamento evidencia que a planta responde a diferentes formas ao uso de calagem em diferentes substratos.

Palavras-chave: acidez, correção do solo, planta medicinal


ABSTRACT

Campomanesia adamantium is a native fruit of Cerrado that presents medicinal and nutritional properties. However, cultural practices for the species are not defined, such as the use of liming and substrate compositions. Thus, we aimed to evaluate the effect of liming levels on different substrate textures on the initial growth and nutrient content of C. adamantium plants. Five liming levels (0, 1, 2, 3 and 5 t ha-1) were studied in a substrate based on dystrophoric Red Latosol (LVd) and LVd+sand (1:1, v/v), arranged in outline factorial 5x2, in the delineation of randomized blocks, with four repetitions. In LVd substrate, the highest development in height (9.83 cm per plant); the diameter of the stem (2.13 mm per plant); SPAD index (38.37) and nutrient levels N (23.57 g kg-1); K (11.81 g kg-1), in the aerial part and N (22.26 g kg-1); P (6.66 g kg-1); K (7.91 g kg-1); Ca (6.56 g kg-1); and Mg (1.82 g kg-1) at the root, were under use of 5 t ha-1 of liming. However, the greater development and nutrient content using the LVd+sand substrate occurred under the absence of liming. This behavior shows that the plant responds to different ways when using draft on different substrates.

Keywords: acidity, soil correction, medicinal plant.


INTRODUÇÃO

O Cerrado possui diversas fitofisionomias caracterizadas pelo clima e principalmente pelos solos (Peixoto et al., 2016). Dentre os solos que mais ocorrem no Cerrado há o destaque para os Latossolos, especialmente o vermelho, e os Neossolos, principalmente os quartzarênico (Lepsch, 2010). Esses solos são geralmente muitos intemperizados e apresentam alta precipitação por ferro e alumínio limitando consequentemente a disponibilidade de nutrientes e podendo assim comprometer o desenvolvimento vegetal (Donagema et al., 2016). Dentre as possíveis alternativas utilizadas na agricultura para minimizar esse problema, a calagem é a pratica que mais se destaca, pois é de baixo custo e corrige a acidez do solo.

Assim, ao realizar a calagem, ocorre elevação do pH, redução do alumínio trocável, fornecendo ainda cálcio e magnésio e aumentando a disponibilidade de nitrogênio, fósforo e potássio, melhorando a eficiência de uso dos nutrientes e da água no solo (Raij, 2011). No entanto, a calagem nem sempre é realizada, ou é realizada de modo inadequado sendo assim ineficaz (Natale et al., 2012). Assim, nesse sentido, ainda são necessários estudos referentes ao uso e manejo de corretivos visando aumentar a produção de plantas nativas de interesse econômico.

Dentre as espécies de interesse alimentício e medicinal, Campomanesia adamantium (Cambess.) O. Berg (guavira, Myrtaceae) é um arbusto frutífero nativo do Cerrado (Lorenzi et al., 2015), adaptado as condições limitantes do solo, mas que responde às alterações nutricionais (Vieira et al., 2011; Carnevali et al., 2012, 2014). Os frutos da guavira possuem atividades anti-inflamatórias, anti-hipoalgésicas e antidepressivas, apresentando compostos bioativos, tais como o ácido ascórbico e compostos fenólicos, de potencial antioxidante (Souza et al., 2017).

Porém, a espécie ainda é encontrada apenas em áreas nativas, sendo poucas as informações agronômicas caracterizando seu cultivo ex situ. Há na literatura trabalhos que estudaram o crescimento inicial sob doses de nitrogênio e fósforo (Vieira et al., 2011) e sobre o uso de doses de calcário e gesso agrícola (Carnevali et al., 2014). No entanto são necessários mais estudos científicos visando conhecer doses adequadas de calcário em função das características intrínsecas de substratos para o cultivo ex situ da espécie.

Diante disso, objetivou-se com este trabalho avaliar o efeito das doses de calcário em diferentes texturas de substrato no crescimento inicial e no teor de nutrientes de plantas de C. adamantium O. Berg.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi desenvolvido em casa de vegetação, no Horto de Plantas Medicinais (HPM - 22°11’43.7’’S de latitude e 54°56’08.5’’W de longitude, 460 m de altitude), em Dourados-MS, no período de novembro de 2015 a setembro de 2016. O clima é do tipo tropical com estação seca de Inverno (Aw) segundo a classificação de Köppen e Geiger, com precipitação média anual de 1.110 mm e temperatura média anual de 26 ºC.

O estudo foi constituído de cinco doses de calcário dolomítico - PRNT 80% (0, 1, 2, 3 e 5 t ha-1), em substratos com duas texturas: Latossolo Vermelho distroférrico (LVd – 100%) e LVd+areia (50% LVd + 50% areia). Os tratamentos foram arranjados em esquema fatorial 5x2, no delineamento blocos casualizados, com quatro repetições. A unidade experimental foi constituída de seis vasos, com uma planta por vaso.

As plantas foram mantidas durante todo o experimento em ambiente protegido constituído de cobertura superior de polietileno e proteção adicional superior e lateral de sombrite 50%. Os vasos plásticos possuíam capacidade para 5 kg (17x21x17, altura, diâmetro superior e inferior, respectivamente), preenchidos com 4,7 kg de substrato. O solo utilizado LVd possuía textura muito argilosa, de horizonte B, com os seguintes atributos químicos antes da calagem, determinados conforme Silva (2009): pH em CaCl2 = 4,20; P= 1,70 mg dm-3; Ca= 0,87 cmolc dm-3; K= 1,25 cmolc dm-3; Mg= 0,49 cmolc dm-3; Al= 1,60 cmolc dm-3; H+Al= 10,29 cmolc dm-3; SB= 2,61 cmolc dm-3; CTC= 12,90 cmolc dm-3e V%= 20,20 e matéria orgânica= 3,43 g dm-3.

A areia utilizada foi fina lavada com as seguintes características químicas determinadas conforme Silva (2009): pH em CaCl2= 5,71; P= 6,23 mg dm-3; Ca= 0,40 cmolc dm-3; K= 0,01 cmolc dm-3; Mg= 0,13 cmolc dm-3; Al= 0,00 cmolc dm-3; H+Al= 0,75 cmolc dm-3; SB= 0,54 cmolc dm-3; CTC= 1,29 cmolc dm-3 e V%= 41,78.

As doses de calcário foram incorporadas manualmente aos substratos 30 dias antes do transplantio das mudas, e deixados incubando. Foi feita adubação de base no dia do transplantio, com 94 mg kg-1 de nitrogênio (N), tendo como fonte ureia; 150 mg kg-1 de fósforo (P2O5), usando o superfosfato triplo e 26 mg kg-1 de potássio (K2O), utilizando-se o KCl. Cada vaso foi revestido internamente com saco plástico para evitar a perda de água e de nutrientes pela drenagem.

Para obtenção das mudas, foram coletados frutos maduros de guavira de plantas de populações naturais (Autorização de Acesso e de Remessa de Amostra de Componente do Patrimônio Genético nº 010220/2015-1 – CNPq/CGEN/MMA) em área nativa de Cerrado do município de Ponta Porã – MS (Latitude - 23°32’30” e Longitude 55°37’30”). A espécie foi identificada e uma exsicata está depositada no Herbário DDMS, sob número 4653.

Os frutos foram despolpados manualmente, e as sementes foram lavadas em água corrente até a perda da mucilagem. Em seguida, realizou-se o semeio em bandejas de poliestireno expandido com 128 células preenchidas com substrato comercial Bioplant®. Quando as plântulas atingiram cerca de 4 cm de altura, o que ocorreu aos 60 dias após o semeio, foram transplantadas para os vasos.

Foram avaliadas a altura de plantas, medida com régua graduada em milímetros, colocada desde o nível do substrato até a gema apical; diâmetro do caule, medido com paquímetro digital a ± 1,0 cm do nível do substrato. O índice de clorofila total foi determinado por meio do SPAD - (Soil Plant Analysis Development), utilizando-se clorofilômetro Konica-Minolta SPAD 502, medindo-se em dois folíolos da região mediana do limbo foliar da terceira e quarta folhas do ápice da planta, com intervalos de 30 dias, a partir de 30 até 210 dias após o transplantio das mudas – DAT.

Aos 210 DAT todas as plantas foram colhidas, retirando-as inteiras dos vasos, sendo lavadas as raízes e separadas em folhas, caules e raízes. Avaliaram-se as áreas foliares e radiculares e as massas secas das folhas, caules e raízes. A massa seca foi obtida após secagem em estufa de circulação forçada de ar, a 60±5°C, até massa constante. A pesagem foi feita em balança analítica com precisão de 0,001 g. As áreas foliar e radicular foram medidas com analisador de imagens WinDIAS 3 (WinDIAS 3, Delta-T Devices, Cambridge, UK).

Amostras das massas secas da parte aérea (folhas e caules) e raízes foram trituradas em moinho tipo Willey, homogeneizadas e determinados os teores de macronutrientes (Malavolta, 2006).

Após a colheita das plantas de guavira foram determinados os atributos físicos e químicos dos substratos (Silva, 2009; Donagema et al., 2011).

As médias de todos os dados foram submetidas à análise de variância pelo teste F e quando significativos, as médias foram comparadas pelo teste de t de Student, para textura do substrato, e análise de regressão, para doses de calcário (p<0,05). Os dados tomados ao longo do ciclo de cultivo foram analisados em parcelas subdividas no tempo, e as médias foram submetidas à análise de variância e de regressão (p<0,05).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os atributos físicos dos substratos não foram influenciados pelas doses de calcário, apresentando os seguintes valores médios para LVd: areia= 0,19%; argila= 80,17%; silte= 19,63%; densidade do solo= 1,04 kg dm-3; densidade de partícula= 2,86 kg dm-3; porosidade total= 63,38%, e LVd+areia: areia= 1,46%; argila= 22,87%; silte= 75,66%; densidade do solo= 1,30 kg dm-3; densidade de partícula= 2,70 kg dm-3; porosidade total= 51,65%.

O diâmetro mínimo das partículas da areia fina é de 0,05 mm, o que representa o limite mínimo da divisão de areia fina para silte. A metodologia adotada utiliza o peneiramento para as frações areia grossa e areia fina, e a sedimentação para as frações silte e argila, assim, quando as partículas de areia possuem o tamanho no limite da divisão podem passar pelo jogo de peneiras e superestimar a fração silte por meio da sedimentação das partículas mais pesadas (Ruiz, 2005) no substrato LVd+areia.

Os atributos pH CaCl2, Al, Ca, Mg, SB e CTC foram influenciados pela interação entre doses de calcário e textura do substrato, enquanto P, K e V% apenas pela textura do substrato, e H+Al e V% pelas doses de calcário (Quadro 1).

O aumento das doses de calcário nos substratos estudados, incrementou os valores de pH CaCl2, Ca, Mg, SB e CTC e reduziu os teores de Al trocável (Quadro 1). Adição de CaCO3 e MgCO3, através da calagem, promove a reação dos íons H+ da solução do solo com os carbonatos adicionados liberando hidroxila, cálcio, magnésio, gás carbônico e água para solução do solo promovendo efeitos diretos nas características avaliadas.

Resultados similares foram observados em outros trabalhos. Carmo e Silva (2016) verificaram o aumento do pH e da disponibilidade de nutrientes em diferentes tipos de solo. A dose equivalente a 19 t ha-1 elevou o pH de 4,3 para 6,7 em Latossolo Vermelho distroférrico e a dose equivalente a 2,16 t ha-1 elevou o pH de 5,2 para 6,7 em Neossolo quartzarênico. Carnevali et al. (2014), estudando o efeito de cinco doses de calcário (0, 2, 4, 8 e 16 t ha-1) no desenvolvimento inicial da guavira, verificaram que o uso da calagem proporcionou aumentos do pH e dos teores de nutrientes em Latossolo Vermelho distroferrico.

Nos dois substratos ocorreram mudanças no pH, observando-se maior valor (7,54) no substrato LVd+areia com 5 t ha-1 de calcário. Nessa faixa de pH, ocorre a redução da disponibilidade dos nutrientes N, P, K, Ca, Mg, Zn, B e Cu (Malavolta et al., 2006) para as plantas. No entanto, o pH do substrato LVd com a dose de 5 t ha-1 de calcário não alcalinizou o substrato (Quadro 1) devido, à alta capacidade tampão do solo utilizado LVd; assim, constatou-se maior resistência do substrato LVd para elevar o pH do substrato.

Na ausência de calagem ocorreu maiores teores de Al trocável nos substratos LVd e LVd+areia [0,46 cmolc dm-3 e 0,11 cmolc dm-3, respectivamente (Quadro 1)]. Os valores de Al reduziram para 0,00 cmolc dm-3 sob dose de 2,30 t ha-1 de calcário para o LVd e 1,80 t ha-1 de calcário para LVd+areia. O uso da calagem, promove a liberação de hidroxila na solução do solo que reage com o alumínio formando hidróxido de alumínio insolubilizado o Al3+ tóxico para as plantas, permitindo maior desenvolvimento radicular.

A maior disponibilidade de P no substrato LVd+areia em relação ao LVd (Quadro 1) está associada a elevação do pH, o P tem sua disponibilidade aumentada com a elevação do pH. A disponibilidade de P em solos ácidos altamente intemperizados está associada ao fosfato ligado ao alumínio e ao ferro, assim quando há aumento do pH ocorre a neutralização do alumínio e do ferro, aumento da atividade biológica e redução fixação via precipitação do P, favorecendo o desenvolvimento vegetal (Raij, 2011). Nesse sentido o uso de substrato mais arenoso pode ser vantajoso, pelo menor poder tampão, assim uma dose menor de calcário eleva mais facilmente o pH e pode aumentar a disponibilidade de P (Centeno et al., 2017) para as plantas.

Houve aumento do índice de saturação por bases (V%) com o incremento das doses de calcário (Quadro 1). O uso do calcário dolomítico aumenta os teores de Ca e Mg, que por sua vez eleva a soma de base (Natale et al., 2012), e consequentemente, aumento do crescimento vegetal. Valor próximo foi encontrado por Carnevali et al. (2014), em que a dose de 8 t ha-1 de calcário sem o uso de gesso agrícola apresentou o maior índice de saturação por base de 50,07%.

As características das plantas de guavira avaliadas durante o crescimento foram influenciadas pela interação entre as doses de calcário, textura do substrato e épocas de avaliações (Quadro 2).

Em geral, houve aumento das características avaliadas com o passar dos dias (épocas de avaliação), obtendo-se maiores valores aos 210 dias após transplantio (Quadro 2). As plantas cultivadas no substrato LVd com 5 t ha-1 de calcário apresentaram maior altura, diâmetro do caule e índice SPAD (Quadro 2). Para o substrato LVd+areia as maiores alturas, diâmetro do caule e índice SPAD foram obtidas utilizando a dose de 1 t ha-1 de calcário (Quadro 2).

As maiores características de crescimento das plantas no substrato LVd estão relacionadas com os maiores teores de K, Ca e Mg (Quadro 1). O uso da calagem aumenta diretamente os teores de Ca e Mg no solo, reduz o teor de alumínio trocável e aumenta o pH do solo. Além disso, o pH adequado aumenta a disponibilidade de N, P, K, S, Mo e Cl (Taiz e Zeiger, 2017) proporcionando maior crescimento vegetal.

Carnevali et al. (2014) verificaram que doses de até 16 t ha-1 de calcário em Latossolo Vermelho distroférrico aumentaram a altura de planta (13,91 cm) e diâmetro do caule (1,89 mm) de C. adamantium aos 200 DAT, verificando que o uso da calagem nesse solo é essencial para o crescimento vegetal. Na literatura há relatos de que a calagem promove aumentou os teores de N nas folhas, em consequência da elevação do pH (Santos et al., 2016), assim, a elevação do pH afeta diretamente a maior disponibilidade do nutriente no solo, e em consequência do aumento do N pode ocorre maior absorção e aumento do crescimento vegetal.

A maior altura, diâmetro do caule e índice SPAD utilizado o substrato de LVd+areia ocorreu sob a dose de 1 t ha-1 de calcário (Quadro 2). Esse resultado corrobora com os obtidos na análise de solo (Quadro 1), evidenciando o menor poder tampão do substrato LVd+areia. O aumento das doses de calagem elevou o pH do substrato chegando a alcalinidade nas maiores doses, consequentemente, reduzindo a disponibilidade dos nutrientes N, P, K, S, Mo e Cl e também reduzindo o crescimento vegetal.

As massas secas de folhas, caules e raízes, áreas foliar e radicular e o comprimento da maior raiz das plantas de guavira foram influenciadas pela interação doses de calcário e textura do substrato (Figura 1).

As maiores produções de massas secas de raiz, caule e folhas áreas foliar e radicular e comprimento da maior raiz foram obtidas utilizando-se o substrato LVd com 5 t ha-1 de calcário. As maiores produções estão relacionadas com o aumento dos teores de Ca e Mg pela calagem e também pelo aumento da disponibilidade de N, P, K, S, Mo e Cl pela elevação do pH.

A calagem foi essencial em promover o aumento do pH e elevação da disponibilidade de P. O Latossolo Vermelho distroférrico é um solo altamente intemperizado, formando principalmente por óxidos de Fe e Al com predomínio de cargas dependentes de pH e alta capacidade de adsorção de P. A elevação do pH do solo pela calagem é muito importante, pois aumenta a concentração e atividade dos íons OH- em solução, e promove a precipitação de Fe e Al. Com isso há redução e precipitação de P-Fe e P-Al de baixa solubilidade e aumentos das cargas negativas pela desprotonação de hidroxilas expostas nas argilas, ocorrendo repulsão entre o fosfato e a superfície adsorvente, aumentando a disponibilidade as plantas (Kostic et al., 2015) e favorecendo o acúmulo de biomassa seca.

Geralmente as espécies nativas do Cerrado respondem positivamente ao fornecimento de fósforo aumentando a produção de biomassa. Souza et al. (2014) verificaram que o uso de 125,16 mg kg-1 de P2O5 e 62,46 mg kg-1 de N em Latossolo Vermelho distroférrico corrigido com calagem para V%= 60 aumentou a produção de biomassa de plantas de Stryphnodendron polyphylum (Mart.). Vieira et al. (2011) observaram maior produção de folhas e raízes com o uso de 380 kg ha-1 de P2O5 e 114 kg ha-1 de N sem adição de calagem para correção do Latossolo Vermelho distroférrico. Ambos estudos verificaram que o fosforo foi o elemento principal em proporcionar maior acumulo de biomassa.

Assim como o P, a disponibilidade de N é afetada pela variação do pH. A nitrificação é maior em solos com pH próximo a neutralidade conforme ocorre a redução há redução da população e atividade das bactérias nitrificadoras (Marschner, 2012). Desta forma, o aumento da disponibilidade de N, favoreceu a produção de biomassa e aumento da área foliar das plantas, pois o N está diretamente envolvido com a taxa de expansão e divisão celular, maior síntese de carboidratos e aminoácidos, promovendo maior crescimento e área foliar (Ciriello et al., 2014).

A calagem também proporcionou aumento da área radicular e o comprimento da maior raiz em plantas de guavira, obtendo maior produção utilizando o substrato LVd com 5 t ha-1 (Figura 1E e F). A calagem promove redução diminuindo os níveis tóxicos de Al e aumento da concentração de Ca no solo essencial para o crescimento radicular. A presença de Al3+ no solo retarda o crescimento e desenvolvimento radicular, aumentando o diâmetro das raízes e promovendo a diminuição do número de raízes laterais, pois o Al3+ fica retido principalmente no córtex radicular, dentro do estelo, alterando o padrão anatômico do floema e do periciclo (Banhos et al., 2016). Assim, a redução do teor de Al no solo permite maior crescimento radicular.

O aumento da concentração de Ca no substrato também pode ter estimulado o crescimento radicular. O Ca tem papel central na regulação de muitos processos celulares em plantas, incluindo mitose e citocinese, sinalização celular, gravitropismo, crescimento polar e correntes citoplasmáticas (Taiz e Zeiger, 2017). Prado e Natale (2004) verificaram efeitos positivos da aplicação de calcário ao substrato sobre o desenvolvimento do sistema radicular em goiabeiras (Myrtaceae) cultivadas em um Latossolo Vermelho distrófico ácido nas doses 0, 3,7 e 7,4 t ha-1 de calcário. Os autores observaram que, com a calagem, houve correção da acidez do substrato, aumentando a saturação por bases e consequente incremento da disponibilidade e absorção de cálcio pelas plantas, proporcionando maior desenvolvimento do sistema radicular das goiabeiras.

Por outro lado, quando as plantas de guavira foram cultivadas em LVd+areia e 5 t ha-1 de calcário apresentaram menores produções das características avaliadas. Possivelmente esse resultado está associado a alcalinização do substrato ocasionado pela alta dose de calcário. Observa-se que a dose de 1 t ha-1 de calcário apresentou maior produção, mas, devido ao ajuste da regressão ser linear, a maior produção foi considerada sem o uso de calagem. No entanto, é possível afirmar que dose baixas de calcário em substrato de base arenosa promovem maior crescimento da guavira, pela correção do pH do solo, redução do alumino tóxico e aumento da concentração de Ca e Mg e aumento da disponibilidade de N, P, K, S, Mo e Cl. Todos esses fatores estão relacionados ao menor poder tampão do substrato de base arenosa sendo necessário menores doses de calcário.

Os teores dos nutrientes N, P, K, Ca e Mg na parte aérea e na raiz das plantas de guavira foram influenciados pela interação entre as doses de calcário e textura do substrato (Quadro 3).

O substrato LVd com 5 t ha-1 de calcário proporcionaram maiores teores de N e K na parte aérea e raiz das plantas de guavira. A calagem pode influenciar positivamente as concentrações de N na parte aérea e raiz, devido à elevação do pH do substrato e aumento da mineralização do N (Santos et al., 2016). Além disso, com a elevação do pH do solo ocorre a dissociação dos íons H+ da superfície das argilas e, assim, a liberação de cargas negativas para a troca de cátions e assim aumentar a disponibilidade dos nutrientes em solução (Carmo e Silva, 2016).

Para os nutrientes P, Ca e Mg observaram-se os máximos teores na parte aérea sob as doses 4,80, 4,95 e 4,08 t ha-1 de calcário, respectivamente. Os níveis de P aumentaram em função da elevação do pH e os níveis de Ca e Mg aumentaram em função dos maiores teores de carbonato de cálcio e magnésio presente no calcário. Os maiores teores de nutrientes nas raízes foram observados sob a dose de 5 t ha-1 de calcário (Quadro 3).

O uso da calagem se torna primordial no cultivo de guavira em substrato LVd. Em trabalhos como o de Vieira et al. (2011), em que não foi realizada calagem, foram verificados menores teores dos nutrientes N (9,41 g kg-1), P (4,24 g kg-1) e K (1,24 g kg-1) utilizando as doses de 380 kg ha-1 de P2O5 e 114 kg ha-1 de N, em comparação com este trabalho.

De maneira inversa, observou-se maiores teores de N, P, K, Ca e Mg utilizando o substrato LVd+areia sem calcário (Quadro 3). Esses resultados confirmam que a alcalinização do substrato arenoso reduz a disponibilidade de nutrientes, o crescimento e a adsorção de nutrientes das plantas de guavira. O aumento das doses de calcário no substrato LVd+areia pode ter ocasionado a formação de compostos quelatos, tornando-se indisponíveis para as plantas (Machado et al., 2011), e pôr a planta ser adaptada a condições de solos ácidos do cerrado e ser eficiente em absorvê-lo nessas condições, é necessário que o substrato seja levemente ácido para promover maior crescimento.

Os resultados observados indicam que as doses de calcário a serem aplicadas nos diferentes substratos devem ser diferentes e deve-se considerar sobretudo o teor de argila do mesmo; assim, a calagem para o cultivo de guavira nas condições do presente estudo é primordial no substrato LVd. No entanto, para o substrato LVd+areia não se deve adicionar calcário ou quando necessário utilizar doses baixas de calcário apenas para adicionar os nutrientes Ca e Mg.

CONCLUSÕES

Os atributos químicos dos substratos compostos por LVd e LVd+areia variaram com a adição das doses de calcário.

As plantas de guavira apresentaram maior crescimento quando foi utilizado o substrato LVd com 5 t ha-1 de calcário e quando foi utilizado LVd+areia sem o uso de calcário.

Os teores de macronutrientes na parte aérea e nas raízes das plantas foram maiores quando se utilizou substrato LVd com 5 t ha-1 de calcário e LVd+areia sem a adição de calcário.

 

Referências bibliográficas

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AGRADECIMENTOS

À CAPES e ao CNPq, pelas bolsas concedidas e à FUNDECT, pelo apoio financeiro.

 

Recebido/received: 2018.06.20

Aceite/accepted: 2018.10.13

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