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Análise Psicológica

Print version ISSN 0870-8231On-line version ISSN 1646-6020

Aná. Psicológica vol.37 no.3 Lisboa June 2019

http://dx.doi.org/10.14417/ap.1618 

Traços de personalidade e comportamentos agressivos: O papel mediador da vingança

Personality traits and aggressive behaviors: The mediating role of revenge

Quésia Fernandes Cataldo1, Walberto Silva dos Santos1, Emanuela Maria Possidônio de Sousa1, Lia Alves da Ponte1, Sophia Lóren de Holanda Sousa1

1Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil

Correspondência

 

RESUMO

Este estudo tem por objetivo verificar o papel mediador da vingança na relação entre traços de personalidade e agressão. Contou-se com a participação de 218 pessoas, com idades entre 18 e 69 anos (M=27,84; DP=10,37), a maioria do sexo feminino e com ensino superior incompleto. Os participantes responderam ao inventário dos Big Five, questionário de agressão Buss-Perry e escala de vingança. Como resultados, apenas a amabilidade e o neuroticismo apresentaram correlações significativas com os fatores da agressão e com a vingança. Acerca dos modelos de mediação, o modelo da amabilidade não obteve um bom ajuste de dados para predizer a agressão física, agressão verbal e hostilidade; para o neuroticismo, houve uma mediação parcial em todos os tipos de agressão. Entende-se que os resultados contribuem para a compreensão de quais mecanismos estão subjacentes aos comportamentos agressivos, sobretudo quando se leva em conta os traços de personalidade e as atitudes vingativas.

Palavras-chave: Agressão, Personalidade, Vingança, Mediação.

 

ABSTRACT

This study aims to verify the mediating role of revenge in the relationship between personality traits and aggression. The participation of 218 people, aged between 18 and 69 years (M=27.84; SD=10.37), mostly female and with incomplete higher education. Participants responded to the Big Five inventory, Buss-Perry aggression questionnaire and revenge scale. As a result, only kindness and neuroticism showed significant correlations with aggression factors and revenge. Regarding mediation, in kindness it was observed that the models of mediation are not adjusted to the data for physical, verbal aggression and hostility; In neuroticism, there was a partial mediation in all types of aggression. It is understood that the results contribute to the understanding of what mechanisms underlie aggressive behaviors, especially when taking into account personality traits and vengeful attitudes.

Key words: Aggression, Personality, Revenge, Mediation.

 

Introdução

Frente a injustiças ou a danos sofridos é comum observar a tendência que os seres humanos possuem para reagir de formas agressivas, muitas vezes motivadas por um sentimento de vingança (Chester & DeWall, 2018; Stuckless & Goranson, 1992). Estudos têm demonstrado que determinados traços de personalidade podem estar associados à vingança, que, por sua vez, pode ter como consequência a agressão física ou verbal (Brewer, Hunt, James, & Abell, 2015; Chester & DeWall, 2018; Lee & Ashton, 2012).

A agressão é um fenômeno que, historicamente, tem diferentes definições (Warburton & Anderson, 2015). No presente estudo, ela é considerada como um fenômeno composto por quatro fatores (i.e., agressão física, agressão verbal, raiva e hostilidade) (Buss & Perry, 1992). Esse construto é entendido a partir de um modelo interacionista que considera disposições genéticas, história de aprendizagem e fatores cognitivos, como os traços de personalidade e a vingança (Buss & Perry, 1992; Chester & DeWall, 2018).

O conceito de vingança, por vezes, envolve reações agressivas e, em vista disso, tende a ser confundido com o conceito de agressão. No entanto, estes podem ser diferenciados em função da característica retaliativa da vingança. O ato vingativo, em geral, implica um retorno voluntário a uma ofensa sofrida, diferente da agressão, que não tem origem, necessariamente, em um dano interpessoal ou em uma injustiça percebida (Johnson, Kim, Giovannelli, & Cagle, 2010; McCullough, Bellah, Kilpatrick, & Johnson, 2001).

Os traços de personalidade explicam tanto a agressão quanto uma atitude vingativa, que, por sua vez, pode garantir um comportamento agressivo (Chester & DeWall, 2018; Hosie, Gilbert, Simpson, & Daffern, 2014; Warburton & Anderson, 2015). Nesse sentido, algumas pesquisas destacam a relação direta entre personalidade e agressão, utilizando o modelo dos Big Five (Hosie et al., 2014). Sobretudo, o neuroticismo e a amabilidade desempenham um papel relevante na compreensão dos comportamentos agressivos (Hosie et al., 2014; Jones, Miller, & Lynam, 2011; Miller, Zeichner, & Wilson, 2012; Warburton & Anderson, 2015).

A vingança tem sido compreendida como um ato que visa prejudicar alguém em retorno a um dano sofrido; uma resposta emocional e pessoal a uma conduta percebida pela vítima como injusta e prejudicial (Stuckless & Goranson, 1992). Outras pesquisas indicam que esse construto é uma disposição antissocial, uma cadeia de comportamentos em que estados afetivos, cognitivos e volitivos levam o indivíduo a tentar reparar um prejuízo pessoal por meio da agressão voluntária contra o ofensor (Barnoux & Gannon, 2014; Chester & DeWall, 2018; Johnson et al., 2010; McCullough, Kurzban, & Tabak, 2013).

Observa-se que os aspectos vingativos são componentes importantes dos traços da personalidade sombria (Dark Triad), sobretudo narcisismo e psicopatia (Brewer et al., 2015). Especificamente com relação aos Big Five, a vingança se mostra predita pelo baixo nível de conscienciosidade, de amabilidade e de neuroticismo. Desse modo, em pessoas com altas pontuações em vingança, tornam-se menos evidentes traços como generosidade, empatia, autocontrole e autorregulação emocional (Lee & Ashton, 2012; Ruggi, Gilli, Stuckless, & Oasi, 2012; Sindermann et al., 2018).

Avaliar os potenciais antecedentes e correlatos da agressão pode oferecer dados sobre elementos que compõem comportamentos agressivos e antissociais, como jogo patológico (Ramos-Grille, Gomà-i-Freixanet, Aragay, Valero, & Vallès, 2015) e homicídios sexuais (Chan, Beauregard, & Myers, 2015). Nesse cenário, a personalidade parece atuar como uma variável importante na predição de comportamentos agressivos e vingativos, ao passo que a vingança pode se mostrar como um elemento cognitivo e afetivo que antecede as agressões (Coelho et al., 2018; McCullough et al., 2001). Com efeito, ainda que toda agressão não se configure como vingança, é possível pensar que, em certa medida, todo ato de vingança pode se configurar como agressão (Chester & DeWall, 2018).

Portanto, o objetivo deste estudo foi testar modelos explicativos para a agressão, a partir dos traços de personalidade, tomando a vingança como variável mediadora. Tendo em vista as duas versões da Escala de Vingança apresentadas por Coelho et al. (2018), faz-se necessário testar, inicialmente, os indicadores de qualidade de ajuste desse instrumento a fim de utilizar o modelo mais adequado nas análises subsequentes. A partir disso, serão verificadas as relações entre as variáveis estudadas para testar o modelo hipotetizado (Figura 1).

 

 

 

Método

 

Amostra

Participaram 218 pessoas da cidade de Fortaleza, com idades entre 18 e 69 anos (M=27.84; DP=10.37), maioria do sexo feminino (64.9%) e com ensino superior incompleto (51.4%), heterossexual (86.7%) e solteiro (65.1%). Essa amostra deu-se por conveniência (não-probabilística), considerando pessoas que concordaram em participar ao serem convidadas.

 

Instrumentos

O questionário aplicado apresentava quatro instrumentos, os quais podem ser observados a seguir, além de perguntas a respeito de dados sociodemográficos:

 

Escala de Vingança (Stuckless & Goranson, 1992). Em sua versão original, este instrumento possui 20 itens acerca do desejo e da proposta de vingança ou julgamentos morais e éticos acerca do tema, por exemplo, “Para mim, é importante me vingar de pessoas que me machucaram”, “Acredito no pensamento: ‘Olho por olho, dente por dente’”. Tais itens são respondidos em escala Likert de sete pontos, com os extremos: 1=Discordo Totalmente e 7=Concordo Totalmente. Em contexto brasileiro, Coelho et al. (2018) apresentaram duas versões reduzidas para a escala (consistência interna α de Cronbach acima de 0.90), cujos modelos serão testados no presente estudo.

 

Questionário de Agressão Buss-Perry (Gouveia, Chaves, Peregrino, Branco, & Gonçalves, 2008). Baseado no modelo de Buss e Perry (1992), esse instrumento é composto por 26 itens divididos em quatro fatores: raiva, hostilidade, agressão verbal e agressão física (por exemplo: “Se alguém me bater, eu bato de volta”, “Constantemente eu me vejo discordando das pessoas”). Tais itens foram respondidos em escala Likert de cinco pontos, com os extremos: 1=Discordo totalmente a 5=Concordo totalmente, e com consistência interna de α=0.89.

 

Inventário dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade (Big Five; Andrade, 2008). Instrumento de 20 itens, respondidos em uma escala Likert de cinco pontos, sendo 1=Discordo totalmente e 5=Concordo totalmente. Os itens são agrupados em cinco fatores, todos apresentando consistência interna (alfa de Cronbach) satisfatória, a saber: abertura à mudança (“É original, tem sempre novas ideias”; α=0.73), conscienciosidade (“Insiste até concluir a tarefa ou o trabalho”; α=0.64), neuroticismo (“É temperamental, muda de humor facilmente”; α=0.76), extroversão (“É conversador, comunicativo”; α=0.73) e amabilidade (“Tem capacidade de perdoar, perdoa fácil”; α=0.71).

 

Dados sociodemográficos. Perguntas para a caracterização da amostra, como idade, sexo, orientação sexual, escolaridade, dentre outros.

 

Procedimentos

Os dados foram coletados por meio de questionário online. Os participantes foram convidados a participar e tiveram acesso ao questionário através de um link disponível nas redes sociais (por exemplo, Facebook). Inicialmente, foi apresentado aos participantes o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, os quais foram instruídos de que, ao clicar em Avançar, estariam concordando em participar da pesquisa. Além disso, era garantido o caráter voluntário e sigiloso do processo, era possibilitada a desistência a qualquer momento sem que a interrupção gerasse qualquer tipo de ônus ou bônus. Além disso, era disponibilizado para os participantes um contato a fim de que sanassem possíveis dúvidas que surgissem. O tempo de resposta médio foi de 15 minutos.

 

Análise de dados

Os dados foram analisados pelo SPSS (versão 21), empregando-se estatísticas descritivas (medidas de tendência central e de dispersão). Foi utilizado o software AMOS 21 a fim testar duas versões da Escala de Vingança (10 e 5 itens; Modelos 1 e 2, respectivamente), propostas por Coelho et al. (2018). Na análise fatorial confirmatória, adotou-se o método de estimação ML (Maximum Likelihood) considerando a razão entre o qui-quadrado (χ2) e os graus de liberdade (gl), e os indicadores de ajuste do modelo CFI (Comparative Fit Index), TLI (Tucker-Lewis Index) e RMSEA (Root mean square error approximation) (Hair, Black, Babin, Anderson, & Tatham, 2009).

Para avaliar o papel mediador da vingança na relação entre traços de personalidade (amabilidade, conscienciosidade, neuroticismo, abertura à mudança e extroversão) e agressão (agressão física, agressão verbal, hostilidade e raiva), primeiramente, procederam-se análises de correlação r de Pearson para verificar a correlação prévia entre essas variáveis (Hair et al., 2009). Em seguida, utilizou-se o procedimento indicado por Hayes (2012) utilizando o macro PROCESS (http://afhayes.com) para as análises de mediação simples (modelo 4).

 

Resultados

Inicialmente, procedeu-se uma análise fatorial confirmatória (AFC) em que foram testadas as duas versões da Escala de Vingança (Coelho et al., 2018). Para a versão de 10 itens (Modelo 1), os resultados foram: χ2/gl=2.86, CFI=0.93, TLI=0.91 e RMSEA=0.09 (IC 90%=0.07-0.11). Quanto aos λ, estes variaram entre 0.47 (“É melhor sempre não buscar vingança”) e 0.83 (“Para mim, é importante me vingar de pessoas que me machucaram”). Na versão de 5 itens (Modelo 2) verificaram-se os seguintes indicadores: χ2/gl=4.68, CFI=0.96, TLI=0.91 e RMSEA=0.13 (IC 90%=0.08-0.17), com λ entre 0.66 (“Não sou uma pessoa vingativa”) e 0.82 (“Não fico apenas com raiva, eu dou o troco”). Todos os lambdas foram estatisticamente diferentes de zero (λ≠0; z>1.96, p<0.05). A partir destes resultados, realizaram-se às demais análises utilizando a versão de 10 itens da Escala de Vingança tendo em conta os melhores indicadores de qualidade de ajuste desse modelo.

No que diz respeito às correlações r de Pearson (Tabela 1), o fator amabilidade apresentou relações significativas e negativas com agressão física (r=-0.258; p<0.01), agressão verbal (r=-0.254; p<0.01), hostilidade (r=-0.198; p<0.01), raiva (r=-0.249; p<0.01) e vingança (r=-0.394; p<0.01). O Neuroticismo apresentou correlações significativas e positivas com agressão física (r=0.339; p<0.01), agressão verbal (r=0.368; p<0.01), hostilidade (r=0.475; p<0.01), raiva (r=0.645; p<0.01) e vingança (r=0.150; p<0.05). Os outros fatores de personalidade não se correlacionaram com a vingança nem com a agressão. Ademais, puderam ser observadas correlações significativas e positivas de vingança e agressão física (r=0.521; p<0.01), agressão verbal (r=0.435; p<0.01), hostilidade (r=0.305; p<0.01) e raiva (r=0.322; p<0.01).

 

 

Assim, conforme as figuras apresentadas (Figura 2 e Figura 3), foram testados os modelos de mediação tendo amabilidade (X1) e neuroticismo (X2) numa relação direta com agressão física (Y1), agressão verbal (Y2), hostilidade (Y3) e raiva (Y4) tendo a vingança como variável mediadora (M). Nas Tabelas 2 e 3, estão resumidas as análises de regressão e seus coeficientes. Os resultados serão descritos em dois blocos; o primeiro bloco tendo amabilidade como preditora dos quatro tipos de agressão (modelo 1 agressão física; modelo 2, agressão verbal; modelo 3, hostilidade; modelo 4, raiva) e o neuroticismo como preditor dos mesmos tipos de agressão, respectivamente (modelo 5, agressão física; modelo 6, agressão verbal; modelo 7, hostilidade; e modelo 8, raiva).

 

 

 

 

 

 

 

 

Como observado na Tabela 4, os modelos da agressão física, verbal e hostilidade não se ajustaram aos dados adequadamente, pois esses traços não apresentaram correlação significativa. Contudo, no modelo 4, a amabilidade (c=-0.23) e a vingança (b=0.02) predizem a raiva. O efeito indireto foi estatisticamente significativo (c’=-0.16; 95% CI [-0.26, -0.07]), indicando que existe mediação entre essas variáveis.

 

 

O neuroticismo mostrou-se significativamente relacionado à vingança (a=1.73), que por sua vez se apresentou como preditora da agressão física (b=0.03); também se verificou a relação direta entre neuroticismo e agressão física (c=0.17); o efeito indireto do modelo 5 foi significativo (c’=0.05; 95% CI [0.006, 0.163]), demonstrando que o modelo ajustou-se aos dados adequadamente.

No modelo 6, o neuroticismo foi preditor da agressão verbal (c=0.26), que também foi significativamente predita pela vingança (b=0.03). O efeito indireto indica que houve uma mediação (c’=0.05; 95% CI [0.10, 0.13]). O modelo 7 apresentou o neuroticismo (c=0.32) e a vingança (b=0.01) como preditores da hostilidade; essa interação teve um efeito indireto significativo (c’=0.02; 95% [0.004, 0.005], ou seja, o modelo ajustou-se adequadamente aos dados. Em relação à raiva, modelo 8, o neuroticismo é observado como seu preditor (c=0.61), assim como a vingança (b=0.02). O efeito indireto foi estatisticamente significativo (c’=0.03; 95% CI [0.003, 0.078]), indicando que existe mediação entre essas variáveis.

 

Discussão

Os resultados indicaram que, na relação entre os traços de personalidade e os tipos de agressão, a vingança atua como mediadora em algumas relações. No que diz respeito à amabilidade, observou-se que os modelos de mediação para agressão física, verbal e hostilidade não se ajustaram aos dados. Teoricamente, esse resultado apresenta-se congruente como os estudos que apontam que a agressão é influenciada pela personalidade e pela vingança, mas é um fenômeno multideterminado, ou seja, existem outros fatores envolvidos na resposta agressiva, como aspectos biológicos, atitudes, crenças e contexto social (Hosie et al., 2014; Sinderman et al., 2018; Warburton & Anderson, 2015; Zhang, Qu, Ge, Sun, & Zhang, 2017).

De acordo com Anderson e Bushman (2002), uma pessoa pode responder a uma provocação ou a um evento aversivo de forma agressiva, mas, sob algumas condições, a emissão dessa resposta pode ser reavaliada, principalmente porque a agressão imediata é indesejável socialmente (Warburton & Anderson, 2015). Ainda que baixo nível de amabilidade, juntamente com a presença de vingança, não seja suficiente para explicar a agressão física, a agressão verbal e a hostilidade, ressalta-se que a amabilidade é uma variável importante para compreender a agressão. A resposta comportamental, sendo agressiva ou não, retroalimenta aspectos básicos da personalidade (Hosie et al., 2014; Warburton & Anderson, 2015).

No modelo 4 (raiva), a vingança implicou numa diminuição do efeito direto entre amabilidade e raiva, caracterizando-se uma mediação parcial (Jose, 2013). Além disso, o efeito foi negativo, ou seja, quanto menor a presença de amabilidade e maior a presença de vingança, maior a expressão da raiva (Hayes, 2012). Dessa forma, sugere-se que a vingança interfere, dentre os tipos de agressão, naquela que é mais emocional, interna e que não necessariamente provoca o ato vingativo, mas que reforça o desejo de vingança, como é o caso da raiva. Barlett e Anderson (2012) assinalam que o fator amabilidade está associado a emoções agressivas e pensamentos agressivos, como é o caso da raiva.

De fato, indivíduos que pontuam baixo em amabilidade tendem a reagir facilmente às provocações e vivenciar mais irritabilidade, muitas vezes de forma imediata (Lee & Ashton, 2012). O fato de a vingança absorver o efeito direto da amabilidade sobre a raiva aponta para processos cujas consequências emocionais são similares à agressão deslocada; a vingança parece atuar na contenção da expressão da raiva num momento imediato, deslocando-a, seja para um processo de ruminação da raiva, de planejamento da vingança ou de comportamentos de agressão deslocada (García-Sancho, Salguero, Vasquez, & Fernández-Berrocal, 2016).

No que diz respeito aos modelos tendo o neuroticismo como preditor da agressão física (modelo 5), agressão verbal (modelo 6), hostilidade (modelo 7) e raiva (modelo 8), observou-se que houve um ajuste adequados dos dados, ou seja, a vingança atua mediadora parcial, com um efeito positivo (Hayes, 2012; Jose, 2013). Isso significa que indivíduos que possuem altos níveis de neuroticismo, ou seja, pessoas que são emocionalmente instáveis, tensos, nervosos, irritáveis e que tem baixo controle de impulsos (McCrae, 1996), quando possuem alto nível de vingança, têm mais probabilidade de agredirem fisicamente, verbalmente, de serem hostis e de vivenciarem raiva (Barlett & Anderson, 2012). Essas agressões podem ser tidas como um tipo de ato vingativo, pois esse componente atua na relação direta entre neuroticismo e agressão (McCullough et al., 2001).

O modelo 5 sugere que indivíduos com alto neuroticismo, ao apresentarem traços de vingança, são mais prováveis de expressarem a agressão física para obter um efeito de satisfação que equaliza a ansiedade, a insegurança e a tensão comumente experienciada por indivíduos com alto nível de neuroticismo (Chester & DeWall, 2018; McCrae, 1996). Da mesma forma, o modelo 6 indica que a vingança também aparece como uma variável que contrapesa os antecedentes emocionais e as respectivas consequências comportamentais, no caso, agressão física e verbal, que podem, a nível extremo, ser o próprio ato vingativo (Fridja, 1994; McCullough, 2008; Ruggi et al., 2012; Stuckless & Goranson, 1992).

Os resultados do modelo 7 indicam que um indivíduo que possui altos níveis de neuroticismo e de vingança expressa sua hostilidade de forma mais intensa ao sofrer uma ofensa. A hostilidade se configura como um sentimento de aversão e de indiferença por outrem (Stuckless & Goranson, 1992) e que surge em reação a uma provocação a partir de uma ameaça pessoal (Runions, 2013). Nesse sentido, Maltby et al. (2008) sugerem que o neuroticismo e a hostilidade estão associados à vingança, e o neuroticismo impulsiona uma evitação de confronto direto e mais explícito. Runions (2013) aponta a hostilidade como um tipo de agressão que tende a ser mais impulsivo, corroborando sua relação com o neuroticismo, uma vez que esse traço de personalidade é caracterizado por um baixo controle de impulsos (Andrade, 2008).

A partir do modelo 8 compreende-se que pessoas com altos níveis de neuroticismo são mais propensas a experienciar raiva e vingança (Brown, 2004; McCullough et al., 2001). Nessa relação, a vingança parece atuar como um afeto negativo que influencia a raiva como forma de agressão; ou seja, a vingança resulta de uma avaliação cognitiva que um estímulo externo provoca (Huesmann, 1998). De acordo com Bettencourt, Talley, Benjamin e Valentine (2006), as variáveis de personalidade, marcadamente aquelas que experienciam mais afetos negativos, como é o caso do neuroticismo, estão associadas a níveis mais altos de comportamento agressivo. Assim, a raiva seria uma forma de “descontar” em alguém os próprios afetos negativos que não foram manejados (Warburton & Anderson, 2015).

 

Considerações finais

O objetivo deste estudo foi testar modelos explicativos para a agressão, a partir dos traços de personalidade, tomando a vingança como variável mediadora. Entende-se, portanto, que os resultados encontrados contribuem para a compreensão de quais mecanismos estão subjacentes aos comportamentos agressivos, sobretudo quando se leva em conta os traços de personalidade e as atitudes vingativas. Estudos acerca desse tema se mostram relevantes no campo da Psicologia uma vez que os comportamentos mediados pela vingança tendem a comprometer a integridade física e a segurança pessoal, tanto de quem busca a vingança, quanto para o alvo. Ademais, é possível encontrar na literatura evidências que a propensão à vingança está associada a diversos indicadores de adoecimento psíquico e comportamentos autodestrutivos, a saber: neuroticismo, afetos negativos, homicídios, crimes violentos (Akin & Akin, 2016).

Como todo empreendimento científico, apontam-se como limitações desse estudo a amostra e suas características; tanto a quantidade quanto o perfil dos participantes, que por serem selecionados de forma não-probabilística, pode ter gerado vieses nos resultados obtidos. Estudos futuros deverão considerar outras categorias de participantes (pessoas que cometeram algum tipo de crime ou que apresentam diagnóstico de transtornos mentais, por exemplo); e, seria interessante a introdução, além dos testados, de um modelo mais parcimonioso, agrupando os fatores de cada construto.

Além disso, sugere-se a inclusão de outras variáveis nos modelos testados, como empatia, autocontrole, narcisismo e impulsividade, conforme estudos realizados em outros contextos (Coelho et al., 2018; Miller et al., 2012; Ruggi et al., 2012; Runions, 2013).

 

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CORRESPONDÊNCIA

A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Quésia Fernandes Cataldo, Universidade Federal do Ceará, Av. da Universidade, 2853, Benfica, Fortaleza, CE, 60020-181, Brasil. E-mail: quesiacataldo@gmail.com

 

Submissão: 04/07/2018 Aceitação: 06/12/2018

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