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Análise Psicológica

versión impresa ISSN 0870-8231versión On-line ISSN 1646-6020

Aná. Psicológica vol.37 no.3 Lisboa jun. 2019

http://dx.doi.org/10.14417/ap.1548 

Estilos parentais, competências sociais e o papel mediador da personalidade em adolescentes e jovens adultos

Parenting styles, social skills and the mediational role of personality in adolescents and young adults

Catarina Pinheiro Mota1, Sara Duarte Ferreira2

1UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal / Centro de Psicologia, Universidade do Porto, Porto, Portugal

2UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal

Correspondência

 

RESUMO

As vivências afetivas experienciadas no seio familiar têm um papel privilegiado no desenvolvimento dos jovens. A presente investigação teve como objetivo analisar o efeito dos estilos parentais no desenvolvimento das competências sociais e testar o papel mediador da personalidade. A amostra incluiu 1976 jovens com idades entre os 14 e os 25 anos. Os resultados apontam que a empatia, a assertividade e o autocontrolo são preditos positivamente pelo estilo democrático e que a assertividade e o autocontrolo são preditos negativamente pelo estilo permissivo. Os dados sugerem o efeito mediador positivo da personalidade emocionalmente ajustada na associação do estilo democrático e as competências sociais, e um efeito mediador negativo entre o estilo permissivo e determinadas competências socias.

Palavras-chave: Estilos parentais, Competências sociais, Personalidade.

 

ABSTRACT

Affective experiences lived in the family have a privileged role in the development of young people. This research aimed to analyze the effect of parenting styles in the development of social skills of young people. It was also tested the mediating role of personality. The sample included 1976 young, 14 to 25 years aged. The results show that empathy, assertiveness and self-control were positively predicted by democratic style, and assertiveness and self-control were negatively predicted by permissive style. The data also suggested the positive mediating effect of personality on the association between democratic style and social skills, and a negative mediating effect on the association between permissive style and social skills.

Key words: Parenting styles, Social skills, Personality.

 

O papel dos estilos parentais no desenvolvimento das competências sociais

De acordo com a teoria da vinculação sustentada por Ainsworth (1969) e Bowlby (1969), os laços afetivos estabelecidos desde o nascimento do indivíduo assumem um papel preponderante no seu desenvolvimento social e afetivo. A presença de uma figura parental responsiva e disponível o indivíduo parece desenvolver uma progressiva maturação emocional, um sentido de valorização pessoal e de competência, visto que adquire um sentido interno de segurança que lhe propicia a confiança necessária na exploração de si, dos outros e o meio. Nesta medida, os indivíduos vão construindo modelos internos dinâmicos em função dos vínculos estabelecidos com as figuras significativas, que podem contribuir para a aquisição de competências sociais (Bowlby, 1969, 1988).

Baumrind (1967, 1991) vai ao encontro da mesma premissa preconizando que a relação entre a díade pais-filhos é a base da aprendizagem de interações sociais, uma vez que as crianças apreendem a pensar, falar, interpretar, reagir, relacionar e a expressar-se maioritariamente a partir desse mesmo contacto. Nesta medida, e num sentido mais amplo, os estilos parentais adotados para com os filhos contribuem para o desenvolvimento afetivo dos jovens, sendo um fator relevante na compreensão de aspetos emocionais e comportamentais dos mesmos. De acordo com a autora, os estilos parentais compreendem todo o reportório de atitudes relacionais, comunicacionais e práticas parentais adotadas pelos cuidadores. Baumrind (1991) propôs a existência de três estilos parentais que se baseiam no controlo e afeto parental: o democrático, o autoritário e o permissivo. O estilo democrático é caracterizado pela presença de comunicação e afetividade, atende às atividades da criança de forma racional e orientada, sendo encorajada a partilha de informações entre as partes. Concomitante a esse aspeto assume o estabelecimento de regras e limites numa perspetiva de desenvolver uma progressiva aprendizagem e autonomia. Neste sentido, o indivíduo é encorajado a usufruir da sua própria perspetiva, assumindo que a mesma tem qualidades, embora necessitando de orientação face a comportamentos e ações futuras. Por sua vez, o estilo autoritário é caracterizado pelo controlo excessivo, a ausência de comunicação e avaliação do comportamento dos jovens de acordo com o modelo conceptual das figuras parentais. Este estilo valoriza a obediência e a autoridade e apela a medidas de força e punição quando o comportamento do jovem não corresponde ao padrão esperado. Existe estilo estabelece restrição de autonomia e liberdade. Por último, o estilo permissivo corresponde a um padrão não punitivo, baseado na aceitação e indulgência, correspondendo de forma afirmativa aos desejos do jovem. Este é ainda caracterizado pelo baixo controlo e ausência de regras e limites. Nesta medida, considera-se ser no seio das relações familiares que numa primeira instância são elaboradas e aprendidas várias dimensões de interação social, nomeadamente aspetos relacionados com as relações interpessoais e a comunicação (Alarcão, 2006; Alarcão & Gaspar, 2007; Baumrind, 1991). A qualidade dos laços emocionais estabelecidos com as figuras significativas parece estar associada à aquisição de competências sociais, autorregulação e autonomia, contribuindo para o funcionamento social e emocional adaptativo dos jovens (Hair, Jager, & Garret, 2002; Michiels, Grietensa, Onghenab, & Kuppens, 2010; Rice, 1990).

As competências sociais podem ser definidas como condutas aprendidas que são socialmente adequadas e que permitem ao indivíduo relacionar-se com o outro (Gresham, 1986; Gresham & Elliott, 1984). Bennett e Hay (2007) referem que as competências sociais são bastante complexas e envolvem determinadas habilidades, tais como a capacidade de comunicação, resolução de problemas, interação e afirmação no grupo de pares que visam desenvolver e manter relações sociais favoráveis. Hair et al. (2002) postulam que relacionamentos sociais ajustados e competências sociais adequadas são fatores no desenvolvimento psicológico saudável, revelando-se fundamentais para o desenvolvimento pessoal e social dos adolescentes e jovens adultos. De acordo com diversos estudos, o clima emocional e comportamental vivenciado na família associados a um estilo demo -crático propiciam uma maior segurança e regulação emocional dos jovens potenciando a aquisição de competências sociais adaptativas (e.g., Bandeira, Rocha, Freitas, Del Prette, & Del Prette, 2006; Baumrind, 1966; Bennet & Hay, 2007; Morris, Silk, Steinberg, Myers, & Robinson, 2007). Bennet e Hay (2007) acrescentam que a comunicação e a participação entre os membros da família potenciam confiança na exploração do ambiente social, essenciais no desenvolvimento de competências sociais. Hair et al. (2002) consideram que a adoção de atitudes parentais responsivas e afetivas é o fator mais consistente para predizer as competências sociais dos jovens. Por outro lado, um estilo parental associado à ausência ou excesso de controlo parental parece não estar associado ao desenvolvimento de competências sociais ajustadas (Konnie & Alfred, 2013; Vijila, Thomas, & Ponnusamy, 2013), visto poder suscitar reações negativas e dependência (Claes, 1990). De acordo com Baumrind (1966), o controlo autoritário e o não controlo permissivo poderá gerar ansiedade e criar uma barreira na interação eficiente entre o individuo e o outro. Face ao referido, os estilos parentais vivenciados desde um período precoce do desenvolvimento parecem ter um papel relevante na compreensão dos comportamentos, sentido de eficácia e ajustamento social dos jovens.

 

A personalidade na associação entre os estilos parentais e as competências sociais

De encontro com a teoria da vinculação sustentada por Bowlby (1969) e a teoria ecológica do desenvolvimento desenvolvida por Bronfenbrenner (1996), as relações com as figuras significativas de afeto desempenham um papel preponderante no desenvolvimento do indivíduo. Neste sentido, a partir das interações estabelecidas com as figuras parentais o ser humano vai construídos modelos internos dinâmicos entendidos como representações mentais de si, do outro e do mundo que o rodeia. Estes incluem sentimentos, crenças, expectativas e estratégias comporta mentais que são o reflexo de futuras interações e relacionamentos, desenvolvendo um padrão de funcionamento e moldando a estrutura da sua personalidade (Belsky & Barends 2002; Bowlby, 1969; Caspi, Roberts, & Shiner, 2005). Dias (2011) sublinha que o contexto familiar está associado ao desenvolvimento da personalidade dos jovens, contribuindo para a formação do carácter, aquisição de capacidades, atitudes e valores dos indivíduos. Neste sentido, a família assume o principal alicerce face ao desenvolvimento da personalidade dos jovens (e.g., Maddahi, Javidi, Samadzadeh, & Amini, 2012; Spinath & O’Connor, 2003), sendo os estilos parentais adotados pelos cuidadores um dos fatores essenciais para o seu desenvolvimento e formação (e.g., Belsky & Barrendz, 2002; Caspi et al., 2005; Prinzie et al., 2004).

A personalidade remete para um construto que compreende diferentes características e traços individuais que vão sendo desenvolvidos ao longo da vida e são alusivas aos seus padrões de comportamento, pensamentos, sentimentos, incluindo funções próprias, tornando o sujeito um organismo singular (Allport, 1955; Pervin & John, 2004). O modelo dos cinco fatores tem vindo a ganhar saliência no estudo da organização da personalidade, abordando que esta pode ser compreendida de acordo com cinco dimensões que variam ao longo de um contínuo: o neuroticismo, a extroversão, a abertura à experiência, a amabilidade e a conscienciosidade (Bertoquini & Pais-Ribeiro, 2006; Nunes, Hutz, & Giacomoni, 2009). Relativamente ao neuroticismo, este remete para a tendência a experienciar emocionalidade negativa, incluindo ansiedade, preocupação e labilidade emocional. No que se refere à extroversão, esta reflete sociabilidade, emocionalidade positiva, sendo que o indivíduo se revela social, ativo, comunicativo e assertivo. A abertura à experiência é descrita pela procura de novas experiências, imaginação, curiosidade e criatividade. Relativamente à dimensão amabilidade esta prende-se com atitudes de empatia, generosidade, cooperação e altruísmo. Por fim, a conscienciosidade diz respeito ao quão competente, perseverante, organizado e determinado o indivíduo pode ser, englobando a autodisciplina e controlo de impulsos (Nunes & Hutz, 2007; Pervin & John, 2004; Weisberg, DeYoung, & Hirsh, 2011). Sublinha-se que os traços da personalidade variam na sua intensidade a partir de um contínuo, onde um dos extremos está relacionado com a adaptação e o ajustamento do indivíduo e no outro extremo sublinha-se a existência de labilidade emocional associada a dificuldades de funcionamento social (Eisenberg, Fabes, Guthrie, & Reiser, 2000). Nesta medida, dadas as características de cada um dos traços, no presente estudo as dimensões extroversão, abertura à experiência, amabilidade e conscienciosidade foram assumidas como estando associadas a características positivas que representam uma personalidade emocionalmente ajustada. Por sua vez, o neuroticismo foi assumido como estando no outro extremo do contínuo que reflete instabilidade emocional (Hlatywayo, Mhlanga, & Zingwe, 2013). Vários estudos comprovam que estilos parentais democráticos estão associados ao desenvolvimento de características positivas da personalidade (e.g., Maddahi et al., 2012), em contraposição com os estilos parentais autoritário e permissivo que parecem estar associados à labilidade emocional e incongruência (Metsapelto & Pulkkinen, 2003). Nesta medida, os traços da personalidade parecem ser relevantes na forma como o individuo se reorganiza e adapta ao mundo que o rodeia, postulando-se que as características positivas da personalidade relativas à reduzida labilidade emocional e psicológica possam também estar associadas à aquisição de competências sociais adaptativas dos jovens. Lianos (2015) corrobora essa mesma premissa num estudo realizado com 230 adolescentes, concluindo que a extroversão, abertura à experiência e a conscienciosidade estão associadas a um estilo parental mais responsivo e emocionalmente disponível, predizendo uma maior competência social dos jovens. O autor acrescenta que os jovens que têm uma maior capacidade para expressar os seus sentimentos e pensamentos abertamente parecem revelar uma maior capacidade de manter relações sociais ajustadas. Por outro lado, o neuroticismo, caracterizado pela tendência a experienciar emoções negativas encontra-se negativamente associado à aquisição de competências sociais (Nunes & Hutz, 2007; Pervin & John, 2004; Weisberg et al., 2011).

Tendo em conta o exposto, o principal objetivo do estudo consistiu em analisar o papel dos estilos parentais e da personalidade no desenvolvimento das competências sociais dos adolescentes e jovens adultos. Pretendeu-se ainda testar o papel mediador da personalidade na associação entre os estilos parentais e as competências sociais. Existem alguns estudos capazes de versar a combinação das variáveis em estudo, apesar da literatura se debruçar mais sobre a relação entre os estilos parentais e as competências sociais (e.g., Nunes & Hutz, 2007; Pervin & John, 2004; Weisberg et al., 2011) e o desenvolvimento da personalidade nos jovens (e.g., Maddahi et al., 2012; Metsapelto & Pulkkinen, 2003), assim como o papel da personalidade no desenvolvimento de competências sociais (e.g., Lianos, 2015). Todavia é menos claro o papel mediador da personalidade na relação entre os estilos parentais e o desenvolvimento de competências sociais, particularmente nos jovens adultos. Nesta medida, o presente estudo assume parcialmente uma cariz confirmatório face à literatura, todavia garante uma perspetiva exploratória passível de discutir dados relevantes nesta faixa etária.

 

Método

 

Participantes

No presente estudo participaram 1976 adolescentes e jovens adultos da região Norte de Portugal. Os participantes tinham idades compreendidas entre os 14 e os 25 anos (M=17.22, DP=2.51), sendo que 714 (36.1%) seriam do sexo masculino e 1262 (63.9%) do sexo feminino. Dos 1976 indivíduos, 1280 (64.7%) frequentam o ensino básico e secundário de escolas públicas e 683 (34.6%) frequentavam o grau de licenciatura ou mestrado em cursos do ensino superior público.

 

Instrumentos

 

O Parenting Styles & Dimensions Questionnaire: Short Version (PSDQ; Robinson, Mandleco, Olsen, & Hart, 1996) foi traduzido e adaptado para a população portuguesa por Nunes e Mota (2018), sendo que a amostra incidiu em jovens com idades entre os 15 e os 18 anos. O seu objetivo consiste em avaliar a perceção dos jovens face aos estilos parentais dos pais através de 32 itens que se apresentam numa escala tipo likert que varia do 1 (nunca) ao 5 (sempre). A escala é composta por duas versões, sendo que uma delas é dirigida à figura materna e outra à figura paterna. A organização do instrumento é constituída por três dimensões: estilo democrático (apoio e afeto – 5 itens, regulação – 5itens, e cedência de autonomia e participação democrática – 5 itens), estilo autoritário (coerção física- 4 itens, hostilidade verbal – 4 itens, e punição – 4 itens) e estilo permissivo (indulgência – 5 itens). De salientar que através das análises confirmatórias de 1ª ordem se verificou que a dimensão hostilidade verbal não se encontrava ajustada face ao constructo dos autores originais. Desta forma, optou-se por não ser analisada a referida variável para não enviesar os resultados da investigação. Os estudos psicométricos demonstraram um valor de alfa de Cronbach de .89 para a figura paterna e .85 para a figura materna no que diz respeito à totalidade do instrumento. Relativamente aos valores de consistência interna para cada dimensão foram observados: Estilo Democrático (apoio e afeto pai/mãe: .88/.83; regulação pai/mãe: .87/.83; cedência de autonomia e participação democrática pai/mãe: .86/.82) Estilo Autoritário (coerção física pai/mãe: .74/.74; punição pai/mãe: .62/.62) e Estilo Permissivo (Indulgência pai/mãe: .58/.57). No que diz respeito às análises fatoriais confirmatórias, estas apresentaram valores de ajustamento adequados [SRMR=.06/.05, CFI=.96/.96, RMSEA=.06/.05, χi2(116)=898.85, p=.000, χi2(116)=782.42, p=.000] para o pai e para a mãe, respetivamente.

 

O Social Skills Questionnaire (Gresham & Elliott, 1990) é um questionário de autorrelato que foi traduzido e adaptado para a população portuguesa com idades compreendidas entre os 14 e os 19 anos por Mota, Matos e Lemos (2011). O questionário foi utilizado para avaliar as competências sociais dos jovens, sendo constituído por 39 itens nos quais é pedido ao participante que responda perante a frequência do comportamento a partir de uma escala que varia entre o 0 (nunca) e o 2 (muitas vezes). O instrumento original avalia as aptidões sociais que estão associadas às competências sociais através de quatro dimensões: a cooperação, a assertividade, a empatia e o autocontrolo. Contudo através das análises fatoriais exploratórias e confirmatórias realizadas na adaptação da escala, verificou-se que a dimensão cooperação não se ajustava à população portuguesa, procedendo-se à sua retirada no modelo da presente amostra. Neste sentido, na presente investigação foram analisadas as dimensões empatia – 10 itens, assertividade – 9 itens, e autocontrolo – 10 itens. No que diz respeito à consistência interna, a análise demonstrou valores de alfa de Cronbach de .84 ao nível do parâmetro frequência do comportamento. Relativamente ao valor das dimensões observou-se valores de alfa de .77 para a empatia, .68 para a assertividade e .68 para o autocontrolo. Após realizadas as análises fatoriais confirmatórias verificou-se que os índices de ajustamento estavam adequados para o modelo [SRMR=.03, CFI=.98, RMSEA=.05, χi2(20)=103.1, p=.000].

 

O NEO Five Factor Inventory (NEO-FFI-20; Costa & McCrae, 1992) foi traduzido e adaptado para a população portuguesa por Bertoquini e Pais-Ribeiro (2006) em indivíduos com idades compreendidas entre os 17 e os 63 anos. Esta escala foi utilizada para avaliar a personalidade através de cinco fatores, cada um com 4 itens: o neuroticismo, a extroversão, a abertura à experiência, a amabilidade e a conscienciosidade. O instrumento de autorrelato integra 20 itens e pretende-se que o indivíduo se posicione numa escala tipo Likert onde constam cinco opções de resposta que varia de 1 (discordo fortemente) a 5 (concordo fortemente). A análise da consistência interna revelou valores de alfa de Cronbach de .49 para a totalidade do instrumento. Relativamente a cada uma das dimensões, o alfa observado foi de .59 para o neuroticismo, .69 para a extroversão, .66 para a abertura à experiência, .50 para a amabilidade e .81 para a conscienciosidade. Pela análise fatorial confirmatória do instrumento verificou-se que os valores de ajustamento são adequados para os modelos [SRMR=.04, CFI=.94, RMSEA=.05, χi2(76)=434.21, p=.000].

 

Procedimento

A recolha da amostra foi realizada em diversas instituições de Ensino Básico/Secundário e Universitário da região Norte de Portugal em contexto de sala de aula. O protocolo de investigação foi submetido ao conselho de Ética da instituição que acolhe o estudo e aprovado com o nº 20A/CE/2015. Após a aprovação da recolha de dados, foi proposto aos jovens a aplicação e a assinatura do Termo Consentimento Livre e Esclarecido para a participação na investigação, sublinhando-se que os indivíduos com idades inferiores a 18 anos obtiveram a autorização por parte dos encarregados de educação. No momento de recolha de dados foi referido a voluntariedade da participação no estudo, assim como a garantia de confidencialidade e anonimato das informações obtidas a partir dos intervenientes. Por forma a evitar o fator cansaço foi realizada a aplicação de várias versões do protocolo invertendo a ordem dos questionários. Cabe ainda ressaltar que foi realizada uma reflexão falada com jovens com idades compreendidas entre os 14 e os 25 anos, para verificar se o protocolo de investigação se encontrava percetível relativamente à sua estrutura formal e semântica e qual a duração do preenchimento do mesmo (aproximadamente 30 minutos).

 

Resultados

Partindo do objetivo de analisar as associações entre os estilos parentais, as competências sociais e a personalidade nos jovens foram realizadas análises correlacionais entre as diferentes variáveis que se encontram descritos na Tabela 1.

 

 

 

Efeito dos estilos parentais nas competências sociais dos jovens: O papel mediador da personalidade

A partir dos resultados obtidos foi possível observar um efeito inicial positivo entre o estilo parental democrático de ambas as figuras parentais face as competências sociais dos jovens, nomeadamente a empatia (β=.29/.35), assertividade (β=.29/.31) e o autocontrolo (β=.34/.35), do pai e da mãe respetivamente. Verificou-se ainda que o estilo parental autoritário das figuras parentais apresenta um efeito inicial positivo face à assertividade (β=.09/.14). Por último, observa-se que o estilo parental permissivo (indulgente) apresenta um efeito inicial negativo face às competências sociais, nomeadamente, a assertividade (β=-.08/-.08) e o autocontrolo (β=-.19/-.18). Posteriormente foi analisado o papel de dois mediadores, nomeadamente, as características da personalidade emocionalmente ajustadas (extroversão, amabilidade, abertura à experiência e conscienciosidade) e o neuroticismo tendo em conta as três dimensões dos estilos parentais: democrático (apoio e afeto, regulação, cedência de autonomia e participação democrática), autoritário (punição e coerção física) e permissivo (indulgência) através do programa AMOS.

Relativamente à figura paterna, inicialmente verificou-se que o estilo democrático prediz positivamente as características positivas da personalidade (β=.58) e negativamente o neuroticismo (β=-.26). Por sua vez, verificou-se que o estilo permissivo (indulgência) prediz negativamente a personalidade emocionalmente ajustada (β=-.18) e positivamente o neuroticismo (β=.07). Posteriormente, verificou-se que as características da personalidade positiva predizem positivamente a empatia (β=.84), a assertividade (β=.75) e o autocontrolo (β=.59). Foi ainda passível de se verificar que o neuroticismo prediz negativamente a assertividade (β=-.12) e positivamente a empatia (β=.07). Após ser realizado o método de Bootstrap na testagem do papel mediador da personalidade emocionalmente ajustada, observou-se que o efeito direto inicial dos estilos parentais da figura paterna sobre as competências sociais perdeu magnitude (empatia β=-.19; assertividade β=-.17). Neste sentido, a variável mediadora reduziu a relação entre a variável dependente e independente, concluindo-se que o mediador explica parte ou todo o relacionamento entre as variáveis. Neste caso em particular, encontra-se presente um efeito de supressão uma vez que o efeito direto entre a variável dependente e dependente assumiu sinais opostos (MacKinnon, Krull, & Lockwood, 2000). Posto isto, verifica-se uma mediação parcial com efeito positivo das características positivas da personalidade na associação do estilo democrático do pai e a empatia (β(democrático)=.47; IC 90% [.38, .57]) e a assertividade (β(democrático)=.42; IC 90% [.35, .50]) e um efeito mediador total positivo das características positivas da personalidade na associação entre o estilo democrático e o autocontrolo (β(democrático)=.31; IC 90% [.27, .34]) (Figura 1). A partir dos resultados obtidos verificou-se que a personalidade emocionalmente ajustada não tem um efeito mediador na associação entre o estilo autoritário e a assertividade (p=.105). Constatou-se ainda que as carac terísticas positivas da personalidade têm um efeito mediador total negativo na associação entre o estilo permissivo (indulgência) e a assertividade (β(Permissivo)=-.07; IC 90% [-.11, -.03]) e as características positivas da personalidade têm um efeito mediador parcial negativo entre o estilo permissivo (indulgência) e o autocontrolo (β(Permissivo)=-.04; IC 90% [-.07, -.01]) (Figura 1). Posteriormente, foi realizado o método de Bootstrap na testagem do papel mediador do neuroti cismo, observando-se que o efeito direto inicial dos estilos parentais da figura paterna sobre as competências sociais perdeu magnitude (empatia β=.12; assertividade β=.14). Neste sentido, verifica-se uma mediação parcial com efeito negativo do neuroticismo na associação do estilo democrático e a empatia (β(democrático)=-.02; IC 90% [-.03, -.01]) e um efeito mediador parcial positivo relativamente a assertividade (β(democrático)=.03; IC 90% [.02, .04]). A partir dos resultados obtidos verificou-se que o neuroticismo não tem um efeito mediador na associação entre o estilo autoritário e a assertividade (p=.119). Foi ainda verificado um efeito mediador parcial negativo do neuroticismo na associação entre o estilo permissivo (indulgência) e a assertividade (β(democrático)=-.01; IC 90% [-.02, -.00]) (Figura 1). O modelo de mediação apresentado denota índices do ajustamento adequados (χi2(64)=844.302; p=.000, CFI=.91, SRMR=.06, RMSEA=.08) (Figura 1).

 

 

No que diz respeito à figura materna, verificou-se que o estilo parental democrático prediz positivamente as características positivas da personalidade (β=.66) e negativamente o neuroticismo (β=-.26). Por sua vez, verificou-se que o estilo parental permissivo (indulgência) prediz negativamente as características da personalidade emocionalmente ajustadas (β=-.07) e positivamente o neuroticismo (β=.08). Verificou-se ainda que as características positivas da personalidade predizem positivamente a empatia (β=.89), a assertividade (β=.84) e o autocontrolo (β=.64). O neuroticismo, por sua vez, prediz positivamente a empatia (β=.06) e negativamente a assertividade (β=-.13). Após ser realizado o método de Bootstrap para testar o papel mediador das características da personalidade emocionalmente ajustadas, observou-se que o efeito direto inicial dos estilos parentais da figura materna sobre as competências sociais perde magnitude (empatia β=-.25; assertividade β=-.29; autocontrolo β=-.11). Tal como verificado para a figura paterna, o efeito de supressão também está presente no modelo referente à figura materna (MacKinnon et al., 2000). Após uma primeira análise, observa-se uma mediação parcial com efeito positivo das características positivas da personalidade na associação do estilo democrático da mãe e a empatia (β(democrático)=.56; IC 90% [.45, .70]), o autocontrolo (β(democrático)=.54; IC 90% [.44, .69]) e a assertividade (β(democrático)=.42; IC 90% [.35, 50]). A partir dos resultados obtidos verificou-se que a personalidade emocionalmente ajustada não tem um efeito mediador na associação entre o estilo autoritário e a assertividade (p=.379). Por fim verifica-se que as características positivas da personalidade têm um efeito mediador total negativo na associação entre o estilo permissivo (indulgente) e a assertividade (β(Permissivo)=-.06; IC 90% [-.10, -.01]) e um efeito mediador parcial negativo entre o estilo permissivo (indulgente) e o autocontrolo (β(Permissivo)=-.04; IC 90% [-.07, -.01]) (a href="#f2">Figura 2). De seguida, foi realizado o método de Bootstrap na testagem do papel mediador do neuroticismo, observando-se que o efeito direto inicial dos estilos parentais da figura materna sobre as competências sociais perdeu magnitude (empatia β=.17; assertividade β=.11). Posto isto, observou-se uma mediação parcial com efeito negativo do neuroticismo na associação do estilo democrático e a empatia (β(democrático)=-.02; IC 90% [-.03, -.08]) e um efeito mediador parcial positivo relativamente a assertividade (β(democrático)=.02; IC 90% [.02, .04]). A partir dos resultados obtidos verificou-se que o neuroticismo não tem um efeito mediador na associação entre o estilo autoritário e a assertividade (p=.595). Foi ainda obtido um efeito mediador total negativo do neuroticismo na associação entre o estilo permissivo (indulgência) e a assertividade (β(democrático)=-.04; IC 90% [-.08, -.00]) (Figura 2). O modelo de mediação apresenta índices do ajustamento adequados (χi2(63)=700.1; p=.000, CFI=.92, SRMR=.05, RMSEA=.07) (Figura 2). Observa-se que para ambas as figuras parentais o valor do Qui-Quadrado e do Ratio são elevados, podendo esse aspeto ser justificado pela grande dimensão da amostra (Bentler & Bonnet, 1980).

 

 

 

Discussão

A presente investigação teve como principal objetivo analisar o papel dos estilos parentais e da personalidade no desenvolvimento das competências sociais dos adolescentes e jovens adultos. A partir da análise dos dados verifica-se que o estilo parental democrático se associa positivamente com a empatia, a assertividade e o autocontrolo. Verificou-se ainda uma associação positiva com a extroversão, a abertura à experiência, a amabilidade e conscienciosidade e uma associação negativa com o neuroticismo. Nesta medida, verifica-se que a adoção de uma postura parental democrática parece ser um fator protetor do desenvolvimento dos jovens, na medida em que se encontra associada a competências sociais adaptativas que poderão promover um maior ajustamento social e emocional. Assim, os resultados obtidos parecem ser indicadores da importância da presença de um ambiente parental responsivo e disponível, não só ao nível das competências sociais como no desenvolvimento de traços de personalidade emocionalmente ajustados. Nesta medida, os indivíduos que vivenciam um ambiente familiar responsivo parecem estar mais suscetíveis ao desenvolvimento de modelos internos dinâmicos positivos (Bowlby, 1969), à adoção de comportamentos assertivos, de uma postura socialmente responsável, auto-regulação e desenvolvimento de uma maior maturidade (Baumrind, 1991). Sob a perspetiva de Morris et al. (2007) através de uma revisão de literatura realizada sobre a associação entre os componentes do contexto familiar e a regulação emocional verificaram que as atitudes parentais associadas a um estilo democrático estão relacionadas ao desenvolvimento de segurança e regulação emocional, contribuindo para as competências sociais dos jovens. Estes resultados são consistentes com o estudo de Bennet e Hay (2007) em que objetivo consistia em identificar as características das famílias promotoras do desenvolvimento das competências sociais. Na sua investigação com 212 pais de jovens, concluíram que um estilo democrático está relacionado com o desenvolvimento de competências sociais pelo facto de providenciar ao indivíduo segurança para explorar o ambiente social que o rodeia.

Por sua vez os estilos parentais autoritário e permissivo associam-se negativamente com a empatia, o autocontrolo, a abertura à experiência, a amabilidade e a conscienciosidade e positivamente com o neuroticismo. Neste sentido, as atitudes parentais marcadas tanto pelo controlo e baixa comunicação, assim como pela excessiva indulgência e ausência de limites, parecem promover uma maior labilidade emocional. Tal facto poderá estar associado a uma maior inibição para o estabelecimento de relacionamentos sociais adaptativos e características relevantes para a integração dos jovens no contexto social, tal como a empatia e o autocontrolo. Este resultado seria expectável na medida em que a aquisição de competências sociais e estruturação da personalidade está associada às atitudes parentais (Bandeira et al., 2006; Baumrind, 1991). Nesta medida, na presença de práticas parentais onde o controlo e a liberdade prestados são disfuncionais, pelo facto de existirem em excesso ou defeito, proporcionam no indivíduo o sentido de incongruência e condicionam o seu desenvolvimento ao nível de competências sociais (Baumrind, 1966) e da estruturação da personalidade (Bowlby, 1969). O estudo de Konnie e Alfred (2013) realizado com 480 jovens e o estudo descritivo de Vijila et al. (2013) em que o objetivo era compreender qual o estilo parental predominante e a sua relação com o desenvolvimento social dos jovens adultos sugerem que o estilo parental autoritário está relacionado à ausência de competências sociais adaptativas, dada a implementação de regras, medidas de força e punição física e verbal. Vijila et al. (2013) acrescentam que os jovens que vivenciam um estilo parental permissivo, embora tenham uma maior disposição para desenvolver competências sociais adaptativas, apresentam dificuldades em controlar os seus impulsos, e por norma não estão preparados face à responsabilidade e manifestando pouca maturidade.

No que concerne à personalidade dos jovens, Maddahi et al. (2012), sublinham que os estilos parentais adotados pelos pais estão relacionados com o seu desenvolvimento. Assim, um estilo parental democrático que é pautado por responsividade emocional e respeito pela autonomia dos seus filhos pode contribuir para o desenvolvimento de características positivas, tais como a extroversão, a amabilidade e a abertura à experiência e conscienciosidade, em contraposição com o estilo autoritário que é caracterizado pela postura restritiva, o rigor e o não questionamento das decisões das figuras parentais impedindo assim a liberdade de expressão e aumentando a labilidade emocional dos filhos patente no traço de neuroticismo. De acordo com vários estudos, o estilo parental democrático está associado a características da personalidade positivas, tais como a extroversão, amabilidade (e.g., Huver, Otten, Vries, & Engels, 2010) e abertura à experiência (Maddahi et al., 2012). O estudo desenvolvido por Metsapelto e Pulkkinen (2003) com 172 indivíduos onde o objetivo consistiu em analisar a relação entre traços de personalidade e as atitudes parentais corrobora a associação verificada entre o estilo parental autoritário e também permissivo no desenvolvimento do traço de neuroticismo. Belsky e Barends (2002) vão de encontro ao referido sublinhando que características como a ansiedade e a irritabilidade estão associadas à presença de estilos parentais menos responsivos.

A partir da análise dos resultados foi ainda possível averiguar que as competências sociais (empatia, assertividade e autocontrolo) se encontram positivamente associadas à extroversão, amabilidade e conscienciosidade. Observou-se ainda a existência entre uma associação positiva da empatia e do autocontrolo face à abertura à experiência. Os dados obtidos vão de encontro ao que é expectável uma vez que as competências sociais ajustadas pressupõem características da personalidade que reflitam um ajustamento emocional saudável e tendência a experienciar emocionalidade positiva. Nesta medida, verifica-se que a extroversão reflete sociabilidade e assertividade, a amabilidade tem como característica o altruísmo, empatia e bondade, a abertura à experiência é indicadora de exploração do meio envolvente e a conscienciosidade tem como particularidade o autocontrolo. Lianos (2015) corrobora alguns dos resultados obtidos no estudo com 230 adolescentes, sublinhando que as competências sociais estão associadas a traços da personalidade positivos, nomeadamente a extroversão, a conscienciosidade e a abertura à experiência. Ressalta-se ainda que se observou que as competências sociais apresentam uma associação negativa com o neuroticismo. Este resultado pode ser justificado devido à tendência para experienciar emoções negativas e labilidade emocional que poderá comprometer a predisposição para interagir com o exterior (Nunes & Hutz, 2007; Pervin & John, 2004; Weisberg et al., 2011).

Por fim, cabe ressaltar que tal como esperado, o estilo parental democrático, de ambas as figuras parentais, prediz positivamente a empatia, a assertividade e o autocontrolo dos adolescentes e jovens adultos. Nesta medida, verifica-se novamente que as atitudes democráticas dos pais, para além de estarem desde logo associadas ao desenvolvimento de competências sociais ajustadas, são também preditas por essas mesmas atitudes. Por sua vez, foi ainda possível verificar que o estilo parental permissivo prediz de forma significativa e negativa a assertividade e o autocontrolo. Este resultado vai ao encontro do expectável, dado que os jovens que vivenciam um estilo parental permissivo têm liberdade na toma das suas próprias decisões e têm por hábito não serem contrariados, contrapondo o conceito de assertividade e de autocontrolo. Vários autores vão ao encontro destes resultados, no que concerne ao estilo parental democrático (Bennet & Hay, 2007; Morris et al., 2007) e ao estilo parental permissivo (Alarcão & Gaspar, 2007; Vijila et al., 2013) e o seu relacionamento com as competências sociais. Os resultados obtidos nas análises de predição enfatizam de uma forma mais exaustiva a importância da adoção de uma postura parental onde esteja presente uma esfera afetiva consistente e assertiva, promotora de confiança necessária para os jovens desenvolverem comportamentos assertivos, respeito pelo ponto de vista do outro e a capacidade de autocontrolo face a diferentes situações.

Os resultados obtidos sugerem ainda a relevância da implementação de um estilo parental democrático de ambas as figuras parentais, na predição positiva de características da personalidade que refletem uma emocionalidade ajustada e predição negativa no que se refere ao traço de neuroticismo. Por sua vez, verificou-se que um estilo permissivo prediz positivamente a presença de neuroticismo e negativamente o desenvolvimento de traços de personalidade positivos. Tais resultados vão ao encontro do supracitado na revisão de literatura, que subentende que um estilo parental democrático propicia o desenvolvimento de uma estrutura de personalidade emocionalmente mais ajustada, onde constam características como a abertura à experiência (Maddahi et al., 2012), amabilidade e extroversão (e.g., Huver et al., 2010). Tal acontece devido ao ambiente vivenciado nesse estilo parental ser baseado no suporte, cuidado e assertividade que propiciam ao individuo a criação de representações mentais sobre si e sobre os outros baseadas na segurança e estabilidade emocional. O mesmo não se verifica no estilo parental permissivo, que está relacionado positivamente com o desenvolvimento de uma maior labilidade emocional, possivelmente dada a postura adotada pelas figuras parentais. Neste sentido, embora os pais sejam afetivos para com os filhos, não adotam uma postura assertiva e permitem-lhes usufruir de uma liberdade exacerbada, aliada à ausência de controlo sobre as suas decisões. Este aspeto poderá proporcionar nos jovens a adoção de comportamentos desadequados e uma maior labilidade emocional. Verifica-se que na literatura, vários autores comprovam a associação entre as variáveis, corroborando o resultado obtido (e.g., Belsky & Barends, 2002; Metsapelto & Pulkkinen, 2003).

Através da análise do papel mediador da personalidade emocionalmente ajustada, foi passível concluir que este parece contribuir total ou parcialmente para a associação entre os estilos parentais democrático e permissivo e as competências sociais. Neste sentido, verifica-se que o estilo democrático, através de uma atitude parental responsiva, afetiva e controlo equilibrado prediz positivamente as características de personalidade emocionalmente ajustada. Estas, por sua vez, medeiam de forma positiva, total ou parcial a empatia, a assertividade e o autocontrolo. No que diz respeito ao estilo permissivo, que tem por base a postura benevolente e ausência de regras por parte das figuras parentais, prediz negativamente o desenvolvimento de uma personalidade emocionalmente ajustada, e esta, por sua vez medeia negativamente o autocontrolo (mediação parcial) e a assertividade (mediação total). A partir dos resultados obtidos verifica-se que a personalidade emocionalmente ajustada parece clarificar o relacionamento dos estilos parentais no desenvolvimento das competências sociais. Este resultado reflete a relevância do ambiente familiar face ao desenvolvimento de determinados traços da personalidade que possibilitam um melhor ajustamento psicossocial e emocional dos jovens.

Relativamente ao neuroticismo como variável mediadora, inicialmente verificou-se que esta prediz positivamente a empatia e negativamente a assertividade para ambas as figuras parentais. O resultado relativo à empatia no presente estudo não foi ao encontro do esperado, podendo ser justificado pelo facto com elevado traço de neuroticismo ter como características a preocupação, ansiedade e instabilidade emocional, enquanto que a empatia é um conceito que também ele engloba aspetos afetivos e de consideração, onde está patente a preocupação pelo outro. Após ser testado o efeito mediador do neuroticismo, observou-se que a presença de um estilo parental democrático irá diminuir o nível de neuroticismo do indivíduo e este, por vez vai mediar negativa -mente a empatia. Este resultado parece ser coerente com acima citado relativo à empatia, sublinhando-se o papel do estilo parental democrático na diminuição de ambas as variáveis. Por outro lado, o estilo parental responsivo e disponível, prediz negativamente o neuroticismo e este medeia positivamente a assertividade. No que concerne ao estilo parental permissivo, verificou-se que este prediz positivamente o neuroticismo que medeia negativamente a assertividade. Estes últimos resultados vão ao encontro do que seria expectável, na medida em que demostram novamente o relacionamento entre os diferentes ambientes familiares experienciados, a estrutura de personalidade que vai sendo desenvolvida de acordo com esse mesmo contexto e as competências sociais resultantes deste relacionamento, nomeadamente a assertividade.

Cabe ainda ressaltar a ausência de um efeito mediador de qualquer uma das variáveis (personalidade emocionalmente ajustada e neuroticismo), entre o estilo autoritário e a assertividade, verificando-se o papel predominante das figuras parentais que prezam pela obediência e controlo, na associação a essa competência. O presente resultado pode ser justificado pelas características de um indivíduo assertivo que inclui comportamentos onde está subjacente respeito pelo outro, sendo essa uma característica que está implícita na vivência de um estilo parental autoritário.

Face aos resultados obtidos considera-se que personalidade emocionalmente ajustada parece contribuir, em conjunto com o estilo democrático, para o desenvolvimento social dos jovens, visto que os indivíduos que apresentam essas características revelam uma maior probabilidade de desenvolver competências sociais adaptativas como a empatia, a assertividade e o autocontrolo. Neste sentido, os traços de personalidade que vão sendo desenvolvidos desde o período da infância e que se vão moldando e ajustando no período da adolescência, estão não só associados às relações de díade estabelecidas entre pais-filho, como têm um papel relevante no desenvolvimento de comportamentos ajustados e congruentes no contexto social. Bowlby (1969) defendeu que a estrutura da personalidade adaptativa do indivíduo está relacionada com um relacionamento saudável no seio familiar onde a prestação de apoio e cuidados se revelaria fundamental para o desenvolvimento de competências sociais e maturação emocional. Nesta medida, de acordo com a teoria da vinculação sustentada por Bowlby (1969) e a teoria ecológica do desenvolvimento desenvolvida por Bronfenbrenner (1996), as relações com as figuras significativas desempenham um papel preponderante no desenvolvimento de interações sociais ajustadas entre o individuo e o meio envolvente, partindo do pressuposto que o mesmo está integrado nos diferentes contextos. Posto isto, à medida que o individuo se desenvolve no seio de relações significativas vai construindo modelos internos dinâmicos de si e do mundo que o rodeia, desenvolvendo um padrão de funcionamento e moldando a estrutura da sua personalidade (Belsky & Barends 2002; Bowlby, 1969; Caspi et al., 2005). Por sua vez, verifica-se que as características da personalidade do indivíduo estão associadas à aquisição de competências sociais (e.g., Lianos, 2015), sendo que no presente estudo assumem um papel mediador total ou parcial na associação entre os estilos parentais democrático e permissivo e as competências sociais.

Dado os resultados verificados, pretende-se sublinhar que a presente investigação permitiu compreender a importância entre a associação do estilo parental democrático adotado pelos cuidadores e as competências sociais positivas dos adolescentes e jovens adultos. Por sua vez, é ainda passível de se verificar que as características positivas da personalidade podem assumir um papel relevante na associação entre o estilo parental democrático e a adoção de competências sociais adaptativas. Salienta-se ainda que, a adoção de um estilo parental baseado num elevado ou baixo controlo parental está negativamente associado ao ajustamento social adequado. Posto isto, podemos referir que as análises realizadas permitiram discutir conclusões relevantes para a compreensão do papel da personalidade dos jovens adultos na dinâmica relacional dos estilos parentais e das competências sociais dos jovens.

Ao longo da realização do estudo foram sendo percebidas algumas limitações, nomeadamente a particularidade de ser um estudo transversal e dessa forma não ser possível realizar-se uma relação de causalidade entre as variáveis. Por sua vez, a dimensão do protocolo pode ter potenciado possíveis respostas aleatórias e cansaço dos participantes, levando à exclusão de outliers e originando perda de número amostral. Sublinha-se ainda que a recolha de dados foi realizada a partir de instrumentos de autorrelato, incorrendo o risco do seu conteúdo ser percebido de forma subjetiva pelos participantes. Face ao exposto, parece pertinente a realização de futuras investigações de carácter longitudinal de forma a poder realizar relações de causa e efeito.

Considera-se ainda que poderia ser relevante investigar o papel de outros elementos do seio familiar, nomeadamente os irmãos, no desenvolvimento de competências sociais e estruturação da personalidade. Um outro aspeto que poderia ser interessante estudar de forma a complementar o presente estudo seria perceber qual a perceção dos pais relativamente às variáveis estudadas, de forma a contrastar com a perspetiva dos jovens. Acresce ainda a necessidade de investigar outras áreas geográficas de Portugal de forma a considerar a amostra representativa da população em geral.

 

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CORRESPONDÊNCIA

A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Catarina Pinheiro Mota, Departamento de Educação e Psicologia, Edifício das Ciências Humanas e Sociais, Polo I, UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Quinta de Prados, 5001-801 Vila Real, Portugal. E-mail: catppmota@utad.pt

 

Esta investigação é parcialmente suportada pela FCT de acordo com o projecto PEst-C/PSI/UI0050/2011 e FEDER fundos do programa COMPETE inserido no projecto FCOMP-01-0124-FEDER-022714.

 

Submissão: 05/03/2018 Aceitação: 06/10/2018

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